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Raízen (RAIZ4): Moagem de cana despenca 23% no trimestre e produção de açúcar recua

por João Souza - Repórter de Negócios
29/01/2026 às 10h45
em Negócios, Destaque, Notícias
Raízen (Raiz4): Moagem De Cana Despenca 23% No Trimestre E Produção De Açúcar Recua - Gazeta Mercantil

Raízen (RAIZ4) enfrenta queda abrupta de 23% na moagem de cana e acende alerta no mercado sucroenergético

O setor sucroenergético brasileiro, um dos pilares mais robustos do agronegócio nacional e protagonista na transição energética global, atravessa um momento de ajuste operacional significativo neste início de 2026. Em comunicado divulgado ao mercado nesta quarta-feira (28), a gigante Raízen (RAIZ4) apresentou sua prévia operacional referente ao terceiro trimestre do ano-safra 2025/2026, revelando números que exigem uma análise minuciosa por parte de investidores e analistas. A companhia reportou uma retração expressiva no volume de processamento de matéria-prima, um dado que impacta diretamente as projeções de curto prazo para as ações da empresa na B3.

A Raízen (RAIZ4), joint venture entre a Shell e a Cosan, informou uma moagem total de 10,6 milhões de toneladas de cana-de-açúcar entre outubro e dezembro. Este volume representa uma queda acentuada de 23% em comparação com o mesmo intervalo do ciclo anterior. O desempenho reflete os desafios climáticos e as estratégias de colheita adotadas na reta final da safra, evidenciando a volatilidade intrínseca às operações agroindustriais de grande escala. Para o investidor atento, compreender as nuances por trás desses números da Raízen (RAIZ4) é fundamental para antecipar os movimentos do papel e a sustentabilidade dos dividendos futuros.

Impactos na produção de açúcar e a estratégia comercial

A redução no volume de cana processada pela Raízen (RAIZ4) teve, como consequência direta, uma diminuição na fabricação de seus subprodutos essenciais. A produção de açúcar, commodity que tem sustentado as margens do setor nos últimos anos devido aos preços internacionais elevados, recuou quase 17% no trimestre, totalizando 1,5 milhão de toneladas. Este declínio na oferta física produzida pela Raízen (RAIZ4) poderia, em uma análise superficial, sugerir uma perda de receita. No entanto, a dinâmica comercial da companhia revela uma estratégia de gestão de estoques sofisticada.

Apesar da queda na produção industrial, a Raízen (RAIZ4) demonstrou agilidade comercial ao reportar um aumento no volume de vendas de açúcar próprio. No trimestre, as vendas atingiram 1,328 milhão de toneladas, superando o 1,168 milhão de toneladas registradas no mesmo período do ano anterior. Esse movimento indica que a Raízen (RAIZ4) utilizou seus estoques estratégicos para capitalizar sobre janelas de preços favoráveis no mercado global, mitigando parcialmente o impacto da menor moagem. Essa capacidade de arbitragem entre produção e comercialização é um dos diferenciais competitivos que a Raízen (RAIZ4) busca manter para defender sua geração de caixa.

O cenário para o açúcar continua construtivo no longo prazo, com déficits globais pontuais e problemas climáticos em concorrentes como a Índia e a Tailândia. Contudo, a capacidade da Raízen (RAIZ4) de manter seus níveis de entrega diante de uma quebra de safra ou encerramento antecipado das operações de moagem será testada nos próximos trimestres, especialmente durante o período de entressafra que se intensifica agora no Centro-Sul.

O cenário do etanol e a retração nas vendas

Enquanto o açúcar brilhou no front comercial, o etanol apresentou uma dinâmica distinta nos resultados operacionais da Raízen (RAIZ4). O volume de vendas de etanol próprio somou 778 mil metros cúbicos no terceiro trimestre da safra 2025/2026, um recuo frente aos 895 mil metros cúbicos observados um ano antes. Essa retração pode ser atribuída a uma combinação de fatores, incluindo a paridade de preços menos favorável em relação à gasolina em determinados momentos do trimestre e a estratégia da Raízen (RAIZ4) de priorizar o mix açucareiro, que oferece maior rentabilidade (prêmio) sobre o biocombustível atualmente.

A Raízen (RAIZ4) é a maior produtora global de etanol de cana-de-açúcar e tem investido pesadamente na expansão do Etanol de Segunda Geração (E2G). A queda nas vendas do etanol de primeira geração (E1G) no curto prazo não deve obscurecer a visão de longo prazo da companhia. A tese de investimento na Raízen (RAIZ4) está cada vez mais atrelada à sua capacidade de transformar a biomassa em produtos de alto valor agregado e baixa pegada de carbono, como o combustível sustentável de aviação (SAF) e o biometano.

Entretanto, a redução na moagem reportada pela Raízen (RAIZ4) implica, logicamente, em uma menor disponibilidade de bagaço, insumo crucial tanto para a cogeração de energia quanto para a produção do E2G. Investidores devem monitorar se essa restrição de biomassa afetará o cronograma de ramp-up das novas plantas de E2G que a Raízen (RAIZ4) tem em construção ou operação inicial. A eficiência agroindustrial é a base da pirâmide de valor da empresa; sem cana, a cadeia de renováveis perde tração.

Fatores climáticos e o encerramento da safra

A queda de 23% na moagem da Raízen (RAIZ4) não é um evento isolado, mas reflete as condições do canavial no Centro-Sul brasileiro. O terceiro trimestre da safra (outubro, novembro e dezembro) marca tradicionalmente o final do período de moagem. Em 2025, o clima desempenhou um papel determinante. A ocorrência de chuvas em períodos inoportunos ou, inversamente, a seca excessiva em fases de desenvolvimento da planta, pode ter forçado a Raízen (RAIZ4) a encerrar as atividades industriais mais cedo em algumas unidades, ou a deixar cana em pé (“bisada”) para a próxima safra, visando recuperar a produtividade agrícola (TCH).

A produtividade agrícola é um KPI (Indicador-Chave de Desempenho) vital para a Raízen (RAIZ4). Se a quebra na moagem for resultado de uma menor produtividade por hectare, isso acende um sinal amarelo sobre os tratos culturais e a renovação dos canaviais. Por outro lado, se a redução da moagem da Raízen (RAIZ4) for uma decisão estratégica para otimizar o teor de sacarose (ATR) na próxima colheita, o impacto financeiro pode ser diluído ao longo do tempo. O mercado aguarda o relatório financeiro completo para entender os detalhes da produtividade agrícola e industrial que acompanharam essa queda de volume.

É importante ressaltar que a Raízen (RAIZ4) opera com um portfólio geográfico diversificado. Isso geralmente protege a companhia de intempéries localizadas. Portanto, uma queda consolidada de 23% sugere um cenário sistêmico nas regiões de atuação da empresa, exigindo uma revisão das projeções de custo caixa unitário. Menor moagem invariavelmente leva a uma menor diluição de custos fixos, o que pode pressionar as margens operacionais da Raízen (RAIZ4) no curto prazo.

Reação do mercado e perspectivas para as ações

No pregão subsequente à divulgação, é natural que as ações da Raízen (RAIZ4) sofram volatilidade. O mercado financeiro tende a penalizar quedas de volume, pois elas afetam diretamente a linha de receita (“top line”). Analistas de sell-side provavelmente revisarão seus modelos de valuation para a Raízen (RAIZ4), incorporando a menor moagem e ajustando as expectativas de EBITDA para o encerramento do ano-safra em março de 2026.

Contudo, investidores com foco em valor (Value Investing) podem interpretar a queda como um evento pontual dentro de um ciclo de commodities. A Raízen (RAIZ4) continua sendo um player dominante com uma plataforma de distribuição de combustíveis robusta e uma agenda de transição energética clara. A alavancagem financeira da companhia e a execução dos projetos de capital (Capex) continuam sendo os principais pontos de atenção para quem detém Raízen (RAIZ4) em carteira.

A comparação com pares do setor, como São Martinho e Jalles Machado, será inevitável. Se a Raízen (RAIZ4) tiver performado pior que a média do setor em termos de quebra de moagem, questionamentos sobre a eficiência operacional ganharão força. Se o movimento for alinhado aos pares, confirma-se a tese de um ciclo agrícola mais restritivo neste final de 2025. O fato é que a Raízen (RAIZ4) precisa demonstrar, na divulgação de resultados financeiros, que conseguiu proteger suas margens através de hedges eficientes e controle de despesas, compensando a menor alavancagem operacional industrial.

O papel da tecnologia e do E2G no futuro da Raízen (RAIZ4)

Olhando para o futuro, a tese da Raízen (RAIZ4) depende cada vez menos da volatilidade da commodity pura e mais da tecnologia embarcada. O etanol de segunda geração (E2G) é a grande aposta para descolar a empresa do risco tradicional de quebra de safra. O E2G permite produzir até 50% mais etanol na mesma área plantada, utilizando os resíduos (bagaço e palha). Mesmo com a queda na moagem atual, a Raízen (RAIZ4) mantém seu cronograma de inauguração de plantas, visando atender contratos de longo prazo já firmados com grandes consumidores globais.

A sustentabilidade financeira desses projetos, no entanto, exige geração de caixa robusta das operações tradicionais (“vacas leiteiras”). A queda de 23% na moagem da Raízen (RAIZ4) coloca pressão sobre essa geração de caixa imediata. A administração da empresa terá que equilibrar a necessidade de investimentos contínuos em inovação com a remuneração aos acionistas e o serviço da dívida. A transparência na comunicação sobre como a Raízen (RAIZ4) pretende navegar esse período de menor volume será crucial para manter a confiança institucional.

Além disso, a Raízen (RAIZ4) atua fortemente na distribuição de combustíveis. É possível que os resultados deste segmento ajudem a compensar a fraqueza momentânea no braço agroindustrial. A sinergia entre produção e distribuição é o que torna a Raízen (RAIZ4) única no ecossistema brasileiro, permitindo uma gestão integrada da cadeia, do campo ao posto.

Desafios da entressafra e projeções para 2026/2027

Com o fim do terceiro trimestre e a entrada no quarto trimestre do ano-safra (janeiro a março), a Raízen (RAIZ4) entra no período de entressafra plena. Neste momento, as usinas param para manutenção e a receita depende essencialmente da venda de estoques formados anteriormente. Os dados de vendas de açúcar apresentados na prévia indicam que a Raízen (RAIZ4) entrou neste período bem posicionada comercialmente, tendo acelerado vendas para capturar preços.

A grande dúvida que paira sobre a Raízen (RAIZ4) agora recai sobre a safra 2026/2027, que se inicia oficialmente em abril. As chuvas do primeiro trimestre de 2026 serão determinantes para a recuperação do canavial. Se o clima colaborar, a Raízen (RAIZ4) poderá recuperar parte do volume perdido e diluir os custos fixos de forma mais eficiente no próximo ciclo. O mercado futuro de açúcar em Nova York já precifica essa incerteza, mantendo prêmios de risco que beneficiam a companhia.

A gestão da Raízen (RAIZ4) tem reiterado o foco na recuperação da produtividade agrícola. Investimentos em tratos culturais, plantio mecanizado e tecnologias de monitoramento via satélite são armas que a Raízen (RAIZ4) utiliza para tentar estabilizar a moagem em patamares elevados, próximos à sua capacidade instalada, que é a maior do mundo individualmente.

A divulgação da prévia operacional da Raízen (RAIZ4) com queda de 23% na moagem e 17% na produção de açúcar é, indubitavelmente, um dado negativo do ponto de vista volumétrico. No entanto, a análise fria dos números mostra uma empresa que soube gerenciar seus estoques para aumentar as vendas de açúcar em um momento de preços altos, mitigando danos. A Raízen (RAIZ4) continua sendo uma gigante complexa, onde a análise puramente agrícola não conta a história toda.

Para o acionista de Raízen (RAIZ4), a paciência é uma virtude necessária. O setor de agronegócio é cíclico e dependente de fatores incontroláveis como o clima. O diferencial da Raízen (RAIZ4) reside na sua escala, na sua integração logística e na sua vanguarda tecnológica com o E2G. A queda na moagem deve ser vista como um obstáculo conjuntural, e não estrutural, desde que a companhia demonstre capacidade de recuperação na próxima safra.

Nos próximos dias, bancos de investimento e casas de análise publicarão relatórios detalhados revisando o preço-alvo de Raízen (RAIZ4). É provável que haja revisões baixistas de curto prazo nas estimativas de lucro, mas a tese estrutural de transição energética permanece intacta. O investidor deve acompanhar de perto a divulgação completa dos resultados financeiros para verificar o impacto real na última linha do balanço e o guidance da Raízen (RAIZ4) para o próximo ano-safra. Em tempos de volatilidade, a solidez do balanço e a clareza estratégica são os faróis que guiam o mercado, e a Raízen (RAIZ4) terá a oportunidade de reforçar esses pontos em sua teleconferência com o mercado.

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