Operação da PF revela milícia privada de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
A Polícia Federal (PF) escancarou a existência de uma milícia privada organizada por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, durante a terceira fase da Operação Compliance Zero. Preso pela segunda vez, Vorcaro é suspeito de liderar um grupo criminoso estruturado para monitorar, ameaçar e coagir adversários empresariais, autoridades, ex-funcionários e jornalistas, segundo as investigações.
As ações da PF foram autorizadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, relator do caso. O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, também foi preso e ambos permanecem no Centro de Detenção Provisória (CDP) 2 de Guarulhos, na Grande São Paulo, após audiência de custódia. Outros alvos incluíram o policial federal Marilson Roseno e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, que atentou contra a própria vida horas depois, vindo a ter morte cerebral.
Estrutura do grupo criminoso
No celular de Vorcaro, os investigadores identificaram um grupo chamado “A Turma”, organizado em quatro núcleos de atuação. Um desses núcleos era dedicado à intimidação e obstrução de justiça, responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades.
Segundo Mendonça, os indícios apontam a prática de crimes contra o sistema financeiro nacional, administração pública, organização criminosa, lavagem de dinheiro e delitos contra a administração da Justiça. “As provas documentais, registros de mensagens e fluxos financeiros indicam que os investigados atuavam de forma estruturada, com divisão de tarefas, característica típica de organizações criminosas”, escreveu o magistrado.
A PF considera que a prisão de Vorcaro era necessária devido à sua periculosidade e à capacidade de ameaçar adversários, inclusive mantendo uma milícia privada mesmo durante prisão domiciliar.
Bloqueio de bens e medidas judiciais
Para conter a atuação do grupo, o STF expediu 15 mandados de busca e apreensão em São Paulo e Minas Gerais, além de ordens de afastamento de cargos públicos e sequestro de bens de até R$ 22 bilhões, com o objetivo de interromper a movimentação de ativos vinculados à milícia.
A investigação revelou ainda que Vorcaro mantinha interlocução com dois servidores do Banco Central (BC) – Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária – que atuavam como consultores do ex-banqueiro, fornecendo informações privilegiadas para fins de controle e monitoramento de terceiros.
Histórico de prisões e crimes financeiros
Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro do ano passado no aeroporto de Guarulhos, tentando fugir para Malta em um avião particular. Na mesma ocasião, a liquidação extrajudicial do Banco Master foi decretada pelo Banco Central, após a instituição deixar um rombo bilionário no mercado financeiro. O Fundo Garantidor de Crédito cobriu prejuízos que chegaram a quase R$ 40 bilhões, enquanto Vorcaro, segundo a PF, ocultava mais de R$ 2,2 bilhões em contas vinculadas a familiares e empresas de fachada.
O Banco Master, sob gestão de Vorcaro, foi responsável por operações irregulares de crédito e consignados, incluindo produtos como M Fácil e Credcesta, investigados por indícios de fraude pelo INSS. O esquema da milícia privada se integrava a essas atividades, garantindo proteção ao ex-banqueiro e intimidação de opositores.
O papel de Fabiano Zettel e associados
Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, é apontado como operador financeiro e sócio em transações estratégicas, incluindo participações em empreendimentos ligados ao resort Tayayá. A defesa de Zettel afirma que ele se colocou à disposição das autoridades, mas a investigação considera que ele possui informações relevantes sobre fraudes cometidas pelo Master nos últimos anos.
A atuação de Zettel reforça a complexidade da milícia privada, que não se limitava à esfera financeira, mas também englobava monitoramento, vigilância e possíveis coações contra desafetos.
Impactos da milícia privada no mercado e na Justiça
A existência de uma milícia privada organizada por Vorcaro coloca em alerta o sistema financeiro e a administração pública. Além dos danos aos clientes e credores do Banco Master, a atuação criminosa do ex-banqueiro gerou risco direto a autoridades e profissionais da imprensa. A movimentação estratégica de ativos e o uso de empregados do Banco Central como informantes revelam a extensão do esquema.
O bloqueio judicial de R$ 22 bilhões e o sequestro de bens visam não apenas coibir a continuidade das práticas ilícitas, mas também preservar ativos que podem ser revertidos para ressarcir credores e vítimas.
O julgamento no STF
A Segunda Turma do STF agendou o início do julgamento da decisão de Mendonça para 13 de março. O colegiado inclui os ministros Gilmar Mendes, Luiz Fux, Nunes Marques e Dias Toffoli, que deixou a relatoria após a divulgação de relatórios da PF contendo menções a seu nome em dados extraídos do celular de Vorcaro. Ainda não há confirmação sobre a participação de Toffoli no julgamento.
O caso marca um teste importante para o STF sobre a interpretação de crimes financeiros complexos envolvendo grupos estruturados e a atuação de milícias privadas no Brasil.
Defesa dos investigados
A defesa de Vorcaro negou as acusações, afirmando que ele jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça e confia que os fatos demonstrarão a regularidade de sua conduta. As defesas de Roseno e Mourão não foram localizadas, enquanto Fabiano Zettel reiterou que está à disposição da PF para esclarecimentos.
O ex-banqueiro e seus associados permanecem detidos, e a operação reforça o compromisso das autoridades brasileiras em combater a organização de milícias privadas e fraudes financeiras estruturadas.





