O Tesouro Nacional lança nesta segunda-feira (11), em São Paulo, o Tesouro Reserva, novo título público voltado à formação de reserva de emergência por pessoas físicas, com aplicação mínima de R$ 1, rendimento atrelado à Selic e possibilidade de resgate a qualquer momento. O produto estreia em evento na B3 e nasce com a proposta de competir diretamente com a poupança e com as chamadas “caixinhas” oferecidas por bancos digitais e fintechs, em um momento em que investidores buscam alternativas simples, líquidas e mais rentáveis para guardar dinheiro no curto prazo.
A nova aplicação será negociada 24 horas por dia, todos os dias, diferentemente do modelo tradicional do Tesouro Direto, que opera em janelas específicas nos dias úteis. Na largada, o Tesouro Reserva estará disponível apenas para clientes do Banco do Brasil. A expectativa do Tesouro Nacional é ampliar gradualmente o acesso a correntistas de outras instituições financeiras, conforme bancos e plataformas sejam conectados ao novo sistema.
O lançamento representa uma mudança relevante na estratégia de popularização dos títulos públicos. Ao reduzir a aplicação mínima para R$ 1 e eliminar a limitação de horário para novos aportes, o Tesouro tenta alcançar investidores que hoje deixam dinheiro parado na conta corrente, usam a poupança ou recorrem a produtos privados de liquidez diária, como CDBs oferecidos por instituições financeiras.
Tesouro Reserva mira reserva de emergência
O Tesouro Reserva foi desenhado para funcionar como uma aplicação de uso cotidiano, destinada ao dinheiro que o investidor pode precisar resgatar a qualquer momento. A lógica é diferente da de outros títulos públicos, que costumam ser usados para objetivos de médio e longo prazo, como aposentadoria, educação dos filhos ou proteção contra inflação.
A proposta do Tesouro Nacional é oferecer um produto de baixo valor inicial, simples de entender e com remuneração diária. Na prática, o investidor poderá fazer aportes pequenos, inclusive de R$ 1, e acompanhar o rendimento do dinheiro ao longo do tempo, sem depender de aniversário mensal, como ocorre na poupança.
A liquidez diária é um dos pilares do novo título. O recurso poderá ser sacado a qualquer momento, o que aproxima o Tesouro Reserva das aplicações conhecidas no mercado como “caixinhas”, usadas por clientes para separar dinheiro por objetivo, como emergência, viagem, pagamento de contas ou compras futuras.
A diferença central é que, no caso do Tesouro Reserva, o investimento será em título público federal, com risco soberano. Isso significa que a segurança está associada à capacidade de pagamento do governo federal, e não à saúde financeira de um banco emissor, como ocorre nos CDBs.
Produto terá rendimento diário ligado à Selic
O rendimento do Tesouro Reserva acompanhará a Selic, a taxa básica de juros da economia. Esse ponto é decisivo para a comparação com a poupança, que costuma perder atratividade em períodos de juros elevados.
Quando a Selic está acima de 8,5% ao ano, a poupança rende 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial. Esse modelo faz com que a caderneta tenha retorno inferior ao de aplicações atreladas diretamente à taxa básica de juros. Com a Selic em patamar elevado, produtos ligados ao juro básico tendem a entregar retorno maior, mesmo quando há incidência de Imposto de Renda.
O Tesouro Reserva terá cobrança de IR sobre os rendimentos, conforme a tabela regressiva aplicada a investimentos de renda fixa. A tributação incide apenas sobre o ganho obtido, no momento do resgate, e varia de acordo com o prazo em que o dinheiro permaneceu aplicado.
Apesar da tributação, a expectativa é que o novo título seja mais rentável que a poupança enquanto a Selic permanecer acima do nível que limita o rendimento da caderneta. Para o pequeno investidor, a comparação será direta: de um lado, a poupança, com isenção de IR e rendimento mensal; de outro, o Tesouro Reserva, com tributação, mas remuneração diária e vinculada à Selic.
Aplicação nasce como resposta às fintechs
O Tesouro Reserva também é uma resposta institucional ao avanço das fintechs e bancos digitais no mercado de aplicações automáticas e contas remuneradas. Nos últimos anos, as “caixinhas” se tornaram uma porta de entrada para milhões de brasileiros no universo da renda fixa.
Esses produtos geralmente aplicam o dinheiro em CDBs, RDBs ou fundos de renda fixa, com remuneração próxima ao CDI, indicador que acompanha de perto a Selic. A simplicidade da experiência, a possibilidade de separar valores por finalidade e a liquidez imediata ajudaram a popularizar esse tipo de aplicação.
O Tesouro Nacional tenta agora disputar esse espaço com um produto próprio, apoiado na credibilidade dos títulos públicos e na infraestrutura da B3. A estratégia é transformar o Tesouro Direto em uma alternativa não apenas para investidores mais familiarizados com mercado financeiro, mas também para pessoas que estão começando a organizar sua vida financeira.
O valor mínimo de R$ 1 é parte central dessa tentativa. Ao permitir aportes simbólicos, o produto reduz a barreira de entrada e torna o investimento acessível a trabalhadores de baixa renda, jovens, estudantes e pequenos poupadores que ainda não acumulam valores suficientes para aplicações tradicionais.
Segurança ganha peso após crise no sistema financeiro
O lançamento do Tesouro Reserva ocorre em um ambiente em que o investidor pessoa física passou a observar com mais atenção os riscos de produtos emitidos por instituições privadas. A crise envolvendo o Banco Master, que exigiu acionamento do Fundo Garantidor de Crédito para ressarcir investidores após a liquidação da instituição, colocou em evidência a diferença entre risco bancário e risco soberano.
CDBs, LCIs, LCAs e outros títulos emitidos por bancos podem contar com a cobertura do FGC dentro dos limites previstos, mas dependem da capacidade de pagamento da instituição emissora. Quando um banco enfrenta problemas, o investidor pode ser ressarcido pelo fundo, desde que respeitados os tetos e as regras aplicáveis.
No caso do Tesouro Reserva, o risco está ligado ao governo federal, emissor dos títulos públicos. Por isso, o produto tende a ser apresentado como uma alternativa de segurança elevada para quem busca liquidez e rendimento superior ao da poupança.
Essa distinção é relevante para investidores iniciantes. Muitas pessoas escolhem aplicações de liquidez diária apenas pelo rendimento anunciado, sem avaliar o tipo de emissor, a cobertura do FGC, os limites de garantia e os riscos associados. O Tesouro Nacional tenta ocupar esse espaço com uma aplicação padronizada e de fácil compreensão.
Novo título terá prazo de dez anos e limite de R$ 500 mil
Embora seja voltado à liquidez diária, o Tesouro Reserva terá prazo de vencimento de dez anos. Isso não significa que o investidor precisará manter o dinheiro aplicado até o fim do período. A proposta do produto é permitir resgates a qualquer momento, sem a oscilação negativa típica de outros títulos do Tesouro.
O limite máximo de aplicação será de R$ 500 mil por pessoa. A restrição indica que o produto foi desenhado prioritariamente para pequenos e médios investidores, e não para grandes alocações institucionais ou estratégias sofisticadas de renda fixa.
A ausência de oscilação negativa é um dos diferenciais mais importantes do Tesouro Reserva. Em títulos tradicionais do Tesouro Direto, o preço pode variar diariamente conforme as taxas de mercado. Quando os juros sobem, o preço de títulos prefixados ou atrelados à inflação tende a cair. Quando os juros caem, esses papéis podem se valorizar.
Essa dinâmica, conhecida no mercado como marcação a mercado, pode confundir investidores iniciantes. Mesmo quando o título garante determinada remuneração no vencimento, o saldo exibido antes do prazo final pode ficar temporariamente abaixo do valor aplicado. O Tesouro Reserva busca eliminar essa experiência para o investidor que quer apenas guardar dinheiro com liquidez.
Sem marcação a mercado, produto simplifica a experiência
O novo título renderá ao par. Isso significa que o investidor não deverá ver perdas nominais decorrentes da variação diária das taxas de juros, como ocorre em outros papéis públicos negociados no Tesouro Direto.
A simplificação é estratégica. O Tesouro Nacional quer atrair pessoas que ainda veem títulos públicos como produtos complexos, marcados por termos técnicos, prazos longos e risco de oscilação no curto prazo. Ao criar uma aplicação que cresce diariamente conforme a Selic e pode ser resgatada sem perda por marcação a mercado, o governo tenta aproximar o Tesouro do uso cotidiano.
Esse desenho também reforça a função de reserva de emergência. Para esse tipo de objetivo, previsibilidade e liquidez costumam ser mais importantes do que rentabilidade máxima. O dinheiro reservado para imprevistos precisa estar disponível sem risco de perda no momento do saque.
Na prática, o Tesouro Reserva tenta ocupar um espaço entre a poupança, que é simples mas rende menos, e os títulos públicos tradicionais, que podem render mais, mas exigem maior compreensão sobre prazo, preço, taxa e oscilação de mercado.
B3 terá nova plataforma conectada aos bancos
O Tesouro Reserva será o primeiro título negociado em uma nova plataforma operacional, gerida pela B3 e conectada aos bancos. O objetivo é permitir que o investidor acesse o produto diretamente a partir de sua instituição financeira, usando a estrutura da própria conta bancária.
A nova plataforma também permitirá negociações 24 horas por dia, o que representa uma mudança relevante em relação ao funcionamento atual do Tesouro Direto. Hoje, as compras e vendas seguem horários definidos em dias úteis, geralmente entre 9h e 18h.
A ampliação do horário atende a uma demanda de investidores que fazem movimentações fora do expediente bancário tradicional. No modelo das fintechs, aplicações em “caixinhas” e contas remuneradas costumam ser feitas a qualquer momento, inclusive à noite, em fins de semana e feriados. O Tesouro Nacional busca reduzir essa diferença de experiência.
A migração de outros títulos para a nova plataforma deve ocorrer de forma gradual. O processo é mais simples para o Tesouro Reserva porque o produto não terá marcação a mercado. Para títulos prefixados, indexados ao IPCA ou sujeitos a variação diária de taxa, a adaptação é mais complexa, pois os preços dependem das condições de mercado apuradas ao longo do pregão.
Tesouro tenta ampliar base de investidores
O Tesouro Direto encerrou 2025 com 3,4 milhões de investidores em títulos voltados à pessoa física e volume total de R$ 213,2 bilhões. Apesar do crescimento acumulado nos últimos anos, a participação das pessoas físicas na dívida pública federal ainda é baixa, em torno de 2%.
Com o Tesouro Reserva, a estimativa do Tesouro Nacional é que a base de investidores possa superar 10 milhões de pessoas. A meta depende da adesão de bancos, da facilidade de acesso pelo aplicativo das instituições e da capacidade de o produto se tornar conhecido entre poupadores que hoje não investem no Tesouro Direto.
O novo título se soma a uma série de iniciativas lançadas nos últimos anos para ampliar o alcance dos títulos públicos. Em 2023, o Tesouro criou o Renda+, voltado ao planejamento da aposentadoria, com pagamentos mensais por 20 anos após a data escolhida pelo investidor. No mesmo ano, lançou o Educa+, destinado a famílias que desejam formar uma reserva para educação, com recebimento programado em 60 parcelas.
O Tesouro Reserva tem natureza diferente. Enquanto Renda+ e Educa+ miram objetivos de longo prazo, o novo título busca capturar o dinheiro de curto prazo, aquele que costuma ficar na poupança, em contas remuneradas ou em aplicações privadas de liquidez diária.
Disputa por pequenos investidores chega à renda fixa pública
O lançamento do Tesouro Reserva marca uma nova etapa na disputa pelo dinheiro de pequenos investidores no Brasil. Bancos, fintechs, corretoras e agora o próprio Tesouro Nacional competem por recursos que antes ficavam concentrados na poupança ou parados em conta corrente.
A escolha do investidor dependerá de fatores como rendimento líquido, facilidade de uso, segurança, horário de movimentação e confiança na instituição. O Tesouro Reserva entra nessa disputa com a força da dívida pública federal, aplicação mínima simbólica e liquidez diária, mas ainda precisará ganhar escala fora do Banco do Brasil para alcançar grande parte do público.
Para o mercado financeiro, o produto pode acelerar a migração de recursos da poupança para instrumentos atrelados à Selic. Para o governo, amplia o acesso da pessoa física ao financiamento da dívida pública. Para o investidor, cria uma nova opção para reserva de emergência, com retorno potencialmente superior ao da caderneta e funcionamento mais próximo das soluções digitais que já se popularizaram no país.








