O empresário Thiago Miranda, dono da Agência Mithi e sócio do Portal Léo Dias, confirmou em depoimento à Polícia Federal, nesta terça-feira, 12 de maio, em Brasília, que estruturou uma ação com influenciadores digitais para defender Daniel Vorcaro e o Banco Master após a liquidação da instituição pelo Banco Central. A oitiva ocorreu no inquérito que apura a contratação de criadores de conteúdo para uma campanha digital relacionada ao caso Master. Segundo informações divulgadas sobre o depoimento, Miranda afirmou ter sido responsável pela contratação de influenciadores e disse que o serviço teria sido apresentado como uma atuação de gestão de crise.
A investigação mira a possível existência de uma estratégia coordenada nas redes sociais para pressionar autoridades e contestar a decisão do Banco Central que levou à liquidação do Banco Master. O episódio ficou conhecido nos bastidores como “Projeto DV”, em referência às iniciais de Daniel Vorcaro.
Miranda teria relatado que Vorcaro o procurou para organizar a contratação de influenciadores com grande alcance nas redes. O objetivo, segundo a apuração, seria ampliar a repercussão de conteúdos contrários à liquidação do Banco Master e favoráveis a medidas que pudessem questionar ou reverter a decisão da autoridade monetária.
O publicitário, porém, negou ter atuado em um ataque coordenado contra instituições, especialmente o Banco Central. Segundo versão atribuída à defesa de Miranda, os contratos não previam ataques institucionais, mas a contratação de influenciadores para repercutir conteúdos ligados ao caso.
Depoimento cita contratação de influenciadores
De acordo com informações divulgadas sobre a oitiva, Thiago Miranda confirmou à Polícia Federal que contratou influenciadores digitais para atuar em conteúdos ligados ao Banco Master e a Daniel Vorcaro. A investigação apura se a ação teve o objetivo de atacar o Banco Central e autoridades envolvidas na liquidação da instituição financeira.
Entre os nomes citados no depoimento estariam influenciadores e páginas de grande alcance nas redes sociais, como Marcelo Rennó, Paulo Cardoso, Fofoquei, Alfinetada e Luiz Bacci. Os perfis teriam sido acionados para comentar e compartilhar conteúdos relacionados à liquidação do Banco Master.
Uma das ações mencionadas envolveria a divulgação de reportagem segundo a qual o Tribunal de Contas da União via indícios de precipitação na liquidação do Banco Master e teria dado prazo de 72 horas para o Banco Central se explicar.
O ponto central da apuração é saber se houve uma campanha coordenada, financiada e direcionada para constranger a atuação do Banco Central, pressionar autoridades públicas ou influenciar a percepção da opinião pública sobre a liquidação da instituição.
Banco Central e TCU entram no centro da disputa
A liquidação do Banco Master pelo Banco Central tornou-se um dos principais episódios recentes do sistema financeiro brasileiro. A decisão atingiu a instituição controlada por Daniel Vorcaro e provocou uma série de desdobramentos judiciais, políticos, regulatórios e reputacionais.
Após a liquidação, o caso passou a ser disputado também no campo da comunicação. Segundo a apuração da Polícia Federal, influenciadores teriam sido usados para repercutir argumentos favoráveis ao Banco Master e críticos à atuação do Banco Central.
O Tribunal de Contas da União também entrou no centro do debate porque medidas ou questionamentos no órgão poderiam, na leitura de aliados do banco, criar pressão adicional sobre a autoridade monetária. A divulgação de conteúdos sobre suposta precipitação do Banco Central passou a ser tratada como parte da estratégia de defesa pública de Vorcaro.
O Banco Central, por sua vez, é responsável pela supervisão do sistema financeiro e pela adoção de medidas prudenciais quando identifica riscos em instituições reguladas. Decisões como intervenção, liquidação ou regimes especiais costumam ser tomadas com base em critérios técnicos, mas podem gerar disputas judiciais e políticas.
Diretor do Banco Central teria sido alvo de críticas
Um dos nomes citados como alvo de críticas digitais foi Renato Gomes, diretor de Supervisão do Banco Central. Ele participou do processo técnico que resultou na liquidação do Banco Master e, por isso, passou a ser associado à decisão que encerrou as atividades da instituição.
A investigação deverá apurar se as publicações extrapolaram o campo da opinião e da crítica pública e passaram a configurar uma ação coordenada de intimidação, ataque reputacional ou pressão indevida sobre agentes públicos.
Esse ponto é relevante porque autoridades regulatórias precisam atuar com independência técnica. Campanhas digitais financiadas por interessados diretos em decisões administrativas podem levantar questionamentos sobre tentativa de interferência na atuação de órgãos públicos.
Ao mesmo tempo, os investigados têm direito à ampla defesa, e a apuração ainda precisa demonstrar se houve crime, quem financiou as ações, quais contratos foram firmados, que conteúdos foram encomendados e se houve orientação para ataques pessoais ou institucionais.
Defesa trata ação como gestão de crise
Thiago Miranda afirmou, segundo relatos sobre o depoimento, que sua atuação se limitou à contratação de influenciadores e ao repasse de conteúdos que deveriam ser comentados ou publicados. Ele teria dito que os contratos não previam ataques a instituições.
Essa linha de defesa busca enquadrar a operação como gestão de crise de imagem. Empresas, executivos e instituições em situações de forte exposição pública costumam contratar agências, assessorias e influenciadores para defender versões, divulgar argumentos e tentar conter danos reputacionais.
A fronteira investigada pela Polícia Federal está justamente entre comunicação estratégica e eventual ação abusiva de pressão contra autoridades. A contratação de influenciadores não é, por si só, ilegal. O que pode gerar responsabilização é a existência de pagamentos ocultos, conteúdo enganoso, ataques coordenados, difamação, coação, desinformação ou tentativa de interferir em decisões públicas.
No caso Master, a apuração ganha sensibilidade porque envolve uma instituição financeira liquidada, um ex-controlador investigado, autoridades regulatórias e repercussão sobre o sistema financeiro.
Vorcaro teria mantido contato frequente com publicitário
Segundo informações publicadas sobre a investigação, Thiago Miranda teria mantido contato quase diário com Daniel Vorcaro após o empresário deixar a prisão, em novembro de 2025, depois de ser alvo da Operação Compliance Zero.
Miranda teria se oferecido para ajudar a reverter a crise de imagem de Vorcaro. A Polícia Federal agora busca entender se a atuação contratada permaneceu dentro dos limites de uma estratégia de comunicação ou se avançou para uma campanha organizada contra o Banco Central e seus dirigentes.
A Operação Compliance Zero investiga suspeitas relacionadas ao Banco Master e a seu grupo de controle. Vorcaro e demais investigados têm direito à defesa, e eventuais responsabilidades dependem da conclusão das investigações e de decisões do Judiciário.
A relação entre crise financeira, comunicação digital e pressão institucional amplia a complexidade do caso. Em operações de grande repercussão, a disputa narrativa passa a ocorrer em redes sociais, imprensa, Congresso, órgãos de controle e tribunais.
Caso amplia debate sobre influência digital em crises corporativas
A investigação sobre influenciadores no caso Master expõe uma mudança no ambiente de crises corporativas. Antes concentradas em comunicados oficiais, entrevistas e ações judiciais, disputas envolvendo empresas e reguladores passaram a incluir campanhas digitais com criadores de conteúdo e páginas de grande alcance.
Essa dinâmica aumenta o poder de mobilização, mas também eleva riscos jurídicos. Quando uma campanha é financiada por um interessado direto, a transparência sobre patrocínio, autoria e objetivo das mensagens se torna essencial.
No setor financeiro, o cuidado é ainda maior. Informações divulgadas em massa podem afetar reputação de instituições, confiança de clientes, atuação de reguladores e percepção de risco sistêmico. Por isso, investigações envolvendo bancos e autoridades monetárias tendem a ser tratadas com maior rigor.
A Polícia Federal deverá aprofundar a análise de contratos, pagamentos, mensagens, orientações de postagem e conteúdo efetivamente publicado. O objetivo será definir se a ação foi apenas uma tentativa de defesa de imagem ou se houve uma campanha estruturada para atacar o Banco Central e constranger autoridades.
Apuração coloca comunicação do Banco Master sob escrutínio
O depoimento de Thiago Miranda adiciona uma nova frente ao caso Master. Além das discussões sobre liquidação, responsabilidade de administradores e impactos financeiros, a investigação passa a examinar a estratégia de comunicação montada em torno de Daniel Vorcaro.
Para o Banco Central, o episódio envolve a defesa da autoridade institucional em decisões de supervisão bancária. Para os investigados, a linha de defesa tende a sustentar que houve apenas contratação de serviços de comunicação e divulgação de conteúdos públicos.
A diferença entre os dois enquadramentos será definida pela apuração. A PF terá de verificar a origem dos recursos, a natureza dos contratos, o conteúdo das mensagens, a eventual coordenação entre perfis e a existência ou não de orientação para ataques a autoridades.
O caso também deve aumentar a pressão por regras mais claras sobre publicidade, influência digital e campanhas pagas envolvendo temas regulatórios. À medida que influenciadores passam a atuar em disputas financeiras, jurídicas e políticas, cresce a necessidade de transparência sobre interesses econômicos por trás das mensagens publicadas.









