Os sócios da Naskar Gestão de Ativos, fintech acusada por clientes de sumir com quase R$ 1 bilhão em recursos, também atuavam em uma empresa que oferecia serviços de “banco de aluguel” a outras companhias. Segundo apuração do Metrópoles, Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, conhecido como Maurício Jahu, são ligados à Naskar, enquanto Rogério Vieira aparece como presidente da 7Trust Finance e Maurício Jahu como diretor da companhia. A 7Trust atuava no modelo conhecido como Bank as a Service, em que uma empresa fornece infraestrutura financeira para que outras ofereçam serviços como contas, pagamentos, Pix e soluções digitais a seus próprios clientes.
A informação amplia a crise envolvendo a Naskar, que teria deixado cerca de 3 mil clientes sem acesso a valores sob sua responsabilidade. Os investidores afirmam que a fintech suspendeu pagamentos mensais, deixou de responder aos clientes e teve o aplicativo fora do ar a partir de 6 de maio, impedindo a consulta ao patrimônio investido.
A Naskar teria administrado mais de R$ 900 milhões em recursos de clientes e prometia retorno de 2% ao mês, percentual considerado elevado em relação ao padrão praticado no mercado financeiro tradicional. A empresa atuou por cerca de 13 anos sem relatos públicos relevantes de problemas, até deixar de realizar o pagamento mensal previsto para 4 de maio.
O caso ganhou novo capítulo após a revelação de que a Naskar passou a funcionar na sede da 7Trust Finance, em Alphaville Centro Industrial e Empresarial, em Barueri, na Grande São Paulo. Antes disso, a fintech mantinha operação em um prédio comercial na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo, de onde teria saído discretamente no segundo semestre de 2025, sem comunicação aos clientes.
Sócios acumulavam atuação na fintech e em empresa de infraestrutura financeira
A conexão entre a Naskar e a 7Trust está no quadro societário e diretivo. A Naskar tem como sócios Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, o Maurício Jahu. Já na 7Trust, Rogério Vieira aparece como presidente e Maurício Jahu como diretor.
A 7Trust Finance Instituição de Pagamento S/A foi fundada em 2019 e possui capital social de R$ 5.576.894,00, segundo informações citadas na reportagem original. A empresa oferecia serviços no modelo Bank as a Service, conhecido pela sigla BaaS.
Esse modelo permite que empresas de diferentes setores disponibilizem serviços financeiros a seus clientes por meio da infraestrutura tecnológica e operacional de uma instituição parceira. Na prática, uma varejista, plataforma digital ou empresa de serviços pode oferecer conta digital, Pix, cartão ou pagamento integrado usando a estrutura de uma companhia especializada.
Por funcionar como uma espécie de infraestrutura financeira terceirizada, esse tipo de operação é frequentemente chamado no mercado de “banco de aluguel”. O termo descreve empresas que fornecem a base tecnológica e operacional para que outras companhias ofereçam produtos financeiros sem necessariamente se tornarem bancos tradicionais.
7Trust oferecia Pix, conta digital e plataforma de pagamentos
A 7Trust se apresentava ao mercado como fornecedora de soluções de Pix, conta digital e plataforma de pagamentos. Em seu material de divulgação, a empresa afirmava oferecer tecnologia robusta, Pix de alta performance e soluções customizadas para companhias interessadas em operar serviços financeiros.
Segundo a apuração, a 7Trust estava credenciada como participante do Pix. A empresa, no entanto, nunca esteve na condição de instituição autorizada a funcionar pelo Banco Central do Brasil, conforme certificado do próprio Banco Central citado na reportagem.
Essa distinção é relevante. O credenciamento em arranjos de pagamento ou a participação em funcionalidades específicas, como o Pix, não significa necessariamente autorização ampla para atuar como banco ou instituição financeira em todos os segmentos.
No mercado financeiro digital, empresas podem operar sob diferentes enquadramentos regulatórios. Algumas são instituições de pagamento, outras são correspondentes, prestadoras de tecnologia, participantes de arranjos, gestoras, distribuidoras ou intermediárias. Para o consumidor, essas diferenças nem sempre são claras, o que aumenta a necessidade de transparência.
Naskar teria prometido retorno de 2% ao mês
A Naskar atuava captando recursos de clientes e prometia retorno mensal de 2%. Segundo a reportagem, um investidor que aplicasse R$ 1 milhão receberia R$ 20 mil mensais, enquanto a empresa se comprometeria a cuidar do patrimônio investido.
A promessa de rendimento elevado é um dos pontos que chamam atenção no caso. Embora retorno acima da média não seja, isoladamente, prova de irregularidade, ofertas de rentabilidade mensal fixa e muito superior ao padrão de mercado exigem cautela redobrada.
No mercado financeiro, retornos mais altos costumam estar associados a riscos maiores. Por isso, investidores devem verificar registro em órgãos reguladores, contratos, auditorias, custódia dos recursos, estratégia de investimento, histórico da empresa e clareza sobre riscos.
A situação da Naskar se agravou após a fintech não realizar o pagamento mensal previsto para 4 de maio. Clientes tentaram contato com os sócios, mas afirmam não ter obtido resposta. Poucos dias depois, o aplicativo usado para acompanhar o patrimônio deixou de funcionar.
Aplicativo fora do ar aumentou pressão de clientes
O aplicativo da Naskar saiu do ar em 6 de maio, segundo relatos de clientes. A plataforma era usada pelos investidores para consultar informações sobre o patrimônio aplicado, acompanhar rendimentos e verificar movimentações.
A indisponibilidade do sistema ampliou a insegurança dos clientes. Sem acesso ao aplicativo e sem resposta dos responsáveis, investidores passaram a questionar a localização dos recursos e a capacidade da fintech de honrar os compromissos assumidos.
Em operações financeiras, a transparência sobre saldos, custódia, extratos e movimentações é elemento essencial para a confiança do cliente. Quando uma empresa deixa de prestar informações ou interrompe canais digitais de acesso, o risco percebido aumenta rapidamente.
A Naskar informou, posteriormente, que enviou e-mails de circularização a toda a base de investidores. A empresa pediu que clientes que não tenham recebido a comunicação entrem em contato pelo endereço eletrônico indicado para auditoria. A fintech, porém, não informou prazo para devolução dos valores.
Empresa deixou endereço em São Paulo sem avisar clientes
Outro ponto que agravou a crise foi a mudança de endereço da Naskar. A fintech trabalhava em um prédio comercial na Vila Olímpia, em São Paulo, onde cerca de 20 funcionários atuavam até meados de 2025.
No segundo semestre do ano passado, a empresa teria deixado o local de maneira discreta, sem comunicar a mudança aos clientes. Depois disso, passou a funcionar na sede da 7Trust Finance, em Barueri.
A mudança para o endereço de uma empresa ligada aos mesmos sócios reforça a necessidade de esclarecer a relação operacional entre as duas companhias. A Naskar afirma que, embora haja sócios em comum, as entidades são distintas.
Essa explicação, porém, não encerra as dúvidas sobre eventual compartilhamento de estrutura, sistemas, funcionários, contas, clientes ou responsabilidades. Esses pontos podem ser relevantes para clientes, autoridades e eventuais investigações.
Naskar não teria registro na CVM
A Naskar também não teria registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), segundo a reportagem. A informação é relevante porque a CVM é responsável por fiscalizar o mercado de capitais no Brasil.
A necessidade de registro depende da atividade exercida. Empresas que fazem gestão profissional de recursos de terceiros, administração de carteiras, distribuição de valores mobiliários ou oferta pública de determinados produtos precisam cumprir regras específicas e, em muitos casos, obter autorização da autarquia.
No caso da Naskar, a análise dependerá dos contratos firmados com os clientes, da forma como os recursos foram captados, da promessa de rentabilidade e da estrutura usada para administrar o patrimônio.
Ainda assim, a combinação entre captação de recursos, promessa de retorno mensal, volume superior a R$ 900 milhões e ausência de acesso dos clientes aos valores levanta questionamentos sobre supervisão, governança e proteção dos investidores.
Celcoin aparece como custodiante da operação
A reportagem também informou que a Naskar tinha como instituição financeira custodiante a Celcoin Instituição de Pagamento S.A., empresa com sede em Barueri. A Celcoin foi procurada pelo Metrópoles e teria prometido posicionamento sobre o caso.
A menção à custodiante é importante para entender a estrutura operacional da fintech. Em operações financeiras, é essencial identificar quem fazia a custódia dos recursos, quem processava pagamentos, quem mantinha contas, quem operava sistemas e quem tinha responsabilidade contratual perante os clientes.
Ainda não há, com base no texto original, detalhamento suficiente sobre o papel exato da Celcoin na operação. Por isso, qualquer conclusão sobre responsabilidade depende de documentos, contratos, registros e manifestações formais das empresas envolvidas.
O mapeamento dessa cadeia será central para esclarecer onde os recursos estavam, como eram movimentados e quais empresas participaram da estrutura usada pela Naskar.
Modelo de “banco de aluguel” exige confiança e fiscalização
O modelo de Bank as a Service cresceu no Brasil com a digitalização do sistema financeiro. Ele permite que empresas não bancárias ofereçam serviços financeiros usando a infraestrutura de terceiros, o que amplia concorrência e reduz barreiras de entrada.
O problema surge quando há baixa transparência sobre a estrutura regulatória, a responsabilidade de cada parte e a proteção do dinheiro do cliente. Em um mercado com várias camadas operacionais, o consumidor pode não saber se está lidando com uma instituição autorizada, uma prestadora de tecnologia, uma intermediária ou uma empresa apenas contratante da infraestrutura.
Por isso, o modelo de “banco de aluguel” exige governança robusta, contratos claros, segregação de recursos, controles de risco, prevenção à lavagem de dinheiro e comunicação objetiva ao cliente final.
No caso envolvendo Naskar e 7Trust, a presença dos mesmos nomes nas duas estruturas e a mudança da fintech para a sede da empresa de BaaS tornam a relação entre as companhias um ponto central da apuração.
Clientes aguardam respostas sobre devolução dos recursos
A principal preocupação dos investidores é a devolução dos valores. A Naskar informou que iniciou uma etapa de circularização, pedindo documentos para entender a situação de cada cliente, mas não apresentou prazo para pagamento.
A ausência de cronograma aumenta a pressão sobre os sócios. Clientes que investiram recursos elevados afirmam estar sem acesso ao aplicativo, sem informações completas e sem confirmação sobre a localização do dinheiro.
Em casos de possível prejuízo coletivo, o caminho costuma envolver medidas judiciais, comunicação a órgãos reguladores, atuação de advogados e eventual investigação por autoridades competentes. A depender dos fatos comprovados, o caso pode alcançar as esferas civil, administrativa e criminal.
Até o momento, com base no texto original, a Naskar afirma que está apurando a situação individual dos investidores. A empresa também sustenta que Naskar e 7Trust são entidades distintas, apesar da existência de sócios em comum.
Caso Naskar aumenta alerta sobre fintechs e promessas de retorno elevado
O caso Naskar reforça o alerta para investidores diante de empresas que prometem retornos elevados e operam em estruturas financeiras pouco transparentes. A combinação entre fintech, promessa de rendimento mensal, ausência de registro na CVM, aplicativo fora do ar e sócios ligados a uma empresa de “banco de aluguel” cria um cenário de risco relevante.
A expansão das fintechs trouxe inovação ao mercado financeiro brasileiro, mas também tornou o ambiente mais complexo para o consumidor. Nem toda empresa que oferece serviços digitais é banco. Nem toda participante de Pix possui autorização ampla para atuar como instituição financeira. E nem toda promessa de rentabilidade elevada está amparada por estrutura regulada.
Para investidores, a recomendação é verificar registros oficiais, entender quem faz a custódia dos recursos, exigir contratos claros, desconfiar de rentabilidades fixas muito acima da média e evitar entregar patrimônio a empresas que não expliquem de forma transparente como o dinheiro será aplicado.
O caso também pressiona reguladores e autoridades a acompanhar com atenção modelos de negócio que combinam gestão de recursos, infraestrutura de pagamentos, contas digitais e serviços de BaaS. Quando a fronteira entre tecnologia financeira e intermediação de recursos fica confusa, o risco para o consumidor aumenta.
Sócios que atuavam como “banco de aluguel” ficam no centro da crise
A revelação de que sócios da Naskar também estavam ligados à 7Trust, empresa que oferecia serviços de “banco de aluguel”, coloca a estrutura empresarial por trás da fintech no centro da crise. O caso deixou de ser apenas uma disputa entre investidores e uma gestora que suspendeu pagamentos. Passou a envolver também a relação entre empresas de infraestrutura financeira, credenciamento no Pix, ausência de autorização ampla do Banco Central e possível falha na proteção de clientes.
A apuração sobre Naskar e 7Trust deve buscar esclarecer se as empresas compartilhavam estrutura, sistemas, contas, funcionários ou fluxos financeiros. Também será necessário identificar qual era o papel de cada companhia na operação e quem responde pelos recursos aplicados pelos clientes.
Para os investidores, a prioridade é recuperar o dinheiro. Para o mercado, o caso funciona como alerta sobre riscos de estruturas financeiras pouco claras. Para as autoridades, a crise expõe o desafio de fiscalizar fintechs, empresas de pagamento e modelos de “banco de aluguel” em um sistema financeiro cada vez mais digital e fragmentado.








