As ações da Alphabet (GOOGL; GOOG) caíram 7% nesta quinta-feira, 23 de julho, em Nova York, mesmo após a controladora do Google divulgar receita recorde e forte expansão do negócio de computação em nuvem no segundo trimestre de 2026. A reação negativa foi provocada principalmente pela elevação da previsão anual de investimentos para até US$ 205 bilhões e pelo fluxo de caixa livre negativo de US$ 5,9 bilhões, sinais de que a corrida por infraestrutura de inteligência artificial exigirá mais capital antes de produzir retornos compatíveis com as expectativas do mercado.
Os papéis da classe A encerraram a sessão perto de US$ 317,79, na maior queda diária desde a divulgação do balanço. O movimento transformou a Alphabet em uma das principais pressões sobre o S&P 500 e derrubou o índice de serviços de comunicação, apesar de os números operacionais da companhia terem superado as projeções em várias linhas.
A receita consolidada atingiu US$ 119,8 bilhões entre abril e junho, aumento de 24% sobre o mesmo período de 2025. O lucro operacional avançou 30%, para US$ 40,8 bilhões, e a margem operacional passou de 32% para 34%.
O lucro líquido alcançou US$ 112,1 bilhões, quase quatro vezes o resultado de US$ 28,2 bilhões registrado um ano antes. A cifra, porém, foi fortemente influenciada por US$ 98 bilhões em ganhos líquidos, principalmente não realizados, sobre participações acionárias mantidas pela Alphabet.
A diferença entre o lucro contábil e a geração de caixa tornou-se o centro da leitura dos investidores. Enquanto a valorização das participações aumentou o resultado líquido, a construção de data centers e a compra de servidores consumiram mais recursos do que as operações produziram no trimestre.
Investimentos em IA dobram e superam caixa operacional
A Alphabet investiu US$ 44,9 bilhões em ativos físicos no segundo trimestre, aproximadamente o dobro do montante registrado um ano antes. A maior parte foi destinada a servidores, centros de processamento de dados, redes e equipamentos necessários para treinar e operar modelos de inteligência artificial.
O fluxo de caixa das atividades operacionais alcançou US$ 39,1 bilhões. Como o investimento em infraestrutura superou esse valor, o fluxo de caixa livre ficou negativo em US$ 5,9 bilhões. Foi a primeira ocorrência trimestral negativa desde que a companhia abriu o capital, em 2004.
O dado alterou a percepção sobre a qualidade financeira do balanço. A Alphabet continua gerando receitas e lucro operacional em ritmo elevado, mas o ciclo de expansão da inteligência artificial passou a exigir uma parcela crescente do caixa.
Na teleconferência de resultados, a diretora financeira Anat Ashkenazi elevou a projeção de despesas de capital para 2026. A nova faixa passou a ser de US$ 195 bilhões a US$ 205 bilhões, ante previsão anterior de US$ 180 bilhões a US$ 190 bilhões.
No ponto médio, a estimativa aumentou US$ 15 bilhões. A companhia atribuiu a revisão à entrega mais rápida de capacidade computacional e à necessidade de atender uma demanda que ainda supera a infraestrutura disponível.
A Alphabet também indicou que os investimentos devem crescer novamente em 2027. A sinalização ampliou o receio de que depreciação, custos energéticos, contratação de capacidade e despesas financeiras pressionem o caixa e as margens nos próximos períodos.
Google Cloud cresce 82% e amplia contribuição ao lucro
O contraste mais evidente no balanço veio do Google Cloud. A divisão registrou receita de US$ 24,8 bilhões, expansão de 82% em comparação com o segundo trimestre do ano anterior.
O ritmo acelerou em relação ao primeiro trimestre de 2026, quando o crescimento havia sido de 63%. A companhia atribuiu o avanço à demanda por infraestrutura de inteligência artificial, soluções empresariais de IA e serviços tradicionais da plataforma Google Cloud.
O lucro operacional da divisão mais do que triplicou, para US$ 8,8 bilhões. A margem operacional subiu de 20,7% para 35,6%, mostrando que o segmento conseguiu expandir a rentabilidade apesar da elevação dos gastos com capacidade.
A carteira de receitas contratadas do Google Cloud chegou a US$ 514 bilhões, com aumento superior a US$ 50 bilhões em três meses. O volume representa compromissos de clientes que deverão ser convertidos em receita conforme os serviços forem entregues.
A unidade também começou a reconhecer receitas com a venda direta de sistemas baseados em TPUs, os processadores desenvolvidos pelo próprio Google para cargas de inteligência artificial. A estratégia permite à Alphabet competir no mercado dominado por GPUs e reduzir parte da dependência de fornecedores externos.
A administração afirmou que o Google Cloud continuaria apresentando crescimento expressivo mesmo sem a contribuição inicial das vendas de TPUs. O desempenho da divisão confirma que a procura por capacidade computacional empresarial permanece elevada.
Quase 90% das empresas da lista Fortune 100 já utilizam o Gemini Enterprise, segundo a companhia. O número de novos clientes conquistados pelo Google Cloud mais do que dobrou em relação ao ano anterior, enquanto clientes existentes ampliaram o uso acima dos compromissos contratados.
O avanço da nuvem reforça a justificativa industrial para o aumento dos investimentos. A dificuldade está no intervalo entre a construção da infraestrutura e a conversão dos ativos em receitas, margens e caixa suficientes para remunerar o capital aplicado.
Busca do Google mantém crescimento em meio à IA
O negócio de publicidade, responsável pela maior parte das receitas da Alphabet, também permaneceu sólido. A receita total com anúncios alcançou US$ 81,6 bilhões, ligeiramente acima das projeções do mercado.
As receitas do Google Search e de outros produtos relacionados à busca cresceram 17%, para US$ 63,3 bilhões. Os setores de varejo e serviços financeiros estiveram entre as principais fontes de expansão.
O crescimento indica que a adoção de respostas geradas por inteligência artificial ainda não provocou uma deterioração visível no principal negócio da companhia. A Alphabet vem incorporando o AI Mode e os AI Overviews aos resultados de pesquisa, enquanto testa formatos de publicidade e novos mecanismos de monetização.
O AI Mode ultrapassou 1 bilhão de usuários ativos mensais. Segundo o Google, as funcionalidades de IA têm aumentado o número total de consultas e continuam encaminhando tráfego para páginas externas.
O modelo enfrenta uma transição delicada. Respostas mais completas dentro da própria página de busca podem elevar o engajamento, mas também alteram a forma como usuários acessam sites e como anunciantes compram exposição.
Até o segundo trimestre, a expansão da receita de pesquisa mostrou que a Alphabet conseguiu preservar a atividade publicitária enquanto ampliava o uso de inteligência artificial. A continuidade desse crescimento será um indicador central para avaliar se o novo formato pode proteger a posição dominante da companhia.
YouTube ganha receita com publicidade e assinaturas
A receita publicitária do YouTube aumentou 13%, para US$ 11,1 bilhões. A companhia registrou força tanto em anúncios de resposta direta quanto em campanhas de construção de marca.
A Copa do Mundo de 2026 contribuiu para a audiência e a demanda publicitária. Mais de 1,7 bilhão de usuários únicos assistiram a conteúdos relacionados ao torneio na plataforma, segundo dados apresentados pela Alphabet.
O grupo de Google Services, que reúne pesquisa, YouTube, assinaturas, plataformas e dispositivos, registrou receita de US$ 94,5 bilhões, crescimento de 15%.
O lucro operacional do segmento avançou 20%, para US$ 39,5 bilhões, com margem de 41,8%. O desempenho mostra que as operações maduras ainda financiam parte significativa da expansão da infraestrutura de IA.
As receitas de assinaturas, plataformas e dispositivos cresceram 15%, para US$ 12,9 bilhões. YouTube Music, YouTube Premium e os planos do Google One ligados a recursos de inteligência artificial estiveram entre os principais vetores.
A diversificação reduz parcialmente a dependência da publicidade, mas o Google Search continua sendo a maior fonte de receita e caixa da Alphabet.
Lucro recorde foi impulsionado por ganhos não realizados
O lucro líquido de US$ 112,1 bilhões exige uma leitura distinta dos resultados operacionais. A Alphabet contabilizou US$ 98 bilhões em outras receitas, principalmente por ganhos não realizados em sua carteira de participações acionárias.
Esses ganhos refletem a valorização contábil de empresas nas quais a Alphabet mantém investimentos. Embora aumentem o patrimônio e o lucro reportado, não representam necessariamente entrada imediata de caixa.
No mesmo trimestre de 2025, a linha de outras receitas havia somado US$ 2,7 bilhões. O salto para US$ 98 bilhões explica a maior parte do crescimento de 298% no lucro líquido.
O lucro diluído por ação chegou a US$ 9,11, ante US$ 2,31 um ano antes. Em uma base ajustada utilizada pelo mercado para excluir parte dos efeitos não recorrentes, o resultado por ação ficou em US$ 2,85, ligeiramente abaixo da projeção média de US$ 2,89.
A distância entre as métricas ajuda a explicar por que o lucro recorde não sustentou as ações da Alphabet. Investidores concentraram a avaliação na geração operacional, nas despesas de capital e no tempo necessário para recuperar os recursos aplicados.
Gemini avança em usuários, mas competição exige novos modelos
O aplicativo Gemini alcançou 950 milhões de usuários ativos mensais, enquanto o número de usuários diários triplicou em um ano. As interfaces de programação da empresa passaram a processar aproximadamente 22 bilhões de tokens por minuto, ante 16 bilhões no trimestre anterior.
Mais de 9 milhões de desenvolvedores utilizam mensalmente os modelos da companhia. O avanço indica uma expansão relevante do ecossistema, tanto entre consumidores quanto em aplicações empresariais.
A Alphabet, contudo, enfrenta concorrência crescente da OpenAI, da Anthropic, da Microsoft (MSFT) e de fornecedores de modelos abertos. A disputa envolve desempenho técnico, custos de inferência, ferramentas para programação, agentes autônomos e contratos corporativos.
O lançamento do Gemini 3.5 Pro sofreu atraso e o modelo permanecia em testes durante a apresentação dos resultados. O presidente-executivo Sundar Pichai reconheceu que a companhia precisa melhorar em áreas como programação e desenvolvimento de agentes.
A empresa já iniciou o treinamento do Gemini 4, descrito pela administração como sua iniciativa mais ambiciosa de pré-treinamento. O projeto demandará capacidade adicional e ajuda a explicar a manutenção de um ritmo elevado de investimentos.
Para a Alphabet, reduzir despesas de capital de forma abrupta poderia aliviar o caixa, mas aumentaria o risco de perder espaço tecnológico e comercial. Manter o investimento protege a competitividade, mas transfere aos acionistas a incerteza sobre prazos e retornos.
Queda da Alphabet pressiona Wall Street
O recuo de 7% das ações da Alphabet teve impacto relevante sobre os índices americanos. A companhia foi uma das maiores pressões sobre o S&P 500, que caiu 1,21%, enquanto o Nasdaq recuou 2,15%.
A reação também atingiu outras empresas de tecnologia expostas ao ciclo de investimentos em inteligência artificial. O mercado passou a exigir evidências mais claras de que o crescimento da receita será suficiente para absorver a expansão de servidores, data centers, energia e redes.
O balanço da Alphabet abriu uma etapa importante da temporada de resultados das grandes empresas americanas. Microsoft, Amazon (AMZN) e Meta Platforms (META) também enfrentam o desafio de equilibrar investimentos recordes com geração de caixa e retorno aos acionistas.
O desempenho do Google Cloud mostra que a demanda existe e que a monetização já alcançou escala relevante. O problema, para o mercado, é que o volume de recursos necessário para sustentar essa expansão cresce em velocidade semelhante ou superior.
Capex transforma retorno da IA no principal teste da Alphabet
A Alphabet encerrou o segundo trimestre com seus principais negócios em expansão. Pesquisa, YouTube, assinaturas e computação em nuvem registraram crescimento, enquanto a margem operacional consolidada avançou.
A queda das ações não representou uma rejeição ao desempenho comercial, mas uma revisão do preço que os investidores estão dispostos a pagar diante de uma necessidade de capital mais elevada.
Nos próximos trimestres, o mercado deverá acompanhar a evolução do fluxo de caixa livre, os níveis de depreciação, a entrega de novos data centers e o ritmo de conversão da carteira do Google Cloud em receita.
Também serão decisivos os avanços do Gemini, a preservação das margens na busca e a capacidade de vender infraestrutura de IA sem comprometer a rentabilidade da nuvem.
Com investimentos previstos entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões em 2026 e nova expansão sinalizada para 2027, a monetização da inteligência artificial deixou de ser apenas uma oportunidade de crescimento. Ela passou a ser o principal teste financeiro e estratégico da Alphabet.








