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Alphabet (GOOGL) cai 7% após lucro recorde e capex de até US$ 205 bilhões

Dona do Google entregou receita de US$ 119,8 bilhões e crescimento de 82% na nuvem, mas fluxo de caixa livre negativo e nova alta dos investimentos pressionaram as ações em Wall Street

por João Souza
27/07/2026 às 13h30
em Empresas
Google - Gazeta Mercantil

As ações da Alphabet (GOOGL; GOOG) caíram 7% nesta quinta-feira, 23 de julho, em Nova York, mesmo após a controladora do Google divulgar receita recorde e forte expansão do negócio de computação em nuvem no segundo trimestre de 2026. A reação negativa foi provocada principalmente pela elevação da previsão anual de investimentos para até US$ 205 bilhões e pelo fluxo de caixa livre negativo de US$ 5,9 bilhões, sinais de que a corrida por infraestrutura de inteligência artificial exigirá mais capital antes de produzir retornos compatíveis com as expectativas do mercado.

Os papéis da classe A encerraram a sessão perto de US$ 317,79, na maior queda diária desde a divulgação do balanço. O movimento transformou a Alphabet em uma das principais pressões sobre o S&P 500 e derrubou o índice de serviços de comunicação, apesar de os números operacionais da companhia terem superado as projeções em várias linhas.

Leia também: Resultados trimestrais: Eletrobras registra lucro de R$ 1,48 Bilhão.

A receita consolidada atingiu US$ 119,8 bilhões entre abril e junho, aumento de 24% sobre o mesmo período de 2025. O lucro operacional avançou 30%, para US$ 40,8 bilhões, e a margem operacional passou de 32% para 34%.

O lucro líquido alcançou US$ 112,1 bilhões, quase quatro vezes o resultado de US$ 28,2 bilhões registrado um ano antes. A cifra, porém, foi fortemente influenciada por US$ 98 bilhões em ganhos líquidos, principalmente não realizados, sobre participações acionárias mantidas pela Alphabet.

Leia também: Ibovespa bate recorde histórico e dólar fecha abaixo de R$ 5: veja o que move o mercado.

A diferença entre o lucro contábil e a geração de caixa tornou-se o centro da leitura dos investidores. Enquanto a valorização das participações aumentou o resultado líquido, a construção de data centers e a compra de servidores consumiram mais recursos do que as operações produziram no trimestre.

Investimentos em IA dobram e superam caixa operacional

A Alphabet investiu US$ 44,9 bilhões em ativos físicos no segundo trimestre, aproximadamente o dobro do montante registrado um ano antes. A maior parte foi destinada a servidores, centros de processamento de dados, redes e equipamentos necessários para treinar e operar modelos de inteligência artificial.

Leia também: Apple (AAPL34) supera expectativas com lucro recorde e vendas históricas do iPhone no 2T25.

O fluxo de caixa das atividades operacionais alcançou US$ 39,1 bilhões. Como o investimento em infraestrutura superou esse valor, o fluxo de caixa livre ficou negativo em US$ 5,9 bilhões. Foi a primeira ocorrência trimestral negativa desde que a companhia abriu o capital, em 2004.

O dado alterou a percepção sobre a qualidade financeira do balanço. A Alphabet continua gerando receitas e lucro operacional em ritmo elevado, mas o ciclo de expansão da inteligência artificial passou a exigir uma parcela crescente do caixa.

Na teleconferência de resultados, a diretora financeira Anat Ashkenazi elevou a projeção de despesas de capital para 2026. A nova faixa passou a ser de US$ 195 bilhões a US$ 205 bilhões, ante previsão anterior de US$ 180 bilhões a US$ 190 bilhões.

No ponto médio, a estimativa aumentou US$ 15 bilhões. A companhia atribuiu a revisão à entrega mais rápida de capacidade computacional e à necessidade de atender uma demanda que ainda supera a infraestrutura disponível.

A Alphabet também indicou que os investimentos devem crescer novamente em 2027. A sinalização ampliou o receio de que depreciação, custos energéticos, contratação de capacidade e despesas financeiras pressionem o caixa e as margens nos próximos períodos.

Google Cloud cresce 82% e amplia contribuição ao lucro

O contraste mais evidente no balanço veio do Google Cloud. A divisão registrou receita de US$ 24,8 bilhões, expansão de 82% em comparação com o segundo trimestre do ano anterior.

O ritmo acelerou em relação ao primeiro trimestre de 2026, quando o crescimento havia sido de 63%. A companhia atribuiu o avanço à demanda por infraestrutura de inteligência artificial, soluções empresariais de IA e serviços tradicionais da plataforma Google Cloud.

O lucro operacional da divisão mais do que triplicou, para US$ 8,8 bilhões. A margem operacional subiu de 20,7% para 35,6%, mostrando que o segmento conseguiu expandir a rentabilidade apesar da elevação dos gastos com capacidade.

A carteira de receitas contratadas do Google Cloud chegou a US$ 514 bilhões, com aumento superior a US$ 50 bilhões em três meses. O volume representa compromissos de clientes que deverão ser convertidos em receita conforme os serviços forem entregues.

A unidade também começou a reconhecer receitas com a venda direta de sistemas baseados em TPUs, os processadores desenvolvidos pelo próprio Google para cargas de inteligência artificial. A estratégia permite à Alphabet competir no mercado dominado por GPUs e reduzir parte da dependência de fornecedores externos.

A administração afirmou que o Google Cloud continuaria apresentando crescimento expressivo mesmo sem a contribuição inicial das vendas de TPUs. O desempenho da divisão confirma que a procura por capacidade computacional empresarial permanece elevada.

Quase 90% das empresas da lista Fortune 100 já utilizam o Gemini Enterprise, segundo a companhia. O número de novos clientes conquistados pelo Google Cloud mais do que dobrou em relação ao ano anterior, enquanto clientes existentes ampliaram o uso acima dos compromissos contratados.

O avanço da nuvem reforça a justificativa industrial para o aumento dos investimentos. A dificuldade está no intervalo entre a construção da infraestrutura e a conversão dos ativos em receitas, margens e caixa suficientes para remunerar o capital aplicado.

Busca do Google mantém crescimento em meio à IA

O negócio de publicidade, responsável pela maior parte das receitas da Alphabet, também permaneceu sólido. A receita total com anúncios alcançou US$ 81,6 bilhões, ligeiramente acima das projeções do mercado.

As receitas do Google Search e de outros produtos relacionados à busca cresceram 17%, para US$ 63,3 bilhões. Os setores de varejo e serviços financeiros estiveram entre as principais fontes de expansão.

O crescimento indica que a adoção de respostas geradas por inteligência artificial ainda não provocou uma deterioração visível no principal negócio da companhia. A Alphabet vem incorporando o AI Mode e os AI Overviews aos resultados de pesquisa, enquanto testa formatos de publicidade e novos mecanismos de monetização.

O AI Mode ultrapassou 1 bilhão de usuários ativos mensais. Segundo o Google, as funcionalidades de IA têm aumentado o número total de consultas e continuam encaminhando tráfego para páginas externas.

O modelo enfrenta uma transição delicada. Respostas mais completas dentro da própria página de busca podem elevar o engajamento, mas também alteram a forma como usuários acessam sites e como anunciantes compram exposição.

Até o segundo trimestre, a expansão da receita de pesquisa mostrou que a Alphabet conseguiu preservar a atividade publicitária enquanto ampliava o uso de inteligência artificial. A continuidade desse crescimento será um indicador central para avaliar se o novo formato pode proteger a posição dominante da companhia.

YouTube ganha receita com publicidade e assinaturas

A receita publicitária do YouTube aumentou 13%, para US$ 11,1 bilhões. A companhia registrou força tanto em anúncios de resposta direta quanto em campanhas de construção de marca.

A Copa do Mundo de 2026 contribuiu para a audiência e a demanda publicitária. Mais de 1,7 bilhão de usuários únicos assistiram a conteúdos relacionados ao torneio na plataforma, segundo dados apresentados pela Alphabet.

O grupo de Google Services, que reúne pesquisa, YouTube, assinaturas, plataformas e dispositivos, registrou receita de US$ 94,5 bilhões, crescimento de 15%.

O lucro operacional do segmento avançou 20%, para US$ 39,5 bilhões, com margem de 41,8%. O desempenho mostra que as operações maduras ainda financiam parte significativa da expansão da infraestrutura de IA.

As receitas de assinaturas, plataformas e dispositivos cresceram 15%, para US$ 12,9 bilhões. YouTube Music, YouTube Premium e os planos do Google One ligados a recursos de inteligência artificial estiveram entre os principais vetores.

A diversificação reduz parcialmente a dependência da publicidade, mas o Google Search continua sendo a maior fonte de receita e caixa da Alphabet.

Lucro recorde foi impulsionado por ganhos não realizados

O lucro líquido de US$ 112,1 bilhões exige uma leitura distinta dos resultados operacionais. A Alphabet contabilizou US$ 98 bilhões em outras receitas, principalmente por ganhos não realizados em sua carteira de participações acionárias.

Esses ganhos refletem a valorização contábil de empresas nas quais a Alphabet mantém investimentos. Embora aumentem o patrimônio e o lucro reportado, não representam necessariamente entrada imediata de caixa.

No mesmo trimestre de 2025, a linha de outras receitas havia somado US$ 2,7 bilhões. O salto para US$ 98 bilhões explica a maior parte do crescimento de 298% no lucro líquido.

O lucro diluído por ação chegou a US$ 9,11, ante US$ 2,31 um ano antes. Em uma base ajustada utilizada pelo mercado para excluir parte dos efeitos não recorrentes, o resultado por ação ficou em US$ 2,85, ligeiramente abaixo da projeção média de US$ 2,89.

A distância entre as métricas ajuda a explicar por que o lucro recorde não sustentou as ações da Alphabet. Investidores concentraram a avaliação na geração operacional, nas despesas de capital e no tempo necessário para recuperar os recursos aplicados.

Gemini avança em usuários, mas competição exige novos modelos

O aplicativo Gemini alcançou 950 milhões de usuários ativos mensais, enquanto o número de usuários diários triplicou em um ano. As interfaces de programação da empresa passaram a processar aproximadamente 22 bilhões de tokens por minuto, ante 16 bilhões no trimestre anterior.

Mais de 9 milhões de desenvolvedores utilizam mensalmente os modelos da companhia. O avanço indica uma expansão relevante do ecossistema, tanto entre consumidores quanto em aplicações empresariais.

A Alphabet, contudo, enfrenta concorrência crescente da OpenAI, da Anthropic, da Microsoft (MSFT) e de fornecedores de modelos abertos. A disputa envolve desempenho técnico, custos de inferência, ferramentas para programação, agentes autônomos e contratos corporativos.

O lançamento do Gemini 3.5 Pro sofreu atraso e o modelo permanecia em testes durante a apresentação dos resultados. O presidente-executivo Sundar Pichai reconheceu que a companhia precisa melhorar em áreas como programação e desenvolvimento de agentes.

A empresa já iniciou o treinamento do Gemini 4, descrito pela administração como sua iniciativa mais ambiciosa de pré-treinamento. O projeto demandará capacidade adicional e ajuda a explicar a manutenção de um ritmo elevado de investimentos.

Para a Alphabet, reduzir despesas de capital de forma abrupta poderia aliviar o caixa, mas aumentaria o risco de perder espaço tecnológico e comercial. Manter o investimento protege a competitividade, mas transfere aos acionistas a incerteza sobre prazos e retornos.

Queda da Alphabet pressiona Wall Street

O recuo de 7% das ações da Alphabet teve impacto relevante sobre os índices americanos. A companhia foi uma das maiores pressões sobre o S&P 500, que caiu 1,21%, enquanto o Nasdaq recuou 2,15%.

A reação também atingiu outras empresas de tecnologia expostas ao ciclo de investimentos em inteligência artificial. O mercado passou a exigir evidências mais claras de que o crescimento da receita será suficiente para absorver a expansão de servidores, data centers, energia e redes.

O balanço da Alphabet abriu uma etapa importante da temporada de resultados das grandes empresas americanas. Microsoft, Amazon (AMZN) e Meta Platforms (META) também enfrentam o desafio de equilibrar investimentos recordes com geração de caixa e retorno aos acionistas.

O desempenho do Google Cloud mostra que a demanda existe e que a monetização já alcançou escala relevante. O problema, para o mercado, é que o volume de recursos necessário para sustentar essa expansão cresce em velocidade semelhante ou superior.

Capex transforma retorno da IA no principal teste da Alphabet

A Alphabet encerrou o segundo trimestre com seus principais negócios em expansão. Pesquisa, YouTube, assinaturas e computação em nuvem registraram crescimento, enquanto a margem operacional consolidada avançou.

A queda das ações não representou uma rejeição ao desempenho comercial, mas uma revisão do preço que os investidores estão dispostos a pagar diante de uma necessidade de capital mais elevada.

Nos próximos trimestres, o mercado deverá acompanhar a evolução do fluxo de caixa livre, os níveis de depreciação, a entrega de novos data centers e o ritmo de conversão da carteira do Google Cloud em receita.

Também serão decisivos os avanços do Gemini, a preservação das margens na busca e a capacidade de vender infraestrutura de IA sem comprometer a rentabilidade da nuvem.

Com investimentos previstos entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões em 2026 e nova expansão sinalizada para 2027, a monetização da inteligência artificial deixou de ser apenas uma oportunidade de crescimento. Ela passou a ser o principal teste financeiro e estratégico da Alphabet.

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