O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem vantagem de dez pontos porcentuais sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) entre as mulheres em um eventual segundo turno da eleição presidencial de 2026, segundo a mais recente pesquisa Datafolha, divulgada nesta terça-feira (28). O levantamento, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-01166/2026, mostra Lula com 50% das intenções de voto entre as eleitoras, contra 40% de Flávio, e coloca o eleitorado feminino no centro da estratégia da oposição para a disputa pelo Palácio do Planalto.
O resultado contrasta com o cenário entre os homens, no qual há empate técnico: Flávio Bolsonaro aparece com 46%, enquanto Lula registra 45%. Considerado o conjunto dos entrevistados, o presidente soma 48% das intenções de voto, ante 43% do senador. Brancos, nulos e eleitores que não escolheriam nenhum dos dois candidatos representam 9%, enquanto 1% não soube responder.
A margem de erro é de dois pontos porcentuais para o resultado geral e de três pontos nos recortes por gênero. A leitura dos dados precisa considerar essa diferença estatística, mas o desempenho de Lula entre as mulheres se destaca por superar a margem de erro e por ocorrer no segmento que representa a maioria do eleitorado brasileiro.
Dados oficiais do TSE indicam que as mulheres correspondem a aproximadamente 52% do eleitorado nacional. Em uma eleição presidencial definida por uma disputa apertada, uma diferença persistente nesse grupo pode alterar o resultado final, sobretudo se os candidatos mantiverem níveis elevados de rejeição e se a parcela de eleitores sem voto consolidado permanecer relevante.
Eleitorado feminino concentra a principal diferença entre os candidatos
O cruzamento entre os recortes divulgados pelo Datafolha e a composição do eleitorado registrada pelo TSE mostra que a vantagem de Lula no resultado agregado está diretamente associada ao desempenho entre as mulheres. O presidente lidera por dez pontos porcentuais nesse grupo, enquanto Flávio tem vantagem de apenas um ponto entre os homens, dentro da margem de erro.
A diferença não significa que o voto feminino seja homogêneo ou que todas as eleitoras tenham o mesmo comportamento político. O recorte, porém, evidencia a dimensão do desafio da campanha de Flávio Bolsonaro. Para reduzir a distância no segundo turno, o senador precisaria ampliar sua aceitação entre as mulheres sem perder o apoio que apresenta entre os homens.
A tarefa é agravada pelo índice de rejeição. No primeiro turno, 50% das mulheres entrevistadas disseram que não votariam em Flávio Bolsonaro de forma alguma. No caso de Lula, esse percentual foi de 44%. No total da amostra, a rejeição chega a 48% para o senador e a 46% para o presidente.
A proximidade dos índices gerais indica que os dois candidatos enfrentam resistência elevada, mas a distribuição por gênero cria obstáculos diferentes para cada campanha. Flávio precisa diminuir a rejeição no maior segmento do eleitorado. Lula, por sua vez, busca preservar a vantagem entre as mulheres e consolidar o apoio entre os homens, onde a disputa aparece equilibrada.
Estratégia de Flávio inclui vice e agenda voltada às mulheres
A pré-campanha de Flávio Bolsonaro já trata a ampliação do apoio feminino como prioridade. Uma das possibilidades discutidas é a escolha de uma mulher para ocupar a vice-presidência na chapa. O nome ainda não foi definido, e não há confirmação de que a decisão tenha sido tomada.
A composição da chapa poderá ser utilizada para ampliar a interlocução com eleitoras e incorporar temas associados às políticas públicas para mulheres. Também terá impacto nas negociações partidárias e na organização da campanha nos Estados, especialmente em uma eleição na qual a formação de alianças deverá ser determinante para tempo de propaganda, palanques regionais e mobilização eleitoral.
Outra frente envolve a participação de Fernanda Bolsonaro, mulher do senador e dentista, em compromissos políticos. A proposta é que ela tenha maior presença na comunicação da pré-campanha e trate de assuntos como saúde da mulher e família.
A escolha desses temas reflete uma tentativa de aproximar Flávio de demandas que atravessam diferentes faixas de renda e regiões do país. Saúde, creches, proteção social e acesso a serviços estão entre os assuntos capazes de mobilizar o eleitorado feminino, especialmente quando associados a medidas com impacto direto no orçamento e na rotina das famílias.
A pré-campanha também apresentou o programa “Brasil por Elas”. Entre as propostas divulgadas estão a distribuição gratuita de internet e celulares e a concessão de vouchers para creches. O conjunto ainda poderá ser detalhado, alterado ou incorporado a um plano de governo mais amplo.
A viabilidade fiscal e operacional das medidas deverá ser examinada à medida que a campanha avance. Promessas de transferência de renda, subsídios e ampliação de serviços públicos tendem a ser avaliadas pelos eleitores não apenas pelo apelo político, mas também pela capacidade de execução e pela origem dos recursos.
Declarações de aliado criam tensão com nova estratégia
A tentativa de aproximação com as eleitoras ocorre em meio a um episódio de desgaste provocado por declarações do influenciador Paulo Figueiredo, aliado de Flávio Bolsonaro. Ele afirmou que mulheres “votam muito mal”. Após a repercussão, publicou nas redes sociais uma fotografia segurando um cartaz com a frase: “Mulher vota mal para car…. Mude a minha opinião”.
A manifestação expôs uma contradição entre o esforço da pré-campanha para ampliar o apoio entre as mulheres e a postura de integrantes do grupo político associado ao senador. Em disputas presidenciais, declarações de aliados podem afetar a imagem do candidato mesmo quando não fazem parte do discurso oficial da campanha.
O episódio ganhou força em um momento de atenção sobre a relação de Flávio com sua família. Poucos dias antes, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro havia publicado um vídeo no qual relatou ter sido humilhada pelo enteado. O caso provocou repercussão política e foi seguido por vídeos em que Michelle e Flávio afirmaram ter se reconciliado.
Os dois episódios passaram a ser considerados no ambiente político como fatores capazes de dificultar a construção de uma imagem de unidade e de sensibilidade em relação às eleitoras. A coordenação de uma pré-campanha precisa administrar, ao mesmo tempo, o conteúdo das propostas, o comportamento dos aliados e a forma como conflitos internos são apresentados ao público.
A reação a declarações de apoiadores também pode influenciar a decisão de eleitores ainda não alinhados. Com 9% da amostra declarando voto em branco, nulo ou em nenhum dos dois nomes no cenário de segundo turno, a disputa por credibilidade e redução de rejeição tende a ganhar importância.
Lula mantém vantagem, mas empate entre homens limita margem
O desempenho de Lula entre as mulheres sustenta sua vantagem no resultado geral, mas o quadro não representa uma liderança uniforme em todos os segmentos. Entre os homens, Flávio Bolsonaro tem 46%, contra 45% de Lula. A diferença está dentro da margem de erro de três pontos porcentuais para o recorte por gênero.
Esse equilíbrio reduz o espaço para uma leitura de vitória antecipada do presidente. A pesquisa indica uma vantagem relevante de Lula, mas também mostra que Flávio possui base competitiva suficiente para manter a disputa aberta, principalmente se conseguir reduzir a rejeição entre as mulheres e preservar seu desempenho entre os homens.
A rejeição dos dois candidatos é outro elemento decisivo. Em cenários polarizados, a escolha do eleitor pode ser motivada tanto pela preferência por um candidato quanto pela rejeição ao adversário. Quando os índices negativos se aproximam dos níveis registrados pelo Datafolha, a capacidade de cada campanha de ampliar sua coalizão eleitoral passa a depender da conquista de grupos menos identificados com a polarização.
O desempenho econômico, a percepção sobre emprego e renda, a segurança pública, os programas sociais e os temas de costumes devem influenciar a evolução das intenções de voto. A avaliação do governo Lula e a capacidade de Flávio de se apresentar como alternativa também serão submetidas a novos testes durante a pré-campanha.
A pesquisa, portanto, não deve ser interpretada como uma fotografia definitiva da eleição. Ela registra o quadro no momento da coleta e está sujeita a mudanças provocadas por fatos políticos, anúncios de candidaturas, alianças, debates e variações na avaliação do governo.
Pesquisa aumenta pressão por definição de chapa e discurso
Os números divulgados pelo Datafolha ampliam a pressão sobre a estratégia de Flávio Bolsonaro. A escolha de uma vice-presidente, o protagonismo de Fernanda Bolsonaro e a divulgação do programa “Brasil por Elas” formam um conjunto de ações voltado à redução da distância entre o senador e Lula no eleitorado feminino.
O efeito dessas iniciativas dependerá da coerência entre o discurso oficial e as manifestações de aliados. A campanha poderá apresentar propostas específicas para as mulheres, mas declarações consideradas ofensivas ou incompatíveis com essa agenda tendem a produzir reação negativa e a reforçar a rejeição já apontada na pesquisa.
Para Lula, o desafio é manter a vantagem entre as eleitoras e transformar o desempenho no segmento em apoio consolidado no total da população. A liderança de 48% a 43% no conjunto da amostra é relevante, mas o empate entre os homens e a presença de eleitores que não escolhem nenhum dos dois candidatos indicam que ainda existe espaço para movimentação.
A definição das chapas, a construção dos palanques estaduais e o detalhamento das propostas serão determinantes na próxima fase da disputa. Até o momento, o principal sinal fornecido pelo Datafolha é claro: o eleitorado feminino constitui a maior fonte de vantagem de Lula e o principal campo de batalha para Flávio Bolsonaro.









