Ronaldo Caiado, candidato escolhido pelo PSD para disputar a Presidência da República, elevou nesta quarta-feira, 29 de julho, o confronto com Flávio Bolsonaro, do PL, ao classificar como “rasteiro” o tom da convenção que oficializou o senador na corrida ao Palácio do Planalto. Em declarações à imprensa em Brasília, após reunião com representantes das principais entidades de rádio, televisão e jornais do País, Caiado criticou a participação do presidente argentino Javier Milei e o uso de um avatar criado por inteligência artificial para reproduzir a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O ataque ocorreu quatro dias depois da convenção nacional do PL, realizada no sábado, 25, em São Paulo. No evento, Flávio apresentou sua candidatura como continuidade direta do movimento político liderado pelo pai, recebeu Milei no palco e exibiu mensagens gravadas de aliados internacionais.
A principal peça da convenção foi um vídeo produzido por inteligência artificial no qual uma representação digital de Jair Bolsonaro pediu apoio ao filho. A utilização do recurso provocou questionamentos no Tribunal Superior Eleitoral e no Supremo Tribunal Federal, além de abrir uma discussão sobre os limites do uso de pessoas artificiais em campanhas políticas.
“Foi uma convenção em que o candidato perdeu com a Argentina e perdeu com um avatar. Ali não tinha a presença do candidato. Não tinha proposta”, afirmou Caiado. Segundo ele, o evento teria deslocado o debate dos problemas brasileiros para confrontos envolvendo autoridades estrangeiras.
Crítica mira dependência política de Jair Bolsonaro
Ao concentrar o ataque no avatar, Caiado procurou atingir uma das principais forças e, ao mesmo tempo, uma das maiores fragilidades da candidatura de Flávio: a dependência da imagem política de Jair Bolsonaro.
O ex-presidente permanece como a principal liderança do eleitorado identificado com o bolsonarismo, mas não pode concorrer nas eleições de 2026. A estratégia do PL consiste em transferir essa base para Flávio, apresentando o senador como herdeiro político e responsável pela continuidade do projeto iniciado pelo pai.
Na convenção, Flávio reforçou essa ligação ao declarar que carregava o “sangue Bolsonaro” e ao prometer preservar o legado do ex-presidente. O avatar de inteligência artificial ampliou essa mensagem ao reproduzir uma fala de apoio que não foi gravada pessoalmente por Jair Bolsonaro.
Caiado tenta construir uma posição diferente dentro do mesmo campo político. O candidato do PSD conserva bandeiras associadas à direita, como endurecimento da segurança pública, crítica ao PT e defesa de maior rigor fiscal, mas sustenta que experiência administrativa e liderança própria devem pesar mais do que vínculos familiares.
“Quem governa não herda liderança”, declarou. A frase repete uma linha de ataque utilizada por Caiado desde que Flávio passou a apresentar o apoio do pai como a principal credencial de sua candidatura.
O objetivo político é disputar eleitores conservadores que rejeitam o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, mas demonstram dúvidas sobre a capacidade eleitoral e administrativa do candidato do PL.
Milei e Netanyahu deram dimensão internacional ao evento
A convenção do PL também utilizou apoios estrangeiros para reforçar a inserção internacional de Flávio Bolsonaro no campo conservador.
Javier Milei viajou ao Brasil para participar pessoalmente do evento e discursou ao lado do candidato do PL. O presidente argentino criticou o socialismo e defendeu a retomada de um governo alinhado ao bolsonarismo no Brasil.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, participou por meio de uma mensagem gravada. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também apareceu em vídeo para declarar apoio à candidatura.
A presença dessas lideranças foi planejada para demonstrar que Flávio possui interlocução com governos e movimentos conservadores fora do Brasil. A estratégia, contudo, ofereceu aos adversários espaço para questionar o peso de atores estrangeiros em uma convenção destinada a discutir a sucessão presidencial brasileira.
Para Caiado, a exposição internacional ocupou o lugar que deveria ser destinado à apresentação de propostas sobre economia, segurança, saúde, educação, emprego e política externa.
O candidato do PSD também criticou a transformação das relações com Estados Unidos e Argentina em instrumentos da disputa doméstica. Sua campanha procura associar a política externa a interesses comerciais e diplomáticos, especialmente em um momento de tensão entre Brasília e Washington por causa das tarifas impostas a produtos brasileiros.
A crítica não significa afastamento ideológico de governos conservadores. Caiado busca diferenciar apoio político de influência direta na campanha e sustenta que a agenda nacional não deve ser subordinada a disputas externas.
Vídeo com inteligência artificial chega ao STF e ao TSE
A utilização do avatar de Jair Bolsonaro ultrapassou o confronto eleitoral e passou a ser analisada pela Justiça.
As regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral exigem que conteúdos fabricados ou manipulados por inteligência artificial sejam identificados de maneira explícita, destacada e acessível. A regulamentação também proíbe o uso de conteúdos sintéticos destinados a favorecer ou prejudicar candidaturas quando reproduzem ou alteram a imagem e a voz de pessoas.
O vídeo exibido pelo PL informava que havia sido produzido por inteligência artificial. A defesa de Flávio sustenta que essa identificação afasta qualquer tentativa de enganar os eleitores e argumenta que a peça não deve ser classificada como uma falsificação clandestina.
Partidos de esquerda e centro-esquerda apresentaram questionamentos à Justiça Eleitoral. Eles alegam que a proibição não se limita a materiais sem identificação e alcança conteúdos sintéticos que reproduzem uma pessoa real para influenciar a decisão do eleitor.
A controvérsia ainda não foi julgada definitivamente pelo TSE. Caberá ao tribunal estabelecer se a transparência sobre o uso da tecnologia é suficiente ou se a reprodução digital de Jair Bolsonaro, com uma mensagem eleitoral que ele não gravou, configura uma prática vedada.
No Supremo Tribunal Federal, o ministro Alexandre de Moraes determinou que a defesa do ex-presidente esclareça se ele autorizou a produção e a exibição do vídeo. A questão está ligada às restrições de comunicação impostas a Jair Bolsonaro.
A existência do avatar cria um problema jurídico novo: determinar se uma pessoa submetida a limitações judiciais participa de um ato político quando terceiros recriam digitalmente sua imagem e sua voz.
Também será necessário avaliar quem responde pelo conteúdo, quais autorizações foram concedidas e se houve tentativa de contornar uma ordem judicial. Até uma decisão final, as partes mantêm posições opostas sobre a legalidade da peça.
Kassab cobra candidatura com identidade própria
Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e candidato a vice na chapa de Caiado, também criticou a convenção do PL.
Kassab afirmou ter recebido o evento com “espanto” e disse que o vídeo de inteligência artificial não ajudou a esclarecer o projeto político de Flávio Bolsonaro.
“Nós queremos saber o que pensa o candidato Flávio, não o seu pai, através de inteligência artificial”, declarou.
A manifestação de Kassab reforça a estratégia do PSD de apresentar Caiado como um candidato com trajetória própria, experiência no Executivo e capacidade de articulação independente de lideranças familiares.
Caiado governou Goiás por dois mandatos e deixou o cargo no fim de março para disputar a eleição presidencial. Antes disso, foi deputado federal e senador. O PSD utiliza essa trajetória para sustentar que seu candidato reúne experiência administrativa e parlamentar.
Kassab, por sua vez, acrescenta à chapa sua rede de relações com governadores, prefeitos, parlamentares e empresários. A escolha de uma composição inteiramente formada pelo PSD foi uma demonstração de controle partidário, mas também revelou que a legenda ainda não construiu uma coligação presidencial com outras siglas.
A convenção do PSD foi realizada no domingo, 26 de julho, um dia depois do evento do PL. Caiado e Kassab foram confirmados como candidatos a presidente e vice, respectivamente.
O partido procurou apresentar unidade interna ao reunir lideranças como os governadores Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, Ratinho Junior, do Paraná, e Daniel Vilela, de Goiás.
PSD tenta ocupar espaço entre Lula e o bolsonarismo
A ofensiva contra Flávio faz parte de uma estratégia mais ampla. Caiado procura quebrar a lógica de uma eleição definida exclusivamente pela polarização entre o PT e a família Bolsonaro.
Em seu discurso na convenção do PSD, o candidato atacou tanto Lula quanto Flávio. Ao presidente, atribuiu responsabilidade pela situação fiscal, pela expansão do crime organizado e pelos escândalos históricos dos governos petistas. Ao adversário do PL, cobrou experiência, propostas e independência política.
A candidatura do PSD depende da capacidade de convencer eleitores de oposição de que existe uma alternativa eleitoralmente viável fora do bolsonarismo.
Esse movimento exige um equilíbrio delicado. Caiado precisa confrontar Flávio para disputar espaço na direita, mas não pode afastar completamente os eleitores de Jair Bolsonaro, cujo apoio seria necessário em um eventual segundo turno.
A campanha também tenta atrair setores do agronegócio, empresários, gestores municipais e eleitores preocupados com segurança pública. São segmentos nos quais Caiado construiu parte de sua trajetória política e administrativa.
Flávio, por outro lado, possui uma base nacional mais consolidada e acesso direto ao eleitorado fiel ao pai. O PL também conta com uma estrutura partidária ampla e representação significativa no Congresso.
A disputa não ocorre apenas entre candidaturas. Ela envolve dois modelos para a direita brasileira: um baseado na continuidade familiar do bolsonarismo e outro apoiado na experiência administrativa, na estrutura do PSD e na tentativa de ampliar a interlocução com o centro.
Regulação das plataformas entra na agenda eleitoral
As declarações foram dadas após Caiado e Kassab se reunirem com a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão e a Associação Nacional de Jornais.
As entidades entregaram aos candidatos um documento com temas considerados prioritários para o setor de comunicação. Entre os pontos discutidos estão liberdade de imprensa, direitos autorais, sustentabilidade econômica do jornalismo e regulação das plataformas digitais.
Questionado sobre uma possível regulamentação das grandes empresas de tecnologia e da inteligência artificial, Caiado afirmou que o Brasil não deve adotar uma legislação “retrógrada”.
O candidato disse ser contrário a medidas que, em suas palavras, possam “penalizar a inteligência”. Ao mesmo tempo, defendeu responsabilização criminal de pessoas que utilizem plataformas para cometer abusos ou divulgar conteúdos ilícitos.
A formulação indica preferência por responsabilizar os autores das condutas, em vez de impor restrições amplas à tecnologia. A aplicação prática desse princípio, porém, dependeria da definição de obrigações para plataformas, usuários, campanhas e fornecedores de sistemas de inteligência artificial.
Caiado também se comprometeu com a proteção dos direitos autorais de empresas jornalísticas, músicos, escritores e outros produtores de conteúdo.
O tema deverá ganhar espaço durante a campanha porque sistemas de inteligência artificial utilizam grandes bases de textos, imagens, vídeos e áudios para desenvolver modelos e gerar novos materiais. Empresas de comunicação defendem regras de remuneração e mecanismos que impeçam o uso não autorizado de conteúdos protegidos.
Confronto antecipa batalha pelo voto conservador
As candidaturas escolhidas nas convenções ainda precisam ser registradas na Justiça Eleitoral. Os partidos têm até as 19 horas de 15 de agosto para apresentar a documentação ao TSE.
Até lá, PL e PSD continuarão trabalhando na formação das chapas, nas alianças estaduais e na construção de palanques regionais. A propaganda eleitoral será permitida a partir de 16 de agosto.
O confronto entre Caiado e Flávio, entretanto, já antecipou o eixo da disputa dentro da oposição.
O candidato do PL pretende transformar o apoio de Jair Bolsonaro em voto e preservar a unidade de uma base construída desde 2018. O candidato do PSD buscará demonstrar que a eleição exige uma liderança autônoma, com experiência de governo e capacidade para ampliar alianças.
A convenção do PL, concebida para reafirmar a força do sobrenome Bolsonaro e exibir conexões internacionais, passou a ser usada por Caiado como prova de dependência política e ausência de propostas próprias.
O uso da inteligência artificial acrescentou uma dimensão jurídica e institucional ao embate. A decisão do TSE sobre o avatar poderá estabelecer um precedente para toda a eleição de 2026, definindo até onde campanhas poderão reproduzir digitalmente pessoas reais para pedir votos ou transmitir mensagens políticas.
Ao chamar o evento de “rasteiro”, Caiado deixa claro que não pretende tratar Flávio apenas como eventual aliado contra o PT. O senador do PL passou a ser o adversário direto na batalha pela liderança da direita e pelo direito de enfrentar Lula na etapa decisiva da eleição.









