Vendas do Comércio em Queda: O Que Explica a Terceira Recuada Consecutiva em Junho Segundo o IBGE
O comércio varejista brasileiro voltou a registrar retração em junho de 2025, marcando a terceira queda seguida nas vendas do comércio, segundo dados da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O recuo de 0,1% no mês, somado às baixas de abril (-0,3%) e maio (-0,4%), aponta para uma tendência de enfraquecimento do consumo, mesmo com indicadores positivos no mercado de trabalho e na renda.
A análise deste desempenho é fundamental não apenas para entender os rumos da economia brasileira, mas também para avaliar o impacto direto no consumo das famílias, no crédito e no Produto Interno Bruto (PIB).
Panorama Geral das Vendas do Comércio Varejista
Apesar da queda em junho, o comércio varejista ainda apresenta saldo positivo em 2025. No acumulado do primeiro semestre, houve alta de 1,8%, enquanto a comparação anual entre junho de 2024 e junho de 2025 mostra avanço de 0,3%. Já no acumulado de 12 meses, o crescimento chega a 2,7%.
Esses números revelam que, embora haja sinais de desaquecimento, a trajetória do setor segue resiliente em comparação a períodos de maior crise. Ainda assim, a sequência de quedas mensais preocupa economistas, que apontam riscos para os próximos trimestres.
O Que Diz o IBGE Sobre as Vendas do Comércio
De acordo com especialistas do IBGE, o comportamento recente das vendas do comércio reflete uma fase de estabilidade com viés de baixa. Até março de 2025, o varejo havia atingido seu maior patamar histórico desde o início da série em 2000. No entanto, a partir de abril, a combinação de fatores macroeconômicos passou a frear a expansão do setor.
A principal explicação para essa desaceleração é a política monetária restritiva do Banco Central, que elevou a taxa Selic para conter a inflação. O resultado foi a redução do crédito disponível para consumidores e empresas, somada ao impacto da inflação persistente no orçamento das famílias.
Segmentos em Queda e os Motivos do Recuo
Das oito atividades monitoradas pelo IBGE, cinco apresentaram retração em junho:
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Equipamentos e material de escritório, informática e comunicação: -2,7%
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Livros, jornais, revistas e papelaria: -1,5%
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Móveis e eletrodomésticos: -1,2%
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Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria: -0,9%
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Hiper e supermercados, alimentos, bebidas e fumo: -0,5%
O impacto dos juros altos é sentido de forma mais intensa nos segmentos que dependem de crédito, como móveis, eletrodomésticos e produtos de maior valor agregado. Ao mesmo tempo, a inflação elevada em itens essenciais, como alimentos e combustíveis, compromete o poder de compra da população.
Setores que Conseguiram Avançar
Nem todo o varejo foi atingido da mesma forma. Três segmentos registraram crescimento em junho:
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Outros artigos de uso pessoal e doméstico: +1,0%
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Tecidos, vestuário e calçados: +0,5%
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Combustíveis e lubrificantes: +0,3%
Esses resultados mostram que, mesmo em um ambiente desafiador, há espaço para nichos específicos se beneficiarem de tendências de consumo. O crescimento em vestuário e calçados, por exemplo, está ligado à retomada de eventos sociais e maior circulação de pessoas em espaços públicos.
Varejo Ampliado: Uma Queda Ainda Mais Forte
Quando se considera o varejo ampliado — que inclui veículos, motos, peças e material de construção — a retração em junho foi de 2,5%. Esse resultado evidencia como bens de maior valor e dependentes de financiamento foram os mais afetados pela política monetária restritiva.
Apesar disso, no acumulado de 12 meses, o varejo ampliado ainda mostra crescimento de 2%, sinalizando que a perda de dinamismo é recente, mas pode se prolongar se o crédito continuar caro.
Causas Estruturais da Queda nas Vendas do Comércio
As três principais causas para a retração das vendas do comércio são:
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Juros altos: a Selic elevada encarece o crédito, reduzindo as compras parceladas e financiadas.
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Inflação persistente: a alta de preços compromete o orçamento familiar, especialmente em bens essenciais.
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Endividamento das famílias: com menor acesso ao crédito e maior comprometimento da renda, o consumo financiado perde força.
Indicadores Positivos: Emprego e Renda em Alta
Apesar da sequência de quedas, nem tudo é negativo. O mercado de trabalho brasileiro segue aquecido. Em junho, a taxa de desemprego atingiu 5,8%, o menor nível desde 2012, enquanto o rendimento médio real do trabalhador alcançou recorde histórico.
Esse cenário sugere que, se os juros começarem a cair e a inflação for controlada, o consumo pode se recuperar com apoio da maior renda disponível.
Perspectivas Para os Próximos Meses
A tendência, segundo analistas, é de estabilidade com viés de baixa no curto prazo. A recuperação depende diretamente de mudanças na política monetária, principalmente da redução da taxa Selic.
Enquanto isso, o setor varejista precisará apostar em:
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Inovação digital e omnichannel, integrando lojas físicas e online.
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Promoções e facilitação de pagamentos, para atrair consumidores endividados.
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Eficiência logística, para reduzir custos e melhorar a competitividade.
Impacto da Queda do Comércio na Economia Brasileira
O comércio é um dos principais motores da economia nacional, representando cerca de 60% do PIB via consumo das famílias. A sequência de quedas nas vendas, portanto, não afeta apenas lojistas, mas também toda a cadeia produtiva — da indústria aos serviços.
Se a tendência negativa persistir, pode haver reflexos no mercado de trabalho, com cortes de vagas em setores mais dependentes do consumo interno.
A terceira queda consecutiva nas vendas do comércio em junho de 2025 acende um sinal de alerta para o varejo e para a economia brasileira como um todo. Embora o setor ainda mantenha crescimento acumulado no ano e em 12 meses, os desafios impostos por juros altos, inflação persistente e crédito restrito devem continuar limitando a expansão no curto prazo.
A expectativa é que, com a melhora no mercado de trabalho e eventual flexibilização da política monetária, o setor volte a crescer de forma mais consistente, reforçando sua importância no PIB e no consumo das famílias brasileiras.






