Dólar oscila entre alta e queda com foco na Ptax e incertezas externas
O dólar iniciou a semana em trajetória volátil frente ao real, oscilando entre ganhos e perdas nesta segunda-feira (29). O movimento reflete a combinação de fatores internos e externos que impactam diretamente o mercado de câmbio brasileiro, com atenção especial à definição da última Ptax de setembro, às discussões fiscais nos Estados Unidos e às expectativas em torno da política monetária do Federal Reserve (Fed).
A moeda americana chegou a abrir em alta nos primeiros negócios, mas perdeu força ao longo da manhã, acompanhando a queda dos rendimentos dos Treasuries e a desvalorização global do dólar. A instabilidade ocorre em meio à cautela dos investidores com o risco de paralisação (shutdown) do governo americano, já que o ano fiscal nos EUA se encerra amanhã, e ainda diante da proximidade de dados econômicos relevantes, como o payroll de setembro, que será divulgado na sexta-feira.
Dólar e Ptax: foco dos investidores no fim do mês
No Brasil, o câmbio também reflete a formação da Ptax, taxa de câmbio calculada pelo Banco Central usada como referência para contratos financeiros. Como amanhã marca a definição da última Ptax de setembro, o mercado opera com forte volatilidade e ajustes de posições.
Além disso, investidores seguem atentos a possíveis cortes adicionais de juros nos Estados Unidos, o que pode reduzir a atratividade do dólar globalmente e favorecer moedas emergentes como o real.
A expectativa é de que, caso o Fed mantenha um discurso mais suave em relação à inflação, o dólar possa seguir pressionado para baixo no curto prazo, especialmente diante da melhora de projeções econômicas no Brasil.
Lula e Trump: encontro pode aliviar tensões comerciais
No cenário político, as atenções também se voltam para a possível reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ainda nesta semana.
Segundo o vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, há expectativa de que o encontro possa destravar negociações sobre o tarifaço imposto pelos EUA a produtos brasileiros. Entre as medidas em discussão está a redução da alíquota de 50% aplicada a setores estratégicos, o que teria impacto positivo nas exportações do Brasil.
Esse possível avanço é acompanhado de perto pelo mercado, já que mudanças no comércio exterior influenciam diretamente o comportamento do dólar no país.
Haddad e a agenda econômica no Congresso
No campo fiscal doméstico, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, destacou que a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil está madura para votação no Congresso. Ele também reafirmou que a prioridade do governo é avançar com a reforma da renda e concluir a reforma do consumo ainda nesta semana.
Esse debate fiscal interno também tem reflexos sobre o dólar, já que a percepção de responsabilidade nas contas públicas influencia o apetite dos investidores estrangeiros pelo Brasil.
Inflação em queda e expectativas para 2025
O Relatório Focus do Banco Central trouxe revisões ligeiramente baixistas para a inflação. A mediana da inflação suavizada nos próximos 12 meses caiu de 4,36% para 4,28%. Para o IPCA de 2025, a projeção recuou de 4,83% para 4,81%, enquanto a de 2026 passou de 4,29% para 4,28%.
Esses números reforçam a percepção de que o Brasil segue em trajetória de controle inflacionário, o que pode contribuir para maior confiança dos investidores e influenciar a cotação do dólar.
IGP-M surpreende em setembro
O IGP-M, conhecido como “inflação do aluguel”, registrou alta de 0,42% em setembro, após avanço de 0,36% em agosto, segundo a FGV. O resultado superou as expectativas do mercado, que projetava 0,32%.
No acumulado de 12 meses, o índice subiu 2,82%, enquanto no ano acumula queda de 0,94%. Essa leitura traz novos elementos para o mercado avaliar os custos de contratos atrelados ao IGP-M, além de refletir na percepção inflacionária do país.
Confiança de comércio e serviços em recuperação
Os indicadores de confiança também mostraram sinais positivos em setembro. O Índice de Confiança do Comércio (ICOM) subiu 1,6 ponto, para 84,7 pontos, interrompendo duas quedas seguidas. Já o Índice de Confiança de Serviços (ICS) avançou 1,9 ponto, para 89,0 pontos, após três meses consecutivos de retração.
Esses resultados indicam uma recuperação moderada da atividade econômica, que pode sustentar o real frente ao dólar caso se consolide nos próximos meses.
Crédito bancário em desaceleração
Em contrapartida, os dados do Banco Central mostraram queda nas concessões de crédito livre dos bancos, que recuaram 3,3% em agosto ante julho, somando R$ 555,6 bilhões. No acumulado de 12 meses, entretanto, houve crescimento de 11,7%.
Esse movimento reforça a cautela das instituições financeiras diante do cenário econômico, mas ainda revela uma expansão significativa na comparação anual.
Perspectivas para o dólar
Diante desse conjunto de fatores, a tendência para o dólar no curto prazo permanece de volatilidade. A definição da última Ptax de setembro deve ser decisiva para o movimento imediato da moeda, enquanto o payroll nos EUA e as negociações políticas em Washington podem dar a direção para a cotação global do dólar ao longo da semana.
No cenário doméstico, a combinação entre controle inflacionário, avanços na agenda de reformas e possível alívio no tarifaço americano tende a favorecer o real, mas a cautela dos investidores em relação ao cenário externo mantém a moeda em compasso de espera.






