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Alcolumbre promulga PL da Dosimetria após prazo vencer sem ato de Lula

Lei altera regras sobre penas de crimes contra o Estado Democrático de Direito e pode ter reflexos sobre condenados pelos atos de 8 de janeiro e sobre ações no STF.

por Júlia Campos
08/05/2026 às 14h46
em Política
Alcolumbre Promulga Pl Da Dosimetria Após Prazo Vencer Sem Ato De Lula - Gazeta Mercantil - Política

O presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), promulgou nesta sexta-feira, 8 de maio de 2026, o PL da Dosimetria, depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixar transcorrer o prazo constitucional de 48 horas sem assinar a promulgação da norma. Com o ato, o texto fica apto a ser publicado em edição extra do Diário Oficial da União e passa a produzir efeitos jurídicos, em uma decisão com impacto direto sobre processos envolvendo condenados por crimes relacionados aos atos de 8 de janeiro e à chamada trama golpista.

A promulgação pelo presidente do Congresso ocorreu após a derrubada, pelo Legislativo, do veto integral de Lula ao projeto. O veto havia sido imposto no início do ano, no dia em que o governo realizou cerimônia de lembrança dos ataques de 8 de janeiro de 2023 às sedes dos Três Poderes. Com a rejeição do veto, cabia ao presidente da República promulgar a lei. Como isso não ocorreu dentro do prazo, a atribuição passou a ser exercida pelo comando do Congresso.

O PL da Dosimetria é um dos temas mais sensíveis da agenda política e jurídica em Brasília. A nova lei modifica a forma de aplicação de penas em crimes contra o Estado Democrático de Direito, especialmente ao unificar punições relacionadas aos crimes de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Também altera regras de progressão de regime, o que pode antecipar a passagem de condenados para regimes menos rigorosos.

A medida tende a reabrir disputas no Supremo Tribunal Federal (STF), onde já tramitam processos e pedidos de revisão de penas ligados aos atos de 8 de janeiro. A base governista sinalizou que deve questionar a constitucionalidade da lei na Corte, mantendo o tema no centro da tensão entre Executivo, Congresso e Judiciário.

Promulgação encerra impasse formal no Congresso

A promulgação do PL da Dosimetria por Davi Alcolumbre encerra a etapa formal necessária para que a lei comece a valer. No rito legislativo, quando o Congresso derruba um veto presidencial, o texto precisa ser promulgado para que possa ser publicado e incorporado ao ordenamento jurídico. Em caso de omissão do presidente da República, a Constituição permite que o ato seja praticado pelo presidente do Senado, que também preside o Congresso Nacional.

Lula não promulgou a norma dentro do prazo de 48 horas. O presidente estava em viagem aos Estados Unidos, onde se reuniu com o presidente americano, Donald Trump. Diante da inércia do Executivo, Alcolumbre assumiu a prerrogativa e assinou o ato de promulgação.

Segundo comunicado do Congresso, o texto seria publicado em edição extra do Diário Oficial da União ainda nesta sexta-feira. Na prática, a publicação é o passo que confere plena vigência à lei e permite que advogados de condenados passem a invocar as novas regras em pedidos judiciais.

A medida tem repercussão imediata porque, até a promulgação, ministros do STF vinham negando pedidos de redução de pena com o argumento de que o PL da Dosimetria ainda não estava em vigor. A partir da publicação, a expectativa é que novas solicitações sejam apresentadas nos processos em tramitação.

Nova lei altera cálculo de penas em crimes contra a democracia

O ponto central do PL da Dosimetria está na alteração do tratamento penal dado a crimes contra o Estado Democrático de Direito. A lei unifica, para fins de aplicação de pena, crimes como golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, que vinham sendo considerados cumulativamente em condenações relacionadas aos ataques de 8 de janeiro.

Essa mudança pode reduzir penas já impostas ou influenciar sentenças futuras, a depender da interpretação dos magistrados. A aplicação concreta da lei, porém, não é automática em todos os casos. Cada pedido deverá ser analisado judicialmente, considerando a conduta atribuída ao condenado, a pena aplicada, o estágio do processo e a eventual existência de outros crimes na condenação.

Além da unificação de penas, o texto ameniza regras de progressão de regime. Isso significa que condenados podem alcançar mais rapidamente os requisitos para passar do regime fechado para o semiaberto ou do semiaberto para o aberto. A mudança tem efeito penal relevante porque altera o tempo efetivo de cumprimento em regimes mais severos.

O impacto jurídico da lei dependerá do entendimento do STF e de outras instâncias sobre sua constitucionalidade, alcance temporal e aplicação aos processos já julgados. Como a norma trata de matéria penal mais benéfica, defensores de condenados devem argumentar que ela pode retroagir. O debate, no entanto, deverá ser enfrentado caso a caso.

Condenados pelo 8 de janeiro devem apresentar novos pedidos

A promulgação do PL da Dosimetria deve provocar uma nova rodada de pedidos de revisão de pena no STF. Até a véspera da promulgação, o ministro Alexandre de Moraes havia negado ao menos dezesseis solicitações de redução de pena relacionadas aos atos de 8 de janeiro, sob o fundamento de que a nova lei ainda não tinha validade jurídica.

Com a publicação no Diário Oficial, esse argumento processual deixa de existir. Advogados de condenados devem reapresentar pedidos, agora sustentando que a nova legislação deve ser aplicada às penas já fixadas. A expectativa é que as petições tratem tanto da unificação dos crimes quanto das novas regras de progressão de regime.

O alcance da lei pode variar de acordo com o perfil de cada condenado. Pessoas condenadas por participação direta na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes podem buscar redução de pena com base na nova dosimetria. Já processos envolvendo supostos mandantes ou organizadores da trama terão discussão mais complexa, por envolverem condutas, provas e imputações distintas.

O ex-presidente Jair Bolsonaro também pode ser afetado pela discussão, caso a interpretação da lei seja aplicada a condenações relacionadas à trama golpista. Durante a tramitação do projeto na Câmara, aliados do ex-presidente defendiam que a mudança poderia reduzir o tempo de cumprimento de pena e antecipar eventual progressão de regime. Qualquer efeito concreto, porém, dependerá de decisão judicial.

Governo deve levar disputa ao Supremo

A base do governo Lula no Congresso já indicou que pretende acionar o STF contra o PL da Dosimetria. O argumento central deve ser a alegação de inconstitucionalidade da lei, especialmente pela possibilidade de reduzir penas impostas a condenados por ataques às instituições democráticas.

A disputa tende a colocar o Supremo novamente no centro do embate entre governo e Congresso. De um lado, parlamentares que apoiaram a derrubada do veto defendem que o Legislativo exerceu sua competência constitucional ao revisar a legislação penal. De outro, governistas sustentam que a norma pode fragilizar a responsabilização por atos contra a ordem democrática.

O STF terá de avaliar não apenas o conteúdo da lei, mas também seus efeitos sobre processos já concluídos ou em andamento. A Corte pode ser provocada a decidir se a nova regra é compatível com a Constituição, se deve produzir efeitos imediatos e como deve ser aplicada às condenações já proferidas.

A judicialização é considerada provável porque o tema combina matéria penal, separação de Poderes e responsabilização por crimes contra a democracia. A depender da decisão do Supremo, a lei poderá ser mantida, suspensa integralmente ou ter aplicação limitada.

Derrubada do veto expôs derrota política do Planalto

A promulgação do PL da Dosimetria também representa uma derrota política para o governo Lula. O Congresso derrubou o veto presidencial em meio a uma sequência de reveses do Planalto no Legislativo. A rejeição ao veto ocorreu um dia depois de o Senado barrar a indicação de Jorge Messias ao STF, em uma votação vista como uma das derrotas mais significativas do governo no ano.

O episódio reforça a dificuldade do Executivo em controlar pautas sensíveis no Congresso, especialmente quando envolvem segurança jurídica, anistia indireta, punições relacionadas ao 8 de janeiro e disputas eleitorais futuras. Embora o governo tenha vetado integralmente o texto, não conseguiu sustentar a decisão na votação conjunta de deputados e senadores.

A atuação de Alcolumbre, ao promulgar a lei, segue o rito institucional previsto após a queda do veto. Ainda assim, o gesto tem peso político porque formaliza uma decisão contrária à posição defendida pelo Palácio do Planalto. O presidente do Congresso passa a ocupar papel central em uma pauta de forte impacto institucional.

O caso também amplia a tensão entre Executivo e Legislativo em um momento de agenda carregada. A relação entre governo e Congresso já vinha pressionada por disputas sobre nomeações, vetos, emendas, orçamento e projetos de interesse da base aliada e da oposição.

Dosimetria reabre debate sobre punição e pacificação política

A tramitação do PL da Dosimetria foi marcada por forte disputa política. Defensores do texto argumentam que as penas aplicadas em alguns casos ligados ao 8 de janeiro foram excessivas e que a legislação precisava corrigir distorções na aplicação cumulativa de crimes. Já críticos afirmam que a lei enfraquece a punição a ataques contra as instituições e pode funcionar como uma forma indireta de aliviar condenações de envolvidos em atos antidemocráticos.

No campo jurídico, o debate se concentra na proporcionalidade das penas, na retroatividade da lei penal mais benéfica e na proteção constitucional do Estado Democrático de Direito. A questão não se resume à duração das condenações, mas ao sinal institucional enviado pelo país diante de episódios de violência política e tentativa de ruptura democrática.

A nova lei também terá impacto sobre a estratégia de defesa de réus e condenados. Escritórios de advocacia devem revisar cálculos de pena, prazos de progressão e possibilidades de recursos. O Ministério Público, por sua vez, poderá se manifestar contra reduções automáticas ou defender interpretações restritivas da norma.

A depender da velocidade com que os pedidos cheguem ao STF, a Corte pode ser obrigada a enfrentar rapidamente os primeiros efeitos práticos da lei. Decisões monocráticas iniciais podem balizar a atuação dos demais ministros, mas a tendência é que o plenário seja chamado a definir uma orientação mais ampla.

Lei começa a valer sob risco de contestação judicial

Com a promulgação por Davi Alcolumbre, o PL da Dosimetria entra em nova fase. A discussão deixa de ser apenas legislativa e passa a produzir efeitos no sistema de Justiça. A publicação no Diário Oficial abre espaço para pedidos de revisão de pena, progressão de regime e questionamentos constitucionais.

O governo deve tentar conter os efeitos da lei por meio de ação no STF. Até que a Corte se manifeste, porém, defensores de condenados tendem a pedir a aplicação imediata das novas regras. Esse intervalo pode gerar decisões distintas e disputas processuais relevantes nos próximos dias.

O episódio também reforça o peso político do Congresso na definição de temas penais ligados aos atos de 8 de janeiro. Ao derrubar o veto e promulgar a lei, o Legislativo impôs uma derrota ao Planalto e transferiu ao Judiciário a tarefa de arbitrar os limites constitucionais da mudança.

A Lei da Dosimetria começa a valer em meio a um ambiente de tensão institucional, com efeitos potenciais sobre condenados, lideranças políticas e a relação entre os Poderes. O desfecho dependerá agora da reação do STF, da estratégia do governo e da forma como os tribunais interpretarão a nova regra penal.

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