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Banco Central: caso Master expõe Diretoria de Fiscalização e amplia investigação da Polícia Federal

por Álvaro Lima
04/03/2026 às 20h43
em Economia
Banco Central - Gazeta Mercantil

Banco Central / Foto: Agência Brasil

Caso Master expõe áreas estratégicas do Banco Central e leva ao afastamento de ex-diretores de fiscalização

A nova fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal (PF), ampliou o alcance das investigações envolvendo o Banco Master e atingiu diretamente estruturas sensíveis do Banco Central do Brasil. Dois servidores que ocuparam posições estratégicas na autarquia monetária foram afastados cautelarmente: Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana.

O episódio lança luz sobre o funcionamento interno do Banco Central, especialmente sobre as engrenagens responsáveis pela supervisão do sistema financeiro nacional. No centro das apurações estão atos praticados no âmbito da Diretoria de Fiscalização (Difis) e do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), estruturas consideradas pilares da estabilidade bancária no país.

Leia também: Galípolo diz no Senado que Banco Central não será “palanque político” em caso Campos Neto.

As medidas cautelares foram adotadas após indícios identificados em revisão interna conduzida pelo próprio Banco Central, que já investigava fatos relacionados ao Banco Master desde 2018, quando o controlador Daniel Vorcaro obteve autorização para adquirir o Banco Máxima.

O caso, além de ter repercussão jurídica, reabre o debate sobre governança, controles internos e robustez dos mecanismos de supervisão do Banco Central.

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Diretoria de Fiscalização: o núcleo duro da supervisão do Banco Central

A Diretoria de Fiscalização (Difis) é uma das oito diretorias que compõem a estrutura do Banco Central. Ligada diretamente à presidência da instituição, a área é responsável por supervisionar todas as instituições financeiras autorizadas a operar no Brasil.

A função da Difis vai além da fiscalização tradicional. Cabe à diretoria acompanhar o modelo de negócios das instituições, avaliar sua solvência financeira, monitorar riscos sistêmicos e assegurar o cumprimento das normas prudenciais.

Leia também: Polícia apreende 47 quilos de haxixe em empresa da família do senador Jorge Seif em Itajaí.

Na prática, o trabalho da Difis consiste em verificar se os bancos possuem capital suficiente para honrar compromissos, sobretudo obrigações de longo prazo, e se mantêm práticas compatíveis com a legislação vigente. Essa engrenagem é essencial para preservar a confiança no sistema financeiro — missão institucional do Banco Central.

O diretor da área também representa o Brasil em fóruns internacionais relevantes, como o Comitê de Supervisão Bancária da Basileia, espaço em que se discutem padrões globais de gerenciamento de risco e protocolos de crise.

A eventual fragilização dessa estrutura, ainda que pontual, tem potencial de gerar questionamentos sobre os mecanismos de controle do próprio Banco Central.


Departamento de Supervisão Bancária: monitoramento de capital e liquidez

Subordinado à Difis, o Departamento de Supervisão Bancária (Desup) é responsável por análises técnicas que sustentam decisões estratégicas do Banco Central.

O Desup monitora indicadores de capitalização, liquidez e qualidade de ativos das instituições financeiras. Também acompanha práticas de governança, controles internos e classificação de risco.

É esse departamento que sinaliza quando uma instituição exige medidas preventivas, como aumento de provisões, reforço de capital ou restrições operacionais. No caso de conglomerados financeiros liderados por bancos — como o Banco Master —, a supervisão se estende a todo o grupo econômico.

A atuação do Desup integra o arcabouço prudencial do Banco Central, desenhado para evitar desequilíbrios que possam comprometer o sistema financeiro como um todo.


Investigação interna antecedeu ação da Polícia Federal

Segundo comunicado oficial, o Banco Central identificou indícios de percepção de vantagens indevidas por dois servidores durante revisão interna de processos ligados à fiscalização e à liquidação do Banco Master.

A autarquia informou que, diante dos indícios, afastou cautelarmente os servidores, restringiu acesso às dependências e sistemas da instituição, instaurou procedimentos correcionais e comunicou os fatos à Polícia Federal.

O posicionamento reforça que o Banco Central adotou medidas administrativas antes mesmo da nova fase ostensiva da operação.

A instituição destacou que as apurações respeitam o devido processo legal e o direito à ampla defesa, acrescentando que eventuais infrações receberão resposta sancionatória conforme a legislação.


Autonomia institucional e governança sob escrutínio

Desde a aprovação da autonomia formal, o Banco Central passou a operar com mandatos fixos para seus diretores, indicados pelo presidente da República e sabatinados pelo Senado.

Esse desenho institucional visa reduzir interferências políticas e fortalecer a estabilidade da política monetária e da supervisão bancária.

O episódio envolvendo ex-dirigentes de fiscalização não altera a estrutura de autonomia, mas coloca sob análise os mecanismos internos de compliance e controle.

Especialistas em governança apontam que a credibilidade do Banco Central depende não apenas da formulação técnica de normas, mas da aplicação rigorosa e isonômica dessas regras.


Caso Master reacende debate sobre supervisão prudencial

O Banco Master já estava no radar do Banco Central desde 2018, quando ocorreu a autorização para aquisição do Banco Máxima. A auditoria interna examinava atos administrativos relacionados ao processo.

A Operação Compliance Zero ampliou o foco para possíveis irregularidades na condução desses procedimentos.

No ambiente financeiro, a supervisão prudencial exercida pelo Banco Central é considerada linha de defesa essencial contra riscos sistêmicos. A atuação tempestiva da autoridade monetária costuma ser decisiva para evitar crises de confiança.

O caso atual, embora circunscrito a fatos específicos, reforça a importância de transparência e rigor técnico.


Estrutura do Banco Central e responsabilidade sistêmica

O Banco Central é responsável por executar a política monetária, regular o sistema financeiro, administrar reservas internacionais e supervisionar instituições financeiras.

Suas oito diretorias atuam de forma integrada, mas a área de fiscalização é tradicionalmente vista como um dos pilares da estabilidade bancária.

A eventual concessão de sobrevida a operações suspeitas — ponto sob investigação — ganha dimensão relevante justamente por envolver setores estratégicos do Banco Central.

Em sistemas financeiros complexos, a credibilidade da autoridade supervisora é elemento-chave para manter confiança de investidores, depositantes e agentes econômicos.


Repercussão institucional e próximos desdobramentos

A investigação conduzida pela Polícia Federal deve avançar na análise documental e na apuração de responsabilidades individuais.

No âmbito administrativo, o Banco Central seguirá com procedimentos internos para apurar condutas e eventual responsabilização.

Analistas observam que, até o momento, não há indícios de comprometimento estrutural da supervisão bancária. Ainda assim, o caso impõe ao Banco Central o desafio de reafirmar seus padrões de governança e reforçar mecanismos de controle interno.

Em um cenário global marcado por volatilidade e crescente complexidade regulatória, a robustez institucional do Banco Central permanece elemento central para a estabilidade do sistema financeiro brasileiro.


Operação Compliance Zero amplia escrutínio sobre fiscalização bancária

A nova fase da Operação Compliance Zero não apenas recoloca o Banco Master sob investigação, como amplia o escrutínio público sobre áreas sensíveis do Banco Central.

O episódio evidencia que estruturas de fiscalização, embora técnicas e altamente especializadas, não estão imunes a questionamentos.

A resposta institucional rápida — com afastamentos cautelares e comunicação às autoridades — será determinante para preservar a credibilidade do Banco Central.

Nos próximos meses, os desdobramentos jurídicos e administrativos deverão oferecer maior clareza sobre responsabilidades individuais e eventuais falhas procedimentais.

Para o mercado, o ponto central permanece: a capacidade do Banco Central de manter a integridade de sua função supervisora e assegurar que o sistema financeiro opere dentro dos padrões prudenciais estabelecidos.

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