Caso Banco Master coloca FGC sob pressão inédita e gera perdas reais para detentores de CDBs
Por Redação Economia Atualizado em 14 de janeiro de 2026
A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada oficialmente em 18 de novembro, transformou-se em um dos capítulos mais complexos e tensos da história recente do sistema financeiro nacional. O caso não apenas expõe as fragilidades de estratégias de captação agressivas, mas também coloca o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) diante de seu maior teste de estresse. Para os cerca de 1,6 milhão de investidores que alocaram recursos nos CDBs do Banco Master, a espera pelo ressarcimento já dura quase dois meses, gerando ansiedade e, pior, prejuízos financeiros silenciosos que corroem a rentabilidade prometida.
O cenário tornou-se ainda mais nebuloso com a recente intervenção de órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Supremo Tribunal Federal (STF), que passaram a escrutinar a atuação do Banco Central (BC) no processo. Embora o temor de uma reversão da liquidação tenha diminuído nos últimos dias, o episódio deixa lições amargas e expõe riscos que muitos poupadores ignoraram na busca por retornos acima da média de mercado oferecidos pelos CDBs do Banco Master.
O Imbróglio Jurídico e o Risco de “Desliquidação”
Desde a decretação da liquidação, uma batalha institucional se desenhou nos bastidores de Brasília. O presidente do TCU, Vital do Rêgo, confirmou na última segunda-feira (12) que o Banco Central aceitou passar por uma inspeção da Corte de Contas. O objetivo é verificar se a autoridade monetária agiu com a devida diligência e regularidade na condução do caso Master. Em resposta, o BC retirou, na terça-feira (13), o recurso que havia apresentado contra a decisão monocrática do ministro Jhonatan de Jesus, que ordenou a auditoria.
Essa movimentação gerou um temor palpável no mercado: a possibilidade de uma reversão da liquidação extrajudicial. Para os detentores de CDBs do Banco Master, esse cenário seria, paradoxalmente, a pior notícia possível. Caso a liquidação fosse anulada, a responsabilidade pelo pagamento dos investimentos retornaria para a instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro.
O problema reside na confiança. Para conseguir honrar o resgate dos CDBs do Banco Master e cobrir seus passivos gigantescos, o banco precisaria retomar uma captação acelerada no mercado. Contudo, após os escândalos recentes e a exposição pública de insolvência, seria virtualmente impossível para a instituição reconquistar a credibilidade necessária para atrair novos investidores. Sem confiança, não há liquidez, e sem liquidez, o calote seria inevitável, deixando os investidores sem a proteção imediata do FGC.
Felizmente, auditores do TCU já sinalizaram que o Banco Central agiu corretamente em suas investigações preliminares. Essa constatação técnica afasta, na prática, o risco de uma “desliquidação. O processo segue seu curso natural, mantendo a garantia do FGC como o porto seguro para quem investiu nos CDBs do Banco Master, embora o calendário de pagamentos continue sendo uma incógnita angustiante.
O Maior Resgate da História do FGC
As cifras envolvidas no colapso do Banco Master são superlativas e desenham um cenário de pressão inédita sobre o FGC. As estimativas da entidade apontam que o valor total elegível para ressarcimento é de aproximadamente R$ 41 bilhões. Esse montante deverá ser distribuído entre 1,6 milhão de credores, a grande maioria pessoas físicas que apostaram na alta rentabilidade dos CDBs do Banco Master.
Para se ter uma ideia da dimensão deste evento, é necessário olhar para o caixa do fundo. Dados de setembro de 2025 indicam que o FGC possuía um patrimônio total de R$ 160 bilhões. Deste montante, R$ 122 bilhões correspondiam a recursos líquidos, ou seja, dinheiro prontamente disponível para cobrir garantias. O pagamento aos investidores do Master consumirá, portanto, cerca de um terço de toda a liquidez do sistema garantidor brasileiro em uma única tacada.
Historicamente, se os números se confirmarem, a quebra do Master superará o emblemático caso do Bamerindus, que sofreu intervenção em 1997. Naquela época, o fundo desembolsou cerca de R$ 3,744 bilhões. Mesmo corrigindo esse valor pela inflação acumulada até hoje, o total chegaria a R$ 19,1 bilhões — menos da metade do rombo deixado pelos CDBs do Banco Master.
Apesar do volume financeiro recorde, o Bamerindus ainda mantém o posto de maior caso em número de investidores afetados, com mais de 3,9 milhões de clientes ressarcidos, contra o 1,6 milhão previsto no caso atual. No entanto, a concentração de valores per capita no Master é significativamente maior, refletindo a natureza dos produtos vendidos, focados em atrair capital especulativo com taxas agressivas.
A Via Crucis da Espera: Prazos e Comparações
A liquidação ocorreu em 18 de novembro. Desde então, o silêncio e a burocracia têm sido os companheiros diários de quem aplicou nos CDBs do Banco Master. Já se passaram quase dois meses sem que os pagamentos fossem iniciados, um intervalo que supera a média observada em quebras recentes.
Uma análise dos dados de intervenções ocorridas de 2018 para cá — envolvendo instituições como Banco Neon, Domus Companhia Hipotecária, Dacasa Financeira, CHB, Portocred e BRK Financeira — mostra que o tempo médio para o início dos pagamentos foi de apenas 27 dias. O caso Master já extrapolou esse prazo em mais do dobro do tempo.
Ao ampliar o horizonte histórico para 1996, englobando 39 instituições financeiras liquidadas, a média de espera sobe para 81 dias. Contudo, essa média é distorcida por casos excepcionais e antigos, onde a tecnologia de processamento de dados era precária. O caso mais demorado registrado foi o do Banco de Financiamento Internacional (BFI), onde os credores amargaram uma espera de 3 anos, 8 meses e 3 dias, entre 1996 e 1999, devido a pendências judiciais complexas.
Existem também exemplos opostos, como o do Banco Lavra, onde o pagamento ocorreu antes mesmo da liquidação extrajudicial, em uma ação preventiva. O Banco Rural, outro caso notório, teve um atraso de 3 meses e 6 dias causado por medidas judiciais. O temor dos investidores em CDBs do Banco Master é que o escrutínio do TCU e do STF acabe empurrando o cronograma para prazos semelhantes ou superiores ao do Banco Rural.
A “Corrosão” da Rentabilidade: O Prejuízo Invisível
Um detalhe técnico, muitas vezes desconhecido pelo grande público, está causando perdas reais aos investidores, mesmo com a garantia do FGC. A regra é clara: o fundo garante o valor investido somado aos rendimentos apenas até a data da decretação da liquidação. A partir do dia 18 de novembro, o dinheiro aplicado nos CDBs do Banco Master parou de render.
Estamos falando de dois meses de capital estagnado em um cenário econômico onde a inflação e os juros continuam correndo. Enquanto o dinheiro dos investidores do Master “dorme”, o CDI acumulado no período foi de 2,3% e a inflação oficial (IPCA) registrou alta de 0,5%. Isso significa que, em termos reais e de custo de oportunidade, os detentores de CDBs do Banco Master estão perdendo dinheiro a cada dia que o pagamento atrasa.
A matemática é cruel para quem buscou o banco justamente pelas taxas altas. No auge de sua expansão, o Master chegou a ofertar títulos pagando 140% do CDI. Quem travou essa taxa ainda possui uma “gordura” para queimar e, provavelmente, não sairá no prejuízo nominal. No entanto, a situação é diferente para quem entrou em ofertas menos agressivas.
Carlos Castro, planejador financeiro CFP pela Planejar, realizou simulações que ilustram esse impacto. Um investidor que comprou CDBs do Banco Master com taxa de 120% do CDI, devido ao congelamento da rentabilidade por dois meses, viu o retorno efetivo de sua aplicação cair para o equivalente a 99,6% do CDI até o momento.
Ou seja, o risco assumido ao investir em um banco de médio porte com problemas de governança acabou resultando em um retorno inferior ao de um CDB de grande banco, que paga entre 100% e 105% do CDI com risco de crédito infinitamente menor. Essa é a “pegadinha” da liquidação: a garantia do FGC devolve o principal e os juros até a quebra, mas não compensa o tempo perdido na fila do ressarcimento.
Lições de Educação Financeira e Gestão de Risco
O episódio dos CDBs do Banco Master serve como um estudo de caso definitivo sobre a relação entre risco e retorno no mercado de renda fixa brasileiro. Rafaela de Sá, planejadora financeira CFP, destaca que a principal lição é o ceticismo saudável: rentabilidade muito acima da média do mercado quase sempre embuti um prêmio de risco elevado.
Bancos menores e com maior dificuldade de captação precisam oferecer taxas sedutoras — como os 140% do CDI vistos no Master — para atrair capital. O investidor, ao aceitar essa taxa, está implicitamente aceitando financiar uma operação mais arriscada. A diversificação por emissor torna-se, então, uma regra de ouro. Concentrar todo o patrimônio em CDBs do Banco Master revelou-se uma estratégia perigosa, não pela perda total do capital (protegido pelo FGC), mas pela indisponibilidade dos recursos e pela perda de rentabilidade no período de carência.
Para avaliar a saúde de uma instituição antes de investir, não basta olhar a taxa. É fundamental observar:
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O porte e o histórico do banco.
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O modelo de negócios.
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O grau de dependência de captação via CDB (bancos saudáveis têm fontes diversificadas de funding).
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Notas de crédito (ratings) atribuídas por agências independentes.
Os Limites e a Função do FGC
Muitos investidores tratam o FGC como um seguro irrestrito, o que é um erro conceitual. O caso dos CDBs do Banco Master reforça a necessidade de compreender as regras de cobertura. O teto é de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira ou conglomerado. Além disso, existe um teto global de R$ 1 milhão renovável a cada quatro anos.
Isso significa que um investidor que tinha R$ 400 mil em CDBs do Banco Master perderá imediatamente R$ 150 mil, mais os rendimentos excedentes. Além disso, se esse mesmo investidor já teve ressarcimentos anteriores que somam valores altos nos últimos quatro anos, ele pode encontrar-se sem cobertura alguma.
Especialistas orientam a enxergar o FGC como uma “última linha de defesa”, e não como uma justificativa para ignorar a análise de crédito da instituição. O fundo garante o valor nominal (até o limite), mas não protege contra a dor de cabeça, a burocracia, o estresse emocional e o custo de oportunidade do dinheiro parado, como está ficando evidente para os milhares de brasileiros expostos aos CDBs do Banco Master.
O Futuro do Caso e Expectativas
Com o recuo do Banco Central em relação ao recurso no TCU e a confirmação da regularidade das investigações iniciais, a expectativa é que o processo de pagamento comece a destravar. O FGC já possui a lista de credores e os valores, dependendo apenas da validação final do liquidante e do sinal verde jurídico para iniciar o aplicativo de solicitação de pagamentos.
A pressão social é imensa. R$ 41 bilhões fora de circulação têm impacto na economia real. Muitos investidores contavam com a liquidez dos CDBs do Banco Master para compromissos de início de ano, como IPVA, IPTU e matrículas escolares. A demora no ressarcimento transforma um problema financeiro em um problema social.
O caso deixará cicatrizes no mercado. É provável que vejamos uma maior aversão a risco em emissores bancários menores no curto prazo, e uma demanda por maior transparência nas contas de instituições que oferecem taxas muito destoantes. Para o investidor, fica o aprendizado prático e doloroso: na renda fixa, a garantia do FGC é robusta, mas não é um passe livre para ignorar os fundamentos de quem está tomando seu dinheiro emprestado.
Enquanto a novela se arrasta, os detentores de CDBs do Banco Master seguem acompanhando cada nota oficial do FGC e cada movimento em Brasília, esperando que o capítulo final — o dinheiro na conta — chegue antes que a inflação corroa ainda mais seus ganhos passados.






