Depoimento de Carlos Lupi na CPI do INSS: principais pontos e contradições
O depoimento de Carlos Lupi à CPI do INSS mobilizou atenções em Brasília. Em uma sessão que durou cerca de nove horas, o ex-ministro da Previdência respondeu a questionamentos sobre fraudes bilionárias envolvendo descontos irregulares em aposentadorias e pensões. O depoimento, iniciado na segunda-feira (8) e concluído na madrugada de terça (9), trouxe declarações polêmicas, embates entre parlamentares e o reconhecimento de falhas na gestão da pasta.
Lupi tentou reforçar que não é investigado, mas sim testemunha, e buscou esclarecer sua posição sobre as denúncias que vieram à tona desde 2023. O conteúdo de sua fala, no entanto, gerou críticas e pode ter desdobramentos políticos e jurídicos.
Por que o depoimento de Carlos Lupi é importante
O depoimento de Carlos Lupi ocorreu em meio à maior investigação já aberta contra o INSS por irregularidades. A CPI apura descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas que, de forma irregular, eram destinados a sindicatos e associações. A Polícia Federal estima que o esquema tenha movimentado bilhões de reais.
A relevância do depoimento se deve ao fato de Lupi ter sido ministro da Previdência até maio de 2025, período em que o esquema se intensificou. A forma como ele respondeu às perguntas e as contradições levantadas por parlamentares colocaram em dúvida seu nível de responsabilidade na condução do tema.
Principais pontos do depoimento de Carlos Lupi
1. Não é investigado
Logo no início, Lupi destacou que compareceu à CPI como testemunha, e não como investigado. Ressaltou estar à disposição para colaborar com o processo e reforçou que não tem envolvimento direto no esquema.
2. Denúncias desde 2023
O depoimento de Carlos Lupi confirmou que denúncias sobre descontos indevidos começaram a chegar em 2023, vindas de diferentes canais, como a Ouvidoria do INSS, técnicos do TCU, CGU e Conselho Nacional da Previdência Social. Ele admitiu que tomou conhecimento dos problemas antes da operação policial, mas alegou que não tinha dimensão do tamanho da fraude.
3. Criação de grupo de trabalho
Em maio de 2023, foi criado um grupo entre INSS e Polícia Federal para investigar as denúncias. Ainda naquele ano, a Dataprev foi transferida para o Ministério de Gestão e Inovação (MGI), com a promessa de reforçar os sistemas de controle. Segundo Lupi, em janeiro de 2024 os aposentados puderam solicitar bloqueio dos descontos, e em março uma instrução normativa foi editada para tentar frear os desvios.
4. Falhas de gestão
O ex-ministro admitiu que houve falhas. Reconheceu que sua gestão não tomou medidas mais enérgicas para enfrentar as fraudes, alegando que não tinha condições de prever a extensão dos problemas.
5. Relação com Frei Chico
Durante o depoimento, Lupi mencionou conhecer Frei Chico, irmão de Lula, desde a época em que foi ministro do Trabalho. Negou, porém, que o sindicalista tenha feito pedidos relacionados às irregularidades.
6. Negou conhecer empresários
Lupi negou qualquer relação com os empresários Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, e Maurício Camisotti, ambos citados pela Polícia Federal. Disse que, como homem público, sempre recebeu entidades sindicais, mas que isso não pode ser confundido com participação em fraudes.
7. Lula só soube com a operação
Outro ponto relevante do depoimento de Carlos Lupi foi a afirmação de que o presidente Lula só foi informado sobre o esquema no dia em que a operação conjunta da PF e CGU foi deflagrada. Lupi declarou não ter tido elementos suficientes para alertar o chefe do Executivo antes.
O clima político durante a sessão
A sessão foi marcada por fortes discussões entre parlamentares da oposição e da base governista. Em um dos momentos mais tensos, Lupi se recusou a responder a perguntas do deputado Marcel Van Hattem (NOVO-RS), gerando bate-boca que precisou ser contido.
O ambiente reforçou o caráter político da CPI do INSS, que vai além da apuração técnica e se tornou palco de disputas entre apoiadores de Jair Bolsonaro e aliados de Lula.
Repercussão e contradições
O depoimento de Carlos Lupi trouxe pontos considerados contraditórios pela presidência da CPI. Se por um lado ele admitiu falhas de gestão, por outro, tentou minimizar sua responsabilidade, alegando que o INSS é uma autarquia independente.
Parlamentares também questionaram a demora em adotar medidas mais duras, já que as primeiras denúncias chegaram em 2023, mas só em 2024 o INSS publicou norma para conter fraudes. Para críticos, isso evidencia omissão administrativa.
Histórico de Lupi em polêmicas
O ex-ministro não é estranho a crises políticas. Em 2011, quando ocupava a pasta do Trabalho, já havia enfrentado acusações relacionadas a convênios irregulares com ONGs. Na época, também negou má-fé e afirmou ter cometido apenas erros administrativos.
Esse histórico reforça a desconfiança de parte dos parlamentares, que acreditam que o depoimento de Carlos Lupi não esclareceu completamente seu papel diante das denúncias previdenciárias.
O que esperar da CPI do INSS após o depoimento
O próximo passo da CPI será analisar os documentos oficiais da PF, CGU e TCU e confrontá-los com as falas de Lupi. O presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), já declarou que avalia reconvocá-lo para novos esclarecimentos ou até promover acareações com outros envolvidos.
A reconvocação do ex-ministro pode ser decisiva para confirmar ou refutar contradições apresentadas em seu primeiro depoimento.
O depoimento de Carlos Lupi à CPI do INSS mostrou a complexidade das investigações sobre fraudes em aposentadorias. Apesar de ter reforçado que não é investigado, suas falas levantaram dúvidas sobre o nível de responsabilidade do ministério.
A comissão ainda terá de cruzar documentos e depoimentos para chegar a conclusões. O caso pode impactar não apenas a reputação de Lupi, mas também a credibilidade do sistema previdenciário e a confiança dos milhões de brasileiros que dependem do INSS.






