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FIDCs registram forte demanda em 2026 e devem alcançar R$ 1 trilhão

por Camila Braga
13/02/2026 às 09h08
em Economia
Fidcs Registram Forte Demanda Em 2026 E Devem Alcançar R$ 1 Trilhão - Gazeta Mercantil

FIDCs começam 2026 com forte demanda e perspectiva de crescimento recorde

O mercado de FIDCs (Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios) iniciou 2026 com grande dinamismo, impulsionado pelo aumento da procura dos investidores e pela necessidade de capital de giro das empresas em um cenário econômico aquecido. Depois de registrar crescimento de 9,5% no volume emitido em 2025, com R$ 90,7 bilhões captados, os fundos que compram recebíveis de crédito de empresas e instituições financeiras consolidam sua posição como alternativa estratégica de investimento e financiamento.

O destaque recente foi a captação de R$ 1 bilhão pelo FIDC da Listo, fintech voltada ao setor automotivo, em operação anunciada na quinta-feira (12). Este montante representa mais que o dobro do maior fundo previamente captado pela empresa, de R$ 400 milhões, e corresponde a um terço do total de captação da fintech desde 2014, quando foi fundada, atingindo até então R$ 3 bilhões.

Olavo Cabral Netto, CEO e fundador da Listo, ressaltou que o valor permitirá dobrar a capacidade operacional da empresa no curto e médio prazos, ampliando o capital de giro para uma base que processa aproximadamente R$ 4 bilhões por ano em transações, especialmente do setor automotivo, em tempo real. Para celebrar a captação, Cabral Netto tocou o sino de abertura do pregão da B3, marcando o início de um ciclo promissor.


Por que os FIDCs estão atraindo investidores institucionais?

Nos últimos nove anos, a Listo emitiu fundos com inadimplência historicamente baixa, o que fortaleceu a confiança de investidores de renda fixa e ampliou o leque de compradores de cotas de FIDCs. Atualmente, grandes gestoras de recursos e bancos demonstram interesse crescente em participar desses fundos, atraídos pela qualidade dos recebíveis e pelo retorno acima do CDI, sem expor-se de forma significativa ao risco de crédito.

Do total captado pelo FIDC da Listo, R$ 700 milhões correspondem a recursos novos, enquanto R$ 300 milhões representam investidores existentes que alongaram o prazo da operação. O perfil dos investidores também se transformou: de 30 cotistas em emissões anteriores, o fundo atual concentra-se em apenas seis grandes investidores institucionais, refletindo uma demanda por produtos mais sofisticados e seletivos.

Cabral Netto observa que os investidores estão cada vez mais criteriosos, focando na qualidade e na veracidade dos recebíveis adquiridos. O FIDC da Listo apresenta três classes de cotas, sendo a remuneração básica de CDI mais 0,70% ao ano, podendo ser maior nas duas séries de cotas mezanino, que apresentam maior risco e potencial de retorno.


Impacto da queda de juros no mercado de FIDCs

A expectativa de redução da taxa Selic em 2026 favorece a expansão dos FIDCs, uma vez que a geração de recebíveis pelas empresas tende a aumentar, e os investidores buscam alternativas diversificadas de investimento em crédito. Os fundos geralmente possuem duração de 18 a 24 meses, enquanto os recebíveis adquiridos apresentam prazos curtos, permitindo que os gestores ajustem estratégias de alongamento das operações conforme a demanda.

Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, destaca que, embora janeiro costume ser um mês de baixa atividade em emissões, este ano começou de forma intensa. Fatores como a baixa rentabilidade de outros ativos de renda fixa, a forte captação de fundos nos últimos meses e o retorno de recursos do Master ao mercado impulsionam o movimento.

Outro ponto relevante é a tributação de dividendos, com o imposto mínimo de 10% implementado em 2026, que estimula investidores a buscarem aplicações tributadas, incluindo FIDCs, que podem apresentar vantagens fiscais, como a ausência de come-cotas para determinados fundos.


Crescimento estrutural e familiaridade do investidor

Nos últimos quatro anos, o volume emitido de FIDCs praticamente dobrou, passando de R$ 48,7 bilhões em 2022 para R$ 90,7 bilhões em 2025. Esse crescimento reflete a maior familiaridade dos investidores com o instrumento, considerado estruturado, com detalhes operacionais específicos e retorno potencialmente superior ao de fundos tradicionais.

“Em um mercado com spreads apertados, o investidor busca alternativas com maior retorno, e os FIDCs, por suas características, oferecem essa oportunidade. Gestores tradicionais passaram a desenvolver fundos específicos para diversificação e menor tributação”, explica Maranhão. O instrumento tornou-se porta de entrada para pequenas e médias empresas, que conseguem se financiar com custo inferior ao de seu próprio risco de crédito, utilizando recebíveis de qualidade, muitas vezes de grandes devedores.


Grandes gestoras ampliam operações em FIDCs

A Ouro Preto Investimentos prepara o lançamento de um FIDC de R$ 500 milhões, previsto para conclusão em março. Leandro Turaça, sócio-gestor, observa interesse crescente de grandes gestoras e fundos multimercados em investir nesses instrumentos, que se mostram menos sensíveis a oscilações, mesmo em ano eleitoral.

O setor de FIDCs cresce de forma estruturada, com aumento de 25,5% no número de carteiras, chegando a 3.859, enquanto o total de fundos aumentou apenas 4,9%. O patrimônio líquido desses fundos subiu 15%, para R$ 734 bilhões, ante 15,5% do crescimento do volume investido em fundos em geral. Estima-se que, entre abril e maio de 2026, o total investido em FIDCs possa atingir R$ 1 trilhão, consolidando a popularização do produto entre investidores institucionais e, futuramente, no varejo.

A retração do crédito bancário, decorrente do aumento do juro no ano anterior, também contribui para a oferta de recebíveis e para a seletividade na qualidade do crédito adquirido pelos FIDCs. “Os bancos reduziram a concessão de crédito, e clientes que antes operavam com eles passaram a negociar com FIDCs, fenômeno conhecido como desbancarização do crédito tradicional”, explica Turaça.


Rentabilidade e perspectivas para 2026

A rentabilidade dos FIDCs costuma acompanhar o CDI mais 3% a 4% ao ano, mantendo-se atrativa mesmo com a perspectiva de estabilidade ou ligeira redução da Selic. A Ouro Preto lidera o segmento, com destaque para recebíveis comerciais, industriais, duplicatas, faturas de cartão de crédito e direitos creditórios judiciais, incluindo precatórios. O mercado também projeta crescimento para recebíveis de consignado no setor privado, considerado a nova vertente promissora para 2026.

A gestora mantém R$ 15 bilhões sob administração, sendo R$ 11 bilhões em FIDCs, e projeta crescimento de 20% ao longo do ano, considerando rendimentos de cerca de 13% e captação adicional de 4%. Segundo Turaça, a fase de juros altos já passou, com a Selic recuando de 15% para 12% ao ano, inflação controlada e gasto público ajustado, reduzindo riscos para empresas e investidores.

O monitoramento das carteiras é constante, abrangendo cerca de 8 mil empresas, e não há indícios de aumento da inadimplência neste início de ano. O avanço para o varejo deve ocorrer gradualmente, com investidores adquirindo cotas de fundos que investem em FIDCs, enquanto gestores profissionais selecionam os melhores fundos para compor as carteiras.


Expansão e consolidação do mercado de FIDCs

O panorama atual indica que os FIDCs consolidam-se como alternativa estratégica de financiamento e investimento. Com crescimento consistente, aumento da familiaridade do investidor e ambiente regulatório e tributário favorável, os fundos se posicionam como uma das opções mais seguras e rentáveis do mercado de crédito estruturado.

A diversificação proporcionada pelos FIDCs e a seletividade na escolha dos recebíveis permitem que investidores institucionais, profissionais e, futuramente, varejistas, tenham acesso a produtos financeiros robustos, com risco controlado e retorno atrativo. A tendência de crescimento sustentável e estruturado projeta um mercado próximo de R$ 1 trilhão, consolidando os fundos como peça-chave na intermediação do crédito brasileiro.

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