O último debate presidencial antes do segundo turno das eleições de 2026, realizado pela TV Globo na sexta-feira (23), terminou com diferentes declarações de Flávio Bolsonaro (PL) contestadas por verificações jornalÃsticas. Afirmações sobre a atuação de Jair Bolsonaro durante a pandemia, a legislação das apostas on-line e as metas nacionais de saneamento foram classificadas como falsas em checagem conjunta do Terra e da agência Aos Fatos. Outras intervenções do senador receberam classificações como enganosas ou carentes de contexto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também apresentou informações incorretas ou imprecisas, sobretudo sobre obras públicas e crescimento econômico.
A repercussão das declarações levou diferentes iniciativas a examinar o conteúdo apresentado pelos candidatos. O Fato ou Fake, serviço de checagem do Grupo Globo, mobilizou mais de 30 jornalistas para acompanhar o confronto e confrontar as informações com documentos oficiais. Levantamentos independentes utilizaram classificações e critérios próprios, produzindo resultados distintos sobre o conjunto de afirmações examinadas. As divergências impedem transformar as verificações disponÃveis em uma conclusão única sobre qual candidato teria mentido mais durante a transmissão.
Flávio apresenta versão falsa sobre vÃdeo de Bolsonaro na pandemia
Uma das afirmações contestadas envolveu um vÃdeo de Jair Bolsonaro gravado durante a pandemia de Covid-19. Flávio declarou que seu pai não havia debochado de pacientes com dificuldade para respirar e que as imagens divulgadas publicamente estavam fora de contexto. Para sustentar a explicação, apresentou uma versão editada da transmissão realizada em março de 2021. A checagem do Terra e de Aos Fatos classificou como falsa a versão apresentada pelo senador.
A gravação divulgada pelo candidato omitiu aproximadamente 30 segundos do material original. A parte excluÃda continha referências ao chamado tratamento precoce contra a Covid-19, associado à defesa de medicamentos que não demonstraram eficácia no combate à doença. A supressão alterava o contexto necessário para interpretar a manifestação do ex-presidente. A comparação entre o vÃdeo divulgado e a transmissão integral foi decisiva para a classificação da declaração.
A cronologia da vacinação também foi utilizada para verificar informações apresentadas sobre aquele perÃodo. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o uso emergencial da CoronaVac e da vacina Oxford/AstraZeneca em 17 de janeiro de 2021. Assim, quando ocorreu a transmissão de março, o Brasil já havia iniciado a imunização contra a Covid-19. A informação está documentada nos registros oficiais da agência reguladora.
Saneamento: afirmação sobre adiamento para 2050 é falsa
Outra declaração classificada como falsa envolveu a universalização dos serviços de saneamento básico. Flávio Bolsonaro afirmou que o governo Lula havia transferido para depois de 2050 a meta de atendimento de 90% da população com coleta e tratamento de esgoto. A afirmação não corresponde ao prazo geral estabelecido no marco legal do saneamento. A legislação mantém 31 de dezembro de 2033 como referência nacional para a universalização prevista nos contratos.
A Lei nº 14.026, de 2020, estabelece metas de atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto até o fim de 2033. Existem disposições especÃficas relacionadas à adequação contratual e situações excepcionais, mas elas não equivalem à substituição generalizada do prazo nacional por 2050. A interpretação apresentada pelo senador confundiu hipóteses regulatórias particulares com o objetivo definido na legislação. A checagem apontou essa diferença como elemento central para considerar falsa a afirmação.
O episódio tem importância porque as metas de saneamento orientam investimentos públicos e privados de longo prazo. Alterações regulatórias podem afetar contratos e cronogramas, mas não devem ser confundidas automaticamente com a revogação de objetivos legais. A verificação também exige distinguir cobertura de água, coleta de esgoto e efetivo tratamento dos resÃduos. Embora relacionados, esses indicadores representam serviços diferentes e possuem exigências próprias.
Apostas on-line: Flávio atribui a Lula criação que envolve leis anteriores
Flávio Bolsonaro também acusou Lula de ser o responsável pela criação e liberação do chamado jogo do tigrinho e dos cassinos on-line. A declaração foi classificada como falsa pela checagem do Terra e de Aos Fatos. O histórico legislativo mostra que a introdução das apostas de quota fixa no ordenamento brasileiro ocorreu em 2018, durante o governo Michel Temer. A regulamentação posterior, entretanto, também teve participação do atual governo.
A Lei nº 13.756, de dezembro de 2018, criou a modalidade lotérica de apostas de quota fixa. Posteriormente, a Lei nº 14.790, de 2023, estabeleceu novas regras para exploração comercial da atividade, tributação, fiscalização e jogos on-line abrangidos pelo regime. Portanto, o atual governo participou da ampliação e regulamentação do mercado, mas não criou sozinho a atividade de apostas no paÃs. A afirmação do senador omitiu essa sequência de decisões legislativas.
Também é necessário distinguir apostas esportivas, jogos on-line de resultado aleatório e modalidades de cassino sujeitas a outras restrições legais. A utilização indiscriminada dessas expressões pode produzir interpretações equivocadas sobre quais atividades foram autorizadas em cada perÃodo. A expansão comercial das plataformas envolve decisões tomadas em diferentes governos e no Congresso Nacional. A atribuição de responsabilidade deve observar a natureza de cada modalidade e a norma que autorizou sua operação.
Bolsa FamÃlia: declaração sobre benefÃcio de R$ 600 é considerada enganosa
A polÃtica de transferência de renda apareceu em outra intervenção questionada do senador. Flávio Bolsonaro afirmou que Jair Bolsonaro havia elevado o Bolsa FamÃlia para R$ 600, apresentando a medida como realização exclusiva do governo anterior. A checagem classificou a declaração como enganosa, pois a elevação ocorreu por meio de um processo legislativo mais amplo. O benefÃcio passou por modificações sucessivas durante a vigência do AuxÃlio Brasil.
A Medida Provisória nº 1.076/2021 estabeleceu um complemento para assegurar pagamentos mÃnimos de R$ 400. A elevação temporária para R$ 600 ocorreu mediante a Emenda Constitucional nº 123, promulgada em julho de 2022, após aprovação pelo Congresso Nacional. O adicional extraordinário foi previsto para o perÃodo de agosto a dezembro daquele ano. A participação do Legislativo impede atribuir a criação da medida exclusivamente ao então presidente.
A distinção não elimina o fato de que o pagamento de R$ 600 começou durante a administração Bolsonaro. O problema está na descrição incompleta das responsabilidades institucionais envolvidas na mudança. Na discussão eleitoral, esse tipo de simplificação pode transformar uma medida produzida por diferentes agentes públicos em uma realização exclusivamente pessoal. A checagem permite recuperar o processo legislativo e identificar a contribuição de cada instituição.
Transposição do São Francisco também gera contestação
Flávio apresentou a conclusão da transposição do Rio São Francisco como uma realização do governo Jair Bolsonaro. A declaração recebeu classificação de enganosa, pois o empreendimento foi desenvolvido ao longo de diferentes administrações federais. Etapas importantes foram executadas antes de 2019, enquanto outras intervenções, entregas e complementações ocorreram posteriormente. A obra não pode ser atribuÃda integralmente a um único mandato presidencial.
A transposição envolve estruturas como canais, reservatórios, estações de bombeamento e sistemas associados de distribuição de água. A conclusão de determinados trechos não significa necessariamente que todas as comunidades previstas já estejam atendidas. Também é preciso distinguir inauguração, entrada em funcionamento, entrega de obras complementares e efetiva disponibilidade do serviço. Essas diferenças são relevantes para compreender o alcance das realizações anunciadas pelos governos.
Lula também apresenta informações contestadas
As verificações identificaram problemas em declarações do presidente Lula. Uma delas envolveu a quantidade de obras paralisadas existentes quando assumiu o governo em 2023. Lula mencionou aproximadamente 6 mil empreendimentos, enquanto registros do Tribunal de Contas da União indicavam um número superior a 8 mil naquele perÃodo. A quantidade apresentada pelo presidente ficou abaixo do estoque identificado pelo órgão de controle.
Outra intervenção questionada dizia respeito ao crescimento do Produto Interno Bruto. Lula afirmou que a economia brasileira não havia voltado a crescer acima de 3% desde 2010, informação incompatÃvel com a série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica. O paÃs registrou expansão superior a esse patamar em exercÃcios posteriores. O resultado demonstra que a checagem documental também identificou incorreções nas declarações do candidato petista.
Diferenças metodológicas impedem transformar checagens em placar definitivo
Embora várias declarações de Flávio Bolsonaro tenham sido classificadas como falsas, as auditorias consultadas não produziram uma contagem uniforme sobre o desempenho dos dois candidatos. O PIRANOT analisou 126 afirmações, utilizando categorias como verdadeiro, falso, exagerado, enganoso e impreciso. Já a plataforma Verifique a Verdade adotou outra metodologia e examinou um conjunto diferente de declarações. Os resultados dessas iniciativas não podem ser combinados automaticamente.
A classificação de uma afirmação como falsa significa que seu conteúdo não corresponde às evidências apresentadas na verificação. Isso não demonstra, isoladamente, a intenção deliberada de enganar o público, elemento necessário para afirmar categoricamente que determinada pessoa mentiu. Também é fundamental distinguir uma informação inteiramente falsa de outra que contenha dados corretos, mas apresente conclusões enganosas. Essa separação evita atribuir o mesmo significado a erros de natureza diferente.
O debate expôs a utilização de acontecimentos históricos, indicadores econômicos e polÃticas públicas como instrumentos de confronto eleitoral. No caso de Flávio Bolsonaro, as verificações sobre saneamento, apostas e pandemia identificaram afirmações falsas que podem ser confrontadas com legislação, registros sanitários e material audiovisual. As declarações de Lula sobre obras públicas e crescimento econômico também demonstraram a necessidade de precisão documental. A comparação responsável entre os candidatos depende da análise individual das falas, sem substituir evidências por interpretações sobre suas intenções.
Fontes
TV Globo — Gravação do debate presidencial de 23 de outubro de 2026
Agência Nacional de Vigilância Sanitária — Autorização emergencial das vacinas contra a Covid-19, janeiro de 2021
Presidência da República — Lei nº 14.026, de 15 de julho de 2020
Presidência da República — Lei nº 13.756, de 12 de dezembro de 2018
Presidência da República — Lei nº 14.790, de 29 de dezembro de 2023
Congresso Nacional — Emenda Constitucional nº 123, de 14 de julho de 2022
Tribunal de Contas da União — Levantamentos nacionais de obras paralisadas
Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÃstica — Sistema de Contas Nacionais e séries históricas do Produto Interno Bruto






