Forças Armadas e Bolsonaro: discurso de Coronel Chrisóstomo reacende tensão entre Poderes
A recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que impôs medidas cautelares contra Jair Bolsonaro, desencadeou uma reação contundente do deputado federal Coronel Chrisóstomo (PL-RO), vice-líder do partido. Em uma coletiva convocada pela oposição nesta sexta-feira (18/7), o parlamentar fez um apelo direto às Forças Armadas, evocando o histórico de 1964 e se colocando contra o que classificou como “perseguição impiedosa” ao ex-presidente. O episódio trouxe à tona um novo capítulo na relação entre Forças Armadas e Bolsonaro, reacendendo o debate sobre militarização da política, interferência institucional e riscos à democracia brasileira.
O apelo de Chrisóstomo às Forças Armadas
Em um tom inflamado e emotivo, Coronel Chrisóstomo direcionou sua fala às Forças Armadas, pedindo que estejam “ao lado do povo brasileiro” e da democracia. Ele relembrou com orgulho sua ligação com o regime militar de 1964, reforçando o discurso nostálgico que há anos se consolidou como pilar do bolsonarismo. Segundo o deputado, a decisão do STF de impor restrições a Jair Bolsonaro é uma injustiça que exige resposta institucional.
A menção ao golpe de 1964 não foi gratuita: ela cumpre o papel simbólico de mobilizar uma base que enxerga nas Forças Armadas um reduto de patriotismo, ordem e resistência ao que consideram “ameaças comunistas” ou “ativismo judicial”. Ao dizer que “o Brasil não aguenta mais” e que “o comunismo está à porta”, Chrisóstomo reforça uma narrativa polarizadora, baseada em dicotomias históricas e temor social.
A conexão entre Forças Armadas e Bolsonaro
A relação entre Forças Armadas e Bolsonaro sempre foi marcada por forte identidade ideológica. Ex-capitão do Exército, Jair Bolsonaro fez da aproximação com os militares um de seus pilares desde os tempos de deputado federal. Durante o seu governo (2019-2022), essa aliança se consolidou com a ocupação de cargos-chave por militares da ativa e da reserva.
Diversos ministros, secretários e diretores de estatais eram egressos das Forças Armadas, configurando o governo mais militarizado desde a redemocratização. A presença ostensiva de fardados no Executivo gerou debates sobre a autonomia civil, a politização dos quartéis e os limites entre patriotismo e ativismo político.
A convocação simbólica feita por Chrisóstomo aos militares, diante da reação do STF, reacende essa ligação — mas, agora, sob um novo contexto: o da defesa pessoal do ex-presidente contra as instituições que o investigam.
Críticas ao STF e apelo à imprensa
A coletiva de imprensa também foi palco para ataques diretos ao Supremo Tribunal Federal. Chrisóstomo se disse indignado com o fato de uma única autoridade judicial poder “derrubar a vontade de 383 deputados e a aclamação do Senado”, em referência à decisão que revogou o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) sobre o IOF.
A crítica não ficou restrita ao Judiciário: a imprensa também foi chamada à responsabilidade. Para o deputado, a mídia deveria “agir em favor do povo brasileiro”, da mesma forma que, segundo ele, agiu durante o golpe de 1964. A fala reforça o padrão discursivo bolsonarista que acusa a imprensa de parcialidade e convoca os meios de comunicação a endossarem suas pautas.
Esse tipo de retórica cumpre uma dupla função: desacredita o sistema jurídico, apresentado como perseguidor, e posiciona a imprensa como aliada ou inimiga, a depender do alinhamento com os ideais da base conservadora.
O simbolismo da “perseguição” e a construção do mártir político
A palavra “perseguição” foi repetida com insistência pelo parlamentar. Para a ala bolsonarista, o tratamento judicial dado a Jair Bolsonaro está inserido em um suposto plano para eliminá-lo politicamente. Essa estratégia de vitimização é eficaz para manter a base mobilizada, ainda mais em um contexto no qual Bolsonaro enfrenta medidas restritivas inéditas para um ex-presidente.
O uso de tornozeleira eletrônica, por exemplo, é descrito como “suprema humilhação” por seus aliados. Com isso, o bolsonarismo transforma o ex-presidente em uma figura perseguida pelo “sistema”, reforçando sua posição como representante legítimo do “povo oprimido”.
O risco de ruptura institucional
Embora não tenha feito apelo explícito a uma ação militar fora da legalidade, a fala de Chrisóstomo foi interpretada como um convite à politização das Forças Armadas. Especialistas alertam para o risco de corrosão da institucionalidade quando setores políticos buscam apoio armado para contestar decisões judiciais legítimas.
O Brasil já viveu os efeitos dramáticos de intervenções militares no passado, e a redemocratização só foi possível com a desmilitarização do poder político. Qualquer tentativa de restaurar essa presença, mesmo que em nome da “democracia”, representa um retrocesso e um atentado à ordem constitucional.
O IOF como novo ponto de tensão entre Poderes
A decisão do STF que anulou o PDL sobre o IOF tornou-se mais um ponto de atrito entre Legislativo e Judiciário. O projeto, relatado por Chrisóstomo, teve ampla adesão na Câmara, mas acabou sendo derrubado por decisão monocrática do Supremo.
A reação do deputado expressa a frustração de parte do Parlamento com o que considera excessos do Judiciário. No entanto, essa tensão entre os Poderes deve ser tratada dentro das regras democráticas, por meio do diálogo institucional e do respeito mútuo às atribuições constitucionais.
Democracia em xeque?
A fala de que “o comunismo já está à porta” e que o país “não aguenta mais” se encaixa em um discurso de ruptura, típico de momentos pré-crise institucional. A invocação de um inimigo comum — neste caso, o STF — cria um clima de urgência, justificando ações extremas como legítima defesa da democracia.
É nesse ponto que o discurso de Chrisóstomo se torna especialmente sensível. Ao mobilizar memórias do regime militar e apelar às Forças Armadas, ele revive fantasmas do autoritarismo e coloca em risco o pacto democrático estabelecido pela Constituição de 1988.
O papel das Forças Armadas no Estado democrático
A Constituição Federal estabelece que as Forças Armadas existem para garantir a soberania, a lei e a ordem — sob a autoridade do Presidente da República e do Congresso Nacional. Qualquer tentativa de subverter essa hierarquia representa violação do Estado de Direito.
Ao contrário do que sugere o discurso bolsonarista, os militares não são guardiões da vontade popular contra o Judiciário. Sua função é institucional, não ideológica. E seu compromisso deve ser com a legalidade, não com lideranças políticas específicas.
A relação entre Forças Armadas e Bolsonaro continua a ser um elemento central na narrativa da oposição ao atual sistema de justiça brasileiro. O discurso inflamado de Coronel Chrisóstomo, que mistura memória do regime militar com a atual conjuntura política, escancara os riscos de uma retórica que promove desinformação, vitimização e tensão institucional.
Em um país que ainda enfrenta as cicatrizes da ditadura, é fundamental que lideranças políticas e militares respeitem os limites impostos pela democracia e pela Constituição. O fortalecimento das instituições, e não sua subversão, é o único caminho legítimo para a resolução de conflitos políticos e jurídicos no Brasil.






