As importações brasileiras de produtos de aço cresceram 51,7% em setembro de 2026 ante agosto, alcançando aproximadamente 600 mil toneladas, em um mês marcado pela recuperação da produção industrial em relação ao período anterior e pelo recuo das vendas internas. O avanço das compras externas contrastou com o desempenho acumulado do setor: entre janeiro e setembro, as importações somaram 4,3 milhões de toneladas, queda de 15,4% na comparação anual, enquanto a produção nacional de aço bruto diminuiu 1,7%, para 24,6 milhões de toneladas.
Os dados compilados pelo Instituto Aço Brasil a partir das estatísticas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que a movimentação de setembro não altera, por si só, a tendência dos nove primeiros meses do ano. O mercado interno apresentou comportamento desigual entre os indicadores de consumo e vendas, enquanto a origem dos produtos importados também mudou. A participação dos itens estrangeiros aumentou no consumo de setembro, embora continue inferior à registrada no acumulado de janeiro a setembro de 2025.
A combinação de volumes mensais mais elevados com retração acumulada das importações exige distinguir os movimentos de curto prazo da evolução estrutural do mercado. Os números também mostram que a melhora de alguns indicadores em setembro não foi suficiente para reverter a perda de confiança dos executivos do setor siderúrgico, cujo índice permaneceu abaixo de 50 pontos em outubro.
Importações avançam no mês, mas permanecem abaixo do patamar de 2025
O volume importado em setembro correspondeu a aproximadamente 600 mil toneladas, ante cerca de 395 mil toneladas em agosto. Na comparação com setembro de 2025, a alta foi de 34,6%. Em valor, as compras externas alcançaram US$ 541 milhões, aumento de 29,6% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
A diferença entre as variações de volume e valor indica que o crescimento das importações ocorreu com aumento proporcionalmente menor do montante financeiro desembolsado. A partir dos índices divulgados pelo Instituto Aço Brasil, o valor médio por tonelada importada ficou aproximadamente 3,7% abaixo do registrado em setembro de 2025, considerando os valores nominais em dólares e os percentuais arredondados. Essa comparação não representa uma cotação homogênea de preços: mudanças na composição dos produtos, nos tipos de aço e nos países fornecedores também podem alterar a média.
No acumulado do ano, o quadro é diferente. Entre janeiro e setembro, o Brasil importou 4,293 milhões de toneladas de produtos siderúrgicos, contra 5,075 milhões de toneladas no mesmo período de 2025. A redução foi de aproximadamente 782 mil toneladas. Em termos relativos, a queda chegou a 15,4%.
O valor das importações acumuladas atingiu cerca de US$ 4,2 bilhões, recuo de 8,8% na comparação anual. Como a diminuição do valor foi proporcionalmente menor do que a queda do volume, o valor médio por tonelada aumentou na comparação entre os dois períodos. O cálculo sugere uma elevação próxima de 7,8%, mas não permite concluir que os preços de cada produto importado subiram nessa magnitude, pois a composição das compras pode ter mudado.
A diferença entre o resultado mensal e o acumulado indica que setembro teve um ritmo de entrada de aço estrangeiro mais intenso do que o observado anteriormente, sem compensar a retração registrada desde o início de 2026.
Participação das importações cresce nos aços planos
A participação dos produtos importados no consumo aparente oferece outra medida da presença estrangeira no mercado nacional. O indicador relaciona as importações ao consumo de produtos siderúrgicos, com exclusão das importações diretas das usinas para evitar dupla contagem.
Em setembro, a penetração das importações chegou a 19,1%, ante 16,5% no mesmo mês de 2025. A elevação foi de 2,6 pontos percentuais. Nesse cálculo, o volume de importações considerado foi de aproximadamente 435,4 mil toneladas, inferior ao total de 600 mil toneladas informado para as compras externas. A diferença decorre do critério específico utilizado para calcular a participação no consumo, e os dois indicadores não devem ser tratados como equivalentes.
A mudança foi particularmente forte no segmento de aços planos, que inclui produtos utilizados, entre outras aplicações, na fabricação de veículos, eletrodomésticos, equipamentos e estruturas industriais. A penetração das importações nessa categoria passou de 19,8% em setembro de 2025 para 24,8% em setembro de 2026, aumento de cinco pontos percentuais.
Nos aços longos, utilizados em aplicações como construção civil e infraestrutura, o movimento ocorreu na direção oposta. A participação importada caiu de 11,5% para 8,6% na comparação anual, recuo de 2,9 pontos percentuais.
A diferença entre as duas categorias demonstra que a presença dos produtos estrangeiros não cresceu de maneira uniforme em todo o mercado siderúrgico. O avanço concentrou-se nos aços planos, enquanto os aços longos registraram menor participação relativa das importações.
No acumulado de janeiro a setembro, a penetração total das importações ficou em 18,5%, abaixo dos 21,5% observados em igual período de 2025. Entre os aços planos, o indicador recuou de 24,9% para 21,6%. Nos longos, caiu de 16,1% para 13,5%.
Portanto, a alta registrada em setembro interrompeu parcialmente a trajetória de redução da participação importada no acumulado anual, mas ainda não reverteu a queda observada ao longo dos nove primeiros meses. A evolução dos próximos meses será necessária para determinar se o resultado de setembro representa uma mudança mais persistente ou uma oscilação pontual.
Vietnã ganha espaço entre os fornecedores estrangeiros
A composição geográfica das importações também mudou de forma expressiva. Em setembro, a Ásia respondeu por 86,3% do volume importado de produtos de aço, ante 80,3% no mesmo mês de 2025. O aumento de seis pontos percentuais ocorreu em meio a uma alteração relevante na participação de China e Vietnã.
As compras provenientes da China somaram aproximadamente 138,1 mil toneladas em setembro, contra 263,4 mil toneladas um ano antes. A queda foi de 47,6%. Com isso, a participação chinesa no volume importado pelo Brasil passou de 59,1% para 23%.
No sentido oposto, as importações originárias do Vietnã aumentaram de apenas 912 toneladas em setembro de 2025 para aproximadamente 225 mil toneladas em setembro de 2026. O país passou a representar 37,5% do volume importado no mês, ante 0,2% um ano antes.
A mudança também aparece nos números acumulados. Entre janeiro e setembro, as compras provenientes da China caíram de aproximadamente 3,1 milhões para 2 milhões de toneladas, redução de 35%. As importações do Vietnã subiram de 143 mil para 544 mil toneladas, crescimento de 280,6%.
Os dados indicam uma redistribuição importante das origens das importações brasileiras. A redução do volume vindo da China foi acompanhada pelo aumento dos embarques vietnamitas, mas não há elementos suficientes nos números agregados para atribuir essa mudança a uma causa específica ou concluir que houve substituição direta de um fornecedor por outro em todos os segmentos.
A distinção é relevante porque o desempenho das importações depende não apenas do volume total, mas também da categoria de aço, da origem e da composição dos produtos. Uma análise de competitividade baseada somente no avanço agregado das compras externas deixaria de considerar essas diferenças.
Produção brasileira acumula queda de 1,7%
A produção nacional de aço bruto alcançou 2,791 milhões de toneladas em setembro. O volume representou aumento de aproximadamente 3,6% em relação a agosto, mas ficou 0,8% abaixo do registrado no mesmo mês de 2025.
No acumulado de janeiro a setembro, as usinas brasileiras produziram 24,566 milhões de toneladas, contra 25 milhões de toneladas no mesmo período do ano anterior. A diferença corresponde a uma redução de aproximadamente 434 mil toneladas.
O comportamento variou conforme o estágio de produção. A fabricação de produtos laminados chegou a 2,007 milhões de toneladas em setembro, crescimento de 1,8% na comparação anual. Já a produção de semiacabados destinados à venda recuou 18,8%, para 633 mil toneladas.
Entre janeiro e setembro, a produção de laminados somou 17,441 milhões de toneladas, queda de 2% ante 2025. A fabricação de semiacabados para venda alcançou 6,201 milhões de toneladas, alta de 0,6%. Os dados revelam desempenhos diferentes entre as categorias e indicam que a retração da produção de aço bruto não se distribuiu igualmente por todas as etapas da cadeia.
O resultado da produção também deve ser analisado em conjunto com a demanda interna. Em setembro, as vendas domésticas de produtos siderúrgicos ficaram em aproximadamente 1,8 milhão de toneladas. O volume recuou 0,7% ante agosto e 2,3% na comparação com setembro de 2025.
No acumulado do ano, as vendas internas totalizaram 16 milhões de toneladas, praticamente estáveis em relação ao mesmo período de 2025. A estabilidade das vendas acumuladas contrasta com a redução do consumo aparente, que considera o abastecimento do mercado por meio da produção nacional e das importações, descontadas as exportações e observados os ajustes metodológicos pertinentes.
O consumo aparente alcançou aproximadamente 2,3 milhões de toneladas em setembro, aumento de 2,2% em relação a agosto e de 0,9% na comparação anual. Entre janeiro e setembro, entretanto, somou 19,7 milhões de toneladas, queda de 3,6% ante igual período de 2025.
A diferença entre vendas internas e consumo aparente mostra a importância das importações para a composição da oferta disponível no mercado. O crescimento mensal do consumo não foi acompanhado por expansão equivalente das vendas domésticas, ao mesmo tempo que as compras externas aumentaram.
Esses dados, isoladamente, não permitem determinar o impacto sobre preços, estoques ou margens de cada siderúrgica. Eles demonstram, contudo, que a evolução da demanda, a produção e o abastecimento por importações seguiram trajetórias distintas em setembro.
Exportações diminuem e exigem atenção à revisão dos dados
As exportações brasileiras de produtos de aço totalizaram 598 mil toneladas em setembro, com receita de aproximadamente US$ 453 milhões. Em relação a agosto, o volume diminuiu 37,6%, segundo os números mensais considerados para a comparação.
Na comparação com setembro de 2025, a queda foi de 22,7% em volume e de 12,9% em valor. O resultado mensal contribuiu para uma diferença mais acentuada entre exportações e importações, embora a posição comercial acumulada do setor continue distinta daquela observada em um único mês.
De janeiro a setembro, as exportações alcançaram 7,9 milhões de toneladas e renderam aproximadamente US$ 5,4 bilhões. O volume cresceu 1,1% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto o valor recuou 1,7%.
Há, entretanto, uma ressalva importante na divulgação do Instituto Aço Brasil. O levantamento registra operações de exportação com embarque antecipado em setembro, que podem contabilizar volumes superiores aos efetivamente exportados. Segundo a entidade, os dados poderão ser corrigidos em divulgações posteriores do sistema de comércio exterior.
Essa observação limita a interpretação do resultado mensal das exportações e recomenda cautela em comparações diretas com outros períodos. Uma eventual revisão também pode alterar os indicadores acumulados e as relações entre os fluxos de importação e exportação.
O saldo em toneladas do comércio exterior siderúrgico não deve, portanto, ser inferido apenas pela comparação entre os 600 mil toneladas importados e os 598 mil toneladas exportados em setembro. Além da possibilidade de revisão das exportações, a composição dos produtos e os critérios estatísticos precisam ser considerados para uma avaliação consistente do setor.
Brasil mantém nona posição entre produtores mundiais
O desempenho brasileiro ocorre em um mercado internacional que também apresenta retração na produção agregada. Segundo a Associação Mundial do Aço, a produção global de aço bruto alcançou 1,225 bilhão de toneladas entre janeiro e agosto de 2026, queda de 0,7% na comparação com os oito primeiros meses de 2025.
O Brasil ocupou a nona posição entre os maiores produtores mundiais no período, com aproximadamente 21,8 milhões de toneladas de aço bruto. O volume caiu 1,8% em relação ao intervalo equivalente de 2025, segundo os dados consolidados pela entidade internacional.
A China permaneceu na liderança, com cerca de 651,9 milhões de toneladas nos oito primeiros meses do ano. O volume correspondeu a aproximadamente 53,2% da produção somada dos 70 países incluídos no levantamento, que representam cerca de 98% da produção mundial de aço bruto registrada em 2025.
O quadro internacional ajuda a contextualizar as dificuldades de crescimento da indústria brasileira, mas não determina, por si só, a dinâmica das importações nacionais. Os dados globais de produção medem a atividade das usinas, enquanto a entrada de produtos no mercado brasileiro depende também das condições comerciais, da demanda doméstica e da composição das compras externas.
Confiança da indústria melhora, mas permanece abaixo de 50 pontos
O Indicador de Confiança da Indústria do Aço (ICIA) avançou 1,9 ponto em outubro, para 44 pontos, segundo levantamento divulgado pelo Instituto Aço Brasil em 15 de outubro. A alta interrompeu quatro meses consecutivos de queda, mas o indicador permaneceu abaixo de 50 pontos, limite que separa confiança de falta de confiança na metodologia da pesquisa.
A melhora mensal não eliminou a percepção negativa dos executivos consultados. O índice de situação atual aumentou três pontos, para 39,1, enquanto o componente de expectativas para os seis meses seguintes subiu 1,3 ponto, para 46,4. Ambos continuaram abaixo do patamar de confiança.
A avaliação sobre a economia brasileira apresentou uma das maiores variações positivas do levantamento, com avanço de sete pontos, para 29,4. Apesar da recuperação, o componente permaneceu muito distante de 50 pontos, indicando que a melhora em relação ao mês anterior não se traduziu em uma avaliação favorável das condições econômicas correntes.
As expectativas para a economia nacional atingiram 39,9 pontos, alta de 1,5 ponto. Já o indicador relativo às condições atuais das próprias empresas subiu 1,1 ponto, para 44. Nas expectativas sobre os negócios das próprias companhias, o índice avançou 1,2 ponto, para 49,7, ficando apenas 0,3 ponto abaixo da linha divisória.
A diferença entre os componentes mostra que os executivos avaliavam as perspectivas para suas próprias empresas de forma menos negativa do que as condições gerais da economia. Ainda assim, nenhum dos indicadores ultrapassou 50 pontos.
Os resultados de setembro e outubro reforçam a distinção entre recuperação pontual e mudança de tendência. A produção de aço bruto aumentou na comparação mensal e a confiança industrial subiu em outubro, mas as vendas internas recuaram em setembro, o consumo aparente caiu no acumulado anual e a produção brasileira continuou abaixo do nível de 2025.
Para o setor siderúrgico, os próximos resultados mensais serão importantes para avaliar se o aumento das importações em setembro persistirá, se a penetração dos produtos estrangeiros continuará concentrada nos aços planos e se a recuperação dos indicadores de confiança será acompanhada por uma melhora efetiva da demanda. Até que essas tendências se consolidem, os dados disponíveis apontam para um mercado com movimentos divergentes entre abastecimento, produção, vendas e expectativas empresariais.
Fontes:
Instituto Aço Brasil – Estatística Mensal de setembro de 2026, com dados de produção, vendas internas, consumo aparente, importações, exportações e participação dos produtos importados por categoria e origem
Instituto Aço Brasil – Indicador de Confiança da Indústria do Aço de outubro de 2026, divulgado em 15 de outubro, com resultados da situação atual e das expectativas para os seis meses seguintes
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – Secretaria de Comércio Exterior – estatísticas consolidadas de comércio exterior referentes a setembro de 2026
Associação Mundial do Aço – levantamento de produção mundial de aço bruto de agosto de 2026, com dados acumulados por país e região









