Inflação na Argentina recua 85%, mas perda do poder de compra segue pressionando a população
A forte desaceleração da inflação na Argentina registrada ao longo de 2025 tornou-se um dos principais trunfos do governo do presidente Javier Milei no discurso econômico. Após anos de índices descontrolados, o país conseguiu reduzir em cerca de 85% o ritmo inflacionário acumulado, encerrando o ano com taxa próxima de 31,5%. Do ponto de vista estatístico e fiscal, o resultado representa uma mudança relevante na trajetória recente da economia argentina.
No entanto, longe dos gráficos oficiais e dos comunicados do governo, a realidade vivida pela população segue marcada por perda de poder de compra, compressão da renda e dificuldades crescentes para manter padrões básicos de consumo. A queda da inflação na Argentina, embora significativa, ainda não se traduziu em melhora perceptível no cotidiano da maioria dos argentinos.
Desaceleração inflacionária como vitória política
A redução expressiva da inflação na Argentina ocorre após a adoção de um conjunto rigoroso de medidas econômicas, baseadas em ajuste fiscal severo, corte de subsídios, liberalização de preços e contenção da emissão monetária. A estratégia rompeu com práticas adotadas por governos anteriores e reposicionou o país em relação a organismos internacionais e investidores.
Do ponto de vista macroeconômico, os números indicam uma mudança de regime. A inflação anual, que havia ultrapassado patamares críticos, entrou em trajetória descendente ao longo de 2025, permitindo ao governo sustentar o discurso de estabilização econômica.
Ainda assim, economistas ressaltam que a desaceleração da inflação na Argentina não elimina, de forma imediata, os efeitos acumulados de anos de corrosão da renda, sobretudo entre trabalhadores assalariados, aposentados e servidores públicos.
Inflação menor, preços ainda altos
Embora o ritmo de aumento dos preços tenha desacelerado, o nível geral de preços permanece elevado. Na prática, isso significa que produtos essenciais continuam caros, mesmo que não estejam subindo na mesma velocidade de antes.
Alimentos, medicamentos, transporte e serviços básicos ainda consomem parcela significativa da renda das famílias. A inflação na Argentina, mesmo em queda, deixou como herança um patamar de preços incompatível com o poder aquisitivo médio da população.
Esse descompasso ajuda a explicar por que grande parte dos argentinos não percebe melhora concreta na economia, apesar da comemoração oficial dos indicadores.
Salários não acompanham a inflação acumulada
Um dos principais fatores por trás da perda de poder de compra é a defasagem salarial. Durante os anos de inflação elevada, os reajustes não conseguiram acompanhar a escalada dos preços, resultando em forte deterioração da renda real.
Com a desaceleração da inflação na Argentina, os salários deixaram de perder valor na mesma velocidade, mas ainda não recuperaram o terreno perdido. Para muitos trabalhadores, o orçamento segue estrangulado, e o consumo permanece restrito ao essencial.
A classe média, historicamente mais sensível a ciclos inflacionários, foi uma das mais afetadas, vendo reduzir-se a capacidade de poupança e o acesso a bens duráveis.
Aposentados entre os mais impactados
Os aposentados figuram entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos da inflação na Argentina. Benefícios previdenciários, muitas vezes corrigidos abaixo da inflação real acumulada, perderam poder de compra de forma significativa.
Mesmo com a desaceleração recente, o valor das aposentadorias ainda é insuficiente para cobrir despesas básicas, especialmente com saúde e medicamentos, itens que sofreram aumentos expressivos nos últimos anos.
Esse cenário contribui para a sensação generalizada de empobrecimento, apesar da melhora nos indicadores macroeconômicos.
Relatos do cotidiano reforçam contraste com os números oficiais
A experiência de moradores estrangeiros e argentinos reforça a distância entre os dados macroeconômicos e a realidade cotidiana. O relato da brasileira Catherine Leão, que vive há sete anos na Argentina, exemplifica como a inflação na Argentina continua afetando decisões básicas de consumo.
Segundo ela, itens alimentares passaram a ser substituídos por versões mais baratas, refeições fora de casa tornaram-se raras e gastos com lazer praticamente desapareceram do orçamento familiar. Mesmo com a desaceleração inflacionária, o custo de vida permanece elevado.
Consumo reprimido e mudança de hábitos
A persistência dos efeitos da inflação na Argentina provocou mudanças profundas nos hábitos de consumo. Famílias reduziram compras por impulso, passaram a priorizar marcas mais baratas e adotaram estratégias de economia doméstica antes pouco comuns.
O consumo reprimido afeta diretamente setores como comércio, serviços e turismo interno, dificultando uma recuperação mais ampla da atividade econômica.
Impacto sobre servidores públicos
Os servidores públicos também enfrentam dificuldades. Com reajustes salariais abaixo da inflação acumulada e cortes orçamentários, muitos viram sua renda real encolher. A desaceleração da inflação na Argentina trouxe alívio parcial, mas não compensou as perdas anteriores.
Esse cenário alimenta tensões sociais e pressiona o governo por recomposição salarial, o que representa um desafio adicional à política de austeridade fiscal.
Governo aposta no médio prazo
A estratégia do governo argentino é sustentar a política econômica no médio e longo prazo, apostando que a continuidade da queda da inflação na Argentina permitirá, gradualmente, a recuperação da renda real e do consumo.
A narrativa oficial enfatiza que os efeitos positivos das reformas não são imediatos e que a estabilização é condição necessária para um ciclo sustentável de crescimento.
Riscos e desafios à frente
Apesar do avanço no controle da inflação na Argentina, riscos permanecem no radar. a dependência de fatores externos, a volatilidade cambial e a sensibilidade social às políticas de ajuste podem limitar a continuidade da estratégia.
Além disso, a recuperação do poder de compra dependerá de crescimento econômico consistente, geração de empregos e recomposição salarial, fatores que ainda enfrentam incertezas.
Um alívio incompleto para a população
A queda expressiva da inflação na Argentina representa um marco importante na história recente do país, mas seus efeitos sobre a vida da população ainda são limitados. O alívio estatístico não se traduziu, até o momento, em melhora significativa do padrão de vida.
Enquanto os preços seguem elevados e os salários defasados, a percepção dominante é de que o esforço de ajuste recaiu de forma desproporcional sobre a sociedade, especialmente sobre os mais vulneráveis.
A experiência argentina reforça que controlar a inflação é fundamental, mas não suficiente, para restaurar o bem-estar econômico de uma população que conviveu por anos com a corrosão contínua da renda.






