São Paulo — A recente manifestação realizada na Avenida Paulista no dia 6 de abril de 2025 revelou mais do que apenas uma articulação política da direita brasileira: escancarou uma fissura entre lideranças conservadoras e o Alto Comando do Exército. O ponto alto do evento foi o inflamado discurso do pastor Silas Malafaia, que, sem meias palavras, chamou os generais de “cambada de frouxos”, enquanto pedia anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. A fala gerou reações imediatas — inclusive do ex-presidente Jair Bolsonaro, que saiu em defesa do pastor, corroborando as críticas como “verdades revoltantes”.
Neste contexto, o termo Jair Bolsonaro e Silas Malafaia ganha força como representação de uma aliança cada vez mais explícita entre religião e política, em especial quando se trata de tensionar instituições como o Exército e consolidar uma frente conservadora com vistas às eleições de 2026.
Críticas ao Alto Comando do Exército expõem crise institucional
Durante o ato de domingo, Silas Malafaia direcionou suas palavras aos generais de quatro estrelas, que ocupam o topo da hierarquia do Exército Brasileiro. Segundo ele, essas lideranças “não honram a farda que vestem” e estariam sendo omissas diante da conjuntura nacional. A crítica foi enfática: “Cambada de frouxos, cambada de covardes, cambada de omissos”.
Embora tenha descartado qualquer intenção golpista, Malafaia sugeriu que os militares deveriam “marcar posição” contra o que chama de “perseguições políticas” — especialmente após as prisões e processos que atingiram apoiadores de Bolsonaro envolvidos no 8 de janeiro.
A fala causou desconforto até mesmo entre aliados do ex-presidente. O general da reserva e atual senador Hamilton Mourão respondeu com dureza. Em publicação na rede X (antigo Twitter), afirmou que Malafaia demonstrou “total falta de escrúpulos” e “desconhecimento sobre o que seja Honra, Dever e Pátria”.
Bolsonaro endossa Malafaia: “Falou verdades”
Na segunda-feira (7), Jair Bolsonaro reforçou o apoio ao pastor em entrevista à Revista Oeste. Segundo ele, as declarações de Malafaia foram um “desabafo revoltante” que escancarou uma realidade incômoda. “Fiquei muito triste não com o Malafaia, mas com as verdades que ele falou. Realmente é revoltante a gente ouvir isso daí”, disse.
Mesmo evitando repetir as palavras exatas do pastor, Bolsonaro indicou concordância com a crítica ao comportamento do Alto Comando do Exército, sugerindo uma possível falta de firmeza diante da atuação política do Judiciário e do governo federal.
A postura do ex-presidente mostra uma mudança tática: ao mesmo tempo em que se mostra distante de uma convocação direta às Forças Armadas, Bolsonaro endossa narrativas que alimentam o discurso de seus apoiadores mais radicais.
Ato na Paulista: prévia eleitoral ou pressão política?
A manifestação na Avenida Paulista, que atraiu milhares de apoiadores, teve também um forte componente eleitoral. Estiveram presentes diversos governadores de partidos de direita e centro-direita, muitos deles considerados potenciais presidenciáveis em 2026:
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Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP)
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Romeu Zema (Novo-MG)
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Ratinho Júnior (PSD-PR)
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Ronaldo Caiado (União-GO)
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Jorginho Mello (PL-SC)
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Mauro Mendes (União-MT)
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Wilson Lima (União-AM)
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Marcos Rocha (União-RO)
A formação do palanque político reflete a busca por um nome que possa herdar o capital eleitoral de Bolsonaro, atualmente inelegível até 2030 por decisão do TSE. Mesmo assim, o ex-presidente afirmou que pretende registrar sua candidatura no próximo ano, criando uma tensão jurídica e política que promete marcar o calendário eleitoral.
Bolsonaro inelegível, mas ainda protagonista
Apesar de sua inelegibilidade, Bolsonaro continua exercendo forte influência sobre o cenário político. Sua base de apoio mantém-se fiel, e os atos como o da Paulista servem para demonstrar força e pressionar instituições como o STF e o Congresso.
O ex-presidente é réu em processos no Supremo Tribunal Federal, acusado de liderar uma organização que teria conspirado contra o Estado Democrático de Direito após a derrota nas eleições de 2022 para Luiz Inácio Lula da Silva. A despeito disso, mantém um discurso de “perseguição política”, o que alimenta a retórica de seus seguidores.
Silas Malafaia: pastor, político e articulador
O protagonismo de Malafaia no ato também deve ser compreendido sob a ótica da influência que líderes evangélicos exercem na política brasileira. Sua atuação vai além do púlpito — ele é um dos principais articuladores da bancada evangélica no Congresso e mantém ligação direta com Bolsonaro desde os primeiros anos de mandato.
Ao usar termos agressivos para se referir ao Exército, Malafaia não apenas atacou uma instituição — ele demarcou território dentro da disputa pela narrativa da direita. Em tempos de enfraquecimento de lideranças conservadoras tradicionais, o pastor se posiciona como voz ativa e mobilizadora.
Reações e repercussões: militares se dividem
A fala de Malafaia e o endosso de Bolsonaro dividiram opiniões entre militares da ativa e da reserva. Se por um lado há o incômodo com a crítica pública, por outro existe uma ala que vê com simpatia o discurso de resistência política.
Essa divisão também reflete a ambiguidade que marcou a relação de Bolsonaro com as Forças Armadas durante seu governo. Ao mesmo tempo em que nomeou militares para cargos estratégicos, o ex-presidente frequentemente cobrava uma postura mais incisiva contra o STF e o Congresso.
Rumo a 2026: quem herdará o legado bolsonarista?
Com Bolsonaro fora da disputa — pelo menos até segunda ordem — cresce a especulação sobre quem poderá liderar a direita nas eleições de 2026. Tarcísio de Freitas, ex-ministro da Infraestrutura e atual governador de São Paulo, é apontado como o favorito. No entanto, outros nomes ganham força nos bastidores, como Zema e Ratinho Júnior.
A presença desses governadores no ato da Paulista pode ser vista como uma tentativa de se aproximar da base bolsonarista, mas ainda sem confronto direto com o ex-presidente, que segue como principal referência do movimento conservador.
Malafaia e Bolsonaro como pilares de uma nova articulação
A união entre Jair Bolsonaro e Silas Malafaia representa um dos pilares da articulação conservadora rumo a 2026. A fala do pastor, reforçada pelo ex-presidente, indica uma estratégia de tensionamento com as instituições e ao mesmo tempo de mobilização da base.
O próximo ano será decisivo para definir quem ocupará o espaço deixado por Bolsonaro na urna — mas sua influência continuará sendo um fator incontornável no tabuleiro político. Com o apoio de líderes religiosos como Malafaia e governadores em ascensão, o ex-presidente ensaia um retorno — ainda que indireto — ao centro do jogo político brasileiro.






