O Safra elevou o preço-alvo da Marcopolo (POMO4) para R$ 9,10, ante R$ 9, e manteve recomendação de compra para a ação, em relatório que avalia os efeitos da alta do petróleo sobre os setores de transporte rodoviário e aéreo. A nova projeção implica potencial de valorização de cerca de 30% para os papéis da fabricante de carrocerias de ônibus, segundo a análise do banco.
A revisão ocorre em meio à escalada dos preços do petróleo Brent, pressionados pelas tensões entre Estados Unidos e Irã. O banco avalia que, em um cenário de aumento dos custos de combustível, as passagens aéreas tendem a sofrer reajustes mais fortes do que as tarifas rodoviárias, o que poderia favorecer a substituição de viagens interestaduais de avião por ônibus.
A leitura é relevante para a Marcopolo (POMO4) porque a companhia é uma das principais fabricantes de carrocerias de ônibus do mundo e tem exposição direta à demanda por renovação de frotas no transporte rodoviário. Se o encarecimento das passagens aéreas estimular parte dos passageiros a migrar para viagens de ônibus, operadores rodoviários podem ter incentivo adicional para ampliar ou modernizar suas frotas.
O relatório também incorpora os resultados mais recentes da companhia e revisões nas estimativas do Safra para 2026. O banco elevou a projeção de lucro líquido da Marcopolo (POMO4), apesar de ter reduzido estimativas de receita e Ebitda, refletindo câmbio mais fraco e menores volumes esperados em ônibus urbanos.
Alta do petróleo muda comparação entre ônibus e avião
A alta do petróleo tem impacto direto sobre empresas de transporte, mas o efeito não é uniforme entre modais. No caso das companhias aéreas, o combustível de aviação costuma representar uma parcela expressiva dos custos operacionais e tende a refletir de forma mais rápida a variação internacional da commodity.
No transporte rodoviário, o diesel também pesa nos custos, mas o Safra avalia que a pressão relativa pode ser menor. Segundo o banco, operadoras de ônibus teriam de elevar tarifas em cerca de 8% para preservar margens, enquanto companhias aéreas precisariam de reajustes próximos de 17%.
Essa diferença pode alterar a decisão do consumidor em rotas interestaduais. Em trajetos nos quais a viagem de ônibus é uma alternativa viável ao avião, a abertura de preço entre os modais tende a ganhar relevância. Se o bilhete aéreo subir mais rapidamente, parte da demanda pode migrar para o transporte rodoviário.
Para a Marcopolo (POMO4), esse cenário pode funcionar como vetor positivo. Maior demanda por viagens de ônibus tende a elevar a utilização das frotas e, em uma segunda etapa, pode estimular encomendas de novas carrocerias.
A relação, porém, não é automática. Operadores rodoviários também enfrentam custos mais altos com diesel, manutenção, salários, pedágios e financiamento. A decisão de renovar frota depende da geração de caixa, das condições de crédito e da confiança na demanda futura.
Diesel teve suporte maior que combustível de aviação
O Safra aponta que o diesel recebeu maior suporte governamental nos últimos anos e acumulou alta de 24%, enquanto o combustível de aviação refletiu de forma mais direta o avanço do petróleo e subiu 53% desde o início do conflito analisado pelo banco.
Essa diferença ajuda a explicar por que o transporte aéreo tende a ser mais pressionado em momentos de choque no petróleo. Companhias aéreas operam com exposição elevada ao querosene de aviação, custos dolarizados e forte sensibilidade a demanda, câmbio e ocupação das aeronaves.
Já o transporte rodoviário, embora também afetado pelo diesel, pode apresentar dinâmica tarifária distinta. Em rotas interestaduais, as empresas têm maior possibilidade de ajustar preços conforme demanda, concorrência e custos. Em linhas urbanas, a situação é mais complexa, pois tarifas dependem de concessões públicas, subsídios e decisões municipais.
A diferença entre ônibus rodoviários e urbanos é central para a tese. A Marcopolo (POMO4) atende diferentes segmentos, e a demanda por carrocerias pode variar conforme o tipo de operação. O ambiente pode ser mais favorável ao rodoviário, enquanto o urbano permanece sujeito a incertezas regulatórias e fiscais.
Para investidores, essa segmentação importa porque o efeito positivo da alta do petróleo sobre a substituição de viagens aéreas não necessariamente se traduz em melhora homogênea para todo o portfólio da companhia.
Transporte urbano ainda enfrenta incerteza
O Safra ressalta que operadoras de ônibus urbanos funcionam sob concessões municipais, modelo em que reajustes tarifários são frequentemente postergados e parcialmente compensados por subsídios. Essa dinâmica cria maior incerteza sobre fluxo de caixa e margens.
Quando os custos sobem e a tarifa não acompanha no mesmo ritmo, as empresas operadoras podem adiar decisões de investimento. A renovação de frotas, nesse cenário, tende a ser postergada, o que afeta fabricantes de carrocerias e chassis.
Esse é um ponto de atenção para a Marcopolo (POMO4). Embora a demanda rodoviária possa se beneficiar de um diferencial de preços frente ao transporte aéreo, o segmento urbano pode continuar limitado por restrições orçamentárias de municípios, incerteza sobre subsídios e dificuldades de repasse tarifário.
A avaliação do banco, portanto, combina vetores positivos e negativos. De um lado, a alta do petróleo pode favorecer o transporte rodoviário interestadual. De outro, a pressão de custos pode dificultar a renovação de frotas urbanas.
A companhia também é influenciada por câmbio, exportações, demanda internacional e condições de financiamento no Brasil. Esses fatores ajudam a explicar por que o Safra revisou algumas estimativas operacionais, mesmo mantendo visão construtiva para a ação.
Resultados recentes sustentam recomendação positiva
A Marcopolo (POMO4) apresentou lucro líquido de R$ 264,6 milhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 8,8% em relação ao mesmo período de 2025. O Ebitda somou R$ 304,8 milhões, avanço de 16,3% na comparação anual, enquanto a margem Ebitda atingiu 18,14%, expansão de 2,8 pontos percentuais.
Os números reforçaram a percepção de resiliência operacional, apesar da queda de 1,3% na receita líquida, que totalizou R$ 1,655 bilhão no trimestre. A companhia conseguiu preservar rentabilidade mesmo em um ambiente de volumes mais desafiadores e câmbio menos favorável.
No quarto trimestre de 2025, a Marcopolo (POMO4) também havia apresentado resultado considerado positivo por analistas, com lucro líquido de R$ 342 milhões, alta de 7,2% na comparação anual. O Ebitda ajustado, excluindo impacto não recorrente, alcançou R$ 488 milhões, com margem de 19%.
Esses resultados ajudam a sustentar a recomendação de compra. Para o Safra, a companhia combina qualidade operacional, exposição a mercados com potencial de recuperação e valuation ainda atrativo.
A melhora de margem é particularmente relevante. Em empresas industriais, rentabilidade operacional consistente indica capacidade de controlar custos, ajustar mix de produtos e preservar eficiência mesmo com oscilações de demanda.
Safra revisa estimativas para 2026
O Safra incorporou os resultados mais recentes da Marcopolo (POMO4) para atualizar suas projeções. O banco revisou o lucro líquido estimado para 2026 em 4,7%, indicando expectativa mais favorável para o resultado final da companhia.
Por outro lado, a projeção de Ebitda foi ajustada para R$ 1,71 bilhão, queda de 1,3% em relação à estimativa anterior. A receita esperada foi revisada para R$ 9,74 bilhões, recuo de 1,7%, refletindo câmbio mais fraco e menores volumes esperados em ônibus urbanos.
A combinação mostra que o banco vê melhora no lucro, mas mantém cautela sobre a linha operacional. Esse tipo de ajuste pode ocorrer quando há melhora em despesas financeiras, impostos, mix de produtos ou outros fatores abaixo do Ebitda, mesmo com receita e geração operacional revisadas para baixo.
Para investidores, a mensagem é que a tese da Marcopolo (POMO4) não depende apenas de crescimento de receita. A capacidade de preservar margens, controlar custos e capturar oportunidades em segmentos específicos também pesa na avaliação.
A empresa se beneficia de escala industrial, presença internacional e diversificação de mercados. Ao mesmo tempo, permanece exposta a ciclos de renovação de frota, crédito, câmbio e decisões de operadores de transporte.
Ação tem potencial de 30%, segundo o banco
Com o novo preço-alvo de R$ 9,10, o Safra vê potencial de valorização de aproximadamente 30% para a ação da Marcopolo (POMO4). A recomendação de compra indica que, na visão do banco, o risco-retorno permanece favorável.
Esse potencial considera premissas sobre lucro, margens, demanda por ônibus, ambiente de custos e condições de mercado. Como em qualquer preço-alvo, as estimativas podem mudar se houver alteração relevante no cenário macroeconômico, no petróleo, no câmbio ou nos resultados da companhia.
A tese também depende do comportamento do setor de transporte. Se a alta do petróleo elevar passagens aéreas e estimular maior demanda por viagens rodoviárias, a Marcopolo (POMO4) pode se beneficiar indiretamente por meio de encomendas de frota.
Por outro lado, se o custo do diesel pressionar fortemente as operadoras ou se governos postergarem reajustes no transporte urbano, a renovação de ônibus pode perder ritmo. Esse é o principal ponto de equilíbrio da análise.
O papel também pode reagir ao desempenho operacional da companhia nos próximos trimestres. Margens, volume de produção, exportações e carteira de pedidos serão indicadores importantes para confirmar ou revisar a tese do Safra.
Petróleo pode redesenhar dinâmica do transporte
A análise do Safra coloca a Marcopolo (POMO4) em uma discussão mais ampla sobre os efeitos do petróleo na economia. A alta da commodity não afeta apenas empresas de energia; ela redesenha custos relativos entre setores, muda decisões de consumo e altera estratégias empresariais.
No transporte de passageiros, a diferença entre tarifa aérea e rodoviária pode ganhar peso. Consumidores sensíveis a preço tendem a comparar alternativas, especialmente em rotas de média distância ou em períodos de alta demanda.
Para operadores de ônibus, eventual aumento de passageiros pode melhorar ocupação e receita. Se esse movimento se sustentar, a renovação e expansão de frota podem ganhar tração, favorecendo fabricantes como a Marcopolo (POMO4).
Ainda assim, o cenário exige cautela. O mesmo petróleo que torna o avião mais caro também encarece diesel, pneus, logística e parte dos insumos industriais. O efeito líquido dependerá da capacidade de repasse, do nível de demanda e das condições financeiras dos operadores.
A Marcopolo (POMO4) entra nesse quadro como uma companhia industrial exposta a diferentes vetores. O preço-alvo maior do Safra sinaliza confiança na tese, mas a execução operacional e a evolução dos custos continuarão determinantes para o desempenho da ação.









