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MP denuncia fundador da Ultrafarma por suposto esquema bilionário de ICMS em SP

Promotores apontam rede com fiscais, consultorias, empresários e operadores financeiros para liberar créditos tributários irregulares na Secretaria da Fazenda paulista

por João Souza
15/05/2026 às 15h09
em Empresas
Mp Denuncia Fundador Da Ultrafarma Por Suposto Esquema Bilionário De Icms Em Sp - Gazeta Mercantil - Empresas

O Ministério Público de São Paulo denunciou nesta sexta-feira (15) o empresário Sidney Oliveira, fundador da Ultrafarma, e outras dez pessoas por suposta participação em um esquema bilionário de corrupção e manipulação de créditos de ICMS dentro da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo. A denúncia, apresentada no âmbito da Operação Ícaro, afirma que a estrutura teria reunido auditores fiscais, consultorias tributárias, empresários e operadores financeiros para liberar créditos tributários irregulares a empresas do varejo entre 2021 e 2025.

Segundo a Promotoria, o grupo teria movimentado cerca de R$ 1 bilhão em propinas. O principal operador do suposto esquema, de acordo com a denúncia, seria o ex-auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, ex-supervisor da Diretoria de Fiscalização da Sefaz-SP. Ele segue preso preventivamente e é acusado de coordenar demandas entre fiscais, intermediar negociações com empresas interessadas nos créditos tributários e organizar pagamentos ilícitos.

Leia também: Presença militar dos EUA no Caribe: Lula denuncia avanço e Venezuela reforça fronteira.

A acusação coloca Sidney Oliveira no chamado núcleo empresarial da organização. O MP-SP sustenta que o fundador da Ultrafarma mantinha relação direta com o ex-auditor fiscal e teria autorizado pagamentos destinados a agentes públicos envolvidos no esquema. A denúncia também aponta que mensagens interceptadas pela investigação indicariam o uso de codinomes para se referir a Silva Neto, tratado como “amigo” e “king” em conversas atribuídas ao empresário.

Os investigados ainda não foram condenados. A denúncia precisa ser analisada pela Justiça, que decidirá se aceita ou não a acusação formal. Sidney Oliveira e os demais citados têm direito à defesa, ao contraditório e à apresentação de documentos durante o processo.

Promotoria aponta quatro núcleos no suposto esquema

A denúncia descreve uma estrutura dividida em quatro frentes: agentes públicos, núcleo técnico-operacional, braço empresarial e operadores financeiros. Segundo o Ministério Público, essa organização teria atuado para manipular pedidos de créditos tributários, acelerar liberações dentro da Sefaz-SP e viabilizar pagamentos indevidos a fiscais.

O núcleo de agentes públicos seria formado por auditores fiscais e servidores com acesso a processos administrativos e sistemas ligados à restituição ou compensação de ICMS. A atuação desses agentes, segundo os promotores, teria sido essencial para destravar valores de interesse das empresas beneficiadas.

O núcleo técnico-operacional envolveria consultorias tributárias e profissionais responsáveis por estruturar pedidos, organizar documentos e intermediar tratativas. Já o braço empresarial reuniria companhias e executivos interessados na liberação dos créditos.

A quarta frente, segundo a acusação, seria formada por operadores financeiros encarregados de movimentar recursos, ocultar origem de valores e viabilizar pagamentos em espécie ou por estruturas de lavagem de dinheiro.

Ex-auditor fiscal é apontado como operador central

Artur Gomes da Silva Neto aparece na denúncia como figura central do caso. Ex-supervisor da Diretoria de Fiscalização da Sefaz-SP, ele é acusado de usar sua posição funcional e sua rede de contatos dentro da administração tributária paulista para coordenar a liberação irregular de créditos.

De acordo com a acusação, o ex-auditor teria distribuído demandas entre fiscais e intermediado negociações com empresas interessadas em obter créditos tributários. O MP-SP afirma que ele também teria atuado na definição dos valores pagos como propina e na forma de entrega dos recursos.

A investigação atribui ao ex-servidor papel estratégico porque ele teria conhecimento técnico dos procedimentos internos da Fazenda paulista. Esse domínio permitiria, segundo os promotores, direcionar processos, acelerar análises e reduzir obstáculos administrativos.

A atuação de fiscais tributários em supostos esquemas dessa natureza é especialmente sensível porque envolve a arrecadação estadual. O ICMS é uma das principais fontes de receita dos governos estaduais e tem peso direto no financiamento de serviços públicos, investimentos e equilíbrio fiscal.

Denúncia cita entregas de dinheiro na sede da Ultrafarma

A Promotoria afirma que pagamentos em dinheiro vivo teriam ocorrido na sede administrativa da Ultrafarma, em Santa Isabel, na Grande São Paulo. Segundo a denúncia, dados de geolocalização do celular de Artur Gomes da Silva Neto indicariam presença frequente do ex-auditor no local.

Em um dos episódios descritos pelos promotores, o fiscal teria recebido R$ 250 mil em espécie dentro da empresa. A denúncia também cita uma conversa em que Sidney Oliveira teria autorizado a entrega de “50”, valor interpretado pelos investigadores como R$ 50 mil em dinheiro vivo.

Esses elementos são apresentados pelo Ministério Público como indícios de participação direta do empresário no fluxo de pagamentos. A defesa poderá contestar a interpretação das mensagens, a leitura dos dados de localização e a relação entre os encontros e os supostos repasses.

O ponto central para a Justiça será verificar se as provas reunidas pelo MP-SP demonstram a existência de pagamentos ilegais, a participação dos denunciados e a ligação entre os valores transferidos e a liberação de créditos tributários.

Caso envolve créditos de ICMS

O ICMS é um imposto estadual cobrado sobre circulação de mercadorias e prestação de determinados serviços. Em alguns casos, empresas podem solicitar créditos tributários quando têm direito à restituição, compensação ou aproveitamento de valores recolhidos em etapas anteriores da cadeia.

Esse tipo de crédito é relevante para companhias do varejo, indústria e distribuição, especialmente em operações de grande volume. Quando o processo é regular, os créditos fazem parte da mecânica tributária. O problema ocorre quando há suspeita de manipulação, inflação artificial de valores, aceleração indevida de processos ou pagamento de propina a agentes públicos.

Segundo denúncias anteriores do MP-SP relacionadas à mesma investigação, os promotores já haviam apontado que a Ultrafarma teria sido beneficiada com ressarcimento indevido de R$ 327,1 milhões em créditos de ICMS. Essa acusação consta de etapa anterior da Operação Ícaro, apresentada em fevereiro, quando Sidney Oliveira e outros investigados foram denunciados por corrupção.

A nova denúncia amplia o alcance da apuração ao tratar de organização criminosa e detalhar a estrutura que, segundo o Ministério Público, teria sustentado o suposto esquema entre 2021 e 2025.

Segunda denúncia contra Sidney Oliveira no ano

A denúncia apresentada nesta sexta-feira é a segunda acusação criminal contra Sidney Oliveira no contexto da Operação Ícaro em 2026. Em fevereiro, o Ministério Público de São Paulo já havia denunciado o empresário e outras pessoas por suspeita de corrupção ligada à liberação de créditos tributários na Sefaz-SP.

Na primeira frente, os promotores afirmaram que crimes de corrupção ativa e passiva teriam ocorrido entre 2021 e 2025 e causado prejuízo expressivo aos cofres públicos. Na nova etapa, a acusação passa a enfatizar a existência de uma estrutura organizada e divisão de tarefas entre diferentes núcleos.

Esse avanço é relevante porque pode alterar o enquadramento jurídico dos fatos investigados. Uma acusação de organização criminosa pressupõe, em tese, estrutura estável, divisão de funções e atuação coordenada para a prática de crimes.

A aceitação da denúncia pela Justiça não significa condenação. Caso a acusação seja recebida, os denunciados passam à condição de réus e o processo seguirá para produção de provas, oitiva de testemunhas, manifestações das defesas e decisão judicial.

MP pede tornozeleira e restrições contra fundador da Ultrafarma

Além da denúncia, os promotores pediram medidas cautelares contra Sidney Oliveira. Entre elas estão uso de tornozeleira eletrônica, apreensão de passaporte, comparecimento periódico à Justiça e proibição de deixar a comarca onde reside.

Essas medidas, se deferidas, não equivalem a condenação. São instrumentos usados pelo Judiciário para acompanhar investigados ou réus durante o andamento do processo, preservar a instrução penal e reduzir riscos apontados pela acusação.

O pedido de retenção de passaporte indica preocupação dos promotores com eventual deslocamento do investigado para fora do país. Já o comparecimento periódico e a restrição de circulação são medidas de monitoramento judicial.

A Justiça deverá avaliar se as cautelares são necessárias, proporcionais e adequadas ao estágio do processo. A defesa poderá contestar os pedidos e apresentar argumentos contra a imposição das restrições.

Impacto atinge setor farmacêutico e varejo

A denúncia contra o fundador da Ultrafarma tem impacto relevante porque envolve uma das redes mais conhecidas do varejo farmacêutico brasileiro. A empresa construiu forte presença no comércio de medicamentos, especialmente em São Paulo, com lojas físicas, operações digitais e alta exposição de marca.

Casos envolvendo suspeitas de fraude tributária podem afetar reputação, relacionamento com fornecedores, credores, consumidores e órgãos reguladores. Ainda que a denúncia mire pessoas físicas e a investigação siga o rito judicial, a associação do nome da empresa a acusações fiscais bilionárias aumenta a pressão sobre governança e controles internos.

No setor farmacêutico, a carga tributária e a dinâmica de créditos fiscais são temas sensíveis. Empresas operam com margens pressionadas, forte concorrência e grande volume de transações. Qualquer suspeita de benefício indevido em créditos de ICMS pode gerar questionamentos sobre concorrência, vantagem tributária e equilíbrio de mercado.

Para concorrentes, a apuração também pode reacender discussões sobre fiscalização fiscal no varejo. Empresas que cumprem integralmente suas obrigações tributárias tendem a cobrar rigor contra práticas que possam reduzir artificialmente custos de operação.

Sefaz-SP fica no centro da apuração

A Secretaria da Fazenda paulista ocupa papel central na denúncia porque o suposto esquema teria ocorrido dentro de processos de liberação de créditos tributários. O caso expõe a sensibilidade de áreas técnicas responsáveis por analisar pedidos de restituição, compensação e aproveitamento de ICMS.

Em estruturas tributárias complexas, a atuação de auditores fiscais exige alto grau de controle, rastreabilidade e transparência. Quando servidores são acusados de manipular processos ou receber propina, o impacto vai além do caso individual e atinge a confiança na administração tributária.

A investigação da Operação Ícaro deve pressionar a Sefaz-SP a reforçar mecanismos internos de compliance, auditoria e controle de acessos. Também pode levar a revisões em processos de análise de créditos, principalmente em casos de alto valor.

Para o Estado de São Paulo, o tema tem peso fiscal. O ICMS é uma das principais bases de arrecadação estadual. Fraudes em créditos tributários reduzem receitas, distorcem a concorrência e podem gerar perdas expressivas ao orçamento público.

Denúncia aprofunda Operação Ícaro

A Operação Ícaro já havia produzido desdobramentos em 2025 e no início de 2026. Em agosto de 2025, o MP-SP denunciou sete pessoas por envolvimento em esquema de corrupção que teria movimentado mais de R$ 1 bilhão em pagamento de propina a auditor fiscal da Secretaria da Fazenda. Artur Gomes da Silva Neto estava entre os denunciados por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Em fevereiro de 2026, a investigação avançou sobre empresários e ex-auditores fiscais, incluindo Sidney Oliveira, com acusações de corrupção relacionadas a créditos tributários. Agora, a nova denúncia amplia a narrativa da Promotoria sobre a estrutura do grupo e o papel de cada núcleo.

O avanço em etapas é comum em investigações econômicas complexas. A análise de mensagens, documentos, dados de geolocalização, registros bancários e informações fiscais costuma revelar novas conexões e levar a denúncias complementares.

O caso deve seguir sob acompanhamento próximo do setor empresarial, da área tributária e dos órgãos de controle, dado o volume financeiro citado pelos promotores e o potencial impacto sobre a arrecadação estadual.

Acusados terão de responder à Justiça

Com a apresentação da denúncia, caberá à Justiça decidir se há elementos suficientes para instaurar ação penal contra Sidney Oliveira e os demais acusados. Caso a denúncia seja aceita, os investigados se tornarão réus e passarão a responder formalmente no processo.

A defesa dos denunciados poderá pedir rejeição da acusação, contestar provas, questionar interceptações, discutir interpretações de mensagens e apresentar documentos que sustentem sua versão dos fatos.

O processo também deverá esclarecer se houve pagamento de propina, quem participou dos supostos repasses, quais empresas teriam sido beneficiadas, qual foi o dano efetivo ao erário e se os créditos de ICMS liberados eram irregulares.

Até uma decisão final, prevalece a presunção de inocência. A denúncia representa uma acusação formal do Ministério Público, não uma condenação.

Fraude fiscal bilionária amplia pressão por controle no ICMS

A nova denúncia contra Sidney Oliveira e outros dez acusados reforça a pressão sobre mecanismos de controle no sistema tributário paulista. O caso reúne elementos de grande impacto público: suspeita de corrupção dentro da Fazenda estadual, créditos de ICMS de alto valor, participação de empresários conhecidos e possível lavagem de dinheiro.

Para o Ministério Público, a Operação Ícaro revela uma estrutura organizada para capturar processos administrativos e transformar créditos tributários em fonte de vantagem ilícita. Para as defesas, a disputa judicial ainda terá de demonstrar se houve crime, quem participou e se as provas sustentam a acusação.

O desfecho pode ter reflexos relevantes para a Ultrafarma, para a administração tributária paulista e para empresas que dependem de créditos fiscais em suas operações. A investigação também tende a acelerar discussões sobre transparência, auditoria e governança em processos de ressarcimento de ICMS.

A partir de agora, o caso entra em uma nova fase. A Justiça terá de decidir se recebe a denúncia, se aplica medidas cautelares contra os acusados e quais diligências serão necessárias para esclarecer o suposto esquema bilionário apontado pelo Ministério Público.

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