O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) foi anunciado como embaixador oficial da marca de chinelos Pé Direito, empresa sediada em Vila Velha, no Espírito Santo, criada após a polêmica envolvendo uma campanha publicitária da Havaianas no fim de 2025. O parlamentar divulgou a marca no último sábado (9), em vídeo publicado nas redes sociais, no qual apresentou o novo produto como uma resposta a campanhas vistas por grupos conservadores como incompatíveis com seus valores.
A Pé Direito surgiu em meio à reação de políticos e influenciadores ligados à direita conservadora contra uma campanha da Havaianas estrelada pela atriz Fernanda Torres. Na peça publicitária, a marca tradicional sugeria ao público entrar em 2026 “com os dois pés”, em referência à expressão popular “pé direito”. A campanha provocou críticas de setores conservadores e foi interpretada por esses grupos como uma provocação de caráter político e cultural.
No vídeo de divulgação, Nikolas Ferreira afirmou que a campanha da Havaianas foi “a gota d’água” e apresentou a Pé Direito como uma marca brasileira voltada a consumidores que, segundo ele, “nunca abriram mão dos valores e princípios”. A associação do parlamentar ao lançamento reforça a estratégia de aproximar consumo, identidade ideológica e engajamento nas redes sociais.
Segundo a empresa, cerca de 20 mil pares já foram vendidos durante a fase de pré-venda. A companhia afirma ainda ter 50 mil unidades preparadas para abastecer o mercado no lançamento oficial, previsto para quinta-feira (14). Além dos chinelos, a marca diz planejar expansão futura para roupas e outros produtos direcionados ao mesmo público.
Marca nasce como resposta a campanha da Havaianas
A origem da Pé Direito está diretamente ligada à controvérsia gerada pela campanha da Havaianas. A publicidade, lançada no fim de 2025, usou como mote a ideia de começar o ano “com os dois pés”, em vez da expressão tradicional “pé direito”.
Embora a campanha tenha sido interpretada por parte do público como uma peça de linguagem bem-humorada, políticos e influenciadores conservadores reagiram negativamente. Nomes como Eduardo Bolsonaro e Bia Kicis apoiaram publicamente movimentos de boicote à marca.
A reação evidenciou o grau de sensibilidade de campanhas publicitárias em um ambiente de forte polarização política. Expressões, símbolos e slogans passaram a ser lidos não apenas como elementos criativos, mas como sinais de posicionamento cultural.
A Pé Direito tenta ocupar justamente esse espaço. A empresa se apresenta como alternativa de consumo para um público que deseja associar escolhas de marca a valores conservadores, transformando uma controvérsia publicitária em oportunidade comercial.
Nikolas Ferreira amplia presença em estratégia de consumo conservador
A escolha de Nikolas Ferreira como embaixador da marca dá à Pé Direito uma plataforma de divulgação com forte alcance digital. O deputado é um dos parlamentares de maior presença nas redes sociais e mantém base de apoiadores alinhada a pautas conservadoras.
Ao se associar à marca, Nikolas transfere parte de sua capacidade de mobilização para um produto de consumo popular. Chinelos são itens de amplo alcance, baixo custo relativo e forte presença no cotidiano brasileiro, o que facilita a construção de uma campanha com apelo simbólico e comercial.
A estratégia também mostra como figuras políticas vêm sendo incorporadas a campanhas de produtos voltados a nichos ideológicos. Em vez de atuar apenas no debate institucional, esses nomes passam a funcionar como influenciadores de consumo, capazes de direcionar atenção, engajamento e vendas.
Para a Pé Direito, a associação com o parlamentar ajuda a dar escala à marca ainda em fase inicial. Para Nikolas, a parceria reforça sua presença junto a um público que valoriza consumo como forma de posicionamento político-cultural.
Empresa aposta em família, fé e patriotismo
No manifesto divulgado em seu site oficial, a Pé Direito afirma defender temas como família, fé, patriotismo e valorização do trabalho. A marca também sustenta que grandes companhias teriam receio de assumir lado em disputas culturais, o que, na visão da empresa, abriria espaço para negócios voltados ao público conservador.
Esse discurso posiciona a empresa dentro de uma tendência de segmentação ideológica do consumo. Em vez de vender apenas atributos funcionais, como conforto, preço ou durabilidade, a marca tenta construir identificação por valores.
A estratégia é comum em mercados altamente competitivos, nos quais novas empresas buscam diferenciação por narrativa. No caso da Pé Direito, o diferencial não está apenas no produto, mas na tentativa de criar uma comunidade de consumidores em torno de uma visão de mundo.
Esse tipo de posicionamento pode gerar engajamento rápido, especialmente em redes sociais. Ao mesmo tempo, também pode limitar a base potencial de consumidores, já que marcas explicitamente ideológicas tendem a atrair forte adesão de um grupo e resistência de outro.
Pré-venda indica tração inicial do produto
A Pé Direito afirma ter vendido cerca de 20 mil pares de chinelos na fase de pré-venda. O número, se confirmado no lançamento, sugere tração inicial relevante para uma marca recém-criada e baseada em nicho político-cultural.
A empresa também informou que terá 50 mil unidades disponíveis para o lançamento oficial, marcado para quinta-feira (14). A capacidade de atender à demanda inicial será um teste importante para a operação, especialmente em logística, atendimento ao consumidor e controle de qualidade.
Marcas que nascem impulsionadas por controvérsias costumam registrar picos de atenção no lançamento. O desafio é transformar essa atenção inicial em recorrência de compra e fidelização de clientes.
Para isso, a Pé Direito precisará demonstrar que seu produto entrega atributos básicos esperados pelo consumidor, como conforto, resistência, preço adequado, prazo de entrega e boa experiência de compra. O discurso ideológico pode impulsionar a primeira venda, mas a repetição depende da qualidade percebida.
Havaianas permanece como referência no segmento
A criação da Pé Direito ocorre em um mercado dominado por marcas consolidadas, especialmente Havaianas, que pertence à Alpargatas (ALPA4). A marca é uma das principais referências globais em chinelos e sandálias, com forte presença no Brasil e no exterior.
A polêmica envolvendo a campanha mostra, porém, que mesmo marcas líderes estão expostas a reações intensas nas redes sociais. Em mercados polarizados, campanhas publicitárias podem gerar engajamento positivo, mas também movimentos de boicote e oportunidades para concorrentes de nicho.
Para empresas tradicionais, o episódio reforça a necessidade de avaliar cuidadosamente o contexto cultural de suas mensagens. A publicidade contemporânea já não circula apenas como peça de branding: ela pode ser reinterpretada politicamente, viralizar em ambientes de conflito e afetar reputação.
No caso da Pé Direito, a empresa tenta converter a reação contra uma marca estabelecida em ativo comercial próprio. O sucesso dessa estratégia dependerá da capacidade de manter relevância após o ciclo inicial de polêmica.
Política e consumo se cruzam em novas estratégias de marca
O episódio envolvendo Nikolas Ferreira, Pé Direito e Havaianas reforça a aproximação entre posicionamento político e estratégias de consumo no Brasil. Nos últimos anos, campanhas publicitárias passaram a ser avaliadas por grupos organizados nas redes sociais não apenas por sua criatividade, mas por sinais de alinhamento ou oposição a valores culturais.
Esse ambiente abre espaço para marcas de nicho que se apresentam como alternativas a empresas tradicionais. O consumo passa a funcionar também como gesto de pertencimento, em que o comprador escolhe produtos alinhados à sua identidade política, religiosa ou cultural.
A estratégia pode ser eficiente para gerar engajamento, especialmente quando apoiada por influenciadores e políticos com audiência consolidada. Contudo, também aumenta o risco de rejeição por consumidores que não compartilham o mesmo posicionamento.
Para o mercado publicitário, a movimentação evidencia um cenário mais fragmentado. Marcas precisam decidir se buscam neutralidade, se assumem causas amplas ou se se posicionam de forma explícita para determinados públicos. Cada caminho envolve ganhos e riscos reputacionais.
Lançamento testa força comercial do consumo ideológico
A estreia da Pé Direito será um teste relevante para medir a força comercial de marcas construídas a partir de reação política e cultural. A pré-venda de 20 mil pares indica que há demanda inicial, mas o lançamento oficial mostrará se o engajamento digital será convertido em vendas sustentadas.
A associação com Nikolas Ferreira dá visibilidade imediata à empresa, mas também vincula a marca a um público e a uma narrativa específicos. Essa escolha pode acelerar o crescimento em um nicho, ao mesmo tempo em que delimita o campo de expansão.
A disputa com marcas tradicionais não será apenas simbólica. A Pé Direito terá de competir em preço, qualidade, distribuição, logística e experiência de compra. Em produtos de consumo recorrente, reputação se constrói pela soma entre narrativa e entrega.
O caso mostra como a polarização brasileira passou a influenciar também o varejo e a publicidade. A partir de uma campanha de fim de ano, surgiu uma nova marca que busca transformar identidade ideológica em produto, audiência e mercado.









