Otimismo com mercados emergentes atinge maior nível em dois anos, revela pesquisa com gestores de fundos
O interesse dos investidores por mercados emergentes vive um momento de forte retomada. De acordo com uma pesquisa recente do HSBC com 100 gestores de recursos, o otimismo em relação a esses mercados alcançou o maior patamar desde março de 2023. O levantamento indica que 44% dos gestores acreditam que os mercados emergentes terão desempenho positivo nos próximos três meses — um crescimento expressivo em relação aos 36% registrados no primeiro trimestre deste ano.
Com a gestão de mais de US$ 414 bilhões em ativos de mercados emergentes, os entrevistados demonstram uma confiança crescente, mesmo diante de incertezas geopolíticas e instabilidades macroeconômicas globais. Esse aumento no otimismo está diretamente ligado à recuperação recente dos ativos emergentes, que sofreram uma liquidação em abril, mas já vêm mostrando sinais claros de recuperação em maio e junho.
Recuperação dos ativos emergentes impulsiona otimismo
O salto no otimismo coincide com um momento em que os ativos de mercados emergentes começam a apresentar recuperação significativa. Após a correção observada em abril, motivada por medidas protecionistas como tarifas impostas por lideranças políticas internacionais, especialmente nos Estados Unidos, os investidores voltaram a olhar com atenção para os fundamentos dessas economias.
Durante o período da pesquisa — entre 2 de maio e 18 de junho — o índice MSCI de ações de mercados emergentes subiu mais de 6%, enquanto o índice de moedas emergentes atingiu recordes históricos, com valorização de 2,6%. Esses números indicam não apenas uma recuperação momentânea, mas uma possível retomada sustentada.
Expectativa de desempenho superior em relação a mercados desenvolvidos
Outro dado relevante do levantamento é que o consenso entre os gestores aponta para uma performance superior dos mercados emergentes em comparação com os mercados desenvolvidos. Isso mostra uma mudança de direção no apetite ao risco e no foco de investimentos globais, reforçando a tese de que países como Brasil, Índia, México, Indonésia e Turquia voltam a ser considerados atrativos por apresentarem crescimento acima da média, moeda mais competitiva e ciclos econômicos distintos.
Esse tipo de movimento tende a beneficiar também ativos locais, como ações listadas em bolsas de valores de países emergentes e títulos públicos de renda fixa, especialmente em contextos de queda do dólar.
Moedas de mercados emergentes ganham força com dólar enfraquecido
A valorização das moedas de países emergentes também foi um destaque apontado na pesquisa. Com a queda do dólar frente a diversas divisas globais, o real brasileiro, o peso mexicano e a rupia indiana, por exemplo, passaram a ganhar mais atenção dos investidores institucionais.
Esse fenômeno se explica em parte pela política monetária do Federal Reserve (Fed), que sinalizou, durante o período da pesquisa, que não deve reduzir os juros no curto prazo. Com a manutenção de uma taxa de juros elevada nos EUA, mas sem novas altas no horizonte, o dólar perde atratividade relativa, abrindo espaço para valorização de outras moedas.
América Latina ganha protagonismo entre os investidores
No recorte regional da pesquisa, a América Latina se destacou como uma das regiões mais promissoras dentro dos mercados emergentes. A percepção positiva abrange todas as classes de ativos, o que inclui ações, renda fixa e moedas.
O Brasil, por exemplo, aparece como um dos principais beneficiados desse movimento. A combinação de inflação sob controle, juros elevados (atraindo fluxo estrangeiro para o carry trade), estabilidade política relativa e commodities em alta cria um cenário bastante atrativo para investidores institucionais.
Já a Ásia, embora continue relevante, sofreu um leve recuo no posicionamento líquido, o que é atribuído à preocupação com tarifas recíprocas entre grandes economias asiáticas e os Estados Unidos, o que afeta diretamente o comércio internacional e cadeias produtivas estratégicas.
Aumento na alocação em caixa sinaliza cautela
Apesar do otimismo geral, a pesquisa também revela que os gestores estão mantendo certo grau de cautela. A alocação média em caixa subiu de 4,9% para 5,6% — um indicativo de que, embora as perspectivas estejam melhores, o cenário ainda exige cuidado, especialmente diante do aumento das tensões no Oriente Médio.
A instabilidade geopolítica, exemplificada pelo recente ataque aéreo de Israel ao programa nuclear iraniano, mantém os investidores em alerta. Situações como essa, somadas à incerteza sobre a trajetória das economias desenvolvidas, podem gerar oscilações de curto prazo mesmo em mercados com fundamentos sólidos.
Diferença entre sentimento otimista e pessimista cresce
Mesmo com uma leve alta na proporção de respostas pessimistas — que passou de 10% em março para 14% em junho — a diferença líquida entre os otimistas e os pessimistas aumentou de 26% para 30%, sinalizando uma melhora clara na confiança geral dos investidores institucionais com os mercados emergentes.
Esse aumento na diferença líquida reforça que, embora haja incertezas, a tendência dominante é de recuperação e valorização desses ativos. Para muitos analistas, esse tipo de dado é relevante para balizar estratégias de alocação de longo prazo e definir a exposição a riscos em diferentes geografias.
Fundamentos sólidos reforçam potencial de valorização
Os mercados emergentes apresentam vantagens estruturais que continuam a atrair capital internacional. Entre os principais fatores que sustentam essa atratividade, destacam-se:
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Crescimento econômico superior à média mundial, impulsionado por setores primários e industriais;
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População jovem e crescente, com aumento no consumo doméstico;
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Potencial de inovação tecnológica e transformação digital;
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Diversificação de cadeias produtivas, com foco em produção local;
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Reservas cambiais em níveis robustos, que conferem resiliência a choques externos.
Somados, esses pontos consolidam a imagem dos mercados emergentes como destinos relevantes para investidores que buscam rentabilidade acima da média e diversificação de risco.
O que esperar dos mercados emergentes
Com ativos em recuperação, moedas valorizando, fluxos financeiros aumentando e sentimento otimista em alta, os mercados emergentes voltam a ocupar espaço de destaque nas estratégias de fundos globais.
Ainda que existam riscos no radar — como tensões geopolíticas e incertezas econômicas externas — o cenário estrutural favorável reforça a tese de que os próximos trimestres podem ser de valorização consistente.
Para investidores brasileiros, esse movimento representa também uma oportunidade de reposicionar seus portfólios, explorando não apenas ativos internacionais, mas também empresas locais fortemente expostas ao comércio exterior, ao setor de commodities e à valorização cambial.






