TRE-SP marca julgamento que pode reverter inelegibilidade de Pablo Marçal
O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) marcou para o dia 6 de novembro de 2025 o julgamento de dois processos que tornaram o empresário e influenciador Pablo Marçal inelegível por oito anos. As ações envolvem acusações de abuso de poder econômico, captação ilícita de recursos e uso irregular das redes sociais durante a campanha municipal de 2024, quando o ex-coach concorreu à Prefeitura de São Paulo pelo PRTB.
A sessão será presidida pelo desembargador Silmar Fernandes e deverá definir se as condenações aplicadas em primeira instância serão mantidas ou anuladas. O desfecho tem potencial de redefinir o futuro político de Marçal, que, nos últimos anos, se consolidou como uma das figuras mais midiáticas da nova direita brasileira.
Do coaching à política: a ascensão de Pablo Marçal
Pablo Marçal construiu sua trajetória pública como coach motivacional e influenciador digital, antes de migrar para a política partidária. Com um discurso centrado em empreendedorismo, fé e autossuperação, ele conquistou milhões de seguidores nas redes sociais, transformando sua imagem em um ativo político.
Em 2024, lançou sua candidatura à Prefeitura de São Paulo, posicionando-se como um outsider disposto a desafiar o sistema político tradicional. A campanha de Marçal chamou atenção pelo uso intenso de plataformas digitais e estratégias de engajamento em massa, mas também levantou suspeitas sobre limites éticos e legais da comunicação eleitoral online.
Foi justamente nesse contexto que surgiram as ações que resultaram em sua inelegibilidade, agora sob revisão do TRE-SP.
As condenações que tornaram Pablo Marçal inelegível
As duas condenações em análise foram proferidas em primeira instância pelo juiz Antonio Maria Patiño Zorz, responsável pela 1ª Zona Eleitoral de São Paulo. Ambas tiveram origem em ações propostas pelo PSB e pelo PSOL, partidos que questionaram a legalidade das práticas eleitorais do então candidato.
A primeira condenação, ocorrida em fevereiro de 2025, teve como base um vídeo publicado por Marçal em suas redes sociais, no qual ele teria oferecido apoio político a um vereador em troca de R$ 5 mil para sua campanha. O Ministério Público Eleitoral considerou o conteúdo indício de negociação irregular de apoio político, o que configuraria abuso de poder econômico e compra de apoio eleitoral.
A segunda condenação, proferida em abril, tratou de uso indevido das redes sociais e captação ilícita de recursos. O processo apontou que o empresário teria promovido campeonatos online com premiações em dinheiro, estimulando seguidores a divulgar conteúdos eleitorais favoráveis a ele para obter maior alcance digital. A prática, segundo a sentença, representaria uma forma indireta de financiamento irregular de campanha e violaria as normas da Justiça Eleitoral.
Uma terceira ação, também movida pelo PSB, ainda não foi liberada para julgamento no TRE-SP. Ela aborda supostos sorteios e campanhas virtuais com prêmios em dinheiro, o que configuraria abuso de poder econômico e uso indevido das redes sociais.
O que será julgado pelo TRE-SP
No dia 6 de novembro, o plenário do TRE-SP analisará apenas as duas condenações já confirmadas em primeira instância. A corte poderá manter a inelegibilidade, reduzir a penalidade ou absolver o ex-candidato, dependendo da avaliação dos desembargadores.
Caso o tribunal decida pela anulação das condenações, Pablo Marçal poderá retomar seus direitos políticos imediatamente, abrindo caminho para disputar futuras eleições — inclusive a de 2026, para a Câmara dos Deputados.
Por outro lado, se o TRE-SP mantiver as decisões originais, Marçal continuará inelegível até 2033, permanecendo impedido de concorrer a qualquer cargo eletivo. Nesse caso, a defesa ainda poderá recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília, buscando reverter o resultado.
Defesa aposta em reviravolta
Em nota, Pablo Marçal afirmou estar confiante na Justiça e declarou que cumpriu todas as exigências legais durante a campanha. Segundo pessoas próximas ao político, a equipe jurídica acredita que houve falhas processuais nas decisões anteriores e que as provas apresentadas não configuram abuso de poder econômico.
A defesa sustenta que as ações movidas contra ele refletem perseguição política e tentam neutralizar sua ascensão eleitoral. Advogados afirmam que as estratégias digitais de campanha adotadas por Marçal estavam em conformidade com as normas eleitorais vigentes, e que os vídeos e promoções questionados não envolveram repasse de recursos de forma ilegal.
Especialistas em direito eleitoral, contudo, avaliam que o julgamento no TRE-SP tende a ser mais técnico e menos político. O tribunal deverá se concentrar na interpretação dos limites legais do marketing eleitoral nas redes sociais, um tema que vem sendo amplamente debatido desde as eleições de 2022.
O papel das redes sociais e a influência política
O caso Pablo Marçal inelegível reacende o debate sobre o uso das redes sociais nas campanhas eleitorais e os limites entre liberdade de expressão e propaganda irregular. Marçal construiu sua base de apoio por meio de plataformas digitais, combinando estratégias de engajamento orgânico e campanhas de impulsionamento com apelo motivacional.
Durante a corrida eleitoral, seu canal de mensagens privadas e competições online se tornaram uma das principais ferramentas de mobilização. Críticos apontam que essas iniciativas ultrapassaram a fronteira entre marketing político legítimo e captação ilícita de recursos, ao oferecer recompensas financeiras atreladas à promoção de conteúdo eleitoral.
O TSE e o TRE-SP vêm enfrentando o desafio de adaptar a legislação a esse novo cenário, em que influenciadores políticos e digitais operam fora das estruturas tradicionais de partidos e coligações. O caso Marçal deve, portanto, criar um precedente importante sobre como interpretações jurídicas se aplicam ao uso de plataformas sociais em campanhas.
Repercussão política e expectativas
A decisão do TRE-SP é aguardada com atenção não apenas por aliados de Marçal, mas também por analistas políticos e dirigentes partidários. Caso ele seja absolvido, poderá retomar a agenda política com força, consolidando-se como uma das principais vozes da direita digital.
Em caso de manutenção da inelegibilidade, o resultado poderá restringir temporariamente sua atuação política institucional, mas dificilmente apagará sua influência nas redes sociais, onde continua com milhões de seguidores.
O julgamento também terá impacto nas relações internas do PRTB, partido que busca reposicionar-se no espectro conservador após o declínio de nomes como Levy Fidélix e o enfraquecimento de alianças com outros grupos políticos da extrema direita.
Análise: o dilema entre liberdade digital e lisura eleitoral
O caso de Pablo Marçal evidencia o dilema enfrentado pela Justiça Eleitoral em todo o mundo: como equilibrar liberdade de comunicação digital com a integridade do processo democrático.
A expansão do marketing político online transformou as eleições em arenas de disputa narrativa, nas quais a capacidade de viralização e engajamento substitui o palanque tradicional. Entretanto, quando o uso de recursos financeiros e premiações entra em cena, surgem questionamentos sobre a igualdade de condições entre candidatos.
Para o TRE-SP, o julgamento de novembro servirá também como teste institucional: o tribunal terá de definir até que ponto práticas de influenciadores políticos podem ser enquadradas como abuso de poder econômico.
O que esperar do julgamento
O julgamento do caso Pablo Marçal inelegível deve atrair ampla cobertura da imprensa e mobilizar apoiadores nas redes sociais. O influenciador deve comparecer pessoalmente à sessão, acompanhado de sua equipe jurídica.
Caso obtenha uma decisão favorável, Marçal planeja retomar sua atuação política de forma mais estruturada, fortalecendo seu grupo dentro do PRTB e preparando terreno para futuras disputas eleitorais.
Se o TRE-SP confirmar as condenações, ele poderá recorrer ao TSE, o que adiaria em meses a decisão definitiva. Nesse cenário, o processo poderia se arrastar até meados de 2026, deixando o futuro político de Marçal em suspenso às vésperas das eleições gerais.
O julgamento marcado pelo TRE-SP representa um momento crucial para o futuro político de Pablo Marçal e para o próprio debate sobre limites da influência digital nas eleições brasileiras.
Mais do que o destino individual do ex-coach, a sessão de 6 de novembro deve definir parâmetros jurídicos para campanhas que combinam marketing político, redes sociais e poder econômico.
Independentemente do resultado, o caso Marçal já se consolida como um marco jurídico e político da era das mídias digitais — um divisor de águas entre a velha política tradicional e o novo modelo de engajamento eleitoral impulsionado pela internet.






