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PL Antifacção avança na Câmara após acordo com governo

por Júlia Campos
25/02/2026 às 10h35
em Política
Camara Dos Deputados - Gazeta Mercantil

PL Antifacção avança após acordo entre governo e relator e será votado com texto reforçado na Câmara

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou nesta terça-feira (24) que houve acordo entre o Ministério da Justiça e o relator Guilherme Derrite (PP-SP) sobre a versão final do PL Antifacção (5.582/2025), destravando a votação da proposta ainda nesta semana. O entendimento ocorre após semanas de tensão entre Executivo e Legislativo em torno do conteúdo do parecer e recoloca no centro do debate o endurecimento das regras de combate às organizações criminosas com atuação territorial estruturada. O texto aprovado seguirá diretamente para sanção presidencial.

O novo parecer do PL Antifacção retoma os principais dispositivos da versão anteriormente aprovada na Câmara, restabelecendo instrumentos jurídicos considerados mais rígidos no enfrentamento às facções criminosas. A proposta passa a ser nomeada em homenagem a Raul Jungmann, ex-ministro da Segurança Pública no governo de Michel Temer, falecido recentemente.

Leia também: PL Antifacção: Senado mantém essência e ajusta texto

A construção do acordo sinaliza uma acomodação política entre governo e bancada de segurança pública, ao mesmo tempo em que preserva pontos considerados estratégicos pelo Executivo. A votação do PL Antifacção representa um dos movimentos legislativos mais relevantes do ano no campo da política criminal e da segurança institucional.


Entendimento político destrava votação do PL Antifacção

O avanço do PL Antifacção ocorre após divergências entre a versão da Câmara e a do Senado. Enquanto o texto originalmente aprovado pelos deputados priorizava o enfrentamento direto às facções e ampliava o protagonismo dos estados, a versão revisada pelo Senado enfatizava ações de inteligência e fortalecimento da Polícia Federal.

Segundo Hugo Motta, o acordo permite que o PL Antifacção seja votado sem repetir o ambiente de polarização observado na votação anterior. O relator Guilherme Derrite preservou o núcleo central do texto da Câmara, mas incorporou pontos negociados com o governo, reduzindo resistências internas.

A articulação foi conduzida com participação direta do Ministério da Justiça, que buscou garantir equilíbrio entre endurecimento penal e preservação de instrumentos constitucionais. A leitura predominante no Congresso é que o PL Antifacção se tornou peça central na agenda de segurança pública diante do avanço das organizações criminosas em diversas regiões do país.


Retomada do conceito de “domínio social estruturado”

Um dos pilares restabelecidos no PL Antifacção é o conceito de domínio social estruturado. A definição se aplica a grupos criminosos que exercem controle territorial, impõem regras próprias à população e promovem bloqueios de vias ou restrições de circulação mediante violência ou grave ameaça.

A inclusão desse conceito no PL Antifacção amplia o alcance jurídico da norma e permite enquadrar lideranças criminosas com maior rigor. O texto também tipifica atos preparatórios, o que pode antecipar a atuação do Estado antes da consolidação plena da estrutura criminosa.

As penas previstas podem chegar a 40 anos de reclusão, dependendo da gravidade dos fatos e do grau de organização do grupo envolvido. Especialistas avaliam que o desenho normativo fortalece o arcabouço penal já existente, mas exigirá aplicação criteriosa pelo Judiciário para evitar questionamentos constitucionais.


Prisões preventivas e ampliação de instrumentos cautelares

Outro ponto sensível do PL Antifacção é a facilitação da decretação de prisões preventivas. O texto reconhece que o enquadramento nos crimes previstos na nova lei pode configurar risco à ordem pública, ampliando a margem para decisões cautelares.

No campo financeiro, o PL Antifacção reforça mecanismos de bloqueio e sequestro de bens. A proposta permite perda patrimonial antes do trânsito em julgado definitivo, desde que respeitado o devido processo legal. Também retoma a possibilidade de intervenção judicial em empresas utilizadas por organizações criminosas para lavagem de dinheiro.

Essas medidas buscam atingir o núcleo financeiro das facções, estratégia considerada fundamental por autoridades de segurança. A lógica do PL Antifacção é que o enfrentamento econômico pode ser mais eficaz do que ações exclusivamente repressivas.


Divisão automática de recursos e coordenação federativa

O parecer restabelece a divisão automática de recursos apreendidos entre União e estados quando houver operações conjuntas. O dispositivo do PL Antifacção responde a demandas de governadores que defendem maior previsibilidade no acesso a verbas oriundas de ações contra o crime organizado.

O tema envolve implicações federativas relevantes. A descentralização operacional exige cooperação constante entre polícias estaduais e forças federais. Ao estabelecer critérios claros de partilha, o PL Antifacção busca evitar disputas administrativas que atrasem a destinação de recursos.

No plano político, a medida também reforça o alinhamento entre Câmara e bancadas estaduais de segurança pública, ampliando a base de apoio à proposta.

Leia também: CPI das Apostas propõe indiciamento de Virgínia Fonseca, Deolane Bezerra e mais 14 investigados por crimes ligados a sites de apostas


CIDE-Bets e financiamento da segurança pública

O relator manteve no PL Antifacção a proposta do Senado de ampliar a incidência da CIDE-Bets, taxa sobre apostas esportivas, como forma de reforçar o financiamento das forças de segurança. O dispositivo, no entanto, será votado em destaque e enfrenta resistência significativa.

Parlamentares contrários argumentam que a vinculação tributária pode gerar distorções no mercado regulado de apostas. Já defensores sustentam que o PL Antifacção precisa assegurar fontes estáveis de financiamento para políticas de combate ao crime organizado.

A tendência, segundo interlocutores do Congresso, é que o trecho seja suprimido durante a votação final. Ainda assim, o debate evidencia a busca por alternativas fiscais que sustentem a implementação da nova legislação.


Auxílio Reclusão e vedação a familiares de faccionados

O parecer reinclui a vedação ao acesso de familiares de presos enquadrados no PL Antifacção aos repasses do Auxílio Reclusão. O dispositivo foi um dos pontos mais debatidos na tramitação anterior.

Defensores da medida argumentam que o benefício não deve alcançar casos relacionados a organizações criminosas estruturadas. Críticos, por outro lado, apontam risco de violação a direitos individuais de dependentes que não tenham participação nos crimes.

A inclusão do trecho reforça o caráter simbólico do PL Antifacção, que combina endurecimento penal com medidas de natureza social e econômica.


Implicações institucionais e desafios constitucionais

A aprovação do PL Antifacção poderá gerar questionamentos no STF, sobretudo em relação à antecipação de perda patrimonial e à tipificação ampliada de atos preparatórios. Juristas observam que a constitucionalidade dependerá da interpretação restritiva dos dispositivos.

No âmbito institucional, o PL Antifacção também altera o equilíbrio entre União e estados no combate ao crime organizado. A definição clara de competências e instrumentos pode reduzir conflitos operacionais, mas exigirá coordenação permanente.

O governo busca demonstrar compromisso com a segurança pública sem romper pontes com setores garantistas. O acordo firmado indica que o PL Antifacção emerge como síntese possível entre endurecimento e preservação de garantias constitucionais.


Segurança pública no centro da agenda legislativa

A votação do PL Antifacção ocorre em momento de forte pressão social por respostas ao avanço das facções criminosas. Dados recentes apontam expansão territorial de grupos organizados e sofisticação financeira das estruturas ilícitas.

Ao consolidar instrumentos penais e financeiros, o PL Antifacção pretende fortalecer a capacidade estatal de reação. O impacto real, contudo, dependerá da execução coordenada entre forças policiais, Ministério Público e Judiciário.

No plano econômico, especialistas avaliam que maior segurança institucional pode contribuir para ambiente de negócios mais previsível, especialmente em regiões afetadas por domínio territorial de organizações criminosas.


O teste político antes da sanção presidencial

Com o acordo firmado, o PL Antifacção segue para votação final na Câmara. A expectativa é de aprovação com margem confortável, embora destaques possam alterar pontos específicos.

A eventual sanção presidencial consolidará um novo marco normativo no combate às facções. O desafio subsequente será transformar o texto legal em política pública efetiva, com métricas de resultado e controle institucional.

O avanço do PL Antifacção revela a convergência entre Executivo e Legislativo em torno de uma pauta sensível, cuja implementação exigirá vigilância jurídica e compromisso federativo.

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