Risco fiscal volta a pressionar juros após declarações de Haddad: mercado reage com cautela
As taxas de juros futuros fecharam em alta nesta sexta-feira, refletindo o alerta do mercado com relação ao risco fiscal no Brasil. A reação foi desencadeada por declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que, em entrevista, reafirmou sua posição de não cortar gastos públicos e reforçou a inflexibilidade do governo em temas fiscais polêmicos. O movimento interrompeu uma tendência de alívio na curva de juros, que havia se intensificado ao longo da semana com a sinalização do Copom de manutenção da Selic em patamar elevado.
Neste cenário, a percepção de risco dos investidores aumentou, fazendo com que a curva de juros futuros perdesse o viés de baixa observado até o início da tarde. A instabilidade fiscal voltou ao centro das atenções do mercado financeiro e colocou novamente em pauta a necessidade urgente de medidas de ajuste nas contas públicas.
Juros futuros reagem com alta ao risco fiscal
Nesta sexta-feira, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2026 encerrou o pregão cotado a 14,935%, ante 14,933% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2027 recuou para 14,165%, frente aos 14,179% do último fechamento. Já o vértice para janeiro de 2029 passou de 13,318% para 13,295%.
Apesar da leve variação nos percentuais, o recado do mercado foi claro: o discurso do ministro da Fazenda sobre a situação fiscal gera desconfiança. Mesmo com o IPCA-15 mais brando divulgado na quinta-feira — que havia aliviado momentaneamente as tensões — o quadro fiscal pesou mais fortemente no dia seguinte.
Sinais do Banco Central haviam trazido otimismo
No início da semana, a curva de juros apresentava um comportamento mais positivo. A avaliação do mercado era de que o Banco Central, ao manter a taxa Selic em nível elevado, indicava estabilidade na política monetária. A sinalização do Comitê de Política Monetária (Copom) de que o ciclo contracionista seria estendido por tempo prolongado também foi bem recebida.
Com isso, os vértices mais longos da curva de juros recuaram, refletindo uma visão de que a inflação estaria controlada no médio e longo prazo. No entanto, essa expectativa se inverteu bruscamente após a entrevista de Fernando Haddad, que reacendeu as preocupações com o risco fiscal e provocou um ajuste de rota nos contratos futuros de juros.
Haddad mantém discurso rígido e mercado se frustra
Durante entrevista concedida na tarde de sexta-feira, Fernando Haddad voltou a culpar a gestão anterior pelo descontrole dos gastos públicos. Apesar de ter reiterado que não pretende alterar as metas fiscais, o ministro não sinalizou qualquer disposição para cortar despesas — fator que vem sendo cobrado pelo mercado como essencial para conter o avanço do déficit primário.
Além disso, o ministro demonstrou rigidez em relação à derrubada do decreto que elevava o IOF, contrariando a decisão do Legislativo. A resistência do governo em flexibilizar medidas fiscais e buscar consensos com o Congresso acendeu o alerta entre investidores e economistas.
Relação desgastada entre Executivo e Legislativo
Outro elemento de instabilidade no cenário fiscal é o acirramento da relação entre os poderes Executivo e Legislativo. Segundo apurações de bastidores, a tensão aumentou após a resistência de Haddad a projetos como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. O relator da proposta, o deputado Arthur Lira, chegou a adiar a apresentação do parecer devido ao clima desfavorável para articulações no Congresso.
Esse distanciamento entre o Ministério da Fazenda e o Legislativo enfraquece a governabilidade e dificulta a aprovação de medidas que poderiam melhorar o ambiente fiscal. Para o mercado, esse quadro representa aumento no risco fiscal, já que soluções de curto e médio prazo ficam comprometidas.
Influência do cenário internacional na curva de juros
Além das pressões internas, o ambiente internacional também contribuiu para o movimento de alta nos juros brasileiros. A suspensão das negociações comerciais entre Estados Unidos e Canadá, anunciada por Donald Trump, elevou a aversão ao risco nos mercados globais. Em momentos assim, os ativos de países emergentes, como o Brasil, tendem a ser penalizados.
Essa combinação de fatores — política fiscal incerta no plano doméstico e instabilidade geopolítica externa — gerou uma fuga de investidores para ativos mais seguros, reforçando a tendência de alta nas taxas de juros futuras.
A importância da credibilidade fiscal
O mercado avalia a política fiscal com base em dois pilares fundamentais: controle de gastos e previsibilidade. Quando ambos são comprometidos, como ocorreu após a entrevista de Haddad, o efeito imediato é o aumento do prêmio de risco exigido pelos investidores para aplicar em títulos públicos. Esse prêmio se reflete diretamente na curva de juros.
Sem medidas concretas de contenção de despesas e com a dificuldade de diálogo entre Executivo e Legislativo, o Brasil volta a enfrentar um cenário de desconfiança generalizada. A manutenção da Selic em patamares altos se torna insuficiente para conter os danos caso o desequilíbrio fiscal se aprofunde.
O impacto do risco fiscal no cotidiano
O aumento do risco fiscal afeta a economia real. Com juros mais altos, o custo do crédito para empresas e consumidores sobe, dificultando investimentos e consumo. Além disso, a valorização da curva de juros impacta diretamente a dívida pública, que se torna mais cara de financiar.
Outro reflexo está no câmbio. A percepção de instabilidade fiscal tende a provocar a desvalorização do real frente ao dólar, pressionando ainda mais os preços internos e gerando efeitos negativos sobre a inflação.
Expectativas para os próximos passos
Com a nova sinalização dada por Haddad, o mercado aguarda agora os desdobramentos práticos do posicionamento do governo. Entre os pontos mais aguardados estão:
-
Reavaliação do arcabouço fiscal;
-
Possíveis vetos ou sanções sobre a pauta tributária;
-
Definições sobre a continuidade ou não da isenção ampliada do Imposto de Renda;
-
Propostas de corte de gastos estruturais.
Cada nova movimentação será analisada com lupa pelos agentes financeiros, que esperam por ações concretas — e não apenas retóricas — para conter o avanço do risco fiscal.
A entrevista de Fernando Haddad, longe de trazer alívio, provocou uma reviravolta no humor do mercado, reacendendo os temores sobre o risco fiscal no Brasil. As taxas de juros futuros responderam com alta, refletindo a percepção de que o governo falha em apresentar um plano sólido para conter o crescimento das despesas e manter o equilíbrio das contas públicas.
Enquanto o país não der sinais claros de responsabilidade fiscal, o mercado continuará operando com cautela. O preço dessa desconfiança será sentido por toda a sociedade: na inflação, no crédito, nos investimentos e na retomada do crescimento econômico.






