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Santander projeta novo corte da taxa Selic de 0,25 pp pelo Copom

por Camila Braga
22/04/2026 às 19h49
em Economia
Santander Projeta Novo Corte Da Taxa Selic De 0,25 Pp Pelo Copom - Gazeta Mercantil

Análise de Política Monetária: Santander projeta cautela e novo corte da taxa Selic pelo Copom

O cenário econômico brasileiro entra em uma semana decisiva com as atenções voltadas para o Edifício-Sede do Banco Central, em Brasília. Em um relatório estratégico enviado a clientes e investidores nesta quarta-feira, 22 de abril de 2026, o Santander Brasil detalhou suas projeções para o próximo movimento do Comitê de Política Monetária (Copom). Segundo a análise assinada por Marco Antonio Caruso, head de política monetária da instituição, a aposta central é de que o colegiado opte por um novo corte da taxa Selic na magnitude de 0,25 ponto percentual.

Esta projeção fundamenta-se em uma leitura minuciosa da conjuntura global e doméstica, onde o otimismo cauteloso substitui o pessimismo severo das últimas semanas. Embora o ambiente externo tenha apresentado uma melhora marginal — personificada pelo recuo do petróleo tipo Brent após picos de escalada e por uma valorização do câmbio, que se situa abaixo do patamar psicológico de R$ 5,00 —, o Santander avalia que o choque não arrefeceu o suficiente para permitir que a autoridade monetária acelere o passo. Para Caruso, o cenário atual torna difícil justificar uma interrupção no ciclo de afrouxamento, mas ainda não pavimenta o caminho para um movimento de 0,50 ponto percentual no curto prazo.

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Os fundamentos macroeconômicos por trás do corte da taxa Selic

A decisão por um corte da taxa Selic de 25 pontos-base reflete uma necessidade de calibração fina em meio a variáveis conflitantes. De um lado, temos o alívio nas commodities e uma taxa de câmbio mais benigna, que atua como um deflator natural para a economia. De outro, persistem riscos estruturais que impedem uma postura mais agressiva do Banco Central (BC). Entre esses riscos, destacam-se as expectativas de inflação que permanecem desancoradas em relação às metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

A desancoragem das expectativas é, na visão do Santander, o principal entrave para um corte da taxa Selic mais profundo. Quando os agentes de mercado não acreditam que a inflação convergirá para a meta no horizonte relevante, o Banco Central é forçado a manter o juro real em patamares mais restritivos por mais tempo. Além disso, o hiato do produto — a diferença entre o PIB efetivo e o PIB potencial — continua em terreno positivo, sinalizando que a economia brasileira ainda opera com uma pressão de demanda que pode gerar novos focos inflacionários caso a política monetária seja relaxada de forma prematura.

O hiato do produto e a pressão sobre a política monetária

A dinâmica do PIB brasileiro tem surpreendido analistas pela resiliência. Operar acima do nível potencial significa que a capacidade instalada das empresas e a força de trabalho estão sendo utilizadas em um nível que, historicamente, precede acelerações nos índices de preços. Por essa razão, o Santander argumenta que um corte da taxa Selic de 0,25 ponto é a ferramenta de ajuste ideal para o momento. Ele permite que o Banco Central continue o processo de normalização dos juros sem abrir mão da vigilância necessária para garantir que a atividade econômica não transborde em inflação.

Este hiato positivo, embora venha apresentando uma redução gradual em direção à neutralidade, exige que o Copom atue como um “piloto de testes”, ajustando a velocidade conforme as condições da pista. Marco Antonio Caruso ressalta que o ajuste marginal nas taxas é uma forma de preservar a “opcionalidade” do comitê. Ao não se comprometer com passos maiores agora, o BC guarda munição e flexibilidade para reagir a dados futuros, especialmente aqueles que serão divulgados entre as reuniões de maio e junho.

Câmbio e petróleo: O alívio nas pressões exógenas

O relatório do Santander destaca que o recuo do petróleo tipo Brent é um fator de alívio fundamental para a dinâmica inflacionária global. O petróleo, sendo um insumo básico para transportes e indústria, exerce uma pressão transversal em toda a cadeia produtiva. Quando seu preço arrefece, o efeito cascata contribui para uma redução na inflação corrente e, consequentemente, facilita o trabalho do Banco Central na implementação do corte da taxa Selic.

Somado a isso, a valorização do Real frente ao Dólar nas últimas sessões criou um cenário de referência mais benigno. O câmbio abaixo de R$ 5,00 atua como um colchão de segurança, compensando parcialmente a piora nas expectativas inflacionárias captadas pelo Boletim Focus. Para o Santander, essa aritmética sugere que o modelo de projeção do Banco Central pode apresentar resultados mais positivos do que o tom possivelmente cauteloso do próximo comunicado do Copom. Assim, o corte da taxa Selic de 0,25 ponto surge como um consenso técnico que equilibra os ganhos externos com as fragilidades internas.

Horizonte relevante e as metas de inflação para 2027

Um ponto técnico de extrema importância levantado por Caruso é o deslocamento do horizonte relevante da política monetária. Tradicionalmente, o Banco Central foca suas decisões nos 18 meses seguintes. Com a passagem do tempo, o foco começa a migrar do terceiro para o quarto trimestre de 2027. Nas estimativas do Santander, a projeção de inflação do BC no cenário de referência deve permanecer ao redor de 3,3%, o que é considerado um nível administrável, embora ainda exija atenção devido à desancoragem das previsões de longo prazo.

A manutenção dessa projeção em níveis próximos à meta central permite que o Copom execute o corte da taxa Selic com uma margem de segurança técnica. No entanto, o Banco Central deve evitar sinalizar qualquer decisão para a reunião de junho. A estratégia de “não oferecer guidance” é uma marca da atual gestão sob Roberto Campos Neto e deve ser mantida por seus sucessores para evitar volatilidade excessiva nos mercados de juros futuros e câmbio.

Comunicação do Copom: Mudança de tom no horizonte

Além da decisão numérica sobre o corte da taxa Selic, o mercado aguarda com ansiedade o teor do comunicado que acompanhará a decisão. O Santander projeta que o Copom substituirá a linguagem de “escalada de riscos” no cenário externo por referências mais equilibradas à “incerteza persistente”. Essa mudança sutil no texto é um reconhecimento de que, embora os riscos não tenham desaparecido, a volatilidade extrema observada no início do ano deu lugar a um período de maior previsibilidade.

Essa calibração na comunicação é essencial para gerir as expectativas dos investidores. Ao adotar um tom de “cautela vigilante”, o Banco Central comunica que o ciclo de corte da taxa Selic continua, mas que não há um piloto automático ligado. Cada decisão será tomada “reunião a reunião”, dependendo da evolução dos dados. Esse pragmatismo é o que o Santander vê como o cenário mais provável para a condução da política monetária nos próximos meses.

Expectativas para a reunião de junho e o ritmo de flexibilização

A grande dúvida que paira sobre as mesas de operação na Faria Lima e no Leblon é se o Banco Central abrirá a porta para uma aceleração do ritmo em junho. Segundo o Santander, o debate sobre uma intensificação do ritmo de corte da taxa Selic para 0,50 ponto base deve voltar à pauta somente no encontro de junho, mas o BC deve fazer o máximo para não sinalizar isso agora. A ideia é preservar a total opcionalidade, permitindo que o comitê reaja caso a desancoragem inflacionária comece a ceder.

Para Marco Antonio Caruso, a principal restrição para um alívio monetário mais intenso não é mais o choque de oferta das commodities, mas o comportamento dos agentes econômicos domésticos. Enquanto as projeções de inflação para os anos de 2025 e 2026 não mostrarem uma convergência clara para o centro da meta, o Copom terá pouco espaço para acelerar o corte da taxa Selic. O rigor técnico do Banco Central atua como um selo de credibilidade para a moeda nacional e para a estabilidade dos ativos brasileiros.

O papel do PIB e a força da demanda doméstica

O fato de o PIB estar operando acima do nível potencial é um “problema bom”, mas que exige juros mais altos. Uma economia aquecida gera empregos e renda, mas também pode gerar inflação por excesso de demanda. O Santander observa que, embora haja uma redução gradual no hiato do produto, ele ainda é positivo. Isso significa que o consumo das famílias e o investimento das empresas ainda estão em um nível que impede um corte da taxa Selic mais agressivo.

O Banco Central, ao optar por 0,25 ponto, reconhece essa força da economia brasileira. O objetivo é realizar um “pouso suave” (soft landing), onde a inflação cai sem que a economia entre em recessão profunda. Por isso, a cautela do Santander em suas projeções reflete a realidade de um país que cresce, mas que ainda luta para domar suas expectativas de preços no longo prazo.

O cenário externo e a influência dos bancos centrais globais

Não se pode analisar o corte da taxa Selic sem olhar para o que acontece nos Estados Unidos e na Europa. A política monetária do Federal Reserve (Fed) dita o ritmo dos fluxos de capitais globais. Se o Fed mantiver os juros altos por mais tempo, o Banco Central brasileiro terá menos espaço para cortar a Selic sem pressionar o câmbio. O Santander nota que a melhora marginal no cenário externo incluiu uma percepção de que o Fed pode iniciar seu ciclo de cortes em breve, o que reduz a pressão sobre os países emergentes.

Essa sincronia global é fundamental para o sucesso da política monetária brasileira. Um ambiente internacional mais estável permite que o corte da taxa Selic seja executado com menos riscos de fuga de capital ou desvalorização desordenada do Real. O relatório de Caruso sublinha que, por enquanto, o ambiente é de “esperar para ver”, o que justifica a manutenção do ritmo atual de 25 pontos-base por reunião.

Implicações para o mercado financeiro e ativos de risco

Para o investidor, um corte da taxa Selic de 0,25 ponto já está amplamente precificado na curva de juros. No entanto, o que ditará os preços dos ativos de renda fixa e da Bolsa de Valores (B3) será a sinalização sobre os próximos passos. Se o BC for excessivamente cauteloso no comunicado, os juros longos podem subir, refletindo o medo de que a inflação não seja controlada. Se o tom for mais ameno, as ações de empresas sensíveis a juros, como varejo e construção civil, podem apresentar uma performance superior.

O Santander recomenda uma postura de cautela e diversificação. Dado que o Banco Central deve manter a opcionalidade e não oferecer orientação para junho, a volatilidade pode aumentar nos dias seguintes à divulgação da ata do Copom. O foco deve permanecer na qualidade dos ativos e na proteção contra a inflação, já que a desancoragem das expectativas ainda é o principal fantasma que ronda a economia brasileira e limita o ímpeto de um corte da taxa Selic mais robusto.

A governança do Banco Central e a transição de comando

Outro fator que o mercado observa é a governança da instituição em um ano de transição. A manutenção de uma postura técnica e austera no processo de corte da taxa Selic é vista como um sinal de independência e compromisso com o mandato institucional do BC. O relatório do Santander sugere que o colegiado está unido na visão de que a cautela é a melhor conselheira neste momento.

Essa união do colegiado é vital para evitar ruídos de comunicação que possam confundir os agentes econômicos. Ao sinalizar um ajuste de 0,25 ponto com “total opcionalidade preservada”, o Banco Central reforça que não há pressões políticas influenciando o ritmo do corte da taxa Selic. O foco é puramente técnico, baseado em modelos econométricos e na análise rigorosa dos fatos.

O equilíbrio entre crescimento e estabilidade de preços

Ao fim e ao cabo, a decisão sobre o corte da taxa Selic é um exercício de equilíbrio. O Banco Central busca a taxa de juros neutra — aquela que permite o crescimento da economia sem gerar inflação. O Santander avalia que ainda estamos acima dessa taxa neutra, o que justifica a continuidade dos cortes, mas a velocidade desse ajuste depende da confiança do mercado no futuro dos preços.

O cenário base do Santander é de que o Banco Central terá sucesso em sua missão, mas que o caminho será trilhado com passos curtos e firmes. O corte da taxa Selic de 0,25 ponto é o símbolo dessa estratégia: progresso constante, mas sem correr riscos desnecessários que possam comprometer a estabilidade duramente conquistada nos últimos anos. A economia brasileira caminha para uma normalização, e a condução serena da política monetária é a garantia de que esse processo será sustentável no longo prazo.

Vigilância contínua sobre as expectativas inflacionárias

O encerramento do ciclo de análises pré-Copom aponta para uma convergência de opiniões sobre a necessidade de prudência. O Santander, através de Marco Antonio Caruso, deixa claro que o Banco Central não terá vida fácil enquanto as expectativas para 2026 e 2027 não voltarem para o trilho. O corte da taxa Selic é um sinal positivo, mas a batalha contra a desancoragem é o verdadeiro desafio que definirá o sucesso da política monetária nos próximos meses.

O mercado seguirá monitorando cada vírgula dos relatórios oficiais e cada declaração dos diretores do BC. Em um mundo de incertezas persistentes, a clareza técnica e a previsibilidade são os ativos mais valiosos para o investidor. O próximo passo do Copom será apenas mais uma peça em um quebra-cabeça complexo, onde o corte da taxa Selic atua como o principal regulador da temperatura econômica do Brasil.

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