Nelson Tanure no epicentro da crise: Alliança Saúde (AARL3) adia capitalização em meio a investigações da PF e venda de ativos
O renomado investidor em ativos estressados enfrenta seu momento mais delicado com operações da Polícia Federal, escrutínio da CVM e uma crise de liquidez que força o desmonte de posições estratégicas em gigantes como a PRIO.
O mercado financeiro brasileiro atravessa uma semana de turbulência institucional com os desdobramentos da Operação Compliance Zero, que colocou sob holofotes a figura de Nelson Tanure. Conhecido historicamente por sua habilidade em adquirir e reestruturar empresas em dificuldades financeiras, o empresário vê agora o seu próprio império de investimentos sob intensa pressão. O reflexo imediato dessa crise de confiança e liquidez materializou-se nesta quinta-feira (15), quando a Alliança Saúde e Participações (AARL3), controlada por Nelson Tanure, comunicou ao mercado a prorrogação do prazo para o exercício do direito de preferência em seu aumento de capital.
A decisão da companhia de saúde, embora tecnicamente justificada como um movimento para permitir maior adesão dos acionistas, é interpretada por analistas da Faria Lima como um sintoma claro do desgaste reputacional e financeiro que atinge o controlador. A capitalização de R$ 797,3 milhões, desenhada para fortalecer o caixa da Alliança, colide frontalmente com o cenário adverso enfrentado por Nelson Tanure, que teve seu celular apreendido pela Polícia Federal na segunda fase da operação que investiga fraudes bilionárias no Banco Master.
O efeito dominó na Alliança Saúde e o fator Nelson Tanure
A prorrogação do aumento de capital da Alliança Saúde não é um evento isolado. No xadrez corporativo, quando um controlador da envergadura de Nelson Tanure se torna alvo de investigações criminais e regulatórias, o apetite do mercado por novos papéis emitidos por suas controladas tende a desaparecer. Investidores institucionais, regidos por normas estritas de compliance, entram em modo de espera, evitando aumentar exposição ao risco associado ao nome do empresário.
A Alliança Saúde, antiga Alliar, tem sido um dos principais veículos de investimento de Nelson Tanure nos últimos anos. No entanto, a gestão dessa participação está agora sob o crivo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A autarquia reabriu, no fim de dezembro, um processo sancionador para apurar irregularidades na Oferta Pública de Aquisição (OPA) realizada por Nelson Tanure há mais de dois anos.
O ponto central da investigação regulatória reside no intervalo temporal entre a efetiva tomada de controle da companhia e a formalização da oferta aos minoritários. A CVM analisa minuciosamente a atuação do FIP Fonte de Saúde Multiestratégia — veículo ligado a Nelson Tanure que detém 20,62% do capital da empresa — e da MAM Asset Management, gestora umbilicalmente ligada ao Banco Master. A suspeita é de que a OPA tenha sido protocolada fora dos prazos regulamentares, configurando uma infração grave às regras de governança do mercado de capitais brasileiro.
As conexões perigosas: Lormont, Reag e Banco Master
Para compreender a profundidade da crise que cerca Nelson Tanure, é necessário dissecar a engenharia financeira que atraiu a atenção da Polícia Federal e do Banco Central. A investigação aponta para um complexo esquema de triangulação de recursos. Segundo informações preliminares que embasaram as buscas e apreensões, a Lormont Participações — empresa ligada a Nelson Tanure e detentora de expressivos 46,2% da Alliança Saúde — teria contraído empréstimos suspeitos na ordem de R$ 720 milhões.
O destino desses recursos é o que preocupa as autoridades. O dinheiro teria abastecido fundos da Reag Investimentos, gestora que também foi alvo de buscas na Operação Carbono Oculto e que sofreu intervenção com liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central nesta quinta-feira. A tese dos investigadores é que essas operações estruturadas por Nelson Tanure e seus parceiros serviram para drenar recursos ou maquiar balanços do Banco Master, instituição fundada por Daniel Vorcaro.
A defesa de Nelson Tanure nega veementemente qualquer relação societária direta com o Banco Master. Contudo, a reiteração de nomes e veículos de investimento cruzados em diversas companhias abertas levanta suspeitas sobre uma atuação coordenada. O mercado observa com apreensão a possibilidade de que a “contaminação” do Banco Master se alastre por todas as teses de investimento onde Nelson Tanure possui influência relevante.
Crise de Liquidez: O desmonte de posições na PRIO e Emae
Se as investigações trazem risco jurídico, a situação de caixa impõe uma realidade aritmética implacável. O mercado financeiro já precifica uma severa crise de liquidez nas holdings de Nelson Tanure. A necessidade de honrar compromissos financeiros e renegociar dívidas tem forçado o empresário a se desfazer de suas “joias da coroa.
A notícia mais impactante neste fronte foi a venda da participação de Nelson Tanure na PRIO (PRIO3), a maior petroleira independente do Brasil. Segundo informações de bastidores reportadas pela Bloomberg, o empresário liquidou sua posição de 20% na companhia para acertar contas com credores. Considerando o valor de mercado da PRIO, avaliada em R$ 38,20 bilhões, o movimento representa uma capitulação estratégica significativa. A PRIO era vista como o ativo mais líquido e valioso do portfólio de Nelson Tanure, e sua venda sinaliza que as opções de financiamento tradicional se esgotaram.
Este não é o primeiro revés patrimonial recente. Em outubro do ano passado, Nelson Tanure perdeu o controle da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae). O motivo foi o default (calote) em parcelas de uma debênture de cerca de R$ 520 milhões. O título, emitido por um fundo ligado a Nelson Tanure, tinha as ações da Emae como garantia real (colateral). Com a inadimplência, os credores executaram as garantias, e a participação acabou sendo negociada com a Sabesp, retirando do empresário um ativo importante no setor de utilidades públicas.
O futuro incerto da Light e Ligga Telecom
A pressão sobre a liquidez de Nelson Tanure lança dúvidas sobre sua capacidade de cumprir promessas de investimento em outras frentes, especialmente na recuperação judicial da Light. Quando a concessionária de energia do Rio de Janeiro estruturou seu plano de recuperação no início de 2025, Nelson Tanure posicionou-se como o investidor âncora, comprometendo-se a aportar uma fatia relevante na capitalização prevista de R$ 3,7 bilhões.
Agora, com o cerco da Polícia Federal e a venda forçada de ativos, o mercado questiona a viabilidade desse aporte. Fontes do setor elétrico indicam que Nelson Tanure busca desesperadamente novos financiamentos, oferecendo ações da própria Light como garantia, uma estratégia arriscada que aumenta a alavancagem em um momento de fragilidade.
Simultaneamente, a Ligga Telecom, outra aposta de Nelson Tanure no setor de infraestrutura, passou por uma renegociação de dívida de R$ 1,2 bilhão. O passivo foi alongado por dois anos, mas com covenants (obrigações) duros, incluindo o compromisso de venda de ativos. Especula-se no mercado que a própria Alliança Saúde poderia ser colocada à venda para satisfazer essas obrigações, embora a companhia não confirme oficialmente essa hipótese. O cenário desenha um quadro onde Nelson Tanure luta para manter o controle de seus ativos enquanto os credores apertam o cerco.
Ambipar e a suspeita de manipulação de mercado
Como se não bastassem os problemas na Alliança, Light e Banco Master, a CVM abriu outra frente de investigação envolvendo Nelson Tanure: a suposta manipulação de mercado com as ações da Ambipar (AMBP3). O papel da companhia de gestão ambiental valorizou-se mais de 800% em 2024, um movimento atípico que chamou a atenção do regulador.
A autarquia identificou indícios de atuação coordenada entre Nelson Tanure e investidores relevantes, incluindo Daniel Vorcaro, do Banco Master. As compras de ações teriam sido concentradas em curtos períodos e sincronizadas com eventos corporativos, distorcendo artificialmente a formação de preços. A CVM investiga se Nelson Tanure utilizou veículos financeiros ligados ao Banco Master para alavancar sua posição na Ambipar e inflar o valor de mercado da companhia, criando uma bolha especulativa.
A recorrência da parceria entre Nelson Tanure e Vorcaro em empresas como Ambipar, Gafisa e Light reforça a tese dos investigadores de que existe um modus operandi sistêmico, e não apenas coincidências de mercado. Para o investidor minoritário dessas empresas, o risco de governança atingiu níveis críticos.
A Reag Investimentos e o efeito contágio
A liquidação da Reag Investimentos pelo Banco Central é o catalisador que pode acelerar a derrocada das estruturas financeiras montadas por Nelson Tanure. A Reag não era apenas uma gestora de recursos; ela funcionava como um elo vital na cadeia de crédito e estruturação de fundos que financiavam as operações do grupo.
Com a Reag fora de combate e seus fundos congelados ou sob intervenção, o fluxo de capital para as empresas de Nelson Tanure é interrompido abruptamente. Além disso, a quebra do sigilo bancário e fiscal decorrente das investigações pode revelar a extensão exata da exposição cruzada entre as empresas do portfólio de Nelson Tanure e os fundos tóxicos do Banco Master.
Conclusão: O crepúsculo de um estilo de investimento?
A trajetória de Nelson Tanure sempre foi marcada pela agressividade e pela aposta em teses de alto risco. No entanto, a combinação de investigações criminais (Polícia Federal), administrativas (CVM/Banco Central) e a asfixia financeira (credores) cria uma tempestade perfeita jamais enfrentada pelo investidor.
A prorrogação do aumento de capital da Alliança Saúde é apenas o sintoma visível de uma doença financeira mais grave. O mercado observa o desmonte das posições em PRIO e Emae como um sinal de que a prioridade de Nelson Tanure mudou de “expansão” para “sobrevivência. Para os acionistas minoritários das empresas sob sua influência — Alliança, Gafisa, Light, Ambipar —, o momento exige cautela extrema e monitoramento diário dos fatos relevantes.
A credibilidade de Nelson Tanure como fiador de reestruturações corporativas está em xeque. Se as investigações confirmarem o uso fraudulento de estruturas financeiras para inflar ativos ou desviar recursos, as consequências jurídicas e econômicas podem redefinir o mapa de controle de diversas companhias listadas na B3. O “Risco Tanure”, antes um fator de volatilidade aceitável em troca de retornos agressivos, tornou-se agora um alerta vermelho para o compliance de todo o mercado financeiro nacional.






