Quem é João Carlos Mansur: Do prestígio no mercado financeiro ao epicentro das investigações da PF na Reag e Banco Master
Fundador da Reag Investimentos, João Carlos Mansur construiu uma trajetória marcada pela sofisticação em ativos estruturados, mas hoje enfrenta o escrutínio do Banco Central e da Polícia Federal em operações que apuram fraudes bilionárias e lavagem de dinheiro.
O mercado financeiro brasileiro vive dias de tensão e reavaliação de riscos de compliance com a recente decretação da liquidação extrajudicial da Reag Investimentos pelo Banco Central. No centro desse turbilhão corporativo e policial encontra-se uma figura que, até pouco tempo, transitava com desenvoltura entre as mesas de operações mais complexas da Faria Lima e os camarotes executivos do futebol nacional: João Carlos Mansur. O empresário e gestor, que fundou a Reag em 2012, passou de referência em veículos de investimento estruturados para o alvo central de duas das mais robustas operações da Polícia Federal nos últimos anos: a Carbono Oculto e os desdobramentos do escândalo envolvendo o Banco Master.
A ascensão e a crise reputacional de João Carlos Mansur narram não apenas a história de um executivo, mas expõem as fragilidades sistêmicas de governança em nichos específicos do mercado de capitais. Formado em ciências contábeis e com MBA pela Fundação Getulio Vargas (FGV), João Carlos Mansur desenhou sua carreira apostando na complexidade. Diferente de gestores focados no varejo tradicional ou na renda variável líquida, ele especializou-se no “lado B” do mercado: Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) e Fundos de Investimento em Participações (FIPs).
O perfil técnico e a construção da Reag
Para entender quem é João Carlos Mansur, é necessário analisar o DNA da empresa que ele ergueu. A Reag Investimentos não nasceu para ser apenas mais uma asset. Sob a batuta de João Carlos Mansur, a casa posicionou-se como uma solucionadora de problemas complexos de liquidez e estruturação de capital. O empresário vendeu ao mercado a imagem de um operador técnico, discreto e altamente capacitado para navegar em regulações cinzentas e ativos ilíquidos.
Durante a última década, a estratégia de João Carlos Mansur parecia infalível. A gestora ganhou escala rapidamente, atraindo bilhões de reais sob gestão e administrando uma teia vasta de fundos. O diferencial competitivo de João Carlos Mansur residia justamente naquilo que hoje é seu calcanhar de aquiles: a opacidade. Ao oferecer veículos pouco acessíveis ao investidor comum, a Reag tornou-se o porto seguro para operações que demandavam engenharia financeira pesada, muitas vezes difícil de ser auditada pelos métodos tradicionais.
No entanto, a expertise de João Carlos Mansur em transformar ativos problemáticos em cotas de fundos acabou atraindo a atenção dos órgãos de controle. O que era visto como “sofisticação” passou a ser investigado como “simulação. A capacidade técnica de João Carlos Mansur em criar camadas de proteção patrimonial através de fundos exclusivos é, segundo as investigações, uma das chaves para entender como recursos de origem duvidosa circulavam pelo sistema financeiro formal.
A conexão perigosa: João Carlos Mansur e o Banco Master
O ponto de inflexão na carreira de João Carlos Mansur ocorreu com a aproximação e o envolvimento em operações ligadas ao Banco Master. As investigações da Polícia Federal, que agora colocam a Reag sob holofotes, sugerem que a gestora de João Carlos Mansur não atuava como um agente periférico ou passivo, mas sim como um elo vital na engrenagem de supostas fraudes financeiras.
Para os investigadores, João Carlos Mansur teria utilizado a estrutura da Reag para validar operações com rentabilidades que desafiam a lógica econômica. Os autos do processo citam casos em que o retorno declarado de certos ativos ultrapassou a casa dos milhões por cento em um único ano. Técnicos do Banco Central e peritos da PF apontam que tais números, validados sob a administração da empresa de João Carlos Mansur, acenderam os alertas máximos de lavagem de dinheiro e manipulação contábil.
A responsabilidade fiduciária de um gestor e administrador exige a due diligence rigorosa dos ativos. A acusação que recai sobre João Carlos Mansur é a de que a Reag teria falhado — ou, na pior das hipóteses, colaborado dolosamente — na estruturação de operações encadeadas de baixa transparência. A figura de João Carlos Mansur emerge, portanto, como a de um arquiteto financeiro cujas construções serviram para inflar balanços e ocultar passivos reais, criando uma realidade paralela para investidores e reguladores.
Operação Carbono Oculto: O crime organizado no radar
Se as conexões com o Banco Master ameaçam a integridade técnica de João Carlos Mansur, a Operação Carbono Oculto ataca sua idoneidade moral e criminal. Deflagrada no ano passado, esta operação investiga um vasto esquema de lavagem de dinheiro ligado a facções criminosas e ao setor de combustíveis. A inclusão da Reag e de João Carlos Mansur no rol de investigados foi um choque para a Faria Lima.
Segundo as apurações, fundos administrados pela gestora de João Carlos Mansur teriam sido utilizados para ocultar e movimentar recursos ilícitos provenientes dessas atividades criminosas. A tese da Polícia Federal é que a complexidade dos fundos geridos por João Carlos Mansur servia como uma cortina de fumaça ideal para “limpar” o dinheiro do crime, inserindo-o na economia formal através de investimentos aparentemente legítimos.
Em setembro, após ser alvo de mandados de busca e apreensão no âmbito desta investigação, João Carlos Mansur tentou uma manobra de contenção de danos. Ele anunciou a venda do controle da gestora e deixou a presidência do conselho, num movimento clássico de de-risking institucional. Contudo, para o mercado e para as autoridades, o afastamento de João Carlos Mansur foi visto mais como uma confissão de gravidade da situação do que como uma solução efetiva de governança.
A influência de João Carlos Mansur no Futebol Brasileiro
A biografia de João Carlos Mansur não se restringe aos escritórios envidraçados de São Paulo. O empresário soube utilizar seu prestígio financeiro para construir uma influência notável no futebol brasileiro, um setor historicamente carente de profissionalização e governança. A habilidade de João Carlos Mansur em transitar por ambientes distintos permitiu-lhe acessar as diretorias de clubes de massa.
João Carlos Mansur tornou-se conselheiro da Sociedade Esportiva Palmeiras, um dos clubes mais ricos do país. Além disso, sua expertise foi requisitada na modelagem financeira da Neo Química Arena, estádio do Corinthians, demonstrando que sua atuação superava rivalidades clubísticas em prol de negócios estruturados. Ele também atuou como articulador de investimentos em clubes tradicionais de São Paulo, como o Juventus da Mooca e a Portuguesa de Desportos.
Neste ecossistema esportivo, João Carlos Mansur vendia a promessa da modernidade. Para dirigentes acostumados ao amadorismo, ele representava a ponte com o mercado de capitais. Assim como fazia na Reag, João Carlos Mansur oferecia soluções financeiras sofisticadas para os problemas de caixa crônicos dos clubes. Hoje, com as investigações em curso, o mercado se questiona se essas “soluções” aplicadas ao futebol também carregavam os mesmos vícios de origem e riscos de conformidade que implodiram a Reag.
A liquidação extrajudicial e o esvaziamento de poder
A decisão do Banco Central de decretar a liquidação extrajudicial da Reag Investimentos nesta semana foi o golpe final na tentativa de João Carlos Mansur de salvar o legado da empresa. A medida indica que a autoridade monetária identificou problemas que vão além da imagem: há um comprometimento severo da saúde financeira e da regularidade operacional da instituição fundada por João Carlos Mansur.
O processo de esvaziamento institucional iniciado por João Carlos Mansur no final do ano passado — desligando-se de cargos estratégicos — não foi suficiente para blindar a gestora. A crise ultrapassou o CPF do fundador e contaminou o CNPJ. A marca Reag, indissociável de João Carlos Mansur, tornou-se tóxica para parceiros comerciais, bancos custodiantes e cotistas.
Para o mercado, a queda de João Carlos Mansur serve como um case dramático sobre os limites da engenharia financeira. O empresário, que sempre cultivou a imagem de técnico infalível, vê agora sua obra ser desmantelada por intervenção estatal. A liquidação extrajudicial congela ativos, impõe perdas a credores e coloca sob lupa cada assinatura e decisão tomada por João Carlos Mansur nos últimos 12 anos.
O impacto sistêmico e a revisão de governança
O caso de João Carlos Mansur e da Reag lança uma sombra sobre a indústria de fundos estruturados no Brasil. O mercado de FIDCs e FIPs, essencial para o financiamento da economia real, sofre com o aumento da desconfiança. Investidores institucionais e family offices estão revisando suas carteiras e endurecendo as regras de compliance para evitar exposição a gestores que, como João Carlos Mansur, operam nas franjas da regulação.
A trajetória de João Carlos Mansur é pedagógica ao demonstrar que rentabilidade sem lastro e complexidade sem transparência são receitas para o desastre. As fragilidades de governança que permitiram à Reag operar esquemas suspeitos por tanto tempo estão sendo revistas por toda a indústria. O nome de João Carlos Mansur torna-se, assim, sinônimo de um modelo de gestão que o mercado brasileiro precisa urgentemente superar.
O futuro das investigações sobre João Carlos Mansur
O cenário jurídico para João Carlos Mansur é sombrio. Com duas operações da Polícia Federal em andamento e o Banco Central revirando as entranhas da Reag, é provável que novas revelações surjam nos próximos meses. A defesa de João Carlos Mansur terá o desafio hercúleo de explicar as rentabilidades astronômicas e as conexões com grupos criminosos investigados na Operação Carbono Oculto.
Além das implicações criminais, João Carlos Mansur enfrenta o risco de inabilitação para atuar no mercado financeiro e a indisponibilidade de bens para cobrir eventuais rombos deixados pela gestão temerária. O empresário que sonhou ser o rei dos ativos estruturados e influente cartola do futebol agora luta para não se tornar o símbolo de uma era de excessos e ilicitudes no mercado de capitais nacional.
Em última análise, a pergunta “Quem é João Carlos Mansur?” encontra sua resposta nos autos dos processos que se avolumam: um operador sofisticado que, segundo as autoridades, cruzou a linha tênue entre a engenharia financeira arrojada e a criminalidade de colarinho branco. A queda da Reag é a queda do método João Carlos Mansur de fazer negócios.






