O Bradesco (BBDC4) vê uma janela para a retomada dos IPOs no Brasil e identificou 12 empresas com potencial para estrear na Bolsa nos próximos meses ou até 2027, em um sinal de melhora gradual no mercado de capitais brasileiro após quase cinco anos de baixa atividade em ofertas públicas iniciais de ações. A avaliação ocorre após a estreia da Compass, empresa de gás e energia controlada pela Cosan (CSAN3), em uma operação bilionária que marcou a reabertura do mercado de IPOs na B3.
As companhias avaliadas pelo Bradesco BBI atuam em setores como imobiliário, infraestrutura, minerais críticos, tecnologia, financeiro, agronegócio, saúde e educação. A diversidade dos segmentos indica que a possível retomada não está restrita a um único setor, mas depende de condições de mercado, apetite dos investidores e capacidade das empresas de apresentar crescimento, governança e previsibilidade de resultados.
A leitura do banco ocorre em um ambiente ainda sujeito a volatilidade. Oscilações no petróleo, tensões no Oriente Médio, incertezas sobre juros globais e cautela com ativos de risco seguem no radar. Ainda assim, há percepção de que investidores internacionais voltaram a olhar para mercados emergentes, incluindo o Brasil, em busca de ativos com desconto e potencial de valorização.
Estreia da Compass reabre mercado de ofertas na B3
A oferta da Compass é vista pelo mercado como um teste relevante para medir o apetite por novas listagens no Brasil. A companhia de gás e energia controlada pela Cosan (CSAN3) levantou cerca de R$ 3,2 bilhões em sua oferta pública inicial, encerrando um período de quase cinco anos sem IPOs relevantes na Bolsa brasileira.
A operação ganhou peso por combinar escala, setor regulado, previsibilidade de receita e interesse de investidores estrangeiros. A ação foi precificada no piso da faixa indicativa, em R$ 28, mas a oferta conseguiu atrair demanda suficiente para sinalizar que o mercado pode voltar a absorver novas operações, desde que os preços sejam considerados adequados.
A Compass deve negociar suas ações sob o ticker (PASS3). A estreia também tem valor simbólico porque ocorre depois de uma longa seca de IPOs na B3, marcada por juros elevados, aversão a risco, baixa liquidez e desempenho fraco de parte das empresas que abriram capital no ciclo anterior.
Para bancos de investimento, gestoras e empresas candidatas à Bolsa, o desempenho da Compass nos primeiros pregões será acompanhado de perto. Uma estreia positiva pode acelerar conversas com outras companhias. Uma performance fraca, por outro lado, tende a reforçar a seletividade dos investidores e a manter empresas em compasso de espera.
Bradesco BBI vê fila de empresas preparadas
O Bradesco BBI avalia que há 12 empresas em condições de avançar para um IPO quando a janela de mercado se mostrar mais favorável. A lista inclui companhias de diferentes setores, o que reforça uma leitura de retomada seletiva, e não de abertura ampla e irrestrita do mercado.
Empresas dos setores de infraestrutura e energia tendem a ocupar lugar relevante nessa fila por oferecerem contratos de longo prazo, ativos reais e maior previsibilidade de fluxo de caixa. Em momentos de reabertura do mercado, investidores costumam privilegiar companhias com modelos de negócio mais defensivos e menor dependência de ciclos curtos de consumo.
O setor imobiliário também aparece entre os segmentos monitorados. Nesse caso, a atratividade depende do comportamento dos juros, da demanda por imóveis, do custo de financiamento e da capacidade das empresas de preservar margens em um ambiente ainda competitivo.
Já companhias de tecnologia, saúde, educação e agronegócio podem atrair demanda se conseguirem demonstrar escala, crescimento sustentável e governança adequada. Após o ciclo de IPOs de 2020 e 2021, investidores passaram a exigir mais disciplina financeira, geração de caixa e clareza sobre rentabilidade.
Mercado ainda exige preço e qualidade
Apesar da melhora no humor, a retomada dos IPOs não deve repetir o ritmo observado no ciclo anterior. O mercado mudou. Investidores estão mais seletivos, questionam avaliações elevadas e cobram histórico de resultados mais consistente antes de aceitar novas listagens.
No ciclo passado, muitas empresas chegaram à Bolsa com múltiplos altos, narrativas agressivas de crescimento e baixa geração de caixa. Parte dessas companhias passou a negociar abaixo do preço de estreia, o que reduziu a confiança de investidores locais em novas ofertas.
Esse histórico ajuda a explicar por que a reabertura tende a ser gradual. Empresas interessadas em abrir capital precisarão aceitar valuations mais realistas e estruturas de oferta capazes de alinhar interesses entre acionistas vendedores, novos investidores e o mercado.
A participação de investidores estrangeiros será determinante. O capital internacional costuma ter papel relevante em grandes ofertas no Brasil, especialmente quando há percepção de desconto em relação a pares globais ou expectativa de valorização cambial e queda de juros.
Volatilidade externa ainda limita retomada
A possível volta dos IPOs ocorre em um cenário externo instável. O conflito no Oriente Médio, as oscilações do petróleo e as dúvidas sobre a trajetória dos juros nos Estados Unidos influenciam diretamente o apetite por ativos de risco.
Quando há aumento da aversão global a risco, investidores tendem a reduzir exposição a mercados emergentes. Isso afeta ações brasileiras, câmbio, fluxo estrangeiro e a capacidade de empresas levantarem capital em Bolsa.
Mesmo assim, o Brasil pode se beneficiar caso investidores passem a buscar mercados com valuations mais baixos e empresas ligadas a infraestrutura, commodities, energia e consumo doméstico. A Bolsa brasileira ainda negocia com desconto em relação a mercados desenvolvidos, o que pode atrair recursos em momentos de rotação global.
A taxa de juros doméstica também é um fator decisivo. Um ambiente de queda ou expectativa de queda da Selic tende a favorecer ativos de renda variável e aumentar o interesse por IPOs. Juros altos, por outro lado, mantêm a renda fixa competitiva e reduzem o incentivo para investidores assumirem risco em novas empresas listadas.
Banco de investimento ganha tração no Bradesco
A leitura mais otimista sobre IPOs coincide com um momento de maior atividade no Bradesco BBI. O banco assessorou 118 operações no primeiro trimestre, movimentando cerca de R$ 183 bilhões. As receitas da área de banco de investimento avançaram 63% na comparação anual.
O desempenho mostra que, mesmo antes de uma retomada ampla dos IPOs, o mercado de capitais já vinha sendo movimentado por outras operações, como emissões de dívida, ofertas subsequentes, fusões, aquisições e reestruturações financeiras.
Para bancos como o Bradesco, a volta das aberturas de capital pode representar uma nova fonte de receita em assessoria, coordenação de ofertas e relacionamento com investidores institucionais. O segmento de investment banking costuma se beneficiar em ciclos de maior confiança empresarial e liquidez de mercado.
A retomada dos IPOs também tem efeito indireto sobre a B3, escritórios de advocacia, auditorias, consultorias, gestoras e fundos. Uma nova safra de empresas listadas amplia o mercado de capitais, aumenta a oferta de ativos e fortalece o ecossistema financeiro.
Retomada dependerá da Compass e do cenário macro
A estreia da Compass será o primeiro grande termômetro da nova fase. Se a ação mostrar liquidez, estabilidade e boa recepção dos investidores, outras companhias podem acelerar seus planos de listagem. Caso contrário, a fila de IPOs tende a permanecer represada.
O mercado também acompanhará a postura dos controladores. Em uma janela ainda frágil, operações com excesso de venda secundária podem enfrentar resistência. Investidores tendem a preferir ofertas em que parte relevante dos recursos vá para o caixa da empresa, financiando crescimento, redução de dívida ou investimentos.
Outro ponto sensível será a governança. Empresas candidatas à Bolsa precisarão apresentar estruturas robustas de conselho, transparência financeira, controle de riscos e comunicação clara com investidores. A régua ficou mais alta depois dos problemas enfrentados por companhias que estrearam na Bolsa nos últimos anos.
O Bradesco BBI vê espaço para novas ofertas, mas a abertura da janela não significa que todas as empresas conseguirão estrear. O mercado deve separar companhias com fundamentos sólidos daquelas que ainda dependem de condições muito favoráveis para justificar uma listagem.
IPOs voltam ao radar após quase cinco anos de espera
A reabertura do mercado de IPOs é relevante para a economia porque amplia alternativas de financiamento para empresas e pode reduzir a dependência de crédito bancário. Para companhias em crescimento, a Bolsa permite captar recursos, fortalecer capital, melhorar governança e dar liquidez a acionistas.
Para investidores, novas listagens aumentam o número de ativos disponíveis e podem trazer exposição a setores pouco representados na Bolsa. Áreas como minerais críticos, infraestrutura, tecnologia aplicada, saúde e educação ainda têm espaço para maior presença no mercado acionário brasileiro.
O desafio será reconstruir a confiança. A retomada dos IPOs depende de uma combinação entre preço adequado, qualidade das empresas, estabilidade macroeconômica e desempenho positivo das primeiras operações.
A avaliação do Bradesco sugere que a fila existe, mas a janela ainda é seletiva. A estreia da Compass abriu a porta. O comportamento do mercado nos próximos meses dirá se o movimento será apenas uma operação isolada ou o início de um novo ciclo de ofertas públicas na B3.








