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ONU reduz previsão de crescimento global em 2026 para 2,5% com impacto da guerra no Oriente Médio

Relatório aponta pressão sobre energia, inflação mais alta e aumento da incerteza econômica; recuperação esperada para 2027 deve ser limitada

por Eduardo Toscano - Correspondente Internacional
20/05/2026 às 00h44
em Mundo, Destaque, Notícias
Onu - Gzt - Gazeta Mercantil

A Organização das Nações Unidas (ONU) reduziu nesta terça-feira, 19 de maio de 2026, sua projeção para o crescimento global em 2026, de 2,7% para 2,5%, em meio aos efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio, da alta dos preços de energia e do aumento da incerteza nos mercados financeiros. A revisão consta da atualização de meio de ano do relatório World Economic Situation and Prospects, que também prevê uma recuperação moderada da economia mundial em 2027, com expansão de 2,8%.

A nova estimativa confirma a deterioração do cenário internacional em relação ao início do ano. Em janeiro, a ONU projetava crescimento global de 2,7% em 2026 e 2,9% em 2027. Agora, o organismo aponta que a atividade econômica deve avançar menos do que o esperado, pressionada por choques geopolíticos, inflação persistente, custos de energia mais altos e deterioração das condições financeiras em parte das economias emergentes.

A guerra no Oriente Médio passou a ocupar o centro das preocupações econômicas globais por seu efeito sobre petróleo, gás, transporte marítimo, cadeias de suprimento e confiança dos investidores. Segundo a ONU, o conflito reacendeu pressões inflacionárias e ampliou a incerteza, em um momento em que a economia mundial já crescia em ritmo inferior ao observado antes da pandemia de Covid-19.

Guerra no Oriente Médio piora cenário global

A atualização do relatório mostra que o impacto da guerra no Oriente Médio não se limita à região diretamente atingida. A crise afeta preços de commodities, custos logísticos, comércio internacional, fluxo de capitais e expectativas sobre inflação. Esse conjunto de fatores tende a reduzir investimentos, elevar custos de produção e limitar o consumo em diferentes países.

O crescimento global de 2,5% projetado para 2026 representa uma expansão fraca para os padrões históricos recentes. A ONU destaca que o ritmo segue abaixo da média anterior à pandemia, quando a economia mundial operava com cadeias comerciais mais integradas, inflação mais baixa e menor fragmentação geopolítica.

A revisão ocorre em um ambiente de maior aversão ao risco. Investidores globais passaram a monitorar com mais cautela a evolução do conflito, os preços do petróleo e a capacidade dos bancos centrais de controlar a inflação sem provocar desaceleração mais intensa da atividade.

A ONU também chama atenção para o fato de que os países em desenvolvimento tendem a sentir com mais força os efeitos do choque. Economias com maior dependência de energia importada, dívida elevada, menor espaço fiscal e moeda mais vulnerável podem enfrentar aumento do custo de financiamento e redução do poder de compra da população.

Inflação volta a preocupar com alta da energia

O aumento dos preços de energia é um dos principais canais de transmissão da crise para a economia global. Petróleo, gás natural e combustíveis têm peso relevante sobre transporte, indústria, alimentos, eletricidade e custos de produção. Quando esses preços sobem, o impacto tende a se espalhar por diferentes setores.

Segundo a ONU, nas economias desenvolvidas, a inflação deve subir de 2,6% em 2025 para 2,9% em 2026. Nos países em desenvolvimento, a pressão deve ser mais intensa, com avanço de 4,2% para 5,2% no mesmo período.

Esse movimento reduz a margem de ação dos bancos centrais. Em um cenário de inflação mais alta, autoridades monetárias podem adiar cortes de juros ou manter condições financeiras restritivas por mais tempo. O efeito, por sua vez, tende a pesar sobre crédito, consumo, investimentos e mercado de trabalho.

A alta da energia também tem efeito distributivo. Famílias de menor renda gastam parcela maior do orçamento com transporte, gás, eletricidade e alimentos. Empresas com margens apertadas podem enfrentar dificuldade para absorver custos, o que aumenta o risco de repasse aos preços ou de redução de investimentos.

Ásia Ocidental sofre maior impacto econômico

A Ásia Ocidental aparece como a região mais atingida pela deterioração do cenário. A ONU projeta desaceleração do crescimento regional de 3,6% para 1,4%, refletindo danos à infraestrutura, interrupções no comércio, queda do turismo e aumento da instabilidade geopolítica.

A região tem peso estratégico nos mercados globais de energia e transporte. Qualquer interrupção relevante em rotas comerciais, produção de petróleo ou exportação de gás pode ampliar a volatilidade dos preços internacionais e afetar países importadores.

Além dos efeitos econômicos diretos, a guerra eleva riscos humanitários, fiscais e financeiros. Governos da região podem precisar redirecionar recursos para defesa, reconstrução, assistência social e infraestrutura, reduzindo espaço para investimentos produtivos.

A retração do turismo também pesa sobre países que dependem de receitas externas e serviços. Hotéis, companhias aéreas, comércio, restaurantes e atividades associadas ao fluxo internacional tendem a sofrer quando conflitos aumentam a percepção de risco.

Estados Unidos seguem resilientes, mas cenário exige cautela

Os Estados Unidos devem manter desempenho relativamente resiliente em 2026. A ONU projeta crescimento de 2,0% para a maior economia do mundo, praticamente estável em relação a 2025. A sustentação vem da demanda doméstica, do mercado de trabalho e dos investimentos em tecnologia.

Os investimentos ligados à inteligência artificial continuam sendo apontados como um dos vetores de suporte à atividade econômica. Empresas de tecnologia, infraestrutura digital, semicondutores, data centers e serviços associados ao avanço da IA seguem atraindo capital e mantendo parte do dinamismo econômico.

Ainda assim, a economia americana não está imune aos efeitos do choque energético. Preços mais altos de combustíveis podem afetar consumidores, pressionar inflação e influenciar decisões do Federal Reserve. A manutenção de juros elevados por mais tempo teria impacto sobre crédito, mercado imobiliário, consumo e fluxo financeiro para economias emergentes.

Para os mercados globais, a trajetória dos juros americanos continuará decisiva. Um Fed mais cauteloso tende a sustentar o dólar, pressionar moedas de países emergentes e aumentar o custo de financiamento externo.

Europa fica mais vulnerável à energia importada

A Europa aparece entre as regiões mais vulneráveis ao novo choque. A dependência de energia importada aumenta a exposição de famílias e empresas à alta de preços. Segundo a ONU, o crescimento da União Europeia deve desacelerar de 1,5% para 1,1%, enquanto o Reino Unido deve passar de 1,4% para 0,7%.

A região já vinha enfrentando crescimento baixo, perda de competitividade industrial em alguns segmentos e dificuldades para conciliar transição energética, política fiscal e controle da inflação. Com energia mais cara, empresas intensivas em eletricidade e gás podem enfrentar novas pressões de custo.

O consumo das famílias também tende a ser afetado. Tarifas de energia, combustíveis e alimentos têm peso importante na percepção de renda disponível. Se a inflação voltar a acelerar, bancos centrais europeus podem ter menos espaço para afrouxar a política monetária.

A desaceleração europeia tem reflexos sobre o comércio global. A União Europeia é um dos principais blocos consumidores e importadores do mundo. Menor crescimento na região pode reduzir demanda por bens industriais, commodities, serviços e produtos exportados por economias emergentes.

China e Índia crescem menos, mas seguem acima da média global

Na China, a ONU reduziu a projeção de crescimento de 5,0% para 4,6%. O país, porém, conta com fatores de amortecimento, como diversificação da matriz energética, reservas estratégicas e capacidade de intervenção estatal.

A economia chinesa segue em processo de ajuste, com desafios no setor imobiliário, no consumo doméstico e na confiança empresarial. Ao mesmo tempo, investimentos em tecnologia, indústria avançada, infraestrutura e energia ajudam a limitar os impactos da crise externa.

Na Índia, a previsão é de desaceleração de 7,5% para 6,4%. Mesmo com a revisão para baixo, o país deve continuar entre as economias de crescimento mais forte em 2026. A expansão indiana é sustentada por consumo interno, investimentos, serviços e dinâmica demográfica favorável.

A redução das projeções para China e Índia, contudo, reforça o impacto global da guerra no Oriente Médio. Quando as duas maiores economias emergentes perdem ritmo, o efeito aparece em comércio, demanda por commodities, cadeias industriais e expectativas de investimento.

Países em desenvolvimento enfrentam maior pressão

A ONU alerta que economias em desenvolvimento estão mais expostas ao choque por combinarem inflação mais alta, menor espaço fiscal, custo de dívida elevado e maior dependência de importações essenciais. Países importadores de energia e alimentos tendem a sofrer impacto mais rápido sobre contas externas e inflação doméstica.

O aumento dos preços internacionais pode pressionar moedas locais e exigir respostas de política econômica. Governos com dívida elevada têm menos espaço para subsídios, programas de compensação ou investimentos públicos. Bancos centrais, por sua vez, podem ter de manter juros elevados para conter inflação e defender a estabilidade cambial.

Esse ambiente tende a dificultar a redução da pobreza e ampliar desigualdades. Famílias de baixa renda são mais vulneráveis ao encarecimento de alimentos, transporte e energia. Empresas pequenas, com menor acesso a crédito e menor capacidade de hedge, também sentem mais rapidamente a deterioração das condições financeiras.

Para economias latino-americanas, incluindo o Brasil, o cenário global mais incerto pode afetar câmbio, juros, commodities e fluxo de capitais. A depender da evolução dos preços de energia e da postura do Fed, moedas emergentes podem enfrentar maior volatilidade.

Relatório reforça risco de crescimento fraco prolongado

A revisão da ONU reforça a percepção de que a economia global entrou em uma fase de crescimento mais baixo, choques geopolíticos frequentes e maior fragmentação. A recuperação projetada para 2027, de 2,8%, é considerada modesta e insuficiente para recolocar a atividade mundial no ritmo pré-pandemia.

O relatório aponta que mercados de trabalho sólidos, demanda resiliente dos consumidores e investimentos ligados à inteligência artificial ainda podem sustentar parte da atividade. No entanto, esses fatores não eliminam os riscos decorrentes da guerra, da inflação e das condições financeiras apertadas.

A principal preocupação é que a combinação entre energia cara, juros elevados e incerteza geopolítica reduza investimentos produtivos. Empresas tendem a adiar projetos quando há baixa previsibilidade sobre custos, demanda e financiamento. Esse comportamento pode limitar ganhos de produtividade e prolongar a desaceleração.

A ONU também destaca a necessidade de cooperação internacional para reduzir riscos, proteger economias vulneráveis e evitar que choques de curto prazo se transformem em crise prolongada. Em um ambiente de conflito e fragmentação, a coordenação entre países se torna mais difícil, mas também mais necessária.

Choque externo aumenta desafio para política econômica

A redução da previsão de crescimento global coloca governos e bancos centrais diante de um dilema mais complexo. De um lado, a atividade econômica perde força. De outro, a inflação volta a pressionar por causa da energia e das cadeias globais. Esse cenário limita respostas tradicionais de estímulo.

Se os bancos centrais reduzirem juros rapidamente, podem alimentar novas pressões inflacionárias. Se mantiverem juros altos por muito tempo, podem aprofundar a desaceleração. Para governos, o desafio é proteger famílias e setores vulneráveis sem ampliar excessivamente déficits e dívida pública.

A guerra no Oriente Médio, portanto, se tornou um fator central para as perspectivas econômicas de 2026. O conflito afeta diretamente energia, inflação, comércio e confiança. A projeção de crescimento global de 2,5% mostra que a economia mundial deve avançar, mas em ritmo frágil e sujeito a novas revisões caso a crise se prolongue.

Tags: Chinacrescimento globaleconomia mundialenergiaEstados Unidosguerra no Oriente MédioÍndiainflaçãomercados emergentesMundoONUPIB globalUnião Europeia

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