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Economia da USP lança campanha para financiar intercâmbio e idiomas para estudantes negros

Projeto Mundo Sem Fronteiras busca arrecadar R$ 297 mil até 13 de junho para ampliar bolsas de idiomas e mobilidade internacional.

por Daniel Wicker - Repórter
02/06/2026 às 14h36
em Brasil, Destaque, Notícias
Economia Da Usp Lança Campanha Para Financiar Intercâmbio E Idiomas Para Estudantes Negros - Gazeta Mercantil

A Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo, a FEA-USP, lançou a segunda edição da campanha Mundo Sem Fronteiras, iniciativa voltada ao financiamento de bolsas de idiomas e intercâmbio para estudantes negros da unidade. As doações podem ser feitas até 13 de junho e a meta é arrecadar R$ 297 mil, valor que será destinado principalmente à concessão de auxílios financeiros para cursos de línguas e mobilidade internacional.

O programa foi criado para enfrentar uma barreira persistente no ensino superior: a dificuldade de acesso ao aprendizado de idiomas por parte de estudantes negros, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade socioeconômica. A falta de fluência em línguas estrangeiras, sobretudo em inglês, ainda limita o acesso a oportunidades acadêmicas, profissionais e internacionais, mesmo entre alunos que já conseguiram ingressar em universidades de excelência.

Nesta segunda edição, o projeto pretende ofertar mais de 120 bolsas para cursos de idiomas, avaliadas em cerca de R$ 1.500 por semestre, além de dois subsídios para mobilidade internacional, estimados em aproximadamente R$ 25 mil por semestre. Mais de 90% do valor arrecadado será destinado diretamente ao auxílio financeiro dos estudantes.

A campanha é organizada por docentes da FEA-USP em parceria com o Fundo Patrimonial da FEA e com apoio da Associação de Negros Feanos, a Anfea, que atua no contato direto com os estudantes. O modelo de financiamento adotado é o matchfunding: a cada R$ 1 doado pela comunidade, o Fundo Alas acrescenta R$ 2, triplicando o impacto das contribuições.

Campanha busca reduzir barreira de acesso a idiomas

O Mundo Sem Fronteiras foi fundado em 2024 com foco em estudantes negros da FEA-USP. A iniciativa nasceu da percepção de que o avanço da inclusão racial no ensino superior precisa ser acompanhado por políticas de permanência, formação complementar e ampliação de oportunidades.

A entrada de mais estudantes negros nas universidades públicas é uma conquista importante, mas não elimina desigualdades acumuladas ao longo da trajetória escolar. O domínio de idiomas estrangeiros é uma dessas lacunas. Em cursos como economia, administração, contabilidade e atuária, a fluência em inglês e em outras línguas pode ser determinante para acesso a bibliografia internacional, programas de intercâmbio, bolsas acadêmicas, processos seletivos, estágios e carreiras em empresas globais.

Segundo Sylvia Saes, docente, vice-diretora da FEA e uma das coordenadoras do programa, a campanha surgiu justamente da constatação de que a fluência em idiomas continuava sendo um obstáculo relevante para parte dos estudantes negros.

“O programa nasceu a partir da percepção de que, apesar dos avanços na inclusão de estudantes negros na FEA, a fluência em idiomas ainda representa uma barreira para o acesso a oportunidades acadêmicas e profissionais. A campanha é realizada em um modelo de matchfunding, ou seja, a cada R$ 1 doado pela comunidade, o Fundo Alas contribui com mais R$ 2, triplicando o impacto das doações”, afirmou Sylvia Saes.

O desenho do projeto mostra uma mudança relevante no debate sobre inclusão universitária. A permanência estudantil deixou de ser tratada apenas como assistência financeira básica e passou a envolver também acesso a capital cultural, redes internacionais, formação linguística e experiências acadêmicas fora do país.

Primeira edição arrecadou mais de R$ 250 mil

A primeira edição do Mundo Sem Fronteiras, realizada em 2025, arrecadou mais de R$ 250 mil. Com os recursos, foram oferecidas mais de 110 bolsas para cursos de idiomas escolhidos pelos próprios alunos e três subsídios para intercâmbio, com duração de seis meses.

Os resultados iniciais indicaram impacto direto sobre a trajetória acadêmica dos participantes. Segundo Sylvia Saes, três estudantes que participaram dos cursos de idiomas ingressaram no Master Management de l’Innovation, programa internacional ministrado em inglês na FEA em parceria com a Sorbonne.

O caso é usado pela coordenação como exemplo do efeito prático da iniciativa. O acesso ao idioma funcionou como ponte para uma oportunidade acadêmica internacional, ampliando o repertório dos estudantes e abrindo caminhos que poderiam permanecer restritos sem apoio financeiro.

Ao final das atividades e dos cursos, os alunos contemplados devem apresentar certificado de conclusão e registrar a experiência como Atividade Acadêmica Complementar, requisito obrigatório no currículo atual da faculdade.

Essa exigência reforça o caráter acadêmico do programa. As bolsas não são apenas uma política de apoio externo, mas se integram à formação dos estudantes dentro da estrutura curricular da FEA-USP.

Meta de 2026 é ofertar mais de 120 bolsas

Na segunda edição, a meta financeira subiu para R$ 297 mil. A expectativa é ampliar o número de estudantes atendidos, com mais de 120 bolsas de idiomas e dois subsídios para mobilidade internacional.

O valor previsto para as bolsas de idiomas é de cerca de R$ 1.500 por semestre. Já os subsídios para intercâmbio são estimados em aproximadamente R$ 25 mil por semestre, valor destinado a apoiar custos de permanência e deslocamento em experiências internacionais.

A maior parte dos recursos arrecadados será voltada ao auxílio financeiro direto. Segundo a organização, mais de 90% do montante deve ser usado para custear as bolsas e os subsídios, o que dá à campanha um objetivo operacional claro: transformar doações em oportunidades concretas para estudantes.

O prazo para contribuição termina em 13 de junho. Até essa data, a campanha busca mobilizar ex-alunos, professores, estudantes, empresas, entidades e pessoas interessadas em apoiar políticas de inclusão educacional.

O uso do matchfunding tende a aumentar o apelo da iniciativa porque multiplica o efeito de cada doação. Em termos práticos, contribuições individuais ganham escala maior com o complemento do Fundo Alas, elevando a capacidade de financiamento do projeto.

Idiomas pesam na trajetória acadêmica e profissional

O aprendizado de idiomas tem impacto direto sobre a trajetória de estudantes de economia, administração, contabilidade e atuária. Nessas áreas, parte importante da produção acadêmica, dos manuais técnicos, dos relatórios de mercado e das oportunidades internacionais está disponível em inglês.

A barreira linguística pode limitar a participação em programas de intercâmbio, cursos internacionais, congressos, processos seletivos de multinacionais, instituições financeiras, consultorias, organismos multilaterais e programas de pós-graduação.

Para estudantes negros, especialmente aqueles que vêm de trajetórias educacionais marcadas por desigualdades, essa lacuna pode se somar a outros desafios. O ingresso na universidade pública representa apenas uma etapa. A competição por oportunidades de maior prestígio frequentemente exige formação complementar, fluência em idiomas, experiências internacionais e acesso a redes profissionais.

O Mundo Sem Fronteiras atua justamente nesse ponto. Ao financiar cursos de idiomas e intercâmbios, o projeto tenta reduzir a distância entre o acesso à universidade e o acesso às oportunidades acadêmicas e profissionais que dependem de recursos adicionais.

A iniciativa também dialoga com o debate sobre diversidade em carreiras de alta competitividade. Setores como mercado financeiro, consultoria, tecnologia, administração corporativa e pesquisa econômica ainda apresentam desigualdades de representação racial em posições de liderança.

Ao ampliar a formação linguística de estudantes negros, a FEA-USP busca fortalecer a capacidade desses alunos de disputar vagas, bolsas, intercâmbios e posições profissionais em condições mais equilibradas.

FEA-USP aposta em financiamento coletivo com apoio institucional

A estrutura do programa combina mobilização comunitária e apoio institucional. A campanha é promovida por docentes da FEA-USP em parceria com o Fundo Patrimonial da FEA, instrumento voltado à captação e gestão de recursos para projetos estratégicos da unidade.

O apoio da Anfea também é considerado central. A associação mantém contato direto com os estudantes e contribui para identificar demandas, divulgar oportunidades e aproximar o projeto do público que pretende atender.

Esse formato busca evitar que a campanha seja apenas uma ação pontual de arrecadação. Ao envolver docentes, fundo patrimonial e organização estudantil, o programa cria uma rede interna de acompanhamento e legitimidade.

A escolha dos cursos de idiomas pelos próprios alunos também amplia a aderência às necessidades individuais. Estudantes podem buscar formações compatíveis com seus objetivos acadêmicos, profissionais e pessoais.

A prestação de contas ocorre por meio da apresentação de certificados e do registro das atividades no currículo. Essa etapa ajuda a medir resultados e acompanhar o impacto da iniciativa na formação dos estudantes.

Projeto amplia debate sobre permanência universitária

O lançamento da segunda edição do Mundo Sem Fronteiras ocorre em meio a um debate mais amplo sobre permanência estudantil nas universidades públicas. A inclusão racial no ensino superior avançou nos últimos anos, mas a permanência e a conclusão dos cursos ainda dependem de políticas capazes de enfrentar desigualdades materiais e acadêmicas.

Moradia, alimentação, transporte, material didático e apoio financeiro básico continuam sendo elementos essenciais. No entanto, iniciativas como a da FEA-USP mostram que a permanência também envolve acesso a oportunidades que muitas vezes não são cobertas por políticas tradicionais.

Cursos de idiomas, intercâmbio, participação em eventos internacionais e formação complementar podem definir o nível de competitividade de um estudante ao longo da graduação e no início da carreira.

Quando esses recursos ficam restritos a alunos com maior renda, a universidade corre o risco de reproduzir desigualdades dentro do próprio ambiente acadêmico. O estudante ingressa na instituição, mas enfrenta barreiras para aproveitar plenamente as oportunidades disponíveis.

Ao financiar idiomas e mobilidade internacional, o projeto tenta ampliar a noção de inclusão. O objetivo não é apenas permitir que estudantes negros estejam na universidade, mas criar condições para que participem de experiências acadêmicas e profissionais de maior alcance.

Mobilidade internacional fortalece formação e redes profissionais

Os subsídios para intercâmbio são uma das frentes mais relevantes do programa. A mobilidade internacional pode ter impacto significativo na formação de estudantes, especialmente em áreas ligadas a economia, negócios, administração e pesquisa.

Uma experiência acadêmica fora do país permite contato com outros sistemas de ensino, novas metodologias, redes internacionais, instituições estrangeiras e ambientes multiculturais. Para muitos estudantes, esse tipo de oportunidade também fortalece o currículo e amplia o acesso a carreiras com maior exigência de experiência global.

O custo, porém, é uma barreira importante. Passagens, moradia, alimentação, documentação, seguro e despesas de permanência tornam o intercâmbio inacessível para parte dos alunos, mesmo quando há convênios acadêmicos disponíveis.

Os subsídios estimados em R$ 25 mil por semestre buscam reduzir esse obstáculo. Embora não eliminem todos os custos possíveis, representam apoio relevante para viabilizar experiências que poderiam ficar fora do alcance de estudantes em vulnerabilidade socioeconômica.

A mobilidade internacional também pode ter efeito multiplicador. Estudantes contemplados retornam à universidade com novas referências, ampliam repertórios e podem inspirar outros alunos a buscar oportunidades semelhantes.

Campanha reforça papel da universidade em inclusão educacional

Para Sylvia Saes, a campanha busca ampliar oportunidades e reduzir desigualdades ao oferecer aos estudantes melhores condições de formação e inserção profissional. Segundo a docente, o projeto fortalece a diversidade na universidade e amplia horizontes acadêmicos e profissionais para os estudantes contemplados.

A iniciativa também reforça o papel da FEA-USP na discussão sobre inclusão educacional em cursos tradicionalmente associados à formação de quadros para o setor público, mercado financeiro, empresas, consultorias e academia.

Ao investir em estudantes negros, o programa atua sobre uma etapa decisiva da formação de lideranças. A ampliação de oportunidades na graduação pode ter reflexos futuros na composição de equipes, cargos de gestão, pesquisa econômica, administração pública e ambientes corporativos.

O desafio, agora, será alcançar a meta de arrecadação até 13 de junho. O resultado da campanha definirá o número efetivo de bolsas e subsídios disponíveis na segunda edição.

Com a meta de R$ 297 mil, o Mundo Sem Fronteiras busca consolidar um modelo de financiamento voltado à permanência qualificada de estudantes negros. A iniciativa combina doações, apoio institucional, participação estudantil e foco em resultados acadêmicos.

Se alcançar a meta, a FEA-USP poderá ampliar o número de alunos atendidos, fortalecer experiências internacionais e reduzir uma barreira que continua decisiva para a inserção acadêmica e profissional: o acesso a idiomas.

Tags: Anfeabolsas de idiomasBrasildiversidadeeducação superiorestudantes negrosFEA-USPFundo AlasFundo Patrimonial da FEAinclusão racialintercâmbiomobilidade internacionalMundo Sem FronteirasSylvia SaesUSP

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