A Databricks assinou os termos preliminares de uma nova rodada de investimentos que avalia a companhia em US$ 188 bilhões, consolidando a desenvolvedora de plataformas de dados e inteligência artificial entre as empresas privadas de tecnologia mais valiosas do mundo. A operação será liderada pela Coatue, atual acionista do negócio, e deverá contar com investidores novos e já presentes no capital da empresa.
O valor do aporte não foi informado. A Databricks também não divulgou quantas ações serão emitidas, o nível de diluição dos atuais acionistas ou a parcela da operação destinada à liquidez de funcionários. A transação ainda não foi concluída: a empresa assinou um termo com as condições iniciais da rodada e espera fechar o investimento nos próximos meses.
A nova avaliação representa um salto de aproximadamente 40% em relação aos US$ 134 bilhões atribuídos à Databricks em dezembro de 2025. Na comparação com dezembro de 2024, quando a companhia levantou uma rodada que a avaliou em US$ 62 bilhões, o valor mais que triplicou.
O crescimento acompanha a expansão da demanda empresarial por sistemas capazes de organizar dados, controlar o uso de diferentes modelos de inteligência artificial e desenvolver agentes conectados às operações das companhias. A Databricks pretende direcionar o novo capital principalmente ao Unity AI Gateway, ao Genie e ao Lakebase.
Além do desenvolvimento dos três produtos, os recursos poderão financiar pesquisas e aquisições no setor de inteligência artificial. A companhia não revelou quais empresas ou tecnologias estão sendo avaliadas.
Databricks ainda precisa concluir a rodada
O anúncio não significa que o dinheiro já entrou no caixa da Databricks. A companhia assinou um term sheet, documento que reúne as condições preliminares negociadas com os investidores.
Essa etapa normalmente antecede a elaboração dos contratos definitivos, a verificação das informações financeiras e jurídicas e o cumprimento de outras condições estabelecidas pelas partes.
A Coatue será a principal investidora da operação. A gestora já havia participado da rodada anunciada pela Databricks em dezembro, ao lado de instituições como Fidelity, JPMorgan Asset Management, BlackRock, Blackstone, GIC, Microsoft, Temasek e fundos administrados por grandes gestores internacionais.
A Databricks confirmou que o novo financiamento terá participação de investidores atuais e de novos participantes, mas não revelou os nomes adicionais.
Reportagens internacionais apontaram a possibilidade de uma captação de aproximadamente US$ 3 bilhões. O número, entretanto, não foi confirmado pela empresa e não consta no comunicado oficial sobre a rodada.
Valuation sobe US$ 54 bilhões em sete meses
Em dezembro de 2025, a Databricks anunciou uma rodada Série L superior a US$ 4 bilhões, com avaliação de US$ 134 bilhões. A operação foi ampliada posteriormente para cerca de US$ 5 bilhões em capital, acompanhada por aproximadamente US$ 2 bilhões em capacidade adicional de endividamento.
Sete meses depois, a nova transação adiciona US$ 54 bilhões ao valor atribuído à companhia.
A evolução é ainda mais expressiva quando comparada à rodada Série J, anunciada no fim de 2024. Naquele momento, a Databricks buscava levantar US$ 10 bilhões e foi avaliada em US$ 62 bilhões.
Em cerca de 19 meses, portanto, o valuation privado cresceu US$ 126 bilhões, ou pouco mais de 200%.
A avaliação de uma empresa privada, contudo, não é diretamente equivalente ao valor de mercado de uma companhia listada em Bolsa. Os investidores que participam de rodadas podem receber direitos específicos, preferências de liquidação e outras proteções que não estão presentes nas ações ordinárias negociadas diariamente.
O valuation também não significa que todos os acionistas poderiam vender suas participações imediatamente pelo preço utilizado na rodada. O cálculo representa o valor atribuído ao negócio dentro das condições negociadas na operação.
Empresa quer controlar o uso de várias IAs
A principal tese da Databricks é que as empresas não utilizarão apenas um modelo de inteligência artificial em suas operações.
Organizações podem recorrer a sistemas de diferentes fornecedores, modelos abertos e tecnologias desenvolvidas internamente. A escolha tende a variar conforme o custo, a velocidade, a segurança e a complexidade de cada tarefa.
Um modelo mais avançado pode ser necessário para analisar contratos ou produzir estudos complexos. Atividades repetitivas, classificação de documentos e consultas simples podem ser executadas por sistemas menores e mais baratos.
Essa combinação cria um novo problema para as companhias: controlar quais ferramentas podem ser utilizadas, quais informações ficam acessíveis e quanto cada área gasta com processamento.
O presidente-executivo e cofundador da Databricks, Ali Ghodsi, afirma que as empresas estão deixando de priorizar o volume de tokens consumidos para buscar o melhor retorno por dólar investido.
A estratégia abre espaço para plataformas capazes de centralizar o acesso a diferentes modelos, aplicar regras de segurança e acompanhar os custos gerados por cada usuário ou aplicação.
Unity AI Gateway mira custos e governança
O Unity AI Gateway é a resposta da Databricks ao aumento desordenado do uso de inteligência artificial dentro das organizações.
A ferramenta funciona como uma camada de controle para modelos, agentes, aplicações e servidores conectados a sistemas corporativos. A empresa pode definir quem está autorizado a acessar cada recurso e quais ferramentas podem ser utilizadas em determinada tarefa.
O sistema permite criar limites de gasto, controlar a quantidade de solicitações e interromper o consumo quando um orçamento é alcançado. Também registra prompts, respostas, ações executadas e decisões tomadas pelas políticas internas.
Outro recurso é o direcionamento de tráfego entre modelos. Caso um fornecedor esteja indisponível ou apresente desempenho inadequado, as solicitações podem ser enviadas a uma alternativa previamente configurada.
A Databricks também oferece mecanismos de segurança para bloquear ou modificar conteúdos que violem regras de privacidade, conformidade ou proteção de dados.
A proposta é permitir que as empresas ampliem o uso da inteligência artificial sem perder visibilidade sobre custos, comportamento dos sistemas e acesso a informações sensíveis.
Genie leva linguagem natural aos dados empresariais
A segunda frente prioritária é o Genie, conjunto de ferramentas que permite aos funcionários consultar dados corporativos usando perguntas em linguagem natural.
Em vez de depender exclusivamente de relatórios elaborados por equipes técnicas, um profissional pode perguntar quais produtos tiveram maior crescimento, quais clientes reduziram compras ou como determinada unidade está se comportando.
As respostas são geradas a partir dos dados autorizados da própria organização e submetidas às regras do Unity Catalog, sistema de governança da Databricks.
O portfólio inclui diferentes versões. O Genie One funciona como uma interface para usuários empresariais consultarem dados, painéis e aplicações. O Genie Agents permite criar ambientes especializados em determinados setores ou departamentos.
Já o Genie Code é voltado a desenvolvedores e profissionais técnicos. O sistema auxilia na criação e execução de códigos, pipelines e painéis.
A Databricks busca resolver uma limitação comum entre grandes empresas: a dificuldade de transformar informações armazenadas em diferentes sistemas em respostas acessíveis às áreas de negócio.
A precisão dependerá da qualidade dos dados, da definição das métricas e da configuração das regras internas. Conceitos como receita, cliente ativo, margem e cancelamento podem ter significados distintos entre companhias e até entre departamentos da mesma organização.
Lakebase aproxima aplicações e dados analíticos
O Lakebase completa o grupo de produtos que receberá prioridade na nova rodada.
A ferramenta é um banco de dados baseado em PostgreSQL e projetado para aplicações e agentes que precisam consultar e alterar informações em tempo real.
A Databricks ficou conhecida pela arquitetura lakehouse, criada para armazenar e analisar grandes volumes de dados. O Lakebase amplia a atuação da empresa para operações transacionais, nas quais sistemas precisam registrar pedidos, pagamentos, cadastros e outras atualizações frequentes.
O produto ajusta automaticamente a capacidade computacional conforme a demanda e pode reduzir o consumo quando não está sendo utilizado. Também permite criar cópias isoladas do banco de dados para desenvolvimento e testes.
A integração com a plataforma analítica elimina parte das estruturas necessárias para transferir dados entre sistemas operacionais e ambientes de análise.
Esse ponto ganha importância com a expansão dos agentes de inteligência artificial. Para executar tarefas reais, os sistemas precisam não apenas consultar documentos, mas também atualizar registros, acionar aplicações e armazenar os resultados de suas decisões.
Receita anualizada supera US$ 5,4 bilhões
A valorização da Databricks também está apoiada no crescimento financeiro divulgado pela própria companhia.
Em fevereiro de 2026, a empresa informou ter superado US$ 5,4 bilhões em receita anualizada, com expansão superior a 65% na comparação com o ano anterior.
Os produtos de inteligência artificial atingiram uma receita anualizada superior a US$ 1,4 bilhão.
A Databricks também declarou ter registrado fluxo de caixa livre positivo nos 12 meses anteriores. O indicador mostra que a companhia gerou recursos após considerar os gastos necessários para sustentar e expandir sua operação.
Mais de 800 clientes consumiam serviços equivalentes a pelo menos US$ 1 milhão por ano. Outros 70 clientes haviam ultrapassado a marca de US$ 10 milhões em consumo anualizado.
A taxa líquida de retenção ficou acima de 140%. O número indica que os clientes existentes aumentaram seus gastos com a plataforma, mesmo depois de considerar reduções de contratos e cancelamentos.
Por ser uma empresa privada, a Databricks não divulga demonstrações financeiras com o mesmo nível de detalhamento exigido de companhias abertas. Os números operacionais são apresentados pela própria administração e não permitem uma avaliação completa de lucro, margens, ativos e passivos.
Companhia atende mais de 20 mil organizações
A Databricks afirma atender mais de 20 mil organizações ao redor do mundo, incluindo Adidas, AT&T, Bayer, Block, Mastercard, Rivian e Unilever.
Segundo a empresa, aproximadamente 70% das companhias presentes na lista Fortune 500 utilizam sua plataforma.
O negócio foi fundado em 2013 por pesquisadores e engenheiros ligados ao desenvolvimento do Apache Spark, tecnologia criada para processar grandes volumes de dados.
Ao longo dos anos, a companhia expandiu a atuação para engenharia de dados, análise, armazenamento, inteligência de negócios, governança e desenvolvimento de aplicações baseadas em inteligência artificial.
O modelo comercial depende principalmente do consumo dos recursos computacionais utilizados pelos clientes. À medida que uma empresa processa mais dados, cria novas aplicações ou amplia o número de usuários, aumenta também o valor pago à Databricks.
Essa dinâmica explica a importância da taxa de retenção superior a 140%, já que o crescimento não depende apenas da conquista de novos clientes, mas também da expansão dos contratos já existentes.
Nova rodada reduz urgência de IPO
A capacidade de captar recursos no mercado privado permite que a Databricks adie uma oferta pública inicial de ações.
O presidente-executivo Ali Ghodsi já declarou que a empresa não pretende abrir o capital apenas para acompanhar uma janela de mercado. A administração busca escolher um momento em que a operação ofereça liquidez e condições adequadas para os acionistas.
Uma estreia na Bolsa permitiria a funcionários e investidores vender participações com maior facilidade. Também daria à companhia uma moeda pública para financiar aquisições.
Em contrapartida, a Databricks teria de divulgar balanços trimestrais detalhados e ficaria sujeita à avaliação diária do mercado.
O valuation de US$ 188 bilhões aumenta a exigência para uma eventual oferta. Para sustentar um valor semelhante como companhia aberta, a empresa precisará manter o crescimento da receita, preservar a geração de caixa e demonstrar que os investimentos em inteligência artificial geram retorno.
A nova rodada oferece capital para que a Databricks continue expandindo sem recorrer imediatamente à Bolsa. O desafio agora será transformar a demanda por agentes e plataformas de IA em crescimento sustentável, enquanto concorre com provedores de nuvem, empresas de bancos de dados e grandes grupos de tecnologia.









