O Grupo Fleury (FLRY3) assumiu a operação comercial e a logística de exportação dos testes de oncologia de precisão FoundationOne no Brasil, em uma parceria com a Foundation Medicine, companhia controlada pela Roche. Com a mudança, anunciada em julho de 2026, os exames passam a ser distribuídos pelos canais da Fleury Genômica, enquanto as amostras continuam sendo sequenciadas nos laboratórios da empresa americana em Boston, nos Estados Unidos.
A reorganização altera a forma de acesso aos testes no mercado brasileiro. A Roche Diagnóstica deixa de realizar diretamente a venda dos exames, e o Fleury passa a administrar o relacionamento comercial, a orientação sobre o envio das amostras, a documentação necessária e a logística internacional envolvida no processo.
O acordo não representa a aquisição de uma divisão da Roche pelo Fleury. Também não envolve a compra da Foundation Medicine ou a transferência da tecnologia de sequenciamento para o Brasil. Trata-se de uma parceria de distribuição e operação comercial, sem valor financeiro divulgado pelas empresas.
A Foundation Medicine permanece responsável pelas análises, pelos sistemas de bioinformática, pelos critérios técnicos e pela emissão dos relatórios moleculares. A companhia foi integralmente adquirida pela Roche em 2018, em uma transação que avaliou o negócio em aproximadamente US$ 5,3 bilhões.
A parceria amplia a atuação do Fleury em uma das áreas mais sofisticadas da medicina diagnóstica: o perfil genômico abrangente de tumores. A tecnologia permite analisar simultaneamente centenas de genes relacionados ao câncer, com o objetivo de fornecer informações que possam auxiliar médicos na escolha de terapias direcionadas, imunoterapias ou estudos clínicos.
Fleury assume jornada comercial dos exames
Pelo novo modelo, os testes FoundationOne passam a ser solicitados e comercializados no Brasil por meio da plataforma Fleury Genômica.
O grupo brasileiro ficará responsável pelas etapas locais do atendimento, incluindo o recebimento das solicitações médicas, a avaliação inicial da documentação, o suporte ao envio do material biológico e a logística de exportação das amostras.
O processamento continuará centralizado nas instalações da Foundation Medicine em Boston. A manutenção do laboratório responsável pelas análises preserva o protocolo internacional utilizado nos exames e evita mudanças na metodologia de sequenciamento.
A operação exige uma cadeia logística específica. Nos testes realizados a partir de tecido tumoral, o material geralmente é enviado em blocos de parafina ou lâminas histológicas. Antes da análise molecular, a amostra precisa passar por avaliação para confirmar se possui quantidade e qualidade suficientes de células tumorais.
O transporte internacional também depende do cumprimento de regras sanitárias e aduaneiras. O Fleury utilizará sua estrutura para organizar esse fluxo e atuar como ponto de contato no Brasil entre médicos, pacientes, instituições de saúde e a Foundation Medicine.
As companhias não informaram se o contrato possui prazo determinado, cláusula de exclusividade ou metas mínimas de exames. Também não foram divulgadas estimativas de receita ou lucro associadas à parceria.
FoundationOne investiga 324 genes ligados ao câncer
O FoundationOne CDx utiliza o Sequenciamento de Nova Geração, conhecido pela sigla NGS, para investigar alterações moleculares presentes em tumores sólidos.
O teste analisa 324 genes a partir de uma amostra de tecido tumoral. O painel procura diferentes classes de alterações genéticas, como substituições de bases, pequenas inserções e deleções, variações no número de cópias e determinados rearranjos gênicos.
O exame também avalia assinaturas genômicas relevantes para a oncologia, como a instabilidade de microssatélites e a carga mutacional do tumor. Essas informações podem ajudar na avaliação de terapias direcionadas e de determinados tratamentos imunoterápicos.
Diferentemente de exames que investigam um gene por vez, o perfil genômico abrangente analisa centenas de regiões em uma única operação. Essa característica pode ser relevante quando há pouco tecido tumoral disponível, uma vez que a realização sucessiva de testes separados pode consumir a amostra.
Os resultados precisam ser interpretados pelo médico responsável em conjunto com o diagnóstico, o estágio da doença, o histórico do paciente e as evidências disponíveis para cada tratamento.
A identificação de uma alteração molecular não significa, por si só, que determinado medicamento será indicado ou produzirá resposta clínica. O exame funciona como ferramenta de apoio à decisão médica e não substitui a avaliação individual do paciente.
Parceria reforça Fleury Genômica
A incorporação dos testes FoundationOne fortalece o portfólio da Fleury Genômica, plataforma dedicada a exames de genética e biologia molecular.
O Grupo Fleury já oferece testes próprios para perfil molecular de tumores, como o Oncofoco, desenvolvido e processado no Brasil. O exame analisa centenas de genes e utiliza um sistema de bioinformática criado pela companhia.
A presença simultânea de soluções nacionais e internacionais permite ao grupo atender diferentes necessidades clínicas, metodologias, prazos e formas de processamento.
O Oncofoco é realizado integralmente no país e possui laudo em português. O FoundationOne, por sua vez, utiliza a plataforma centralizada da Foundation Medicine e reúne indicações como diagnóstico complementar associado a terapias aprovadas em diferentes mercados.
A estratégia amplia o papel do Fleury como distribuidor de tecnologias médicas desenvolvidas no exterior, além de sua atuação tradicional como operador de laboratórios próprios.
O grupo possui 585 unidades de atendimento em 13 estados e no Distrito Federal. Sua operação de apoio a laboratórios, conhecida como Lab-to-Lab, alcança cerca de 2.200 municípios e atende aproximadamente 8 mil parceiros.
Essa rede poderá ser utilizada para ampliar a divulgação e a logística dos exames fora dos grandes centros, embora o acesso continue condicionado à indicação médica, ao custo e às formas de cobertura disponíveis.
Foundation Medicine completa 12 anos de atuação no Brasil
Os testes da Foundation Medicine chegaram ao Brasil em 2014. De acordo com dados apresentados pelas empresas, aproximadamente 25 mil pacientes foram atendidos no país desde o início da operação.
A companhia americana foi fundada em 2010 com foco na produção e interpretação de informações genômicas relacionadas ao câncer. Seu portfólio combina exames para tecido tumoral, testes baseados em amostras de sangue e soluções voltadas a pesquisas e desenvolvimento de medicamentos.
A Roche tornou-se acionista da Foundation Medicine antes de concluir a aquisição integral da empresa, em julho de 2018. A estratégia da farmacêutica suíça buscava aproximar o desenvolvimento de medicamentos da identificação dos biomarcadores necessários para definir quais pacientes poderiam se beneficiar de cada terapia.
Essa integração tornou-se central para a chamada medicina personalizada. Em vários tipos de câncer, a escolha do tratamento já não depende apenas do órgão em que o tumor surgiu, mas também das alterações moleculares encontradas nas células.
Medicamentos direcionados a mutações específicas aumentaram a demanda por testes capazes de identificar essas características. Ao mesmo tempo, o crescimento da imunoterapia ampliou a utilização de marcadores como carga mutacional e instabilidade de microssatélites.
Roche deixa a venda direta no Brasil
Até a transição, a Roche Diagnóstica mantinha a venda direta dos exames FoundationOne no mercado brasileiro.
Com o novo formato, a companhia deixa essa etapa sob responsabilidade do Fleury, mas continua vinculada aos produtos por meio da Foundation Medicine.
A reorganização permite que a Roche utilize a capilaridade e a infraestrutura comercial de um dos maiores grupos de medicina diagnóstica do país. O Fleury, por sua vez, incorpora uma tecnologia internacional reconhecida sem precisar transferir o processamento das amostras para seus próprios laboratórios.
O modelo também pode reduzir a fragmentação da jornada de solicitação. Médicos e pacientes passam a contar com uma estrutura brasileira para atendimento, documentação e acompanhamento logístico, enquanto a etapa laboratorial continua nos Estados Unidos.
As empresas não revelaram como será dividida a receita de cada exame nem qual será a margem do Fleury na operação. Por esse motivo, ainda não é possível calcular o impacto da parceria sobre os resultados de FLRY3.
A relevância financeira dependerá do número de solicitações, dos preços praticados, das condições de cobertura e da capacidade de ampliar o acesso aos testes.
FoundationOne RNA está nos planos para o Brasil
A nova fase da operação também inclui a intenção de ampliar o portfólio disponível no mercado brasileiro.
Um dos produtos previstos é o FoundationOne RNA, teste desenvolvido para detectar fusões e rearranjos genéticos a partir do RNA dos tumores sólidos.
O exame investiga 318 genes associados ao câncer e funciona como complemento ao FoundationOne CDx. DNA e RNA podem ser extraídos da mesma amostra, o que reduz a necessidade de enviar material adicional em determinadas situações.
A análise do RNA pode aumentar a capacidade de identificar fusões gênicas que nem sempre aparecem de forma conclusiva em testes baseados exclusivamente em DNA.
Essas alterações são relevantes em tumores nos quais medicamentos direcionados dependem da identificação de fusões envolvendo genes específicos. Entre os exemplos conhecidos na oncologia estão alterações em ALK, NTRK, RET e ROS1.
A introdução do produto no Brasil dependerá da organização comercial, das exigências regulatórias aplicáveis e da definição das condições de acesso.
As empresas não divulgaram uma data definitiva para o início da oferta do FoundationOne RNA no país.
Monitoramento por sangue integra próxima etapa
Outro produto mencionado nos planos de expansão é o FoundationOne Monitor, voltado ao acompanhamento molecular da doença por meio de amostras de sangue.
O exame analisa fragmentos de DNA tumoral circulante, conhecidos como ctDNA. Esse material é liberado pelas células cancerosas na corrente sanguínea e pode fornecer informações sobre a atividade molecular do tumor.
A medição ao longo do tratamento pode ajudar pesquisadores e profissionais de saúde a observar mudanças na quantidade de DNA tumoral detectável e avaliar a resposta a determinadas terapias.
A tecnologia não substitui automaticamente os exames de imagem nem as biópsias tradicionais. A quantidade de ctDNA varia conforme o tipo de câncer, o estágio da doença, a localização das lesões e outras características biológicas.
Resultados negativos também não descartam necessariamente a presença de atividade tumoral. Por isso, as informações precisam ser analisadas em conjunto com os demais dados clínicos.
A Foundation Medicine vem ampliando seu portfólio de monitoramento molecular, área considerada uma das próximas fronteiras da oncologia de precisão.
Oncologia de precisão avança no mercado de diagnósticos
A parceria ocorre em um momento de crescente integração entre laboratórios, hospitais, farmacêuticas e empresas especializadas em dados genômicos.
O avanço das terapias direcionadas transformou os testes moleculares em uma etapa cada vez mais relevante da jornada oncológica. Determinados medicamentos somente são indicados quando o tumor apresenta um biomarcador específico.
Esse movimento aumenta a demanda por painéis amplos, bioinformática e profissionais capazes de interpretar resultados complexos.
Para o Fleury, a oncologia genômica representa uma oportunidade de crescimento em exames de alto valor agregado e de fortalecimento do relacionamento com médicos, hospitais e laboratórios parceiros.
A companhia também amplia sua presença em etapas que vão além da análise clínica convencional, como logística internacional, consultoria médica especializada e integração de dados moleculares.
Para a Roche, a parceria permite concentrar a estrutura da Foundation Medicine no processamento e desenvolvimento tecnológico, utilizando o alcance comercial do Fleury para ampliar a presença brasileira.
O principal desafio será converter a nova estrutura em maior acesso. O mercado de testes genômicos ainda enfrenta barreiras relacionadas ao custo, à cobertura assistencial, ao conhecimento médico e à concentração da oferta em grandes centros.
A escala nacional do Fleury pode reduzir parte dessas limitações logísticas, mas o impacto efetivo dependerá das condições comerciais e da incorporação dos exames pelas diferentes fontes pagadoras.










