A 3tentos (TTEN3) perdeu aproximadamente R$ 1,22 bilhão em valor de mercado em apenas um pregão, após suas ações recuarem 16,01% na terça-feira, 28 de julho, e encerrarem cotadas a R$ 12,80. A queda foi seguida por um corte no preço-alvo promovido pelo Citi, que reduziu de R$ 20 para R$ 17 sua avaliação para os papéis diante da expectativa de margens menores na indústria, consumo elevado de caixa e aumento da alavancagem no segundo trimestre de 2026.
Mesmo com a revisão, o Citi manteve a recomendação de compra para as ações. O novo preço-alvo representa potencial de valorização de 32,8% sobre o fechamento de terça-feira, indicando que o banco ainda vê espaço para recuperação, embora considere que a transformação dos investimentos recentes em lucro demorará mais do que o previsto anteriormente.
A pressão continuou na manhã desta quarta-feira, 29, quando TTEN3 voltou a operar em queda. O movimento ocorre duas semanas antes da divulgação do balanço do segundo trimestre, marcada para 13 de agosto, período em que o mercado deverá verificar se a expansão de volumes conseguiu compensar a deterioração dos preços do biodiesel e do farelo de soja.
O Citi estima que a companhia tenha consumido aproximadamente R$ 900 milhões em caixa entre abril e junho. A projeção considera o aumento sazonal dos estoques, a necessidade de capital de giro, os investimentos nas unidades industriais e um Ebitda inferior ao registrado no mesmo período de 2025.
Queda das ações elimina parte da valorização construída desde 2025
A perda de valor de mercado foi calculada com base nas 500,74 milhões de ações que compõem o capital da 3tentos e na redução de R$ 2,44 por papel registrada na terça-feira. A companhia passou a ser avaliada em aproximadamente R$ 6,41 bilhões ao fim do pregão.
O movimento foi expressivo para uma ação que vinha sendo tratada por analistas como uma das principais teses de crescimento do agronegócio na B3. Em março, TTEN3 chegou a ser negociada a R$ 17,90, sua máxima em 52 semanas.
Desde aquele patamar, a perda já se aproxima de 28,5%. Em relação ao fechamento de 2025, quando as ações valiam aproximadamente R$ 16,50, a desvalorização acumulada chega a cerca de 22%.
A intensidade da correção mostra que o mercado havia incorporado às cotações uma expansão mais rápida da rentabilidade. A 3tentos vem ampliando simultaneamente a rede de lojas, a capacidade de processamento de soja, a oferta de crédito rural e a atuação em biocombustíveis.
Esse ciclo exige investimentos elevados antes de produzir retorno integral. A nova avaliação do Citi sugere que o intervalo entre os desembolsos e a geração de caixa será maior, especialmente porque o ambiente de preços da divisão industrial se tornou menos favorável.
Margem do esmagamento de soja concentra preocupação
O principal ponto de atenção está na diferença entre o custo de aquisição da soja e a receita gerada com a venda de seus derivados. Essa relação determina a margem de esmagamento, indicador central para empresas que processam o grão.
A 3tentos transforma soja em óleo, farelo, biodiesel, casca e glicerina em unidades localizadas em Ijuí e Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, e em Vera, em Mato Grosso.
Quando os preços do biodiesel e do farelo caem mais rapidamente do que o custo da soja, a empresa pode aumentar a produção e a receita, mas obter menos lucro por tonelada processada.
Essa pressão já era perceptível nos números do primeiro trimestre. A produção de biodiesel cresceu 12% na comparação anual, para 166,8 mil metros cúbicos, enquanto a receita desse produto avançou apenas 1%, alcançando R$ 962,9 milhões.
O volume de farelo e outros produtos aumentou 24%, para 543,1 mil toneladas. A receita correspondente, porém, cresceu 9%, para R$ 951,2 milhões.
A diferença entre volume e faturamento confirma que os preços médios realizados recuaram. No conjunto da indústria, a receita avançou 4,9%, para R$ 1,91 bilhão, mas o lucro bruto ajustado caiu 9,5%, para R$ 359,8 milhões.
A margem bruta ajustada da divisão industrial passou de 21,8% no primeiro trimestre de 2025 para 18,8% no mesmo período de 2026. Esse recuo ocorreu antes da deterioração adicional considerada pelo Citi em suas novas projeções.
Dados da ANP confirmam preço menor do biodiesel
Os dados oficiais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis mostram que o preço médio do biodiesel permaneceu abaixo dos níveis do ano passado durante parte relevante de 2026.
Na semana encerrada em 12 de julho, o biodiesel foi negociado pelos produtores a R$ 5,11 por litro, queda de 2,79% em relação ao mesmo período de 2025. Nas semanas anteriores, as retrações anuais chegaram a 1,82%.
O preço médio chegou a R$ 4,89 por litro em março, 12,58% abaixo do observado um ano antes. Embora tenha se recuperado desde então, o valor não acompanhou integralmente as oscilações de outras commodities energéticas.
Para a 3tentos, o impacto depende também do preço do óleo de soja, principal matéria-prima utilizada na produção do biodiesel. O resultado industrial é determinado pela combinação entre custo do grão, rendimento do processamento, preços dos derivados e contratos de proteção.
A companhia utiliza instrumentos financeiros para proteger parte dessa exposição. Por isso, seus resultados contábeis podem apresentar diferenças relevantes entre o lucro líquido reportado e as métricas ajustadas pelos efeitos dos contratos de hedge e da marcação a mercado.
No primeiro trimestre, por exemplo, o lucro líquido contábil caiu 55,7%, para R$ 85,2 milhões. Excluídos os ajustes a valor justo, o lucro líquido ajustado cresceu 110,7%, para R$ 230,9 milhões.
Essa diferença deverá voltar ao centro da análise no balanço do 2T26. Mais do que o lucro contábil isolado, investidores observarão o Ebitda ajustado com hedge, as margens por segmento e a geração efetiva de caixa.
Insumos e grãos devem sustentar crescimento da receita
Embora tenha reduzido as expectativas para a indústria, o Citi prevê crescimento de receita e de volumes nos três segmentos da 3tentos. As perspectivas mais favoráveis estão nas operações de insumos agrícolas e comercialização de grãos.
A companhia vem ganhando participação de mercado em Mato Grosso, onde suas lojas ainda estão em processo de maturação. Também iniciou a expansão para Pará e Goiás, com a abertura de unidades em Santana do Araguaia e Rio Verde.
Ao fim do primeiro trimestre, a rede somava 75 lojas: 59 no Rio Grande do Sul, 14 em Mato Grosso, uma em Goiás e uma no Pará. A área agrícola coberta pela estrutura comercial alcançava 24,4 milhões de hectares.
A estratégia integrada permite que a empresa venda sementes, fertilizantes e defensivos aos produtores e, posteriormente, participe da compra, armazenagem, comercialização e processamento da safra.
No primeiro trimestre, a receita de insumos cresceu 31,9%, para R$ 826,6 milhões. O lucro bruto ajustado do segmento avançou 65,9%, alcançando R$ 188,2 milhões, com margem de 22,8%.
A comercialização de grãos apresentou crescimento ainda mais expressivo. A receita aumentou 40%, para R$ 1,47 bilhão, enquanto o lucro bruto ajustado mais do que dobrou, chegando a R$ 260,2 milhões.
O volume de soja negociado cresceu 80%, para 430,7 mil toneladas. No milho, o avanço foi de 87%, para 237,4 mil toneladas. A companhia atribuiu o desempenho principalmente à safra recorde em Mato Grosso e à maturação de sua presença comercial no Estado.
Essas operações podem amortecer a pressão industrial no segundo trimestre. A capacidade de compensação, contudo, dependerá do custo logístico, da margem na originação e das despesas necessárias para sustentar a expansão geográfica.
Despesas avançam mais rápido do que a estrutura comercial
A elevação das despesas com vendas, gerais e administrativas é outro fator incorporado pelo Citi na redução do preço-alvo.
No primeiro trimestre, esses gastos somaram R$ 548,5 milhões, alta de 46,5% na comparação anual. A expansão foi superior ao crescimento de 20,2% da receita líquida.
As despesas passaram a representar 13% do faturamento, ante 10,7% no mesmo período de 2025. O aumento ocorreu principalmente na logística, devido ao maior volume de soja, milho e farelo movimentado em Mato Grosso.
A receita cresce à medida que a companhia amplia a originação e o processamento, mas a distância entre áreas produtoras, unidades industriais e destinos de venda também eleva o custo dos fretes.
As novas lojas acrescentam despesas antes de alcançarem seu potencial pleno. A contratação de equipes comerciais, a montagem das estruturas e o aumento dos estoques de insumos antecedem a geração integral de receitas.
Esse mecanismo é típico de empresas em expansão, mas ganha relevância em um ambiente de juros elevados. Quanto maior o capital imobilizado em estoques e contas a receber, maior a necessidade de financiamento e o custo financeiro associado.
Capital de giro deve pressionar caixa do segundo trimestre
A projeção de consumo de R$ 900 milhões em caixa não significa necessariamente perda operacional equivalente. Parte relevante deverá estar relacionada à formação de estoques e à movimentação sazonal do capital de giro.
No agronegócio, o caixa varia de acordo com o calendário da safra. A empresa compra grãos, mantém produtos armazenados, vende insumos a prazo e recebe os pagamentos em momentos diferentes.
Esse descasamento exige recursos financeiros, mesmo quando as operações permanecem rentáveis. O problema surge quando a necessidade de capital de giro cresce ao mesmo tempo que as margens diminuem.
No primeiro trimestre, os estoques consumiram R$ 438 milhões, enquanto o aumento das contas a receber absorveu R$ 609 milhões. Parte do impacto foi compensada pela expansão de R$ 1,08 bilhão nas contas com fornecedores.
Os investimentos em ativos permanentes somaram R$ 245,2 milhões. Desse total, R$ 98 milhões foram direcionados à indústria de Porto Alegre do Norte e R$ 88 milhões às unidades de soja de Vera, Ijuí e Cruz Alta.
A dívida líquida consolidada aumentou R$ 473,8 milhões em três meses e encerrou março em R$ 2,07 bilhões. Excluída a operação da TentosCap, o endividamento líquido ficou em R$ 1,66 bilhão.
Pela métrica ajustada utilizada para acompanhar os contratos financeiros, a relação entre dívida líquida e Ebitda ficou em 1,37 vez. O nível ainda é moderado, mas a expectativa de novo consumo de caixa indica uma trajetória de alta.
Usina de etanol inicia fase decisiva do investimento
A nova indústria de etanol de milho em Porto Alegre do Norte, em Mato Grosso, representa o maior projeto do ciclo atual de expansão.
A construção estava concluída no início de maio, quando a unidade passou pela inspeção da ANP. A planta foi projetada para processar 2,8 mil toneladas de milho por dia quando alcançar plena capacidade.
Além de etanol anidro e hidratado, a operação produzirá DDGS, coproduto utilizado na nutrição animal, e óleo de milho.
O projeto amplia a verticalização da companhia ao criar demanda industrial para o milho originado na região do Vale do Araguaia. A empresa poderá gerar diferentes receitas a partir da mesma matéria-prima e utilizar sua estrutura comercial para assegurar o abastecimento.
O início das operações, porém, não significa contribuição imediata em plena escala. A indústria precisa passar pelo período de ramp-up, com aumento gradual da produção, ajustes técnicos, formação de estoques e desenvolvimento da logística de distribuição.
Durante essa fase, os custos fixos já aparecem no resultado, enquanto a receita ainda não reflete a capacidade total. O equilíbrio econômico dependerá da velocidade do ramp-up, do preço do milho, das cotações do etanol e da comercialização do DDGS.
A usina continua sendo um dos principais argumentos favoráveis à tese de longo prazo. No curto prazo, entretanto, ajuda a explicar o aumento da dívida e a pressão sobre o fluxo de caixa.
Balanço mostrará se queda de TTEN3 foi excessiva
A manutenção da recomendação de compra pelo Citi indica que o banco não considera a deterioração estrutural. O corte de R$ 20 para R$ 17, entretanto, reduz o valor atribuído à capacidade de geração de caixa e incorpora margens industriais mais baixas nos próximos trimestres.
O mercado deverá comparar essa visão com os números oficiais em 13 de agosto. Entre os principais indicadores estarão a receita por segmento, o lucro bruto industrial, a margem do esmagamento, o Ebitda ajustado com hedge e a dívida líquida.
Também será relevante verificar quanto a usina de etanol contribuiu desde o início das operações e qual foi o impacto do ramp-up sobre custos, estoques e capital de giro.
A TentosCap será outro ponto de atenção. A carteira de crédito da subsidiária alcançou R$ 510,8 milhões em março, crescimento de 94,9% em um ano. A expansão fortalece o relacionamento com os produtores, mas aumenta a exposição da companhia ao risco de crédito rural.
A forte queda das ações elevou o potencial teórico de valorização em relação aos preços-alvo dos bancos. Ao mesmo tempo, mostrou que os investidores exigirão resultados mais rápidos para voltar a atribuir à 3tentos os múltiplos observados no início do ano.
Até a divulgação do 2T26, a discussão sobre TTEN3 permanecerá concentrada em uma contradição: a companhia continua crescendo em volumes, capacidade e presença geográfica, mas precisa demonstrar que esse avanço será convertido em margens, caixa e retorno sobre o capital investido.










