O Citi reduziu nesta quarta-feira (29) o preço-alvo das ações do Magazine Luiza (MGLU3) de R$ 6,50 para R$ 6 e manteve a recomendação neutra, com classificação de alto risco, antes da divulgação do balanço do segundo trimestre de 2026. A revisão reflete uma combinação de juros mais altos, perda de vendas no comércio eletrônico e maior pressão competitiva sobre o marketplace, fatores que podem limitar os benefícios da recuperação observada nas lojas físicas.
A nova avaliação chega em um momento sensível para a varejista. O Citi espera que as vendas em mesmas lojas físicas cresçam aproximadamente 8% entre abril e junho, acelerando em relação ao primeiro trimestre, mas projeta novas quedas nos dois canais digitais do grupo.
As vendas online de produtos mantidos em estoque pelo próprio Magazine Luiza, conhecidas no setor como 1P, devem recuar 8% na comparação anual. No marketplace, que reúne mercadorias oferecidas por vendedores parceiros, a queda prevista é de 12%.
Com o desempenho desigual entre lojas físicas e canais digitais, o banco estima redução de 2% na receita do trimestre. A disciplina nas despesas deverá evitar uma deterioração mais intensa do resultado operacional, mas não será suficiente para impedir nova pressão sobre as margens.
O diagnóstico do Citi revela o principal problema enfrentado pelo Magazine Luiza em 2026: a companhia voltou a crescer no varejo físico, mas ainda não conseguiu reconstruir o ritmo de sua operação digital, justamente o negócio que sustentou sua valorização e sua expansão durante o ciclo anterior do comércio eletrônico brasileiro.
Lojas físicas avançam, mas recuperação perde força no digital
O Magazine Luiza passou por duas grandes transformações nas últimas décadas. A primeira foi a integração das lojas físicas com a operação digital. A segunda envolveu a criação de um ecossistema que incorporou marketplace, logística, publicidade, serviços financeiros e computação em nuvem.
Esse modelo tornou a companhia mais diversificada, mas também elevou a complexidade operacional. O desempenho do grupo deixou de depender apenas da venda de eletrodomésticos e eletrônicos e passou a refletir o equilíbrio entre mercadorias próprias, vendedores parceiros, crédito, frete e serviços tecnológicos.
No primeiro trimestre de 2026, as vendas totais do Magazine Luiza somaram R$ 15,2 bilhões, queda de 5,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. A operação física cresceu 6,9%, mas não conseguiu compensar a retração de 11% no comércio eletrônico.
As vendas digitais com estoque próprio recuaram 8,8%. No marketplace, a queda chegou a 14,3%, indicando perda de volume em uma área importante para a geração de receitas de serviços e para a diluição dos custos da plataforma.
O desempenho afetou o faturamento consolidado. A receita líquida ficou em R$ 9,2 bilhões, redução de 2% na comparação anual. A margem bruta, entretanto, avançou 0,2 ponto percentual, para 30,8%, apoiada pela rentabilidade da venda direta de mercadorias.
A melhora da margem mostra que o Magazine Luiza não está ampliando vendas físicas a qualquer preço. O grupo preservou a disciplina comercial e evitou uma escalada generalizada de descontos, mas essa defesa da rentabilidade ocorreu em meio à redução do volume consolidado.
Para o segundo trimestre, o Citi acredita que as lojas continuarão sendo a parte mais resistente do negócio. A Copa do Mundo também pode ter favorecido categorias como televisores, aparelhos de som e produtos relacionados ao entretenimento doméstico.
O impulso, contudo, não deve ser suficiente para alterar a trajetória do e-commerce. O banco projeta que os canais digitais permaneçam próximos do desempenho observado no primeiro trimestre, com retração tanto na venda própria quanto no marketplace.
Marketplace menor pressiona receitas de serviços
A contração do marketplace tem consequências que vão além da redução do volume bruto de vendas. Nesse modelo, o Magazine Luiza não precisa comprar e manter todos os produtos em estoque, mas recebe comissões e tarifas pela intermediação das transações, pelos serviços logísticos e pela exposição dos vendedores na plataforma.
Quando as vendas de parceiros caem, a companhia perde parte dessas receitas sem obter, necessariamente, uma redução equivalente nas despesas de tecnologia, marketing e manutenção da estrutura digital.
No primeiro trimestre, a receita de prestação de serviços caiu 5,2%, movimento associado pela companhia ao desempenho mais fraco do marketplace. A queda ajuda a explicar por que a recuperação da margem bruta de mercadorias não se converteu em crescimento do resultado consolidado.
A competição também mudou de escala. O comércio eletrônico brasileiro reúne plataformas nacionais e internacionais com elevada capacidade de investimento em frete subsidiado, publicidade, tecnologia e aquisição de consumidores.
Para recuperar participação, o Magazine Luiza precisa melhorar preço, prazo de entrega e experiência de compra sem comprometer a margem. Essa equação se torna mais difícil quando concorrentes utilizam promoções e subsídios para acelerar a expansão.
A própria estrutura multicanal, que durante anos foi uma vantagem competitiva, precisa demonstrar novamente sua capacidade de gerar sinergias. As lojas podem funcionar como pontos de retirada, distribuição e relacionamento com clientes, mas o custo dessa rede exige produtividade elevada.
A projeção do Citi indica que os benefícios da retomada física ainda não estão sendo transferidos integralmente para os canais digitais. A questão central para os investidores será verificar se o segundo trimestre representa estabilização do e-commerce ou apenas continuidade da perda de volume.
Corte de despesas protege Ebitda, mas não resolve queda da receita
O Citi espera que o controle das despesas operacionais compense grande parte da perda de alavancagem decorrente da redução das vendas. A estimativa é de contração de apenas 0,3 ponto percentual na margem Ebitda ajustada do segundo trimestre, mesmo com receita 2% menor.
O resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização é uma referência importante para medir a eficiência da operação. No caso do Magazine Luiza, porém, a preservação do Ebitda não garante melhora equivalente do lucro líquido.
No primeiro trimestre, o Ebitda ajustado alcançou R$ 717,6 milhões, queda de 5,4% sobre o mesmo período de 2025. A margem ficou em 7,8%, sustentada pelas medidas de controle de custos e pela rentabilidade das lojas.
O grupo, no entanto, encerrou o período com prejuízo líquido contábil de R$ 55,2 milhões, revertendo o lucro de R$ 12,8 milhões registrado um ano antes. Excluídos os efeitos não recorrentes, o prejuízo ajustado foi de R$ 33,9 milhões, ante resultado positivo de R$ 11,2 milhões no primeiro trimestre de 2025.
A diferença entre o desempenho operacional e o resultado final passa pela conta financeira. O resultado financeiro líquido ajustado ficou negativo em R$ 568,7 milhões, deterioração de 16,5% na comparação anual.
Isso significa que uma parcela significativa do Ebitda produzido pela operação foi consumida pelo custo da dívida, das antecipações de recebíveis e de outras obrigações financeiras. Enquanto os juros permanecerem elevados, pequenas variações no faturamento ou na margem podem provocar efeitos maiores sobre o lucro.
Selic mais alta reduz projeções para 2026 e 2027
Ao atualizar seu modelo, o Citi elevou suas premissas para a Selic em 2026 e 2027. Para este ano, a estimativa passou de 14,3% para 14,5%. Para o próximo, subiu de 13,3% para 13,8%.
A alteração parece pequena, mas tem impacto relevante para uma empresa de varejo. Juros elevados encarecem o capital de giro, aumentam as despesas financeiras e tornam o crédito ao consumidor menos acessível.
O efeito ocorre nos dois lados do balanço. A companhia paga mais para financiar sua estrutura, enquanto seus clientes enfrentam prestações maiores e podem adiar compras de bens duráveis.
Mesmo depois de iniciar um ciclo de redução, o Banco Central manteve a política monetária em patamar restritivo. A Selic foi reduzida para 14,25% ao ano em junho, após permanecer em 15% no início de 2026.
O próximo encontro do Comitê de Política Monetária está marcado para 4 e 5 de agosto. O Magazine Luiza divulgará o resultado do segundo trimestre no dia 6, depois do fechamento do mercado.
A proximidade das duas datas coloca os juros no centro da avaliação das ações. Uma sinalização mais favorável do Banco Central poderia aliviar as projeções de custo financeiro, mas seus efeitos sobre o balanço da varejista não seriam imediatos.
O Citi reduziu em 9% sua estimativa de lucro do Magazine Luiza para 2026 e em 16% a previsão para 2027. O corte mais intenso no próximo ano mostra que o banco não enxerga a pressão como um problema limitado ao segundo trimestre.
A nova premissa sugere um processo mais demorado de normalização das despesas financeiras e do consumo. Mesmo que a taxa básica continue caindo, a companhia ainda precisará atravessar vários trimestres com um custo de capital elevado.
Luizacred e novos negócios oferecem contrapesos
O Magazine Luiza tem buscado reduzir sua dependência do varejo tradicional por meio de serviços financeiros, logística, publicidade digital e infraestrutura tecnológica.
A Luizacred encerrou o primeiro trimestre com carteira de crédito de R$ 20,4 bilhões e 5,6 milhões de cartões ativos. A operação gerou lucro líquido de R$ 75,1 milhões, queda de 10,6% na comparação anual, mas continuou contribuindo positivamente para o resultado consolidado.
A MagaluPay, nova operação financeira do grupo, alcançou carteira de crédito de R$ 100 milhões e iniciou a emissão de certificados de depósito bancário. Segundo informações divulgadas pela companhia, os recursos captados em abril financiaram aproximadamente 80% dos crediários originados no período.
O movimento permite ao grupo construir uma fonte própria de financiamento para determinadas operações, reduzindo gradualmente a dependência de estruturas externas. A estratégia, entretanto, adiciona riscos típicos de uma instituição financeira, como inadimplência, liquidez e custo de captação.
Outras unidades também avançaram. A receita da Magalog cresceu 30% no trimestre, enquanto a Magalu Cloud chegou a 1,5 mil clientes. A Magalu Ads registrou melhora de 39% na conversão e crescimento de 43% no retorno dos investimentos em publicidade.
Esses negócios ampliam as fontes de receita e podem fortalecer o ecossistema, mas ainda não possuem escala suficiente para compensar integralmente a queda do comércio eletrônico principal.
Para o investidor, o desafio está em separar crescimento estratégico de complexidade excessiva. Quanto maior o número de unidades, mais difícil se torna avaliar quais operações geram caixa e quais ainda dependem de investimentos da estrutura central.
Divergência entre preços-alvo expõe incerteza sobre MGLU3
O corte do Citi ocorre pouco mais de dois meses depois de o Banco do Brasil Investimentos manter recomendação neutra para o Magazine Luiza, mas com preço-alvo de R$ 9,60 para o fim de 2026.
A diferença entre R$ 6 e R$ 9,60 não significa necessariamente que uma das instituições esteja correta e a outra errada. Os relatórios foram produzidos em momentos diferentes e utilizam premissas próprias para juros, crescimento, margens, risco e valor futuro dos negócios.
A distância entre os preços-alvo, contudo, expõe a dificuldade de avaliar a companhia. Poucas ações do varejo apresentam tamanha sensibilidade simultânea à Selic, à concorrência digital, ao crédito e às expectativas de recuperação econômica.
O Citi mantém classificação de alto risco, indicação de que suas projeções estão sujeitas a variações maiores do que as observadas em empresas com receitas e margens mais previsíveis.
O preço-alvo também não representa garantia de valorização. Trata-se do resultado de um modelo financeiro sujeito a mudanças conforme a empresa divulga novos números ou o ambiente econômico se altera.
As ações do Magazine Luiza acumulam perda próxima de metade do valor em 2026, refletindo a revisão das expectativas após o balanço do primeiro trimestre. A queda tornou a avaliação aparentemente mais baixa, mas não eliminou os riscos operacionais.
Para que o desconto se transforme em recuperação consistente, a companhia precisará mostrar crescimento físico sem sacrificar margem, estabilização do e-commerce e redução do peso das despesas financeiras.
Balanço do 2T26 testará capacidade de reação do Magalu
O segundo trimestre não deverá apresentar uma virada completa, segundo as estimativas do Citi. O banco espera uma combinação de vendas físicas melhores, canais digitais ainda pressionados e margem operacional relativamente preservada.
O ponto decisivo será a qualidade do resultado. Uma melhora baseada apenas no corte de despesas pode sustentar o Ebitda por algum tempo, mas não substitui a retomada das vendas e da participação de mercado.
Os investidores também deverão acompanhar a evolução do caixa, dos estoques, das antecipações de recebíveis e do custo efetivo da dívida. Em um cenário de juros altos, esses indicadores podem ser mais relevantes para as ações do que o crescimento isolado da receita.
A divulgação marcada para 6 de agosto mostrará se o avanço das lojas físicas ganhou força suficiente para compensar parte da retração digital. Também indicará se o marketplace começou a estabilizar depois da queda de 14,3% registrada no primeiro trimestre.
O corte do preço-alvo para R$ 6 antecipa uma leitura cautelosa: o Magazine Luiza preservou instrumentos para defender sua operação, mas continua submetido a uma combinação adversa de juros, competição e perda de volume online.
A recuperação das ações dependerá menos de promessas de transformação e mais da capacidade de converter o crescimento das lojas em receita consolidada, caixa e lucro. O balanço do segundo trimestre será o primeiro teste concreto dessa equação desde o forte recuo de MGLU3 em 2026.










