As restrições ao transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz aprofundaram a crise no mercado global de fertilizantes e elevaram os custos de matérias-primas essenciais à produção agrícola. O impacto atinge diretamente o Brasil, que importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados nas lavouras e concentra parte relevante das compras no segundo semestre, período de preparação para a safra 2026/27.
O principal ponto de pressão está no enxofre, insumo utilizado na fabricação de ácido sulfúrico e, posteriormente, de fertilizantes fosfatados. A redução dos embarques pelo Golfo Pérsico levou a matéria-prima a patamares recordes, próximos ou superiores a US$ 1,2 mil por tonelada em determinadas referências internacionais ao longo do ano.
A crise também afeta a ureia, a amônia, o fosfato monoamônico, conhecido como MAP, e o fosfato diamônico, o DAP. O Estreito de Ormuz é rota para 34% do comércio mundial de ureia, 23% do fluxo de amônia, 18% das exportações de MAP e DAP e 49% do comércio de enxofre.
A dimensão do choque vai além dos produtos que deixam diretamente os países do Golfo. Quando o enxofre e a amônia deixam de chegar a fábricas instaladas em outras regiões, unidades industriais reduzem sua produção, suspendem compras ou operam com margens insuficientes para justificar a manutenção da capacidade instalada.
Enxofre transforma crise logística em problema industrial
O enxofre não é aplicado nas lavouras apenas como nutriente isolado. Sua principal relevância econômica está na produção do ácido sulfúrico, necessário para transformar a rocha fosfática em formas solúveis de fósforo que possam ser absorvidas pelas plantas.
Sem oferta suficiente dessa matéria-prima, fábricas de fertilizantes fosfatados podem enfrentar dificuldades mesmo quando possuem acesso a minas de fosfato. A crise em Ormuz, portanto, interrompe uma etapa anterior à fabricação do produto acabado.
Essa característica explica por que a pressão sobre os fosfatados se espalhou rapidamente para países distantes do Oriente Médio. O mercado não depende apenas do transporte de MAP e DAP prontos, mas também do abastecimento de insumos utilizados por produtores localizados no Brasil, nos Estados Unidos, no Marrocos, na Índia e na China.
Segundo a International Fertilizer Association, aproximadamente 15 milhões de toneladas de enxofre passavam anualmente pela rota de Ormuz antes das interrupções. No caso da ureia, o fluxo se aproximava de 12 milhões de toneladas por ano.
Entre o fim de fevereiro e o encerramento de abril, somente quatro embarcações de enxofre conseguiram deixar o Golfo pelo estreito, transportando cerca de 200 mil toneladas. Ao fim daquele período, aproximadamente 400 mil toneladas permaneciam retidas em dez navios.
No mercado de ureia, 17 embarcações carregadas com cerca de 800 mil toneladas continuavam bloqueadas. Havia ainda 150 mil toneladas de fertilizantes fosfatados e 60 mil toneladas de amônia aguardando a retomada do trânsito marítimo.
Brasil recebeu 3 milhões de toneladas pela rota em 2025
A exposição brasileira aparece nos próprios dados do comércio internacional. Em 2025, o Brasil recebeu de fornecedores dependentes da rota de Ormuz aproximadamente 1,4 milhão de toneladas de ureia, 900 mil toneladas de enxofre e 700 mil toneladas de MAP.
Somados, esses três fluxos chegaram a cerca de 3 milhões de toneladas. O volume não representa toda a importação brasileira de fertilizantes, mas mostra a relevância do corredor para produtos fundamentais à agricultura nacional.
A ureia é a principal fonte de nitrogênio utilizada em diferentes culturas, incluindo milho, cana-de-açúcar, café, algodão e pastagens. O MAP, por sua vez, desempenha papel importante na adubação de base de soja, milho e outras culturas de grãos.
Já o enxofre importado abastece parte da indústria brasileira de fosfatados. Mesmo quando o produto final é fabricado no País, sua estrutura de custos continua exposta às cotações internacionais e à disponibilidade de matérias-primas estrangeiras.
O Brasil responde por aproximadamente 8% do consumo mundial de fertilizantes e ocupa a quarta posição entre os maiores mercados globais. A escala da agricultura nacional faz com que alterações relativamente pequenas nos preços internacionais tenham efeitos relevantes sobre o custo total da produção.
Além da dependência externa, há uma concentração temporal das compras. A demanda brasileira aumenta no segundo semestre, enquanto China, Índia e Estados Unidos possuem calendários diferentes. Essa sazonalidade pode oferecer poder de negociação em anos de oferta confortável, mas aumenta o risco quando a crise coincide com o período de formação de estoques.
Mosaic reduz produção diante do custo das matérias-primas
A deterioração do mercado já produziu efeitos concretos na indústria instalada no Brasil. A Mosaic informou que o aumento do preço do enxofre tornou parte de sua produção de fosfatados economicamente inviável.
A companhia havia iniciado, ainda em dezembro de 2025, a suspensão temporária da produção de superfosfato simples nas instalações da Fospar e de Araxá. Em janeiro, decidiu prolongar os cortes e suspender novas compras de enxofre no mercado brasileiro.
A pressão sobre a matéria-prima, portanto, começou antes do agravamento das interrupções em Ormuz. A crise no estreito reduziu ainda mais a oferta internacional e aprofundou um desequilíbrio que já estava em formação.
Em abril, a Mosaic anunciou a paralisação e desmobilização do complexo de mineração e processamento de Araxá, além da suspensão das atividades de mineração relacionadas à unidade de Patrocínio.
A medida deverá reduzir a produção anual de fosfatados da Mosaic Fertilizantes em aproximadamente 1 milhão de toneladas. A companhia também colocou os ativos de Araxá à venda e estimou uma redução futura de despesas operacionais e investimentos após a conclusão do processo.
No primeiro trimestre de 2026, a margem bruta da Mosaic Fertilizantes caiu de US$ 69 para US$ 22 por tonelada. O Ebitda ajustado do negócio brasileiro recuou de US$ 122 milhões para US$ 79 milhões.
A companhia atribuiu o desempenho a menores volumes, redução das margens de distribuição e aumento do custo do enxofre. No segmento global de fosfatados, os gastos adicionais com matérias-primas chegaram a US$ 280 milhões no trimestre.
Ureia sente impacto do gás e do transporte marítimo
Nos fertilizantes nitrogenados, o mecanismo de transmissão da crise é diferente. A ureia é produzida a partir da amônia, cuja fabricação depende intensamente do gás natural.
O gás funciona tanto como fonte de energia quanto como matéria-prima para obtenção do hidrogênio utilizado no processo industrial. Na produção de fertilizantes nitrogenados, ele representa normalmente entre 60% e 80% dos custos.
Ormuz também é uma rota central para o gás natural liquefeito. A interrupção dos fluxos afeta produtores diretamente instalados no Golfo e países asiáticos que dependem do gás importado para manter fábricas de amônia e ureia em operação.
O choque atingiu os preços internacionais com maior intensidade entre março e abril. A ureia chegou a superar US$ 850 por tonelada em algumas referências internacionais, uma valorização de aproximadamente 80% em relação a fevereiro.
Parte dessa alta foi posteriormente devolvida com a reorganização das rotas, a liberação de alguns embarques e a retração temporária dos compradores. O mercado, no entanto, continua sujeito a movimentos abruptos porque a circulação de navios não retornou ao padrão anterior à crise.
O Banco Mundial projeta avanço de quase 60% no preço médio da ureia em 2026. Para o conjunto dos fertilizantes, a previsão é de alta superior a 30%, seguida de possível alívio em 2027, condicionado à recuperação das exportações e à entrada de novas capacidades de produção.
Fosfatados caros reduzem apetite dos compradores
O aumento dos custos industriais elevou os preços dos fosfatados, mas também passou a restringir a demanda. Produtores rurais, distribuidores e misturadores adiaram parte das compras na expectativa de algum recuo das cotações.
Esse comportamento produz uma aparente contradição. A oferta está reduzida, mas os preços elevados limitam os negócios e impedem que fabricantes repassem integralmente o custo das matérias-primas.
A indústria pode vender o fertilizante acabado por um valor maior e, ainda assim, registrar margens menores. Isso ocorre quando o preço do enxofre, da amônia e de outros insumos avança mais rapidamente do que a cotação do MAP, do DAP ou do superfosfato.
A perda de rentabilidade leva algumas fábricas a reduzir as taxas de utilização, agravando a escassez. Ao mesmo tempo, o produtor rural evita fechar contratos em um mercado que considera excessivamente caro.
A Organização Mundial do Comércio identificou aumento expressivo das restrições comerciais adotadas por países exportadores desde o fechamento de Ormuz. Licenças, cotas e proibições poderiam afetar até 15% das exportações mundiais de fertilizantes.
Considerada a interrupção dos embarques do Golfo como uma restrição adicional, a parcela potencialmente afetada chegaria a 23,3% do comércio global. A estimativa representa um limite superior, porque parte das cargas continua sendo redirecionada.
Rotas alternativas não substituem capacidade de Ormuz
A Arábia Saudita passou a utilizar com maior intensidade portos fora do Golfo, incluindo terminais no Mar Vermelho. Outros exportadores buscaram corredores terrestres e embarques por instalações alternativas.
Essas soluções, contudo, possuem capacidade limitada e custos superiores. O transporte por terra adiciona despesas de manuseio, armazenagem e deslocamento, enquanto as rotas marítimas mais longas elevam o consumo de combustível e o preço dos seguros.
O risco no Mar Vermelho também dificulta a substituição. A cadeia global de fertilizantes passou a enfrentar simultaneamente problemas em Ormuz e nas rotas próximas ao estreito de Bab el-Mandeb.
A redução da oferta de navios disponíveis para determinadas rotas pressiona os fretes. Em mercados de produtos de baixo valor relativo por tonelada, como algumas matérias-primas para fertilizantes, o custo logístico pode determinar se uma operação permanece economicamente viável.
Para o comprador brasileiro, o preço final combina a cotação internacional do produto, o frete marítimo, o seguro, o dólar, os custos portuários e o transporte interno até as regiões produtoras.
Mesmo quando a cotação externa recua, outros componentes podem impedir uma queda equivalente nos preços pagos pelo agricultor.
Produtor brasileiro enfrenta decisão sobre dose e momento de compra
O impacto da crise será diferente conforme o nível de cobertura de cada produtor. Empresas agrícolas e cooperativas que compraram fertilizantes antecipadamente estão parcialmente protegidas contra a elevação imediata.
Produtores que ainda precisam adquirir grande parte dos insumos para a safra 2026/27 estão mais expostos. A situação é especialmente relevante para culturas intensivas em nitrogênio e fósforo.
Diante de uma relação de troca desfavorável, o agricultor pode adiar a compra, buscar fontes alternativas, reduzir a dose aplicada ou substituir parte do produto. Essas decisões dependem da análise do solo, da cultura, do potencial produtivo e da disponibilidade financeira.
A substituição entre nutrientes possui limites técnicos. Potássio, fósforo e nitrogênio cumprem funções diferentes, e a redução excessiva de um deles pode comprometer a produtividade.
O potássio está menos exposto diretamente à crise de Ormuz porque os principais fornecedores globais estão no Canadá, na Rússia e em Belarus. Ainda assim, pode sofrer efeitos indiretos caso agricultores alterem o orçamento destinado à adubação.
Um produtor que precisa gastar mais com ureia ou MAP pode reduzir compras de cloreto de potássio para manter o custo total sob controle. Dessa forma, o choque em um nutriente alcança outros segmentos do mercado.
Alta pode chegar aos alimentos com atraso
O encarecimento dos fertilizantes não se transforma automaticamente em inflação ao consumidor. O primeiro impacto costuma aparecer na margem do produtor rural.
Quando o preço recebido por soja, milho, algodão ou cana-de-açúcar não acompanha os custos, a rentabilidade diminui. O agricultor pode reagir reduzindo investimentos, adotando uma adubação mais conservadora ou alterando a combinação de culturas.
O repasse aos alimentos depende da duração da crise, do volume de estoques, do câmbio, das condições climáticas e da capacidade de o mercado absorver os novos custos.
Caso a redução da aplicação comprometa a produtividade, o efeito poderá surgir na forma de menor oferta e preços agrícolas mais elevados. Esse processo ocorre com atraso e pode atingir primeiro grãos e rações, antes de chegar a carnes, leite e outros alimentos.
O risco também alcança as exportações. Fertilizantes mais caros reduzem a competitividade da produção brasileira, especialmente quando concorrentes possuem maior produção doméstica de nutrientes ou acesso logístico mais curto.
Safra 2026/27 transforma Ormuz em teste para o agro brasileiro
A crise reforça a vulnerabilidade que levou o governo a criar o Plano Nacional de Fertilizantes. A estratégia prevê ampliar a produção nacional, desenvolver fontes alternativas de nutrientes, estimular pesquisa e diversificar fornecedores.
Os resultados, porém, são de longo prazo. Novas minas, fábricas de nitrogenados e plantas de fosfatados exigem investimentos elevados, licenciamento, infraestrutura e vários anos até o início da produção.
No horizonte imediato, o Brasil dependerá da disponibilidade internacional, da capacidade dos importadores de encontrar novas origens e da normalização das rotas marítimas.
A abertura parcial de corredores e a redistribuição dos embarques podem aliviar a escassez, mas não eliminam o prêmio de risco incorporado aos preços, aos fretes e aos seguros.
A preparação para a safra 2026/27 ocorre, assim, sob uma combinação desfavorável: demanda brasileira concentrada no segundo semestre, indústria internacional operando com restrições e incerteza geopolítica sobre uma rota que concentra quase metade do comércio global de enxofre.
O comportamento dos preços nas próximas semanas determinará se o choque será absorvido principalmente pelas margens dos produtores ou se avançará para as decisões de adubação, produtividade e oferta agrícola. Para o Brasil, a crise em Ormuz deixou de ser apenas uma questão distante de logística marítima e passou a integrar diretamente o custo da próxima safra.











