As taxas do Tesouro Direto voltaram a subir nesta quarta-feira, 29 de julho, devolvendo parte do recuo registrado após a divulgação de uma prévia da inflação abaixo das expectativas. O Tesouro IPCA+ 2032 passou a oferecer rendimento equivalente ao IPCA acrescido de 8,26% ao ano, enquanto os títulos prefixados chegaram a pagar até 14,77%, em uma sessão marcada pela cautela antes da decisão do Federal Reserve e da reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central.
Na comparação com o fechamento de terça-feira, o Tesouro Prefixado 2029 teve sua taxa elevada de 14,21% para 14,32% ao ano. O Tesouro Prefixado 2032 passou de 14,64% para 14,68%, enquanto o papel com juros semestrais e vencimento em 2037 avançou de 14,73% para 14,77%.
O movimento foi mais intenso entre os títulos vinculados à inflação. O Tesouro IPCA+ 2040 passou a pagar IPCA mais 7,77%, ante 7,66% no fechamento anterior. No vencimento de 2050, o juro real subiu de 7,40% para 7,50%.
A abertura das taxas representa uma reversão parcial do alívio observado na véspera, quando o IPCA-15 de julho avançou 0,06%, abaixo das projeções reunidas no mercado. Em 12 meses, a prévia da inflação desacelerou de 4,80% para 4,52%, reduzindo temporariamente os prêmios exigidos nos títulos públicos.
Tesouro IPCA+ 2032 oferece juro real de 8,26%
O principal destaque do Tesouro Direto nesta quarta-feira foi o título IPCA+ com vencimento em 2032. O papel oferecia uma taxa real de 8,26% ao ano, além da variação da inflação oficial durante o período.
O investimento mínimo estava em R$ 29,42, correspondente a uma pequena fração do título, cujo preço unitário era de R$ 2.942,71.
Na prática, quem comprar o papel e mantê-lo até 15 de agosto de 2032 terá o valor aplicado corrigido pelo IPCA e acrescido do juro real contratado, antes da incidência de tributos e taxas.
Se a inflação média ficar em 4% ao ano, por exemplo, o retorno nominal bruto ficará acima de 12%, embora o cálculo exato seja composto e não resulte apenas da soma direta das duas taxas.
A remuneração real superior a 8% chama atenção porque representa um retorno elevado acima da inflação para um título garantido pelo Tesouro Nacional. O patamar, porém, também reflete as incertezas incorporadas à curva de juros brasileira.
O mercado exige prêmios maiores quando há dúvidas sobre a trajetória da inflação, a situação fiscal, o ritmo dos cortes da Selic e o comportamento das taxas de juros internacionais.
Prefixados chegam a pagar 14,77% ao ano
Entre os títulos prefixados, o maior rendimento estava no Tesouro Prefixado com Juros Semestrais 2037, que oferecia 14,77% ao ano.
Esse papel realiza pagamentos de cupons a cada seis meses. Os recursos são depositados na conta do investidor ao longo da aplicação, em vez de ficarem integralmente acumulados até o vencimento.
Os pagamentos semestrais não representam rentabilidade adicional. Eles antecipam uma parcela do retorno e estão sujeitos ao Imposto de Renda no momento de cada crédito.
O Tesouro Prefixado 2032, que não paga cupons, oferecia 14,68% ao ano. O investimento mínimo era de R$ 4,77, enquanto o preço unitário estava em R$ 477,99.
No vencimento mais curto, o Tesouro Prefixado 2029 pagava 14,32% ao ano. O papel podia ser adquirido a partir de R$ 7,25 e tinha preço unitário de R$ 725,20.
Nos títulos prefixados, o investidor conhece no momento da compra a taxa nominal que será utilizada para calcular o valor recebido no vencimento. O ganho real, entretanto, dependerá da inflação acumulada durante o período.
Uma taxa de 14,32% pode representar remuneração real elevada se a inflação recuar, mas perde atratividade caso os preços acelerem de forma persistente.
Taxas do Tesouro Direto nesta quarta-feira
| Título | Rentabilidade | Investimento mínimo | Preço unitário |
|---|---|---|---|
| Tesouro Reserva 2036 | Selic | R$ 1,00 | R$ 10,80 |
| Tesouro Selic 2031 | Selic + 0,0742% | R$ 194,82 | R$ 19.482,73 |
| Tesouro Prefixado 2029 | 14,32% | R$ 7,25 | R$ 725,20 |
| Tesouro Prefixado 2032 | 14,68% | R$ 4,77 | R$ 477,99 |
| Prefixado com Juros Semestrais 2037 | 14,77% | R$ 7,71 | R$ 771,18 |
| Tesouro IPCA+ 2032 | IPCA + 8,26% | R$ 29,42 | R$ 2.942,71 |
| Tesouro IPCA+ 2040 | IPCA + 7,77% | R$ 16,67 | R$ 1.667,32 |
| Tesouro IPCA+ 2050 | IPCA + 7,50% | R$ 8,42 | R$ 842,15 |
As taxas e os preços podem mudar durante o horário de negociação, de acordo com as condições do mercado.
Inflação menor trouxe alívio apenas temporário
A queda das taxas na terça-feira ocorreu após a divulgação do IPCA-15 de julho, que mostrou uma inflação menor do que a esperada pelos agentes financeiros.
O índice avançou 0,06% no mês, depois de subir 0,41% em junho. No acumulado do ano, a alta chegou a 3,51%. Em 12 meses, o indicador desacelerou para 4,52%, ante 4,80% na leitura anterior.
A desaceleração favoreceu os títulos públicos porque reduziu a percepção de pressão imediata sobre os preços. Com inflação menor, o Banco Central pode encontrar mais espaço para continuar o ciclo de redução da Selic.
O efeito, entretanto, foi insuficiente para manter as taxas em queda nesta quarta-feira. O mercado voltou a incorporar cautela diante do cenário internacional e das próximas decisões de política monetária.
Além da inflação corrente, os investidores acompanham as expectativas para os próximos anos, os núcleos dos índices de preços, o comportamento dos serviços, o mercado de trabalho e os efeitos da política fiscal.
Uma leitura mensal favorável não elimina o risco de novas pressões provocadas pelo dólar, pelo petróleo, pelos alimentos ou pelos gastos públicos.
Fed pode mudar direção dos juros ainda nesta quarta
O Federal Reserve divulga nesta quarta-feira sua decisão de política monetária. O comunicado será publicado às 15h, no horário de Brasília, seguido pela entrevista coletiva do presidente da instituição.
Na reunião anterior, realizada em junho, o banco central americano manteve a taxa básica entre 3,50% e 3,75% ao ano.
O Fed reconheceu que a inflação permanecia acima da meta de 2%, em parte por causa de choques de oferta e do aumento dos custos de energia. A autoridade também destacou a incerteza provocada pelos conflitos no Oriente Médio.
A decisão americana afeta o Tesouro Direto porque altera a remuneração exigida pelos investidores para aplicar recursos em países emergentes.
Quando os títulos do Tesouro dos Estados Unidos pagam juros mais elevados, os investidores encontram menos incentivos para assumir riscos no Brasil. Para atrair capital, os ativos brasileiros precisam oferecer remunerações maiores.
Uma comunicação mais rígida do Fed pode fortalecer o dólar, pressionar os juros futuros brasileiros e elevar novamente as taxas dos títulos públicos.
Um sinal de que os juros americanos poderão cair, por outro lado, tende a reduzir a pressão sobre moedas emergentes e favorecer a valorização dos títulos já emitidos.
Copom decidirá Selic na próxima semana
No Brasil, a próxima reunião do Copom será realizada na terça e na quarta-feira da próxima semana, dias 4 e 5 de agosto.
A Selic está atualmente em 14,25% ao ano, após o Banco Central reduzir a taxa em 0,25 ponto percentual na reunião de junho.
O comitê justificou a decisão pela necessidade de continuar o processo de calibração da política monetária, sem abandonar a cautela diante da inflação ainda distante da meta e da elevada incerteza internacional.
A prévia da inflação de julho fortaleceu as expectativas de continuidade dos cortes, mas o mercado ainda discute a velocidade desse processo.
Uma nova redução de 0,25 ponto percentual levaria a Selic para 14% ao ano. Um corte maior indicaria maior confiança na desaceleração dos preços, enquanto a manutenção da taxa seria interpretada como uma postura mais conservadora.
O comunicado do Copom será tão importante quanto a decisão numérica. Os investidores buscarão sinais sobre a reunião de setembro e sobre o nível de juros considerado necessário para levar a inflação à meta.
A possibilidade de cortes mais rápidos tende a reduzir as taxas dos títulos prefixados e indexados ao IPCA, valorizando os papéis comprados anteriormente.
Uma indicação de interrupção ou desaceleração do ciclo pode produzir o movimento contrário.
Taxa maior significa preço menor no mercado
A relação entre taxa e preço é fundamental para compreender as oscilações do Tesouro Direto.
Quando as taxas oferecidas pelo mercado sobem, o preço dos títulos cai. Quando as taxas recuam, o preço aumenta.
Isso acontece porque um título comprado anteriormente precisa ser ajustado para competir com os novos papéis disponíveis.
Considere um investidor que comprou um prefixado pagando 13% ao ano. Se o Tesouro passar a oferecer um título semelhante com rendimento de 14%, ninguém aceitaria pagar o preço original pelo papel de 13%.
Para que os dois investimentos ofereçam retorno equivalente, o título antigo precisa ser negociado por um preço menor.
Essa atualização diária é chamada de marcação a mercado. Ela determina quanto o investidor receberia caso vendesse o título antes do vencimento.
Quem mantém a aplicação até a data final preserva a remuneração contratada no momento da compra, desde que não ocorram alterações nas condições do papel.
No resgate antecipado, porém, o Tesouro recompra o título pelo preço de mercado. O investidor pode obter lucro superior ao inicialmente previsto ou registrar perda.
Papéis longos apresentam maior volatilidade
O efeito da marcação a mercado é mais intenso nos títulos de prazo longo.
O Tesouro IPCA+ 2050, por exemplo, permanecerá exposto às taxas contratadas por quase 24 anos. Uma pequena mudança nas expectativas de juros produz impacto relevante sobre seu preço atual.
O título pode apresentar forte valorização se as taxas reais caírem nos próximos anos. Da mesma forma, pode acumular perdas temporárias expressivas caso o mercado passe a exigir remuneração ainda maior.
O Tesouro IPCA+ 2032 tem prazo mais curto e, por isso, tende a oscilar menos do que os vencimentos de 2040 e 2050.
A diferença não elimina a volatilidade. Mesmo títulos com seis anos até o vencimento podem apresentar variações relevantes em períodos de estresse econômico ou fiscal.
O prazo escolhido deve estar alinhado à data em que o investidor pretende utilizar o dinheiro. A compra de um papel longo para uma necessidade de curto prazo aumenta o risco de resgate em um momento desfavorável.
Tesouro Selic segue como opção de menor oscilação
Para investidores que priorizam liquidez e menor volatilidade, o Tesouro Selic mantém características mais adequadas do que os prefixados e os IPCA+ de prazo longo.
O Tesouro Selic 2031 oferecia a taxa básica acrescida de 0,0742% ao ano. A aplicação mínima era de R$ 194,82.
Como sua rentabilidade acompanha a Selic, o papel não exige que o investidor acerte antecipadamente a direção dos juros.
A marcação a mercado existe, mas costuma provocar oscilações menores. Por essa razão, o título é frequentemente utilizado para reservas de emergência e recursos que podem ser necessários antes do vencimento.
O Tesouro Reserva 2036, novo papel vinculado à Selic, podia ser adquirido a partir de R$ 1. O preço unitário estava próximo de R$ 10,80.
Nos títulos IPCA+ e prefixados, a maior remuneração potencial vem acompanhada de maior exposição às mudanças na curva de juros.
A comparação correta não envolve apenas a taxa mais alta. Liquidez, prazo, objetivo financeiro e tolerância a oscilações precisam ser considerados.
Taxas acima de 8% revelam prêmio elevado de risco
O retorno superior a 8% acima da inflação oferece uma oportunidade incomum para investidores dispostos a manter os títulos por vários anos.
Ao mesmo tempo, o patamar revela que o mercado continua exigindo um prêmio elevado para financiar a dívida pública brasileira.
As preocupações envolvem a dificuldade de levar a inflação de forma sustentável à meta, a trajetória das contas públicas e o impacto dos juros internacionais sobre o câmbio.
Caso esses riscos diminuam, as taxas poderão cair e os títulos comprados nos níveis atuais poderão se valorizar. Se as incertezas aumentarem, novos papéis poderão oferecer remunerações ainda maiores, reduzindo temporariamente o preço das aplicações existentes.
A decisão do Fed nesta quarta-feira será o primeiro teste. Na próxima semana, o Copom definirá se a Selic cairá novamente e qual será o espaço para novos cortes.
Até lá, os rendimentos elevados do Tesouro Direto continuarão refletindo duas faces do mesmo movimento: maior retorno para quem compra e maior volatilidade para quem pode precisar vender antes do vencimento.









