O ouro fechou em queda de 0,94% nesta terça-feira, 28 de julho, cotado a US$ 4.038,70 por onça-troy na Comex, em Nova York, em uma sessão marcada pela redução de posições defensivas e pela expectativa em torno da decisão de juros do Federal Reserve. O metal permaneceu acima da barreira de US$ 4 mil, mas voltou a se aproximar desse nível psicológico às vésperas do anúncio do banco central dos Estados Unidos.
O contrato com vencimento em agosto, o mais negociado, perdeu força mesmo com o recuo dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano. Em condições normais, juros de mercado mais baixos tendem a favorecer o ouro, já que reduzem o custo de oportunidade de manter um ativo que não oferece remuneração periódica.
Desta vez, porém, a prudência antes da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto, o Fomc, prevaleceu. Investidores reduziram exposição aos metais enquanto aguardam indicações sobre o comportamento dos juros nos próximos meses e a avaliação do Federal Reserve a respeito da inflação, do mercado de trabalho e dos efeitos econômicos da crise no Oriente Médio.
A prata acompanhou o movimento negativo e apresentou uma queda mais intensa. O contrato para setembro recuou 2,03%, para US$ 57,53 por onça-troy, refletindo tanto a cautela monetária quanto a maior sensibilidade do metal às expectativas sobre atividade industrial.
Decisão do Fed domina formação dos preços
A reunião do Fomc começou nesta terça-feira e será encerrada na quarta-feira, 29 de julho, com a divulgação da decisão às 15h, pelo horário de Brasília. Uma entrevista coletiva está prevista para meia hora depois do comunicado.
A faixa atual dos juros americanos está entre 3,50% e 3,75% ao ano. Esse intervalo foi mantido por unanimidade na reunião de junho, quando o Federal Reserve afirmou que a atividade econômica continuava em expansão e que a inflação permanecia acima da meta de 2%.
O cenário majoritário no mercado é de nova manutenção das taxas. A incerteza está concentrada na composição dos votos, na linguagem do comunicado e nas indicações sobre as reuniões seguintes, especialmente a de setembro.
Ainda que uma mudança imediata seja considerada menos provável, o mercado passou a atribuir maior relevância à possibilidade de novos ajustes para cima nos juros. A preocupação ganhou força com as oscilações dos preços de energia e com o risco de que choques de oferta voltem a alimentar a inflação americana.
Para o ouro, a direção da política monetária é particularmente importante. Juros elevados por mais tempo tornam títulos públicos e outros instrumentos de renda fixa mais atraentes, pressionando ativos que não pagam cupons ou dividendos.
Em sentido contrário, uma sinalização mais branda do Federal Reserve poderia reduzir os rendimentos dos Treasuries, enfraquecer o dólar e devolver apoio ao metal. A reação dependerá não apenas da decisão formal, mas também do diagnóstico apresentado pelo comitê.
Inflação mais fraca em junho não encerra debate sobre juros
O Fomc chega à reunião após uma leitura mais moderada da inflação ao consumidor. O índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos caiu 0,4% em junho, na comparação mensal, depois de subir 0,5% em maio.
Foi a maior retração mensal desde abril de 2020. Em 12 meses, porém, a inflação acumulada ainda alcançou 3,5%, permanecendo acima do objetivo de longo prazo do Federal Reserve.
A energia foi o principal fator por trás da queda do índice. Os preços do grupo recuaram 5,7% no mês, revertendo parcialmente altas expressivas observadas entre março e maio.
A leitura mais fraca abriu espaço para uma interpretação menos restritiva da política monetária. Ao mesmo tempo, o Federal Reserve continua atento à possibilidade de que a volatilidade da energia produza novos repasses para combustíveis, transporte, fretes e outros componentes da inflação.
No relatório de política monetária encaminhado ao Congresso em julho, o banco central afirmou que a inflação havia avançado ao longo de 2026 e continuava elevada em relação à meta de 2%. O documento atribuiu parte da pressão a choques de oferta, especialmente no setor energético.
O Livro Bege do Federal Reserve, divulgado neste mês, também mostrou que empresas em diferentes regiões enfrentavam aumentos nos custos de combustíveis, fretes e componentes. O levantamento indicou crescimento econômico de leve a moderado, acompanhado por maior sensibilidade dos consumidores aos preços.
Essa combinação dificulta a atuação do Fomc. A autoridade monetária precisa avaliar se a desaceleração de junho representa uma tendência consistente ou apenas uma reversão temporária depois das fortes altas anteriores da energia.
Petróleo mais barato reduz parte da procura defensiva por ouro
Além da política monetária, a queda recente do petróleo reduziu parte da busca por proteção nos mercados de commodities. O Brent voltou a operar próximo de US$ 80 por barril, depois de ter superado US$ 100 durante o auge das interrupções no Oriente Médio.
Os preços começaram a perder força após a recuperação parcial dos fluxos pelo Estreito de Ormuz. O movimento foi favorecido pelo memorando de entendimento firmado em 18 de junho entre Estados Unidos e Irã, que previa o encerramento do conflito e a reabertura da rota marítima.
A passagem é estratégica para o comércio internacional de petróleo e derivados. As restrições ao tráfego haviam provocado interrupções no abastecimento, fechamento temporário de campos produtores e forte aumento da volatilidade.
A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos elevou sua projeção para a oferta global depois da retomada do tráfego. O órgão passou a estimar uma aproximação dos fluxos comerciais e da produção aos níveis anteriores à crise até o fim de 2026.
O aumento da oferta reduziu o prêmio de risco incorporado aos preços. O Brent teve média de US$ 85 por barril em junho, US$ 22 abaixo do valor registrado em maio e US$ 32 inferior ao pico observado em abril.
A Agência Internacional de Energia também identificou uma forte recuperação da oferta global em junho, com avanço de 4,1 milhões de barris por dia, para 98,8 milhões de barris diários. Parte do movimento foi associada à retomada das exportações pelo Golfo.
O quadro, entretanto, permanece instável. Novos episódios de hostilidade mostraram que uma normalização permanente dependerá da manutenção dos acordos e da segurança das rotas de transporte.
Para o ouro, a redução da tensão geopolítica retira parte da demanda imediata por proteção. O metal costuma se beneficiar em períodos de conflito, instabilidade financeira ou deterioração das perspectivas econômicas.
Quando os riscos diminuem, investidores podem transferir recursos para ações, títulos e ativos com maior potencial de rendimento. Esse deslocamento ajuda a explicar por que a queda dos juros dos Treasuries não foi suficiente para sustentar o preço do ouro nesta terça-feira.
Ouro permanece acima de nível histórico
Apesar da queda diária, o ouro continua negociado em patamar historicamente elevado. A proximidade de US$ 4 mil por onça-troy mostra que o metal ainda incorpora um conjunto amplo de riscos econômicos, fiscais e geopolíticos.
A demanda por ouro é sustentada por diferentes grupos de investidores. Gestores utilizam o metal para diversificar carteiras, enquanto bancos centrais mantêm reservas como proteção diante de oscilações cambiais e mudanças na arquitetura financeira internacional.
O comportamento do dólar também exerce influência direta sobre a cotação. Como o ouro é negociado internacionalmente na moeda americana, uma valorização do dólar tende a tornar o metal mais caro para compradores de outros países.
O movimento inverso costuma favorecer as cotações. Por isso, as declarações do Federal Reserve serão analisadas também por seu potencial de alterar a trajetória cambial e os rendimentos reais dos títulos americanos.
Outro componente é a inflação esperada. Embora o ouro não ofereça garantia de valorização em todos os períodos inflacionários, ele é frequentemente utilizado como reserva de valor diante da perda de poder de compra das moedas.
A combinação de inflação acima da meta, dívida pública elevada, incerteza sobre os juros e tensões geopolíticas continua oferecendo suporte estrutural ao mercado. No curto prazo, entretanto, esses fatores competem com a realização de lucros e com a busca por ativos remunerados.
Prata recua mais e reflete preocupação com atividade industrial
A queda de 2,03% da prata superou a desvalorização do ouro. O comportamento mais volátil está relacionado à dupla função do metal, utilizado tanto como ativo financeiro quanto como insumo industrial.
A prata tem aplicações em painéis solares, equipamentos eletrônicos, veículos, componentes elétricos e diferentes processos de fabricação. Por esse motivo, suas cotações reagem com maior intensidade às perspectivas para a economia global.
Uma política monetária mais rígida pode reduzir o ritmo de investimentos e o consumo de bens industriais, afetando a demanda projetada. Ao mesmo tempo, estoques limitados e expansão de setores como energia solar podem restringir quedas mais profundas.
O nível de US$ 57,53 por onça ainda indica uma valorização acumulada expressiva em relação a períodos anteriores. A amplitude dos movimentos, contudo, exige maior cautela dos investidores, especialmente em sessões próximas a decisões de política monetária.
A relação entre ouro e prata também funciona como indicador do apetite por risco dentro do segmento de metais preciosos. Quando a prata cai mais rapidamente, o movimento pode apontar maior preocupação com a atividade industrial ou uma redução mais ampla de posições especulativas.
Comunicado do Fed definirá próximo movimento do ouro
A atenção do mercado agora se volta para o comunicado do Fomc e para a entrevista coletiva após a decisão. Investidores buscarão sinais sobre a disposição do banco central de manter os juros inalterados por um período prolongado ou voltar a elevar as taxas caso a inflação retome força.
O encontro de julho não será acompanhado por uma nova rodada de projeções econômicas dos integrantes do comitê. Isso aumenta a importância de cada alteração no texto oficial e das declarações dadas após a reunião.
A reunião anterior, realizada em junho, terminou com decisão unânime pela manutenção dos juros. Em abril, porém, houve divergências entre os participantes sobre o direcionamento da comunicação, ainda que a faixa de juros também tenha sido preservada.
Uma eventual divisão nesta semana poderá reforçar a percepção de que o debate interno se tornou mais complexo. Parte do comitê pode atribuir maior peso à desaceleração da inflação de junho, enquanto outra parcela tende a destacar os riscos relacionados à energia e às pressões de oferta.
Para o ouro, um discurso mais duro poderá intensificar a pressão sobre o nível de US$ 4 mil. Uma comunicação mais equilibrada ou a indicação de menor disposição para elevar os juros poderá favorecer uma recuperação.
Até a divulgação do comunicado, a tendência é de redução de posições e maior volatilidade. Com o metal novamente próximo de uma marca importante, a decisão do Federal Reserve deverá definir se o ouro encontrará sustentação acima de US$ 4 mil ou ampliará a correção observada nesta terça-feira.











