O Fundo Monetário Internacional elevou a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto do Brasil de 1,9% para 2,4% em 2026 e de 2% para 2,2% em 2027, além de classificar o sistema financeiro nacional como sólido, resiliente e com riscos sistêmicos contidos. A revisão consta da atualização do relatório Perspectiva Econômica Global e da declaração preliminar da equipe técnica do Artigo IV concluída em maio de 2026, associada à nova rodada do Programa de Avaliação do Setor Financeiro, que não era realizada de forma completa desde 2018.
Segundo o Fundo Monetário Internacional, o desempenho brasileiro em 2026 ficará ligeiramente acima do avanço de 2,3% registrado em 2025, que foi o mais fraco desde 2020, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Para o médio prazo, a instituição estima crescimento potencial de aproximadamente 2,5% ao ano, sustentado por arcabouços de política fortes, reservas adequadas, câmbio flexível e sistema financeiro bem capitalizado.
De acordo com o Ministério da Fazenda, a revisão positiva coloca o Brasil entre as economias do G20 com maior melhora nas projeções na comparação com abril, atrás apenas da China. Caso as novas estimativas se confirmem, a média de expansão entre 2023 e 2026 será de aproximadamente 2,8% ao ano, trajetória que o Fundo avalia como acima do esperado para o período pós-pandemia.
O fato novo combina dois diagnósticos que costumam caminhar separados. De um lado, a melhora do cenário de curto prazo para a atividade. De outro, a conclusão do Financial Sector Assessment Program, conhecido pela sigla FSAP, iniciativa conjunta do Fundo e do Banco Mundial que avalia resiliência, regulação, supervisão e capacidade de prevenção e gestão de crises. A última avaliação completa para o Brasil havia sido divulgada em 2018 e apontava capacidade de resistir a choques severos devido a níveis elevados de capital e liquidez.
FMI eleva PIB de 2026 para 2,4% e coloca Brasil entre maiores altas do G20
Conforme o relatório Perspectiva Econômica Global divulgado nesta semana, o Fundo Monetário Internacional agora vê expansão de 2,4% do Produto Interno Bruto brasileiro em 2026, acima dos 1,9% calculados em abril. Para 2027, a estimativa subiu 0,2 ponto percentual, para 2,2%, ainda assim abaixo do ritmo de 2026, indicando desaceleração gradual.
Segundo a agência Reuters, que detalhou o documento, a projeção para este ano é melhor do que a do Ministério da Fazenda, que previu em maio alta de 2,3%, e do que a do Banco Central, de 2,0%. Também é mais otimista do que a mediana do mercado captada pelo boletim Focus, de 1,99% para 2026 e de 1,69% para 2027.
O Fundo atribui a resiliência brasileira a fatores específicos. De acordo com a declaração preliminar da equipe liderada por Daniel Leigh, o país está relativamente protegido do aumento dos preços globais de petróleo decorrente da guerra no Oriente Médio por ser exportador líquido de óleo e ter alta participação de renováveis na matriz elétrica. O crescimento desacelerou em 2025 refletindo política monetária restritiva e menor suporte fiscal, o que ajudou a reduzir a inflação, mas indicadores de alta frequência apontam recuperação no início de 2026.
No primeiro trimestre de 2026, o Produto Interno Bruto brasileiro cresceu 1,1% ante os três meses imediatamente anteriores, segundo dados citados no relatório, no resultado trimestral mais forte em um ano. Para a América Latina e Caribe, o Fundo passou a ver expansão de 2,4% em 2026, alta de 0,1 ponto sobre abril, e de 2,7% em 2027, estável. Para economias emergentes e em desenvolvimento, a projeção ficou em 3,8% em 2026 e 4,5% em 2027.
Sistema financeiro é sólido, resiliente e com riscos contidos, diz avaliação do FSAP
A avaliação do sistema financeiro consta tanto da declaração do Artigo IV quanto do encerramento do Programa de Avaliação do Setor Financeiro. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o setor financeiro permanece resiliente, com bancos bem capitalizados e líquidos, conforme destacado no FSAP concorrente. A análise ressalta que o arcabouço institucional brasileiro, a infraestrutura robusta de mercados e a regulação baseada em risco têm sido fator importante para manter a estabilidade, embora existam áreas que podem ser fortalecidas.
De acordo com o Ministério da Fazenda, o FSAP atual se iniciou em junho de 2025 e envolveu cerca de 500 reuniões com órgãos do governo, setor produtivo e mercado financeiro. Os principais órgãos envolvidos foram o Banco Central do Brasil, o próprio ministério, a Comissão de Valores Mobiliários e a Superintendência de Seguros Privados. O secretário de Reformas Econômicas, Regis Dudena, afirmou durante a cerimônia de encerramento que o programa é ferramenta vital para avaliar resiliência, identificar áreas-chave para reformas e alinhar políticas às melhores práticas globais.
Conforme a nota preliminar do Fundo, é necessária vigilância contínua, em particular quanto a riscos de crédito das famílias. Entre as prioridades citadas estão reforçar a supervisão bancária e de mercados de capitais, endereçar carência de pessoal no Banco Central e fortalecer proteções legais aos supervisores. A avaliação de 2018 já apontava que supervisão de corretoras e grupos deveria ser aprimorada e que desafios transversais incluíam manter o ritmo frente à evolução do sistema diante de restrições orçamentárias e de recursos humanos.
Em documento anterior sobre o Brasil, a diretoria executiva do Fundo havia considerado o sistema financeiro resiliente, com riscos sistêmicos contidos e bancos altamente líquidos e adequadamente capitalizados, aplaudindo medidas para fortalecer supervisão de instituições não bancárias, enfrentar peso da dívida das famílias e diminuir custos de crédito.
Consumo das famílias cresce 3,3% e sustenta atividade no início de 2026
O Fundo registra avanços sociais nos últimos anos como elemento de sustentação econômica. Segundo a avaliação, o Brasil está entre as poucas grandes economias cujo PIB per capita se encontra acima da trajetória estimada antes da pandemia da Covid-19, com redução do desemprego, da pobreza e da desigualdade e aumento do emprego e da renda, o que elevou o consumo das famílias.
De acordo com o Monitor do PIB da Fundação Getulio Vargas, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Economia, o consumo das famílias cresceu 1,4% no primeiro trimestre de 2026 na série interanual, o maior desde o trimestre móvel findo em julho, com contribuição positiva de serviços e duráveis. No trimestre móvel findo em maio, o avanço foi de 3,3%, atingindo o maior patamar desde o quarto trimestre de 2024, com todos os tipos de consumo em alta.
Segundo o IBGE, o consumo das famílias havia desacelerado em 2025 frente a 2024, mas seguiu como motor relevante. Em 2025, a agropecuária cresceu 11,7%, com recordes de milho e soja, serviços avançaram 1,8% e indústria 1,4%. O PIB em valores correntes alcançou 12,7 trilhões de reais e o PIB per capita chegou a 59.687,49 reais, com alta real de 1,9%.
Para o Fundo, o mercado de trabalho robusto ajuda a manter resiliência, mesmo com taxa básica de juros em 15% ao ano, patamar mantido pelo Banco Central para conter inflação próxima ao teto da meta. A instituição avalia que a flexibilização monetária recente foi apropriada e que manter flexibilidade quanto ao ritmo e momento de próximos passos é recomendável diante de incerteza elevada, com compromisso claro com a meta de 3% para ancorar expectativas e convergência esperada para meados de 2028.
Política fiscal é vista como positiva, mas dívida ainda exige reformas estruturais
Na dimensão fiscal, o diagnóstico do Fundo é duplo. De um lado, reconoce que as autoridades tomaram medidas para melhorar a posição fiscal e considera positiva a contribuição para estabilizar a dívida pública. De outro, ressalta que reformas fiscais significativas são necessárias para colocar a dívida em trajetória firme de queda.
Conforme a declaração preliminar, seria recomendável poupar receitas extraordinárias relacionadas a petróleo, oferecer suporte direcionado e temporário quando necessário e implementar esforço fiscal mais ambicioso, apoiado por reformas que enfrentem rigidezes de gastos e reduzam gastos tributários. A avaliação é que maior credibilidade fiscal reduziria custos de captação e abriria espaço para investimentos prioritários.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou após a divulgação que a principal mensagem apresentada ao Fundo foi a articulação de três eixos, questão fiscal, justiça social e transformação ecológica. Segundo o secretário de Assuntos Internacionais da Fazenda, Mathias Alencastro, a declaração preliminar coloca o Brasil em posição privilegiada ao apontar capacidade de manutenção de crescimento sustentado em cenário de incertezas, o que seria benéfico em termos de investimentos.
O Fundo também ressalta que reservas internacionais adequadas, baixa dependência de dívida em moeda estrangeira, colchão de liquidez do governo e câmbio flexível devem ajudar o país a absorver choques, inclusive o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial, e a alta de preços de combustível.
Desigualdade e acesso a serviços seguem como pontos de atenção
Apesar do quadro positivo, o Fundo nota desigualdades ainda persistentes na distribuição de renda e no acesso à educação e aos serviços públicos, métricas consideradas importantes para ganhos duradouros de bem-estar. A análise indica que, embora o consumo tenha se beneficiado de programas de transferência e de melhora do emprego, a produtividade permanece como desafio central.
Entre as políticas estruturais destacadas estão a continuidade da implementação da reforma tributária, que combinada com medidas para melhorar ambiente de negócios pode contribuir para aumentar produtividade e investimentos, além de esforços para fomentar concorrência, ampliar participação da força de trabalho e avançar em políticas de descarbonização.
O Plano de Transformação Ecológica e a Nova Indústria Brasil, destinada a fortalecer setores industriais estratégicos, ampliar capacidade tecnológica e estimular investimentos em áreas críticas, são citados como agendas que apoiam perspectivas de médio prazo. De acordo com o governo, o Brasil construiu novas parcerias comerciais que aumentarão resiliência.
Reforma tributária e Nova Indústria Brasil de R$ 750 bilhões no centro da agenda
A Nova Indústria Brasil é apresentada pelo governo como principal política industrial dos últimos anos. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, com base no Radar da Indústria, o Plano Mais Produção, principal instrumento financeiro da política, mobilizará mais de 700 bilhões de reais em crédito em quatro anos. Desse total, 653,2 bilhões de reais já foram aprovados nos dois primeiros anos, destinados a 428 mil projetos alinhados às seis missões da política industrial.
Conforme o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, um novo pacote de 140 bilhões de reais anunciado em junho de 2026, com 102,5 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e 38,5 bilhões da Financiadora de Estudos e Projetos e da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, fará a Nova Indústria Brasil ultrapassar 750 bilhões de reais mobilizados entre 2023 e 2026. Do total do Plano Mais Produção, 300 bilhões de reais do BNDES já foram integralmente aprovados e o banco anunciou mais 70 bilhões até o final do ano.
De acordo com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, 61% do contratado foi destinado às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com predominância do setor privado em quatro das seis missões. A plataforma Investe Indústria Brasil foi lançada para mapear oportunidades e gargalos.
Para o Fundo, a agenda de inovação financeira das autoridades, que vem promovendo inclusão, eficiência e concorrência, é avaliada positivamente, assim como avanços na estrutura para mercado de carbono e atração de financiamento verde de longo prazo. O Fundo espera que essas iniciativas facilitem transição para economia de baixo carbono e estimulem investimento em projetos sustentáveis, além de ganhos potenciais com integração comercial e fortalecimento de estruturas de combate à corrupção, lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo.
O próximo passo formal será a publicação do relatório completo do Artigo IV e dos documentos do FSAP, que consolidarão recomendações detalhadas sobre supervisão, resolução bancária, redes de segurança financeira e gestão de crises. Até lá, o governo deve detalhar calendário de regulamentação da reforma tributária e execução das linhas da Nova Indústria Brasil, fatores que o Fundo considera decisivos para transformar a melhora conjuntural em crescimento potencial mais elevado de forma duradoura.









