A Alphabet (GOOGL), controladora do Google, acumulou alta de cerca de 160% em 12 meses e chegou a ultrapassar brevemente a Nvidia (NVDA) em valor de mercado no after-market desta semana, em um movimento que consolidou a mudança de percepção de Wall Street sobre a companhia na corrida da inteligência artificial. Antes vista como vulnerável à ascensão dos chatbots e ao risco de perda de espaço em buscas online, a empresa passou a ser tratada por parte dos investidores como uma das plataformas mais completas para capturar a expansão da IA, por reunir modelos próprios, infraestrutura de nuvem, chips personalizados e distribuição global.
O rali das ações ocorre em meio ao avanço do Google Cloud, à expansão do Gemini, ao fortalecimento da DeepMind e à demanda crescente por capacidade computacional para treinar e operar modelos de inteligência artificial. A companhia encerrou a semana avaliada em cerca de US$ 4,8 trilhões, atrás apenas da Nvidia (NVDA), avaliada em aproximadamente US$ 5,2 trilhões, segundo dados citados pelo mercado.
O movimento também ganhou força após a divulgação de que a Anthropic teria se comprometido a gastar cerca de US$ 200 bilhões com serviços de nuvem e chips do Google ao longo de cinco anos. O acordo, reportado originalmente pelo The Information e repercutido por agências internacionais, inclui capacidade computacional de 5 gigawatts e reforçou a leitura de que o Google Cloud pode se tornar uma das principais fontes de crescimento da Alphabet (GOOGL) nos próximos anos.
Wall Street muda leitura sobre a Alphabet
A virada na percepção do mercado é significativa. Nos primeiros meses do boom da inteligência artificial generativa, a Alphabet (GOOGL) foi tratada por muitos investidores como uma empresa ameaçada. A tese era simples: se ferramentas de IA passassem a responder perguntas diretamente, o modelo tradicional de buscas do Google poderia perder tráfego, relevância e receita publicitária.
Essa avaliação perdeu força à medida que a companhia demonstrou capacidade de competir em diferentes frentes. O Google incorporou recursos de IA à busca, ampliou o uso do Gemini em produtos próprios, reforçou a DeepMind como núcleo de pesquisa e acelerou investimentos em infraestrutura. Ao mesmo tempo, o Google Cloud passou a ser visto como plataforma estratégica para empresas que precisam de grande volume de computação.
Gene Munster, sócio-gerente da Deepwater Asset Management, afirmou que o Google está entre as companhias mais bem posicionadas em IA porque controla grande parte da cadeia. O argumento considera chips, modelos, infraestrutura e distribuição. Para investidores, essa combinação reduz a dependência de terceiros e amplia as possibilidades de monetização.
A Alphabet (GOOGL) também preserva um diferencial relevante: alta lucratividade. Enquanto várias empresas de IA ainda queimam caixa para crescer, a dona do Google financia investimentos bilionários com receitas robustas de publicidade, YouTube, Android, nuvem e serviços corporativos.
Google Cloud vira peça central da tese de crescimento
O Google Cloud passou a ocupar papel mais importante na avaliação da Alphabet (GOOGL). Após o balanço divulgado na semana passada, analistas do JPMorgan classificaram as ações da companhia como uma das principais escolhas no setor de tecnologia, destacando aceleração do crescimento e carteira de contratos em nuvem próxima de US$ 462 bilhões.
A Mizuho também elevou o preço-alvo das ações e afirmou que as estimativas do mercado ainda podem subestimar a receita e o lucro operacional do Google Cloud nos próximos dois anos. A leitura é que a demanda por infraestrutura de IA pode sustentar crescimento acima do esperado, sobretudo se grandes clientes continuarem contratando capacidade de processamento em larga escala.
O acordo com a Anthropic reforçou essa percepção. A startup, dona do Claude, é uma das principais concorrentes no mercado de modelos de IA generativa e exige volume elevado de computação. O compromisso de US$ 200 bilhões ao longo de cinco anos, se confirmado nos termos reportados, transformaria a empresa em um dos maiores clientes do Google Cloud.
Para a Alphabet (GOOGL), isso abre uma fonte adicional de receita recorrente. Em vez de depender apenas da publicidade digital, a companhia passa a capturar parte relevante da expansão da infraestrutura necessária para a próxima fase da inteligência artificial.
Contrato com Anthropic também levanta dúvidas
Apesar do otimismo, o acordo com a Anthropic também gerou questionamentos. O principal ponto de atenção é a concentração de receita futura em poucos clientes de IA, especialmente empresas que ainda dependem de grandes rodadas de capital para financiar sua expansão.
Caso o compromisso de US$ 200 bilhões da Anthropic seja comparado à carteira de contratos em nuvem divulgada pela Alphabet (GOOGL), o acordo poderia representar mais de 40% da receita contratada futura do Google Cloud. Essa proporção chamou atenção de analistas que veem risco de dependência excessiva de um único cliente.
Gil Luria, analista da D.A. Davidson, comparou o caso ao episódio recente da Oracle (ORCL). A companhia teve forte valorização após divulgar crescimento expressivo em sua carteira de pedidos, mas depois enfrentou pressão quando investidores perceberam que parte relevante desse avanço estava ligada à OpenAI.
Para Luria, a Alphabet (GOOGL) precisa oferecer mais transparência sobre a composição de sua carteira de contratos. A preocupação é que o mercado esteja atribuindo valor elevado a receitas futuras sem saber exatamente quanto depende de poucos clientes e de relações cruzadas entre investimento, infraestrutura e consumo de nuvem.
Risco de concentração envolve grandes nuvens
A discussão não se limita ao Google. Microsoft (MSFT), Oracle (ORCL), Amazon (AMZN) e Alphabet (GOOGL) disputam contratos bilionários com empresas de inteligência artificial, em uma corrida por capacidade computacional que exige data centers, chips, energia, redes e capital intensivo.
Segundo analistas, essas companhias somam quase US$ 2 trilhões em carteiras de contratos de nuvem. Parte relevante desse volume estaria relacionada a compromissos assumidos por OpenAI e Anthropic, duas empresas que consomem grande quantidade de computação e também recebem investimentos de grandes grupos de tecnologia.
Esse arranjo cria uma relação complexa. De um lado, grandes nuvens financiam ou apoiam startups de IA. De outro, essas mesmas startups usam os recursos captados para comprar infraestrutura das próprias financiadoras. A dinâmica pode acelerar crescimento, mas também aumenta dúvidas sobre a qualidade orgânica da demanda.
Munster, da Deepwater, vê o risco de forma diferente. Para ele, mesmo que uma empresa específica enfrente dificuldades, a necessidade estrutural por computação seguirá crescendo. A tese é que, se um cliente perder força, outros poderão ocupar espaço ao longo do tempo, desde que a demanda por IA continue se expandindo.
Chips próprios fortalecem posição contra a Nvidia
Um dos pontos mais relevantes da tese favorável à Alphabet (GOOGL) está nos chips próprios. Os TPUs, semicondutores desenvolvidos pelo Google para cargas de trabalho de inteligência artificial, ganharam importância à medida que empresas buscam alternativas aos processadores da Nvidia (NVDA).
A Nvidia (NVDA) segue dominante no mercado de aceleradores de IA, mas a demanda global por computação é tão elevada que clientes e provedores de nuvem procuram diversificar fornecedores. Nesse contexto, os TPUs do Google se tornam um ativo estratégico.
A Mizuho estima que parte relevante da carteira de contratos em nuvem do Google até 2027 pode vir da venda ou disponibilização de capacidade baseada em TPUs. Essa leitura reforça a ideia de que a Alphabet (GOOGL) não é apenas cliente da cadeia de IA, mas também fornecedora de infraestrutura crítica.
A vantagem é dupla. Ao usar chips próprios, o Google pode reduzir dependência de terceiros e otimizar custos internos. Ao oferecer esses chips a clientes de nuvem, cria uma nova frente de monetização em um mercado que tem atraído forte interesse de investidores.
Busca, YouTube e Android ampliam distribuição da IA
Além da infraestrutura, a Alphabet (GOOGL) conta com uma base de distribuição difícil de replicar. A companhia controla produtos usados por bilhões de pessoas, como busca, YouTube, Gmail, Maps, Android e Chrome.
Essa escala permite incorporar recursos de inteligência artificial diretamente em serviços já consolidados. Para investidores, esse ponto diferencia o Google de empresas que precisam construir distribuição do zero ou depender de parcerias para chegar ao usuário final.
O desafio é transformar essa vantagem em receita incremental sem comprometer o modelo atual de publicidade. A busca continua sendo uma das maiores máquinas de geração de caixa do mundo, e qualquer mudança estrutural na forma como usuários recebem respostas precisa ser calibrada para preservar monetização.
A companhia tenta resolver esse equilíbrio com recursos de IA integrados aos resultados, ferramentas para anunciantes, agentes digitais e funcionalidades em produtos corporativos. A capacidade de executar essa transição será decisiva para sustentar a valorização das ações.
Investimentos de capital aumentam pressão por retorno
A euforia do mercado também traz riscos. A Alphabet (GOOGL) projeta investimentos de capital de até US$ 190 bilhões neste ano, mais do que o dobro dos gastos realizados em 2025, segundo dados citados por analistas. O volume reflete a necessidade de construir data centers, comprar equipamentos, ampliar capacidade energética e sustentar a infraestrutura de IA.
Esse nível de investimento aumenta a pressão por retorno. Se a demanda por IA continuar crescendo em ritmo acelerado, os gastos podem se converter em vantagem competitiva. Se a monetização demorar ou se parte dos contratos não se materializar como esperado, o mercado pode revisar expectativas.
Analistas da Argus afirmaram que os riscos ligados aos gastos de capital da Alphabet são relevantes, embora mantenham visão positiva sobre as ações. A leitura é que a companhia tem balanço e geração de caixa suficientes para sustentar o ciclo de investimentos, diferentemente de empresas menores que dependem de captação constante.
Esse é um dos pontos que explicam a valorização da Alphabet (GOOGL). O mercado passou a enxergar a empresa como uma das poucas capazes de investir em escala extrema sem comprometer sua estabilidade financeira.
Google I/O ganha peso para investidores
A próxima conferência Google I/O ganhou importância adicional. O evento será acompanhado não apenas por desenvolvedores, mas também por investidores interessados em entender como a Alphabet (GOOGL) pretende transformar avanços em inteligência artificial em receitas sustentáveis.
O mercado espera sinais mais claros sobre agentes de IA, evolução do Gemini, integração com busca, produtividade corporativa, Android, YouTube e Google Cloud. A companhia também terá de mostrar como pretende competir com Microsoft (MSFT), Amazon (AMZN), Meta (META), OpenAI, Anthropic e outras empresas que disputam usuários, infraestrutura e talentos.
A pressão é maior porque a narrativa mudou rapidamente. A Alphabet (GOOGL) deixou de ser vista como retardatária em IA e passou a ser precificada como uma das vencedoras em infraestrutura e distribuição. Quando uma ação sobe 160% em um ano, a margem para frustração diminui.
Munster avalia que o principal risco agora é que boa parte da melhora de percepção já esteja refletida no preço. A comparação com a Nvidia (NVDA) é inevitável: mesmo com crescimento forte, a fabricante de chips passou a enfrentar um mercado mais exigente, que já antecipou parte relevante dos ganhos futuros.
Rali coloca Alphabet sob nova régua de cobrança
O avanço das ações da Alphabet (GOOGL) mostra como a inteligência artificial redesenhou a hierarquia das grandes empresas de tecnologia. A dona do Google, antes pressionada pelo receio de disrupção em buscas, agora disputa o posto de empresa mais valiosa do mundo com a Nvidia (NVDA), símbolo maior da corrida por chips de IA.
A mudança de narrativa, porém, vem acompanhada de uma cobrança mais dura. O mercado quer crescimento no Google Cloud, avanço dos TPUs, monetização do Gemini, manutenção da força em publicidade e retorno sobre investimentos bilionários em data centers.
A companhia tem ativos raros: escala global, caixa, produtos dominantes, modelos próprios, infraestrutura, chips e uma base de usuários incomparável. Ainda assim, precisará provar que esses ativos podem gerar crescimento suficiente para justificar a valorização recente.
O rali de 160% transformou a Alphabet (GOOGL) em uma das protagonistas centrais da inteligência artificial. A partir de agora, o desafio não será apenas convencer Wall Street de que o Google está bem-posicionado. Será entregar resultados compatíveis com a nova expectativa embutida no preço das ações.








