As ações da Azzas 2154 (AZZA3) registravam forte alta nesta sexta-feira, 22 de maio de 2026, depois que o mercado passou a avaliar a possibilidade de uma separação societária entre os grupos liderados por Alexandre Birman e Roberto Jatahy, principais acionistas da companhia formada pela fusão entre Arezzo&Co e Grupo Soma.
Por volta das 11h15, os papéis subiam 5,71%, negociados a R$ 21,09, e figuravam entre os destaques positivos do Ibovespa. A reação refletia a percepção de parte dos investidores de que uma eventual divisão poderia reduzir o conflito entre os acionistas e permitir uma avaliação individual dos diferentes negócios reunidos na companhia.
A operação, entretanto, não havia sido confirmada oficialmente pela Azzas 2154 até aquele momento. O desenho discutido no mercado envolvia a possÃvel criação de empresas separadas, mas ainda havia dúvidas sobre quais ativos ficariam em cada estrutura, como seriam divididas as dÃvidas e quais aprovações seriam necessárias.
O JPMorgan avaliou que uma cisão poderia destravar valor, especialmente ao separar marcas com estratégias, públicos e perspectivas de crescimento diferentes. O banco, porém, alertou que as informações reforçavam as preocupações com a governança corporativa da Azzas 2154.
Os analistas mantiveram recomendação neutra para as ações. A avaliação era de que o potencial de valorização dependeria da estrutura definitiva da operação, de sua complexidade jurÃdica e tributária e da capacidade dos acionistas de alcançar um acordo que preservasse valor para os minoritários.
Estrutura poderia separar marcas e grupos de acionistas
O modelo que circulava no mercado previa uma reorganização capaz de separar os ativos atualmente reunidos na Azzas 2154.
Uma das estruturas concentraria negócios associados à Arezzo, à Hering, à Reserva e a outras marcas que ficariam sob a liderança de Alexandre Birman. Roberto Jatahy permaneceria à frente de parte das operações de moda feminina que já estavam vinculadas à sua gestão.
A Farm aparecia como um dos pontos mais sensÃveis da discussão. A marca poderia integrar a estrutura liderada por Birman ou ser preparada para uma eventual listagem independente no exterior.
Não havia, contudo, definição pública sobre o número de companhias que seriam criadas nem sobre a distribuição exata das marcas. Também não estavam esclarecidos os critérios para divisão de ativos, passivos, equipes e contratos.
Uma reorganização dessa dimensão exigiria avaliações financeiras independentes, deliberações societárias e comunicação formal aos acionistas. Dependendo do formato, a operação também poderia precisar de autorizações regulatórias e aprovação em assembleia.
A ausência de detalhes tornava prematura qualquer estimativa sobre o valor que poderia ser gerado para os investidores. A alta das ações mostrava uma reação inicial à possibilidade de solução do conflito, mas não representava uma confirmação de que a cisão ocorreria.
Mercado vê possibilidade de redução do conflito
A Azzas 2154 foi criada em 2024, com a conclusão da fusão entre Arezzo&Co e Grupo Soma. A combinação reuniu algumas das principais marcas brasileiras de calçados e vestuário em uma única companhia aberta.
A operação foi apresentada ao mercado como uma oportunidade de criação de escala, integração de canais de vendas e aproveitamento de sinergias administrativas, comerciais e logÃsticas.
O grupo passou a operar marcas com posicionamentos distintos, abrangendo calçados, moda feminina, vestuário básico, roupas casuais e produtos de maior valor agregado.
A integração, porém, também reuniu estruturas empresariais, culturas corporativas e modelos de gestão diferentes. Com o avanço das divergências entre Birman e Jatahy, investidores passaram a questionar a capacidade de execução da estratégia originalmente anunciada.
Uma separação poderia permitir que cada grupo retomasse maior autonomia sobre seus respectivos ativos. Essa possibilidade foi interpretada por parte do mercado como uma forma de reduzir disputas e acelerar decisões operacionais.
A reação positiva das ações refletia essa leitura. Ainda assim, a divisão também poderia eliminar sinergias esperadas com a fusão e criar novos custos administrativos para as empresas resultantes.
JPMorgan mantém recomendação neutra
O JPMorgan considerou que a eventual cisão poderia representar uma solução mais organizada para o desalinhamento entre os principais acionistas.
Segundo a análise do banco, a separação permitiria que os investidores avaliassem individualmente negócios com caracterÃsticas distintas. Marcas de crescimento mais acelerado poderiam receber múltiplos diferentes daqueles aplicados à s operações mais maduras.
Apesar desse potencial, o banco destacou que ainda havia pouca visibilidade sobre a execução. Não estavam claros o prazo necessário, o custo da operação, a distribuição das dÃvidas nem os efeitos tributários da reorganização.
O JPMorgan também apontou que o conflito societário já havia avançado para diferentes frentes, incluindo disputas judiciais, procedimentos arbitrais e contratação de instituições financeiras para avaliar alternativas estratégicas.
A Comissão de Valores Mobiliários também acompanhava questões relacionadas às obrigações de divulgação da companhia. O foco estava na necessidade de garantir que informações relevantes sobre o conflito e eventuais negociações fossem comunicadas adequadamente aos investidores.
Esse conjunto de fatores levou o banco a manter cautela. Embora reconhecesse a possibilidade de destravamento de valor, o JPMorgan avaliava que os efeitos de curto prazo permaneciam incertos.
A recomendação neutra indicava que o potencial de valorização ainda precisava ser comparado aos riscos de governança, execução e deterioração dos resultados operacionais.
Farm aparece como ativo central na discussão
A Farm era apontada como um dos ativos com maior possibilidade de valorização em uma eventual separação.
A marca construiu presença no mercado brasileiro e vinha ampliando sua atuação internacional. Essa expansão sustentava a percepção de que o negócio poderia alcançar avaliação superior caso fosse analisado separadamente das demais operações da Azzas 2154.
Uma listagem no exterior permitiria apresentar a Farm a uma base diferente de investidores e poderia aproximar sua avaliação daquela atribuÃda a empresas internacionais de moda e consumo.
O resultado, no entanto, dependeria da capacidade da marca de manter crescimento fora do Brasil, ampliar margens e sustentar investimentos em distribuição, lojas e comunicação.
Também seria necessário definir se a Farm ficaria diretamente vinculada a uma das companhias resultantes da cisão ou se seria transformada em uma empresa independente.
A distribuição da participação entre os atuais acionistas, a estrutura de capital e a separação dos contratos compartilhados seriam elementos decisivos para determinar o valor da operação.
A internacionalização, embora represente uma oportunidade, também expõe a marca a riscos cambiais, concorrência global e custos de expansão. Por isso, uma eventual listagem não garantiria automaticamente uma avaliação superior.
Disputa colocou integração sob pressão
Os sinais de conflito entre Alexandre Birman e Roberto Jatahy ganharam força a partir de março de 2025, quando a possibilidade de um rompimento entre os dois grupos passou a circular no mercado.
As divergências envolviam questões relacionadas à gestão, à autonomia das marcas e à direção estratégica da companhia.
A integração prometida na fusão dependia da coordenação entre diferentes equipes e da definição de uma estrutura de comando capaz de preservar a identidade de cada negócio.
No varejo de moda, essa tarefa possui dificuldades especÃficas. As marcas atendem públicos diferentes, utilizam redes próprias de fornecedores e dependem de estratégias particulares de comunicação e expansão.
Uma integração excessiva pode reduzir custos, mas também pode enfraquecer caracterÃsticas que diferenciam cada marca. Por outro lado, a manutenção de estruturas completamente independentes limita as sinergias financeiras esperadas com a fusão.
As divergências entre acionistas relevantes podem ainda atrasar investimentos, reorganizações internas e decisões sobre expansão internacional.
Esse risco tornou a governança um dos principais elementos da análise da Azzas 2154. Mesmo investidores que enxergavam valor nas marcas demonstravam preocupação com a capacidade de transformar o portfólio em crescimento e rentabilidade.
Resultado do primeiro trimestre amplia pressão
A discussão sobre uma possÃvel separação ocorreu poucos dias depois da divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026.
A Azzas 2154 registrou lucro lÃquido recorrente de R$ 63,9 milhões no perÃodo, queda de 45,7% em relação aos três primeiros meses de 2025.
A receita lÃquida somou R$ 2,48 bilhões, com retração de 8% na comparação anual. O Ebitda recorrente caiu 23,2%, para R$ 328,5 milhões.
A margem Ebitda recorrente ficou em 13,2%, redução de 2,7 pontos percentuais. Os números indicaram uma combinação de queda nas vendas e menor rentabilidade operacional.
A deterioração aumentou a pressão por uma definição estratégica. O mercado passou a questionar se a estrutura atual seria capaz de entregar as sinergias anunciadas na fusão e recuperar o crescimento das principais marcas.
A disputa societária também dificultava a separação entre problemas conjunturais do varejo e questões provocadas pela integração dos negócios.
Uma eventual cisão poderia permitir maior clareza sobre o desempenho de cada operação. Ao mesmo tempo, a reorganização consumiria recursos e atenção da administração em um momento de resultados pressionados.
A alta das ações nesta sexta-feira, portanto, refletia principalmente a expectativa de que uma solução societária pudesse reduzir incertezas. O movimento não representava, por si só, melhora dos fundamentos financeiros.
CVM acompanha divulgação de informações
O conflito entre os acionistas também havia chegado à Comissão de Valores Mobiliários.
A autarquia acompanhava o cumprimento das obrigações de divulgação relacionadas às disputas e às alternativas estratégicas avaliadas pela companhia.
Empresas listadas devem comunicar informações capazes de influenciar a decisão dos investidores ou o preço dos valores mobiliários. Negociações sobre cisão, alienação de marcas ou mudança de controle podem exigir divulgação ao mercado quando atingem determinado grau de definição.
Até 22 de maio, a companhia não havia confirmado o desenho de separação que estava sendo avaliado pelos investidores.
A falta de confirmação mantinha as ações sujeitas a oscilações provocadas por informações ainda preliminares. Esse tipo de ambiente pode aumentar a volatilidade e criar diferenças relevantes entre expectativa e resultado efetivo.
Caso a reorganização avançasse, a Azzas 2154 precisaria detalhar os ativos envolvidos, o tratamento dado aos acionistas, os impactos financeiros e o cronograma da operação.
Também seria necessário informar como seriam distribuÃdas as dÃvidas e quais relações comerciais permaneceriam entre as novas empresas.
Separação pode criar valor e novos custos
A eventual cisão apresentava vantagens e riscos para os acionistas.
Entre os benefÃcios potenciais estavam a redução do conflito entre Birman e Jatahy, a recuperação da autonomia de gestão e a possibilidade de avaliação individual das marcas.
A separação também poderia facilitar a definição de estratégias especÃficas para negócios com públicos, margens e perspectivas de crescimento diferentes.
Por outro lado, a operação poderia resultar em perda de sinergias de compras, logÃstica, tecnologia, marketing e administração. Estruturas que haviam sido integradas precisariam ser novamente divididas ou contratadas entre as empresas.
A reorganização também exigiria despesas jurÃdicas, tributárias, financeiras e operacionais. A distribuição inadequada dos passivos poderia deixar uma das companhias resultantes em posição financeira mais frágil.
Os acionistas minoritários precisariam avaliar se a proposta garantiria tratamento equilibrado e se a relação de troca refletiria adequadamente o valor de cada ativo.
A execução seria determinante para o resultado. Uma separação prolongada ou marcada por novas disputas poderia aumentar a incerteza e comprometer o funcionamento das marcas.
Azzas permanece dependente de definição formal
A valorização de 5,71% registrada durante a manhã indicava que o mercado via a possÃvel cisão como uma alternativa para encerrar o impasse societário.
A reação, contudo, estava baseada em uma operação ainda sem confirmação oficial, cronograma ou estrutura definida.
Na perspectiva de 22 de maio de 2026, a tese de investimento permanecia condicionada à qualidade da governança e à capacidade da companhia de melhorar seus resultados.
O mercado deveria acompanhar as manifestações da Azzas 2154, os procedimentos conduzidos pela CVM, os desdobramentos das disputas judiciais e arbitrais e uma eventual proposta formal de reorganização.
Até que esses elementos fossem esclarecidos, a alta das ações representava uma aposta dos investidores na possibilidade de solução do conflito, e não a confirmação de que a companhia já havia decidido separar suas marcas e acionistas.









