O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reduziu de US$ 90 bilhões para US$ 84,4 bilhões a projeção oficial para o superávit da balança comercial brasileira em 2026, mas o próprio ministro Márcio Elias Rosa mantém uma expectativa mais otimista. Nesta quinta-feira, 8 de outubro, ele afirmou que continua apostando em um resultado de pelo menos US$ 90 bilhões, criando uma diferença de US$ 5,6 bilhões entre a estimativa técnica atual do ministério e a projeção defendida pelo titular da pasta.
Os números acumulados até setembro mostram o tamanho do desafio. O Brasil registra superávit de US$ 62,396 bilhões nos nove primeiros meses do ano, resultado de US$ 284,654 bilhões em exportações e US$ 222,259 bilhões em importações. Para alcançar a previsão oficial de US$ 84,4 bilhões, o país precisa produzir mais US$ 22,004 bilhões de saldo positivo entre outubro e dezembro, equivalente a uma média mensal de aproximadamente US$ 7,33 bilhões.
Para que a aposta de Márcio Elias Rosa em US$ 90 bilhões se confirme, o esforço necessário é maior. O saldo dos três últimos meses precisaria atingir US$ 27,604 bilhões, ou cerca de US$ 9,20 bilhões por mês. Isso corresponde a um superávit mensal quase 19% superior aos US$ 7,741 bilhões registrados em setembro.
A diferença entre as duas projeções não significa necessariamente divergência dentro do governo. A estimativa de US$ 84,4 bilhões resulta de um modelo estatístico atualizado pela Secretaria de Comércio Exterior, enquanto o ministro está fazendo uma avaliação sobre a possibilidade de o desempenho efetivo superar esse cenário, sobretudo se as exportações mantiverem o ritmo recente e a diversificação dos mercados continuar compensando perdas em destinos específicos.
Setembro entregou superávit de US$ 7,7 bilhões
A revisão para baixo da projeção anual ocorreu mesmo depois de um setembro forte. A balança comercial teve superávit de US$ 7,741 bilhões no mês, avanço de 146% em relação ao saldo registrado em setembro de 2025.
As exportações atingiram US$ 34,418 bilhões, crescimento de 12,9% na comparação anual, enquanto as importações ficaram em US$ 26,678 bilhões, retração de 2,4%. A combinação de vendas externas maiores com compras menores ampliou de maneira significativa o saldo comercial mensal.
No acumulado de janeiro a setembro, o superávit de US$ 62,396 bilhões está 34,8% acima do observado no mesmo período do ano passado. A corrente de comércio — soma de exportações e importações — chegou a aproximadamente US$ 506,9 bilhões.
O comportamento de setembro ajuda a entender por que o ministro ainda considera possível alcançar US$ 90 bilhões. Se o país simplesmente repetisse nos três últimos meses o saldo de US$ 7,741 bilhões observado em setembro, acrescentaria cerca de US$ 23,2 bilhões ao resultado do ano e encerraria 2026 próximo de US$ 85,6 bilhões. Isso seria suficiente para superar a estimativa técnica de US$ 84,4 bilhões, mas ainda deixaria o resultado cerca de US$ 4,4 bilhões abaixo da projeção defendida por Rosa.
Projeção caiu principalmente por causa dos preços
A revisão oficial não ocorreu por uma piora abrupta no volume de comércio. O principal fator apontado pelo MDIC foi a mudança nas projeções de preços internacionais, particularmente depois da volatilidade observada no mercado de petróleo durante o primeiro semestre.
O ministério agora prevê exportações de US$ 382,5 bilhões em 2026. A estimativa anterior, apresentada em julho, era de US$ 394,4 bilhões. A redução foi, portanto, de US$ 11,9 bilhões.
Também houve corte na expectativa para as importações, que passou de US$ 304,4 bilhões para US$ 298,1 bilhões, uma redução de US$ 6,3 bilhões. Como a revisão das exportações foi maior do que a das compras externas, o saldo projetado diminuiu em US$ 5,6 bilhões, exatamente de US$ 90 bilhões para US$ 84,4 bilhões.
Mesmo depois do corte, as exportações projetadas para este ano representariam crescimento de 9,8% sobre 2025 e estabeleceriam um novo recorde em valor. As importações avançariam 6,4%.
Último trimestre terá de manter saldo elevado
Os próprios números do MDIC permitem dimensionar o que precisa acontecer até dezembro. Com US$ 284,654 bilhões já exportados até setembro, a projeção de US$ 382,5 bilhões exige aproximadamente US$ 97,85 bilhões em vendas externas no quarto trimestre.
Isso corresponde a uma média de cerca de US$ 32,6 bilhões em exportações por mês entre outubro e dezembro. Setembro, com US$ 34,418 bilhões, ficou acima desse ritmo.
Nas importações, a diferença entre os US$ 222,259 bilhões acumulados e a projeção anual de US$ 298,1 bilhões indica compras externas próximas de US$ 75,84 bilhões no último trimestre, ou aproximadamente US$ 25,28 bilhões mensais.
Se exportações e importações seguirem exatamente essas médias, o país chegará perto da projeção oficial. Para atingir US$ 90 bilhões, porém, será necessário combinar exportações mais fortes, importações menores ou as duas coisas simultaneamente.
Essa conta mostra por que os próximos três meses serão decisivos. O objetivo de US$ 84,4 bilhões está relativamente próximo do desempenho observado em setembro. A projeção de US$ 90 bilhões exige uma aceleração adicional do saldo.
Resultado ainda pode ser o segundo maior da história
Mesmo a previsão reduzida de US$ 84,4 bilhões colocaria 2026 entre os melhores anos da balança comercial brasileira. O saldo seria cerca de 24% superior aos US$ 68,1 bilhões registrados em 2025.
O recorde permanece com 2023, quando o país acumulou superávit de aproximadamente US$ 98,9 bilhões. A estimativa atual, portanto, colocaria 2026 na segunda posição da série histórica.
Se a previsão de US$ 90 bilhões defendida pelo ministro for alcançada, o país ainda permanecerá abaixo do recorde de 2023, mas diminuirá consideravelmente a distância. O resultado ficaria apenas US$ 8,9 bilhões abaixo da maior marca já registrada.
O desempenho é relevante também para as contas externas. Um superávit comercial elevado aumenta a entrada líquida de moeda estrangeira decorrente do comércio de bens e ajuda a financiar outros componentes do balanço de pagamentos. Isso não determina sozinho o comportamento do dólar, mas funciona como um dos elementos de sustentação das contas externas brasileiras.
União Europeia ganhou peso em setembro
A composição geográfica das exportações mudou de forma importante em setembro. As vendas brasileiras para a União Europeia avançaram 60,1% em relação ao mesmo mês de 2025 e alcançaram US$ 6,95 bilhões.
O salto foi puxado por produtos como petróleo bruto, minério de cobre, farelo de soja, soja e óleos combustíveis. No acumulado de janeiro a setembro, as exportações ao bloco europeu registraram crescimento de aproximadamente 20%.
O movimento reforça a estratégia do governo de ampliar mercados para reduzir a dependência de destinos específicos. Em um ambiente internacional marcado por tarifas, cotas e mudanças nos preços das commodities, a capacidade de redistribuir exportações pode reduzir o efeito de restrições impostas por grandes compradores.
Os resultados, porém, não foram positivos em todos os mercados. As exportações para a China caíram 7,6% em setembro na comparação anual, em parte devido ao forte recuo das vendas de carne bovina depois que embarques brasileiros ultrapassaram a cota sujeita à tarifa mais baixa.
A Argentina também comprou menos produtos brasileiros no mês. Já as exportações para os Estados Unidos avançaram 31,9% em setembro, para aproximadamente US$ 3,52 bilhões. No acumulado dos nove primeiros meses, entretanto, as vendas ao mercado americano ainda apresentam queda de cerca de 6,5%.
Ministro aposta em diversificação para chegar a US$ 90 bilhões
Márcio Elias Rosa afirmou nesta quinta-feira que continua trabalhando com um cenário mais favorável do que o apresentado oficialmente pelo MDIC. Segundo ele, a diversificação dos destinos das exportações brasileiras tem ajudado a absorver impactos de barreiras comerciais e mudanças na demanda de alguns parceiros.
O ministro também informou que as conversas com os Estados Unidos sobre tarifas continuam. O governo brasileiro espera receber dos americanos um termo de referência dentro de três ou quatro semanas, documento que deverá orientar uma nova fase das negociações comerciais entre os dois países.
A discussão interessa diretamente aos exportadores porque os Estados Unidos seguem entre os principais destinos dos produtos brasileiros. Embora as vendas tenham crescido fortemente em setembro, o resultado acumulado do ano ainda carrega os efeitos das restrições comerciais observadas nos meses anteriores.
A negociação, no entanto, é apenas uma das variáveis que determinarão o resultado da balança até dezembro. A evolução do preço do petróleo, da soja e do minério de ferro, o ritmo da economia chinesa, a demanda europeia e o comportamento das importações brasileiras terão influência direta sobre os números finais.
Diferença entre US$ 84,4 bilhões e US$ 90 bilhões será decidida em três meses
Com três quartos do ano concluídos, a maior parte do resultado comercial de 2026 já está formada. Os US$ 62,4 bilhões acumulados até setembro equivalem a aproximadamente 74% da projeção oficial para o ano.
Para completar os 26% restantes e atingir US$ 84,4 bilhões, a balança precisa gerar pouco mais de US$ 22 bilhões entre outubro e dezembro. É uma meta compatível com a manutenção do ritmo de setembro, embora fique exposta à volatilidade dos preços das commodities e das importações.
O cenário de US$ 90 bilhões defendido por Márcio Elias Rosa é mais exigente. Ele pressupõe que cerca de 31% do saldo anual seja construído apenas no último trimestre, com superávits mensais médios superiores aos observados em setembro.
Os próximos dados da Secretaria de Comércio Exterior mostrarão rapidamente qual das duas projeções está mais próxima de se confirmar. Se o saldo continuar perto de US$ 7 bilhões a US$ 8 bilhões mensais, o resultado deverá convergir para a estimativa oficial. Para superar US$ 90 bilhões, a balança precisará entregar uma aceleração relevante justamente nos últimos três meses do ano.
Independentemente de qual número prevalecer, o Brasil caminha, pelas projeções atuais, para fechar 2026 com o segundo maior superávit comercial da série histórica.
Fontes:
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços — Balança Comercial Brasileira de setembro de 2026 e projeções para o ano
Secretaria de Comércio Exterior — dados consolidados de exportações, importações e saldo comercial de janeiro a setembro de 2026
Comex Stat — estatísticas oficiais do comércio exterior brasileiro
Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro — evento Conexões Produtivas e declarações do ministro Márcio Elias Rosa










