Bitcoin recua ao menor nível do governo Trump e acende alerta sobre volatilidade de ativos digitais
A cotação do Bitcoin registrou nesta quinta-feira sua maior retração em 15 meses, atingindo o patamar de US$ 65 mil (aproximadamente R$ 342 mil). O movimento representa uma queda acentuada de 24% apenas no acumulado deste ano, posicionando a criptomoeda em seu nível mais baixo desde outubro de 2024. O recuo ocorre em um momento de paradoxo político-econômico: embora a administração do presidente Donald Trump tenha adotado uma postura declaradamente pró-criptoativos, o mercado reage com ceticismo a novos indicadores macroeconômicos e à mudança de comando no Federal Reserve (Fed).
Este cenário de baixa sucede um período de euforia, quando o Bitcoin alcançou a máxima histórica de US$ 122 mil em outubro de 2024, impulsionado pelas promessas de campanha de flexibilização regulatória nos Estados Unidos. Agora, com uma desvalorização acumulada de 32% nos últimos 12 meses, o ativo digital mais conhecido do mundo apaga os ganhos recentes e testa a resiliência de investidores que apostavam na consolidação dos EUA como a capital global das criptomoedas.
O paradoxo da desregulamentação e a influência da Casa Branca
Desde o retorno de Donald Trump à presidência em janeiro de 2025, o setor de ativos digitais recebeu incentivos institucionais sem precedentes. Uma das primeiras medidas do governo foi a assinatura de uma ordem executiva visando transformar o ecossistema financeiro americano em um hub de inovação para moedas digitais. Paralelamente, o governo dissolveu forças-tarefa do Departamento de Justiça voltadas à fiscalização rigorosa e a Securities and Exchange Commission (SEC) reduziu significativamente o volume de investigações sobre emissoras de tokens.
A despeito desse ambiente regulatório permissivo, o valor do Bitcoin não sustentou o fôlego. Críticos e analistas apontam que o envolvimento direto da família Trump com veículos de investimento, como a World Liberty Financial, e o lançamento de criptoativos próprios pelo presidente criaram um cenário de saturação e questionamentos éticos. Em novembro, o Comitê Judiciário do Senado destacou que o presidente acumulou cerca de US$ 11 bilhões em participações no setor, gerando uma renda pessoal de US$ 800 milhões, o que, para alguns observadores, introduz uma volatilidade política adicional ao preço do Bitcoin.
A nomeação de Kevin Warsh e o impacto da política monetária do Fed
Analistas do Deutsche Bank indicam que o gatilho específico para a queda recente foi a indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve. A percepção do mercado é que Warsh possa adotar uma postura mais austera, ou “hawkish”, mantendo as taxas de juros em patamares elevados para conter pressões inflacionárias persistentes. Para ativos de risco como o Bitcoin, juros altos são tradicionalmente prejudiciais, pois elevam a atratividade de títulos públicos americanos, considerados seguros, em detrimento de investimentos especulativos.
Uma política monetária expansionista, com juros baixos, foi o combustível que levou o Bitcoin aos seus recordes anteriores. Com a sinalização de um Fed mais rigoroso, o fluxo de capital tende a migrar para o dólar e para a renda fixa. O Deutsche Bank ressalta que essa tendência de queda nos últimos quatro meses sinaliza uma perda de interesse por parte de investidores institucionais tradicionais, que agora demonstram um pessimismo crescente quanto à utilidade real do ativo fora do campo da especulação pura.
A transição do Bitcoin de ativo especulativo para a maturidade de mercado
O comportamento atual do mercado sugere que o Bitcoin está atravessando uma fase de transição. De acordo com relatórios do setor bancário, a moeda digital está deixando de ser um instrumento de ganhos rápidos e desmedidos para buscar um papel específico no sistema financeiro global. Este processo de “amadurecimento” é doloroso para os detentores de curto prazo, pois envolve a correção de excessos acumulados durante os ciclos de euforia política.
William Barhydt, diretor executivo da Abra Capital Management, reforça que o Bitcoin já sobreviveu a diversos ciclos de “inverno cripto” e que a oscilação atual, embora severa, faz parte do histórico de amadurecimento de qualquer nova classe de ativos. Contudo, a perda de mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado global de criptomoedas em apenas um mês, segundo dados da CoinGecko, demonstra que a correção atual possui uma escala sistêmica que atinge não apenas o Bitcoin, mas também outros ativos como Ethereum e Solana, que registram quedas próximas a 37% em 2026.
A correlação com o dólar americano e as projeções de suporte técnico
Um estudo recente da Stifel aponta para uma mudança estrutural na forma como o Bitcoin se comporta em relação às moedas fiduciárias. Historicamente visto como uma “proteção contra o dólar” ou “ouro digital”, o ativo passou a seguir mais de perto as flutuações da moeda americana em determinados contextos de liquidez. Na última semana, o dólar atingiu sua menor cotação em quatro anos, mas, ao contrário do esperado, o Bitcoin não se beneficiou dessa fraqueza, acompanhando o movimento de aversão ao risco global.
As projeções da Stifel para o Bitcoin são cautelosas, indicando que o preço pode recuar até o suporte de US$ 38 mil caso o sentimento negativo persista. Essa análise baseia-se na redução do volume de transações nas principais corretoras globais e na diminuição do ímpeto de compra por parte de grandes fundos de pensão, que haviam entrado no mercado no final de 2024. A estabilização dependerá, em grande medida, dos dados de inflação dos EUA e da confirmação da postura de Warsh à frente do banco central americano.
A estrutura do mercado de criptoativos e a ausência de supervisão
O esvaziamento das equipes de fiscalização da SEC e do Departamento de Justiça, embora comemorado inicialmente pela indústria, pode estar gerando um efeito colateral de desconfiança. Sem uma supervisão clara, o investidor institucional sente-se vulnerável a manipulações de mercado e ataques cibernéticos. O Bitcoin, por ser descentralizado e não controlado por instituições financeiras tradicionais, depende da confiança da rede para manter seu valor.
A liquidez do mercado também tem sido afetada. Com a saída de investidores de varejo, que sofreram perdas significativas desde o pico de outubro, o Bitcoin ficou mais suscetível a grandes ordens de venda de “baleias” (grandes detentores da moeda). Esse desequilíbrio entre oferta e demanda é o que explica as quedas abruptas em janelas curtas de tempo, muitas vezes sem um fato novo fundamentalista que as justifique, exceto a própria mecânica de exaustão de compradores.
O impacto setorial na economia digital e o futuro das altcoins
O declínio do Bitcoin arrasta consigo todo o ecossistema de finanças descentralizadas (DeFi) e tokens não fungíveis (NFTs). A queda de US$ 2 trilhões no valor total do mercado cripto desde outubro de 2024 reflete uma desalavancagem massiva. Empresas que dependem da valorização do Bitcoin para financiar suas operações de mineração e infraestrutura já começam a revisar seus planos de expansão para o restante de 2026.
Diferente de ciclos anteriores, a crise atual não parece estar ligada a colapsos de corretoras específicas, mas sim a um realinhamento macroeconômico. O Bitcoin enfrenta agora o desafio de provar sua tese como reserva de valor em um mundo de juros reais positivos. Se o ativo não conseguir se desvincular da imagem de “termômetro de liquidez especulativa”, seu preço continuará refém das decisões de política monetária do Fed, independentemente do apoio retórico vindo de Washington.
Reconfiguração do fluxo de capitais e os desdobramentos na B3
O reflexo da queda do Bitcoin também é sentido nos mercados emergentes, incluindo o Brasil. Investidores que utilizavam ETFs (Exchange Traded Funds) de criptoativos na B3 para diversificar carteiras viram seu patrimônio sofrer uma erosão significativa em poucos meses. O movimento de retirada de capital de ativos voláteis impacta indiretamente o fluxo cambial, uma vez que boa parte dessas operações ocorre via conversão para dólar em exchanges internacionais.
A expectativa para os próximos trimestres é de uma consolidação. Analistas acreditam que o mercado passará por uma limpeza, onde apenas os projetos com utilidade real e lastro tecnológico sobreviverão à pressão vendedora. Para o Bitcoin, o teste de fogo será manter-se acima dos suportes psicológicos de 2024. Caso a barreira dos US$ 60 mil seja rompida, o cenário de capitulação pode se intensificar, forçando uma reavaliação completa das estratégias de investimento digital para o restante da década.






