A Braskem (BRKM5) registrou lucro líquido de R$ 1,45 bilhão no primeiro trimestre de 2026, alta de 107% em relação ao lucro de R$ 698 milhões apurado no mesmo período do ano passado, mas o balanço foi recebido com cautela pelo mercado por causa da queda do resultado operacional, da receita menor e da alavancagem elevada. As ações da companhia ficaram voláteis após a divulgação dos números, alternando alta e queda durante o pregão.
Por volta das 10h15, os papéis da Braskem (BRKM5) subiam 2,54%, cotados a R$ 12,52. Pouco depois, às 10h29, inverteram o sinal, caíam 1,88%, a R$ 11,98, e entraram em leilão. A oscilação refletiu uma leitura dividida dos investidores: o lucro líquido veio forte, mas o desempenho operacional ainda mostrou fragilidades relevantes.
A maior petroquímica da América Latina reportou Ebitda recorrente de R$ 1,01 bilhão entre janeiro e março, queda de 24% na comparação anual. A receita líquida somou R$ 15,49 bilhões, recuo de 20% em relação ao primeiro trimestre de 2025.
Lucro forte não elimina cautela com o balanço
O lucro líquido da Braskem (BRKM5) mais do que dobrou no primeiro trimestre, mas o avanço não foi suficiente para afastar dúvidas sobre a qualidade da recuperação da companhia.
Parte relevante do resultado positivo veio de efeitos financeiros e cambiais, e não de uma melhora ampla da operação. Segundo análise do Bradesco BBI, o lucro reportado superou as estimativas principalmente por causa de um ganho cambial não monetário decorrente da valorização do real sobre a exposição líquida em dólares da empresa.
A Braskem tinha exposição líquida em dólares de cerca de US$ 10,1 bilhões, ampliada após a descontinuação de aproximadamente US$ 8,4 bilhões em operações de hedge em dezembro de 2025. Com a valorização de cerca de 5% do real no período, a companhia reconheceu impacto positivo no resultado.
Esse efeito ajuda a explicar a diferença entre o lucro líquido elevado e o Ebitda abaixo do esperado. Para o mercado, a distinção é importante porque ganhos cambiais podem melhorar o lucro contábil de um trimestre sem representar, necessariamente, geração operacional recorrente.
Ebitda fica abaixo das projeções
O Ebitda recorrente da Braskem (BRKM5) ficou aquém das expectativas. Analistas esperavam, em média, R$ 1,18 bilhão para o indicador no primeiro trimestre, segundo dados da LSEG.
Na avaliação do Bradesco BBI, o Ebitda recorrente da companhia somou US$ 192 milhões, abaixo da estimativa do banco, de US$ 229 milhões, e também inferior ao consenso da Bloomberg, de US$ 251 milhões.
Apesar disso, houve recuperação em relação ao trimestre imediatamente anterior. O Ebitda avançou 76% na comparação com o quarto trimestre de 2025, sinalizando melhora sequencial depois de um período mais pressionado.
A recuperação, porém, ainda ocorre em nível considerado baixo para uma companhia com a estrutura de capital da Braskem. O resultado mostra que a operação começou a reagir, mas permanece distante de uma normalização plena das margens.
Brasil sustenta melhora sequencial
No Brasil, o Ebitda da Braskem (BRKM5) chegou a US$ 241 milhões, alta de 69% em relação ao trimestre anterior, segundo o Bradesco BBI.
A melhora foi impulsionada por aproximadamente US$ 32 milhões em créditos de PIS/Cofins dentro do regime ampliado do Reiq e por avanço sequencial de 16% nos spreads de resina.
O desempenho brasileiro foi parcialmente compensado por maiores custos de inatividade e manutenção. Ainda assim, a operação doméstica foi uma das principais sustentações do balanço no período.
A relevância do Brasil também aparece na composição da receita. No primeiro trimestre, 59% da receita da Braskem veio do mercado brasileiro. Estados Unidos e Europa responderam por 26%.
A operação local continua sendo central para a empresa, tanto pelo peso na receita quanto pela exposição à demanda industrial, ao câmbio, ao custo de matérias-primas e à política de incentivos ao setor petroquímico.
Estados Unidos e Europa voltam ao positivo
As operações da Braskem (BRKM5) nos Estados Unidos e na Europa também apresentaram recuperação no primeiro trimestre.
O Ebitda da região ficou positivo em US$ 21 milhões, após resultado negativo de US$ 32 milhões no quarto trimestre de 2025. A melhora foi sustentada por avanço de 6% nos spreads de polipropileno e por volumes mais altos.
A reversão para o campo positivo reduz parte da pressão sobre o resultado consolidado, mas ainda não representa uma recuperação completa. O setor petroquímico global segue marcado por excesso de oferta em algumas cadeias, demanda irregular e margens apertadas.
Para a Braskem, a melhora fora do Brasil é relevante porque amplia a diversificação geográfica da geração operacional. Ainda assim, o resultado consolidado mostra que a empresa continua exposta a um ciclo internacional desafiador.
México pesa sobre a operação da Braskem Idesa
O México foi o principal ponto fraco do balanço. A utilização da operação caiu 30 pontos percentuais em relação ao trimestre anterior, para 55%, afetada pela redução no fornecimento de etano pela Pemex e por restrições de liquidez da Braskem Idesa.
Com isso, o Ebitda do segmento ficou negativo em US$ 15 milhões.
A operação mexicana segue sendo acompanhada de perto por investidores por causa de seu impacto no resultado consolidado e no nível de risco da companhia. Baixa utilização, problemas de fornecimento e restrições financeiras reduzem eficiência, pressionam margens e dificultam a recuperação operacional.
A normalização da Braskem Idesa é considerada uma peça importante para uma melhora mais consistente da Braskem (BRKM5), mas ainda depende de maior previsibilidade no suprimento de matéria-prima e de uma estrutura financeira mais equilibrada.
Alavancagem sobe e vira principal alerta
A alavancagem financeira segue como um dos pontos mais sensíveis do balanço da Braskem (BRKM5). A companhia encerrou março com alavancagem de 16,81 vezes quando medida em dólares, acima das 7,98 vezes registradas no fim do primeiro trimestre de 2025.
O aumento do indicador reforça a pressão sobre a estrutura de capital da petroquímica. Em empresas cíclicas, uma alavancagem elevada amplia a vulnerabilidade a oscilações de câmbio, queda de spreads, aumento de custos e períodos de demanda mais fraca.
Esse fator ajuda a explicar a postura cautelosa de parte dos analistas. Mesmo com a possibilidade de melhora operacional no segundo trimestre, a empresa ainda enfrenta a necessidade de ajustar sua estrutura financeira.
O Bradesco BBI avalia que a Braskem precisará remodelar sua estrutura de capital considerando os fundamentos após o atual choque de mercado. A instituição vê risco de diluição para acionistas e manteve recomendação de venda para as ações.
Mudança societária aumenta atenção do mercado
A Braskem (BRKM5) também atravessa um processo de mudança societária com a entrada do grupo de investimentos IG4 em seu grupo de controle.
Esse movimento adiciona incerteza à leitura do balanço, porque pode influenciar decisões sobre desalavancagem, venda de ativos, governança, investimentos, política financeira e estratégia de longo prazo.
A companhia tem papel estratégico na indústria brasileira, com atuação em resinas, insumos petroquímicos e produtos usados por setores como embalagens, construção, automóveis, saúde, bens de consumo e agronegócio.
Por isso, a definição da nova estrutura de controle será acompanhada não apenas por acionistas, mas também por clientes, fornecedores, credores e agentes do setor industrial.
Analistas veem melhora no 2T26, mas risco permanece
Apesar do resultado abaixo das estimativas, o Bradesco BBI projeta melhora relevante no Ebitda da Braskem (BRKM5) no segundo trimestre de 2026.
A expectativa é que a companhia se beneficie de aumento nos spreads petroquímicos provocado por choques no mercado internacional. Segundo o banco, o Ebitda da empresa poderia superar US$ 2 bilhões em 2026 caso os efeitos favoráveis se estendam ao segundo semestre.
A avaliação positiva para o curto prazo, porém, não elimina os riscos estruturais. Para o banco, a melhora cíclica dos spreads não resolve sozinha o problema de alavancagem da companhia.
O ponto central para os investidores será saber se a Braskem conseguirá transformar uma eventual recuperação de margens em geração de caixa suficiente para reduzir dívida, preservar liquidez e evitar medidas que possam diluir acionistas.
Ações refletem dúvida sobre recuperação da Braskem
A volatilidade das ações da Braskem (BRKM5) após o balanço resumiu a leitura do mercado sobre o trimestre. O lucro líquido forte chamou atenção, mas a queda do Ebitda, o recuo da receita, a piora da alavancagem e o risco de reestruturação financeira limitaram o entusiasmo dos investidores.
O balanço trouxe sinais de recuperação sequencial, especialmente no Brasil e nas operações dos Estados Unidos e Europa. Ao mesmo tempo, mostrou que a empresa ainda opera sob forte pressão financeira e depende de melhora mais consistente do setor petroquímico global.
Para que a tese de recuperação ganhe força, a Braskem terá de mostrar avanço recorrente de margens, normalização da operação no México, redução da alavancagem e maior clareza sobre os efeitos da mudança societária.
O primeiro trimestre de 2026 marcou uma melhora parcial, mas não encerrou as dúvidas sobre a companhia. A Braskem (BRKM5) segue no centro das atenções da Bolsa por combinar lucro contábil elevado, dívida alta, controle em transformação e forte exposição aos ciclos de petróleo, resinas, câmbio e juros.









