terça-feira, 13 de outubro de 2026
contato@gazetamercantil.com
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
Home Empresas

Cade aprova compra da Kovr pelo PicPay, mas vê indícios de irregularidade na operação

Superintendência do órgão antitruste liberou a aquisição, mas apontou suspeitas de gun jumping e possível triangulação financeira envolvendo a antiga estrutura do Banco Master.

por João Souza
12/05/2026 às 09h12
em Empresas
Picpay (Pics): Lucro Dobra No 4T25, Mas Ação Despenca 22% Na Nasdaq — O Que Está Por Trás Do Paradoxo-Gazeta Mercantil

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a compra da Kovr pelo PicPay, mas decidiu encaminhar a operação para novas apurações após identificar indícios de possíveis irregularidades na estrutura da transação. Segundo parecer da Superintendência-Geral do órgão antitruste, há sinais de que as partes podem ter fechado o acordo antes da autorização regulatória e de que o dinheiro usado no negócio teria circulado de forma artificial entre os envolvidos, em uma possível triangulação financeira ligada à antiga estrutura do Banco Master.

A aquisição da Kovr, que reúne negócios de seguros, resseguros e previdência, foi aprovada sob a ótica concorrencial. Ainda assim, o Cade indicou que o caso deve ser comunicado a outras autoridades para avaliação de possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional. A autarquia apontou, no parecer, suspeitas de gun jumping, prática vedada pela Lei 12.529/2011 e caracterizada quando empresas consumam ou integram uma operação antes da aprovação do órgão antitruste.

Leia também: Cade investiga Gol e Latam por indícios de alinhamento de preços em rotas nacionais.

O caso ganha relevância porque a Kovr pertencia ao conglomerado do Banco Master antes de chegar ao PicPay. A seguradora foi vendida em julho de 2025 pela Master Serviços e pela Alliance Participações a um grupo de executivos que eram minoritários da companhia. Dois meses depois, em 19 de setembro de 2025, os mesmos compradores revenderam a empresa ao PicPay.

Cade libera operação, mas mantém suspeitas sob análise

A aprovação pelo Cade significa que, do ponto de vista concorrencial, a compra da Kovr pelo PicPay não foi considerada capaz de gerar concentração relevante ou prejuízo direto à concorrência nos mercados analisados. A decisão, contudo, não encerra a avaliação sobre a regularidade da transação.

A mesma superintendência que liberou o negócio apontou indícios de que a operação pode ter sido estruturada de forma a antecipar efeitos econômicos antes do aval regulatório. Essa hipótese, se confirmada, pode configurar gun jumping.

No Brasil, operações sujeitas ao Cade precisam aguardar a aprovação do órgão antes de serem consumadas. A regra busca impedir que empresas passem a atuar de forma integrada, troquem informações sensíveis ou executem decisões conjuntas antes da análise concorrencial.

No caso da Kovr, o Cade avalia se os atos praticados pelas partes antes da aprovação poderiam caracterizar uma antecipação indevida do negócio. O parecer também menciona a possibilidade de que a estrutura financeira tenha servido para camuflar quem estaria efetivamente vendendo a empresa.

Possível triangulação financeira envolve Banco Master

Um dos pontos centrais da suspeita levantada pelo Cade é a possível triangulação financeira. Segundo o parecer citado pela reportagem original, o órgão encontrou sinais de que o dinheiro usado na transação pode ter circulado de forma artificial entre as partes.

A hipótese é que a estrutura teria sido usada para disfarçar quem, na prática, estava vendendo a Kovr. As suspeitas envolvem o Banco Master, instituição que controlava a seguradora antes de ela chegar às mãos do PicPay.

A Kovr fazia parte do conglomerado do Banco Master e atuava como seguradora, resseguradora e administradora de previdência complementar aberta. Em julho de 2025, a empresa foi vendida por Master Serviços e Alliance Participações a Thiago Coelho Leão de Moura, Eduardo Viegas Silva e à Rrennó Participações, ligados à administração ou ao quadro minoritário da própria companhia.

Em setembro do mesmo ano, esses compradores venderam a totalidade do capital da Kovr ao PicPay. Segundo o Cade, na mesma data em que foi assinado o contrato de venda ao PicPay, instrumentos financeiros teriam sido emitidos em favor de dois vendedores para viabilizar o pagamento da compra intermediária. O Banco Original teria feito operação semelhante em favor do terceiro vendedor.

Operação intermediária está no centro da apuração

A sequência de transações é um dos elementos que levou o Cade a manter o caso sob escrutínio. Primeiro, a Kovr deixou o conglomerado do Banco Master e foi transferida a executivos minoritários e a uma holding ligada ao grupo comprador. Depois, em intervalo curto, foi revendida ao PicPay.

Esse desenho levantou dúvidas sobre a natureza da operação intermediária. A questão central é saber se a primeira venda representou uma transação autônoma e efetiva ou se teria funcionado como uma ponte para a aquisição final pelo PicPay.

Em casos de fusões e aquisições, a estrutura societária e financeira é decisiva para determinar responsabilidades, obrigações regulatórias e eventuais riscos legais. Quando uma operação envolve múltiplas etapas, financiamentos cruzados e partes ligadas, reguladores tendem a observar com mais atenção os fluxos de recursos e os beneficiários finais.

O Cade, segundo o parecer, viu indícios suficientes para aprovar a operação sob a ótica antitruste, mas encaminhar os elementos a outras autoridades competentes. A apuração sobre eventuais irregularidades não equivale a condenação, e os envolvidos têm direito à defesa.

PicPay avança em seguros com aquisição da Kovr

Para o PicPay, a aquisição da Kovr representa uma ampliação relevante de seu ecossistema financeiro. A operação permite ao banco digital expandir sua atuação para seguros, previdência e capitalização, segmentos que podem complementar sua base de clientes e diversificar receitas.

O PicPay, controlado pela família Batista, já havia protocolado o pedido de compra no Cade. Em março, informações de mercado indicavam que o banco digital buscava incorporar a seguradora como parte de uma estratégia de crescimento em produtos financeiros além da conta digital, cartões, crédito e pagamentos.

A compra também envolve a Estrutural, corretora de seguros. Segundo informações apresentadas no pedido ao Cade, a aquisição permitiria ao grupo entrar no segmento de corretagem de seguros e incorporar a oferta ao seu conjunto de atividades financeiras.

O movimento é coerente com a estratégia de bancos digitais de ampliar receitas por meio de produtos de maior margem e maior recorrência. Seguros, previdência e capitalização podem funcionar como instrumentos de monetização da base de clientes, desde que integrados de forma eficiente à plataforma.

Kovr era ativo relevante do conglomerado Master

A Kovr era um dos ativos associados ao conglomerado do Banco Master antes da transação. A instituição passou por processo de liquidação, e ativos ligados ao grupo se tornaram alvo de atenção de reguladores, credores e participantes do mercado.

A seguradora foi originalmente vendida a executivos que já atuavam ou tinham participação minoritária na companhia. Esse tipo de operação, conhecida como management buyout, pode ocorrer quando administradores ou sócios internos compram o controle de uma empresa. No caso da Kovr, contudo, a posterior venda ao PicPay em intervalo curto foi um dos fatores que despertou questionamentos.

Segundo reportagem anterior do Metrópoles, documentos ligados ao processo de entrada do PicPay na Nasdaq já mencionavam a negociação e indicavam que parte do caixa do IPO seria usada para quitar a aquisição da Kovr. A transação teria valor de R$ 657,6 milhões.

Esses elementos reforçam a necessidade de análise sobre a cronologia dos atos, os compromissos assumidos pelas partes e a eventual existência de alinhamento prévio antes da autorização regulatória.

Caso pode envolver outras autoridades

O Cade deve acionar outras autoridades para apurar os indícios apontados no parecer. A depender da avaliação, o caso pode passar a envolver órgãos com competência sobre crimes financeiros, mercado segurador e sistema financeiro nacional.

Além do Cade, operações envolvendo seguradoras podem depender de análise da Superintendência de Seguros Privados (Susep), autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda. No caso de estruturas financeiras complexas, o Banco Central também pode ser relevante quando há conexão com instituições financeiras ou conglomerados supervisionados.

A atuação coordenada entre órgãos reguladores é comum quando uma operação envolve aspectos concorrenciais, prudenciais, societários e criminais. O Cade avalia concentração econômica e condutas anticompetitivas, mas eventuais suspeitas de irregularidade financeira podem exigir apuração por outras autoridades.

Até o momento, a aprovação concorrencial não elimina a possibilidade de investigações posteriores. O aval do Cade indica apenas que, sob o ângulo antitruste, a operação foi liberada.

Gun jumping pode gerar sanções

A suspeita de gun jumping é um ponto sensível do caso. A prática ocorre quando empresas consumam ou integram uma operação antes da aprovação do Cade, seja por meio de transferência de controle, troca de informações competitivamente sensíveis, influência sobre decisões comerciais ou execução antecipada de atos típicos de integração.

A Lei 12.529/2011 prevê que operações de concentração econômica submetidas ao Cade não podem ser consumadas antes da aprovação final. O descumprimento pode gerar multas, revisão de atos e outras medidas administrativas.

No caso da Kovr, o Cade ainda não concluiu que houve gun jumping. O órgão apontou indícios e decidiu encaminhar o tema para apuração. A distinção é importante: a existência de suspeitas não significa condenação das empresas ou pessoas envolvidas.

O processo, portanto, entra em nova fase de escrutínio. As autoridades deverão avaliar documentos, fluxos financeiros, contratos, datas de assinatura, condições suspensivas e eventuais atos praticados antes da autorização formal.

Investigação amplia pressão sobre governança de operações financeiras

A aprovação da compra da Kovr pelo PicPay com ressalvas aumenta a pressão por transparência em operações envolvendo instituições financeiras, seguradoras e ativos ligados a conglomerados em situação de estresse.

O caso combina elementos sensíveis para o mercado: aquisição por banco digital em expansão, ativo que pertenceu ao Banco Master, suspeita de triangulação financeira, possível gun jumping e necessidade de comunicação a outras autoridades. Essa combinação tende a manter a operação no radar de reguladores e investidores.

Para o PicPay, o principal desafio será avançar na integração estratégica da Kovr sem que as apurações sobre a estrutura anterior contaminem a percepção sobre governança. Para os demais envolvidos, a prioridade será esclarecer a origem dos recursos, a sequência das transações e a lógica econômica do negócio.

O desfecho dependerá das próximas manifestações dos reguladores e dos documentos que venham a ser analisados. Até lá, a compra da Kovr pelo PicPay segue aprovada sob a ótica concorrencial, mas cercada por questionamentos sobre a forma como a operação foi estruturada.

LEIA MAIS

Agronegocio - Gazeta Mercantil
Empresas

Bimbo expande agricultura regenerativa no Brasil e supera 500 mil hectares no mundo

Companhia do ramo de alimentos e panificação supera 500 mil hectares e expande programa no Brasil; meta é obter todos ingredientes-chave desse modelo até 2050

Leia MaisDetails
Vivara Aprova Emissão De R$ 300 Milhões Em Debêntures Com Vencimento Em 2031-Gazeta Mercantil
Empresas

Vivara aprova emissão de R$ 300 milhões em debêntures com vencimento em 2031

A Vivara (VIVA3) aprovou uma emissão de debêntures simples no valor de R$ 300 milhões, em uma operação voltada principalmente à reorganização de passivos e ao reforço da...

Leia MaisDetails
Lvmh Perde Mais De €250 Bilhões Em Valor De Mercado Desde 2023-Gazeta Mercantil
Empresas

LVMH registra queda de 5% em moda e ações acumulam perda de 40% em 2026

A LVMH, conglomerado francês que reúne marcas como Louis Vuitton, Christian Dior, Tiffany & Co. e Sephora, encerrou o terceiro trimestre de 2026 com resultados abaixo das expectativas...

Leia MaisDetails
Mercado Livre
Mercados

Mercado Livre (MELI): Citi corta preço-alvo para US$ 2.100 antes do balanço do 3T26

O Citi elevou a recomendação do Mercado Livre (MELI34) de Neutra/Alto Risco para Neutra e cortou o preço-alvo das ações. Saiba mais.

Leia MaisDetails
Embraer (Embj3) Fecha Acordo Com Latam Para Suporte A 24 Jatos E195-E2 - Gazeta Mercantil - Empresas
Empresas

Embraer (EMBJ3) fecha acordo com Latam para suporte a 24 jatos E195-E2

A Embraer (EMBJ3) e a Latam assinaram um acordo do Programa Pool para dar suporte à introdução de 24 aeronaves Embraer E195-E2 encomendadas pela companhia

Leia MaisDetails

GAZETA MERCANTIL ENCERRADO

20:37:17
IBOV

IBOVESPA

B3
Consultando... buscando última cotação
$

DÓLAR

USD/BRL
Consultando... buscando última cotação
€

EURO

EUR/BRL
Consultando... buscando última cotação
â‚¿

BITCOIN

BRL
Consultando... buscando última cotação
Gazeta Mercantil · dados de mercado
Sênior Sistemas Sênior Sistemas Sênior Sistemas
PUBLICIDADE

Veja Também

Petróleo Hoje - Gazeta Mercantil
Mercados

Petróleo hoje: Brent cai a US$ 105,69 e WTI sobe com tensão no Oriente Médio

Leia MaisDetails
Agronegocio - Gazeta Mercantil
Empresas

Bimbo expande agricultura regenerativa no Brasil e supera 500 mil hectares no mundo

Leia MaisDetails
Taxa De Juros - Gazeta Mercantil
Mercados

Juros futuros sobem mais de 20 pontos-base após pesquisas eleitorais

Leia MaisDetails
Nunes Marques - Gazeta Mercantil
Política

Advogados acusam Nunes Marques de favorecer Flávio Bolsonaro em decisões do TSE

Leia MaisDetails
Lula - Gazeta Mercantil
Política

MDB: dez diretórios declaram apoio a Lula, enquanto outra ala se alinha a Flávio Bolsonaro

Leia MaisDetails

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco
Gazeta Mercantil Logo White

contato@gazetamercantil.com

Gazeta Mercantil — marca jornalística fundada em 1920, com continuidade editorial contemporânea no ambiente digital por meio do domínio oficial gazetamercantil.com.

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

Veja Também:

Petróleo hoje: Brent cai a US$ 105,69 e WTI sobe com tensão no Oriente Médio

Bimbo expande agricultura regenerativa no Brasil e supera 500 mil hectares no mundo

Juros futuros sobem mais de 20 pontos-base após pesquisas eleitorais

Advogados acusam Nunes Marques de favorecer Flávio Bolsonaro em decisões do TSE

MDB: dez diretórios declaram apoio a Lula, enquanto outra ala se alinha a Flávio Bolsonaro

Dinheiro esquecido em bancos chega a R$ 5,8 bilhões; veja como sacar

  • Anuncie Conosco
  • Política de Correções
  • Política Editorial
  • Política de Privacidade
  • Termos de Uso
  • Sobre a Gazeta Mercantil
  • Expediente
  • Política de Conflitos de Interesse

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP