O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a compra da Kovr pelo PicPay, mas decidiu encaminhar a operação para novas apurações após identificar indícios de possíveis irregularidades na estrutura da transação. Segundo parecer da Superintendência-Geral do órgão antitruste, há sinais de que as partes podem ter fechado o acordo antes da autorização regulatória e de que o dinheiro usado no negócio teria circulado de forma artificial entre os envolvidos, em uma possível triangulação financeira ligada à antiga estrutura do Banco Master.
A aquisição da Kovr, que reúne negócios de seguros, resseguros e previdência, foi aprovada sob a ótica concorrencial. Ainda assim, o Cade indicou que o caso deve ser comunicado a outras autoridades para avaliação de possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional. A autarquia apontou, no parecer, suspeitas de gun jumping, prática vedada pela Lei 12.529/2011 e caracterizada quando empresas consumam ou integram uma operação antes da aprovação do órgão antitruste.
O caso ganha relevância porque a Kovr pertencia ao conglomerado do Banco Master antes de chegar ao PicPay. A seguradora foi vendida em julho de 2025 pela Master Serviços e pela Alliance Participações a um grupo de executivos que eram minoritários da companhia. Dois meses depois, em 19 de setembro de 2025, os mesmos compradores revenderam a empresa ao PicPay.
Cade libera operação, mas mantém suspeitas sob análise
A aprovação pelo Cade significa que, do ponto de vista concorrencial, a compra da Kovr pelo PicPay não foi considerada capaz de gerar concentração relevante ou prejuízo direto à concorrência nos mercados analisados. A decisão, contudo, não encerra a avaliação sobre a regularidade da transação.
A mesma superintendência que liberou o negócio apontou indícios de que a operação pode ter sido estruturada de forma a antecipar efeitos econômicos antes do aval regulatório. Essa hipótese, se confirmada, pode configurar gun jumping.
No Brasil, operações sujeitas ao Cade precisam aguardar a aprovação do órgão antes de serem consumadas. A regra busca impedir que empresas passem a atuar de forma integrada, troquem informações sensíveis ou executem decisões conjuntas antes da análise concorrencial.
No caso da Kovr, o Cade avalia se os atos praticados pelas partes antes da aprovação poderiam caracterizar uma antecipação indevida do negócio. O parecer também menciona a possibilidade de que a estrutura financeira tenha servido para camuflar quem estaria efetivamente vendendo a empresa.
Possível triangulação financeira envolve Banco Master
Um dos pontos centrais da suspeita levantada pelo Cade é a possível triangulação financeira. Segundo o parecer citado pela reportagem original, o órgão encontrou sinais de que o dinheiro usado na transação pode ter circulado de forma artificial entre as partes.
A hipótese é que a estrutura teria sido usada para disfarçar quem, na prática, estava vendendo a Kovr. As suspeitas envolvem o Banco Master, instituição que controlava a seguradora antes de ela chegar às mãos do PicPay.
A Kovr fazia parte do conglomerado do Banco Master e atuava como seguradora, resseguradora e administradora de previdência complementar aberta. Em julho de 2025, a empresa foi vendida por Master Serviços e Alliance Participações a Thiago Coelho Leão de Moura, Eduardo Viegas Silva e à Rrennó Participações, ligados à administração ou ao quadro minoritário da própria companhia.
Em setembro do mesmo ano, esses compradores venderam a totalidade do capital da Kovr ao PicPay. Segundo o Cade, na mesma data em que foi assinado o contrato de venda ao PicPay, instrumentos financeiros teriam sido emitidos em favor de dois vendedores para viabilizar o pagamento da compra intermediária. O Banco Original teria feito operação semelhante em favor do terceiro vendedor.
Operação intermediária está no centro da apuração
A sequência de transações é um dos elementos que levou o Cade a manter o caso sob escrutínio. Primeiro, a Kovr deixou o conglomerado do Banco Master e foi transferida a executivos minoritários e a uma holding ligada ao grupo comprador. Depois, em intervalo curto, foi revendida ao PicPay.
Esse desenho levantou dúvidas sobre a natureza da operação intermediária. A questão central é saber se a primeira venda representou uma transação autônoma e efetiva ou se teria funcionado como uma ponte para a aquisição final pelo PicPay.
Em casos de fusões e aquisições, a estrutura societária e financeira é decisiva para determinar responsabilidades, obrigações regulatórias e eventuais riscos legais. Quando uma operação envolve múltiplas etapas, financiamentos cruzados e partes ligadas, reguladores tendem a observar com mais atenção os fluxos de recursos e os beneficiários finais.
O Cade, segundo o parecer, viu indícios suficientes para aprovar a operação sob a ótica antitruste, mas encaminhar os elementos a outras autoridades competentes. A apuração sobre eventuais irregularidades não equivale a condenação, e os envolvidos têm direito à defesa.
PicPay avança em seguros com aquisição da Kovr
Para o PicPay, a aquisição da Kovr representa uma ampliação relevante de seu ecossistema financeiro. A operação permite ao banco digital expandir sua atuação para seguros, previdência e capitalização, segmentos que podem complementar sua base de clientes e diversificar receitas.
O PicPay, controlado pela família Batista, já havia protocolado o pedido de compra no Cade. Em março, informações de mercado indicavam que o banco digital buscava incorporar a seguradora como parte de uma estratégia de crescimento em produtos financeiros além da conta digital, cartões, crédito e pagamentos.
A compra também envolve a Estrutural, corretora de seguros. Segundo informações apresentadas no pedido ao Cade, a aquisição permitiria ao grupo entrar no segmento de corretagem de seguros e incorporar a oferta ao seu conjunto de atividades financeiras.
O movimento é coerente com a estratégia de bancos digitais de ampliar receitas por meio de produtos de maior margem e maior recorrência. Seguros, previdência e capitalização podem funcionar como instrumentos de monetização da base de clientes, desde que integrados de forma eficiente à plataforma.
Kovr era ativo relevante do conglomerado Master
A Kovr era um dos ativos associados ao conglomerado do Banco Master antes da transação. A instituição passou por processo de liquidação, e ativos ligados ao grupo se tornaram alvo de atenção de reguladores, credores e participantes do mercado.
A seguradora foi originalmente vendida a executivos que já atuavam ou tinham participação minoritária na companhia. Esse tipo de operação, conhecida como management buyout, pode ocorrer quando administradores ou sócios internos compram o controle de uma empresa. No caso da Kovr, contudo, a posterior venda ao PicPay em intervalo curto foi um dos fatores que despertou questionamentos.
Segundo reportagem anterior do Metrópoles, documentos ligados ao processo de entrada do PicPay na Nasdaq já mencionavam a negociação e indicavam que parte do caixa do IPO seria usada para quitar a aquisição da Kovr. A transação teria valor de R$ 657,6 milhões.
Esses elementos reforçam a necessidade de análise sobre a cronologia dos atos, os compromissos assumidos pelas partes e a eventual existência de alinhamento prévio antes da autorização regulatória.
Caso pode envolver outras autoridades
O Cade deve acionar outras autoridades para apurar os indícios apontados no parecer. A depender da avaliação, o caso pode passar a envolver órgãos com competência sobre crimes financeiros, mercado segurador e sistema financeiro nacional.
Além do Cade, operações envolvendo seguradoras podem depender de análise da Superintendência de Seguros Privados (Susep), autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda. No caso de estruturas financeiras complexas, o Banco Central também pode ser relevante quando há conexão com instituições financeiras ou conglomerados supervisionados.
A atuação coordenada entre órgãos reguladores é comum quando uma operação envolve aspectos concorrenciais, prudenciais, societários e criminais. O Cade avalia concentração econômica e condutas anticompetitivas, mas eventuais suspeitas de irregularidade financeira podem exigir apuração por outras autoridades.
Até o momento, a aprovação concorrencial não elimina a possibilidade de investigações posteriores. O aval do Cade indica apenas que, sob o ângulo antitruste, a operação foi liberada.
Gun jumping pode gerar sanções
A suspeita de gun jumping é um ponto sensível do caso. A prática ocorre quando empresas consumam ou integram uma operação antes da aprovação do Cade, seja por meio de transferência de controle, troca de informações competitivamente sensíveis, influência sobre decisões comerciais ou execução antecipada de atos típicos de integração.
A Lei 12.529/2011 prevê que operações de concentração econômica submetidas ao Cade não podem ser consumadas antes da aprovação final. O descumprimento pode gerar multas, revisão de atos e outras medidas administrativas.
No caso da Kovr, o Cade ainda não concluiu que houve gun jumping. O órgão apontou indícios e decidiu encaminhar o tema para apuração. A distinção é importante: a existência de suspeitas não significa condenação das empresas ou pessoas envolvidas.
O processo, portanto, entra em nova fase de escrutínio. As autoridades deverão avaliar documentos, fluxos financeiros, contratos, datas de assinatura, condições suspensivas e eventuais atos praticados antes da autorização formal.
Investigação amplia pressão sobre governança de operações financeiras
A aprovação da compra da Kovr pelo PicPay com ressalvas aumenta a pressão por transparência em operações envolvendo instituições financeiras, seguradoras e ativos ligados a conglomerados em situação de estresse.
O caso combina elementos sensíveis para o mercado: aquisição por banco digital em expansão, ativo que pertenceu ao Banco Master, suspeita de triangulação financeira, possível gun jumping e necessidade de comunicação a outras autoridades. Essa combinação tende a manter a operação no radar de reguladores e investidores.
Para o PicPay, o principal desafio será avançar na integração estratégica da Kovr sem que as apurações sobre a estrutura anterior contaminem a percepção sobre governança. Para os demais envolvidos, a prioridade será esclarecer a origem dos recursos, a sequência das transações e a lógica econômica do negócio.
O desfecho dependerá das próximas manifestações dos reguladores e dos documentos que venham a ser analisados. Até lá, a compra da Kovr pelo PicPay segue aprovada sob a ótica concorrencial, mas cercada por questionamentos sobre a forma como a operação foi estruturada.








