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Ciro Nogueira diz que vai reapresentar Emenda Master para ampliar cobertura do FGC

Senador afirma que proposta busca corrigir valor defasado do Fundo Garantidor de Créditos; PF investiga se texto teria favorecido o Banco Master

por Júlia Campos
13/05/2026 às 15h17
em Política
Ciro Nogueira Diz Que Vai Reapresentar Emenda Master Para Ampliar Cobertura Do Fgc - Gazeta Mercantil

O senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do Progressistas, afirmou que pretende reapresentar a proposta que amplia o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), iniciativa que passou a ser conhecida como Emenda Master devido à investigação sobre sua possível relação com interesses do Banco Master.

A declaração foi feita na terça-feira, 12 de maio, em vídeo publicado nas redes sociais, poucos dias depois de a Polícia Federal cumprir mandado de busca e apreensão contra o parlamentar no âmbito da Operação Compliance Zero.

Leia também: Empresários brasileiros tentam ampliar isenções ao tarifaço de Trump em reuniões nos EUA.

A proposta original, apresentada em 2024, previa elevar de R$ 250 mil para até R$ 1 milhão o limite de proteção oferecido pelo FGC a depositantes e investidores. Segundo a investigação, uma ampliação dessa magnitude poderia ter favorecido o modelo de captação do Banco Master, então controlado por Daniel Vorcaro.

Ciro rejeita essa interpretação. O senador afirma que o limite do fundo está defasado e que a atualização seria necessária independentemente da situação do Banco Master.

“Tomei a decisão de reapresentar a emenda corrigindo o valor do FGC, que pela Selic teria que estar acima de R$ 840 mil. Agora não existe mais Banco Master, eu quero ver qual a desculpa que os grandes bancos vão utilizar para negar proteção aos correntistas”, declarou.

O parlamentar também afirmou que mantém sua pré-candidatura à reeleição para o Senado em outubro, apesar do avanço das investigações que o envolvem no caso Master.

Ciro defende atualização da garantia do FGC

O Fundo Garantidor de Créditos é uma entidade privada mantida pelas instituições financeiras associadas e destinada a proteger clientes em determinadas situações de intervenção ou liquidação de bancos.

Entre os produtos abrangidos pela garantia estão depósitos à vista e de poupança, além de instrumentos como CDBs, LCIs, LCAs e letras de câmbio, observados os limites e requisitos estabelecidos pelo próprio fundo.

O limite ordinário atualmente é de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira ou conglomerado, além do teto global previsto nas regras do FGC. A proposta defendida por Ciro levaria essa cobertura a até R$ 1 milhão.

Na manifestação divulgada nesta semana, o senador enfatizou que o fundo não é financiado pelo Tesouro Nacional e que os recursos são provenientes das próprias instituições participantes.

“Este fundo é completamente privado. Quem financia o fundo são os bancos, não é a União, não tem recursos públicos. Até hoje ninguém veio a público explicar por que esse valor não é corrigido há 13 longos anos, sendo que isso só beneficia os grandes bancos”, afirmou.

A estratégia de defesa de Ciro consiste em apresentar a proposta como uma medida de proteção ao correntista e ao investidor, separando o mérito econômico da alteração das suspeitas investigadas pela Polícia Federal.

É justamente essa separação que se tornou um dos pontos centrais do caso.

PF apura se proposta poderia beneficiar Banco Master

A Operação Compliance Zero investiga suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e outras irregularidades relacionadas ao Banco Master.

A apuração chegou ao senador em nova fase deflagrada neste mês, com autorização do Supremo Tribunal Federal. Na semana passada, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão contra Ciro Nogueira como parte do aprofundamento da investigação sobre a instituição financeira liquidada.

Uma das hipóteses investigadas é justamente se a ampliação da cobertura do FGC poderia favorecer o modelo de negócios do Banco Master.

A instituição utilizava instrumentos protegidos pelo fundo como parte de sua estratégia de captação. Em tese, elevar o limite de garantia poderia tornar esses produtos ainda mais atraentes a investidores, sobretudo quando emitidos por bancos percebidos como mais arriscados.

A discussão é particularmente importante porque a existência da cobertura do FGC pode alterar a percepção de risco do poupador. Se um investimento estiver integralmente protegido dentro do limite permitido, o cliente pode dar menor peso à saúde financeira da instituição emissora e maior importância à remuneração oferecida.

É esse efeito econômico que colocou a chamada Emenda Master no centro da investigação.

Empresa ligada a Ciro também está sob investigação

Outra frente da apuração envolve a CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa da qual Ciro Nogueira é sócio.

Segundo as informações reunidas pela investigação e descritas no material disponível até esta quarta-feira, a Polícia Federal apura se a companhia teria sido utilizada para realizar repasses que poderiam configurar vantagens financeiras ao senador em troca de atuação política favorável aos interesses de Daniel Vorcaro.

Os pagamentos investigados poderiam chegar a R$ 500 mil por mês, conforme os elementos mencionados na apuração.

Ciro nega ter recebido recursos ilícitos e afirma não ter cometido irregularidades.

Como a investigação continua em andamento, não há conclusão definitiva sobre a origem ou finalidade dos valores examinados nem sobre eventual responsabilidade penal do senador.

Senador nega influência de Daniel Vorcaro

Ciro também rejeitou a suspeita de que a proposta de ampliação do FGC tenha sido apresentada para atender especificamente aos interesses de Daniel Vorcaro ou do Banco Master.

Sua argumentação pública é que o limite de R$ 250 mil precisa ser atualizado e que a necessidade de ampliar a proteção permanece mesmo depois da liquidação da instituição financeira.

A decisão de reapresentar a proposta tem, portanto, um componente político importante: Ciro pretende demonstrar que continua defendendo a mudança mesmo sem a existência do Banco Master como beneficiário potencial.

Para os investigadores, porém, a questão central é outra.

A Polícia Federal procura saber quais circunstâncias cercaram a apresentação original da emenda, quais contatos ocorreram naquele período e se existia alguma contrapartida relacionada à atuação legislativa do parlamentar.

São questões distintas. Uma proposta pode ser tecnicamente defensável e, ao mesmo tempo, a motivação específica de determinado agente político pode ser objeto de investigação.

Até esta quarta-feira, não há decisão judicial definitiva estabelecendo que Ciro tenha apresentado a emenda em troca de vantagens indevidas.

Ciro atribui operação ao ambiente eleitoral

Além de rebater diretamente as suspeitas, Ciro Nogueira passou a questionar publicamente a motivação da Operação Compliance Zero.

O parlamentar afirmou ter estranhado o fato de um líder da oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ser atingido pela investigação justamente em um ano de eleições gerais.

“Tem uma coisa que me causou muita estranheza: por que começar essa operação por um líder da oposição? Essas coisas não surgem por acaso, acontecem porque estamos em ano eleitoral. As questões técnicas e provas estão em segundo plano para eles”, declarou.

A afirmação representa a interpretação política do senador sobre o episódio e não uma conclusão comprovada sobre a atuação da Polícia Federal.

Ciro também voltou a negar qualquer recebimento ilícito e afirmou que os valores atribuídos pela investigação às empresas de sua família corresponderiam a uma pequena parcela do faturamento dessas companhias.

“Sobre as acusações de que estou sendo vítima, eu posso garantir: nunca recebi qualquer valor ilícito ou cometi qualquer irregularidade que seja neste caso, ou em qualquer outro”, afirmou.

A Polícia Federal conduz as diligências mediante autorização judicial. Caberá à investigação reunir elementos suficientes para sustentar eventual indiciamento ou, em sentido contrário, afastar as suspeitas.

Troca de advogados ocorre em meio ao avanço da investigação

A reação pública do senador ocorre poucos dias depois de uma mudança em sua estratégia jurídica.

Na segunda-feira, 11 de maio, Ciro Nogueira trocou a equipe responsável por sua defesa no caso Master.

O escritório que deixou a representação informou que a saída ocorreu “em comum acordo”, mas não apresentou detalhes adicionais sobre as razões da mudança.

Alterações desse tipo podem ocorrer em investigações complexas quando o caso entra em uma nova etapa, principalmente depois de medidas como buscas e apreensões, quebra de sigilos ou inclusão de novas linhas de investigação.

A defesa de Ciro precisará enfrentar diferentes frentes: os vínculos empresariais investigados, sua relação com Daniel Vorcaro, a origem dos recursos sob análise e a possível conexão entre a Emenda Master e os interesses do Banco Master.

Paralelamente à estratégia jurídica, o senador adotou uma ofensiva política.

Ao anunciar que pretende reapresentar a proposta, Ciro transfere parte do debate para o mérito da ampliação da garantia e coloca bancos, parlamentares e autoridades financeiras diante de uma questão concreta: o limite do FGC deve ou não ser aumentado?

Ciro relembra caso Odebrecht arquivado

No vídeo divulgado nesta semana, o senador também recorreu ao próprio histórico para contestar as acusações atuais.

Ciro mencionou uma operação da Polícia Federal realizada em 2018, durante o período eleitoral, e uma investigação relacionada à Odebrecht na qual a Procuradoria-Geral da República o acusou de receber R$ 7,3 milhões em propina.

O processo acabou arquivado pelo Supremo Tribunal Federal após mudanças no entendimento jurídico relacionado ao uso de provas provenientes do acordo de leniência da empreiteira.

Ciro utilizou o episódio para sustentar a tese de que já enfrentou anteriormente acusações que não resultaram em responsabilização.

“A investigação correu, quebraram sigilos, buscaram provas e a conclusão do inquérito foi essa. A PGR não viu elementos suficientes para sustentar a acusação”, afirmou.

A comparação, porém, possui limitações. O caso envolvendo o Banco Master tem fatos, provas, personagens e objeto diferentes, e terá de ser avaliado de maneira independente pelas autoridades.

Aumento da cobertura reacende debate sobre risco moral

A controvérsia envolvendo Ciro ocorre paralelamente a um debate econômico relevante sobre o próprio desenho do Fundo Garantidor de Créditos.

Aumentar a cobertura de R$ 250 mil para valores próximos de R$ 1 milhão ampliaria a proteção oferecida a depositantes e investidores em caso de quebra de uma instituição participante.

O efeito positivo é intuitivo: uma parcela maior do patrimônio financeiro ficaria protegida.

Existe, no entanto, uma consequência potencial menos evidente.

Quanto maior a proteção oferecida ao investidor, menor pode ser o incentivo para avaliar a qualidade de crédito do banco no qual o dinheiro está aplicado. Esse fenômeno é associado ao conceito de risco moral.

Um banco de menor solidez financeira poderia, por exemplo, oferecer taxas significativamente superiores às praticadas pelos concorrentes para captar dinheiro. Caso o investidor considere que praticamente todo o capital estará protegido pelo fundo, poderá escolher a maior remuneração sem incorporar adequadamente o risco da instituição.

Esse ponto é particularmente sensível na discussão sobre o Banco Master, justamente porque seu modelo de captação com produtos garantidos pelo FGC passou a ser examinado pelas autoridades.

Mudança também pode alterar competição entre bancos

A discussão não envolve apenas proteção individual ao investidor.

Uma elevação significativa da garantia pode alterar a dinâmica competitiva do sistema financeiro.

Instituições menores podem considerar a mudança positiva porque uma cobertura maior reduz parte da vantagem de confiança desfrutada pelos maiores bancos. Com mais dinheiro protegido, clientes poderiam se sentir confortáveis para transferir recursos para instituições menores em busca de rentabilidade superior.

Grandes bancos, por outro lado, podem argumentar que uma ampliação excessiva da garantia aumenta riscos para o próprio fundo e reduz a disciplina de mercado.

Na prática, o debate envolve um equilíbrio entre proteção ao depositante, competição bancária e incentivo à correta avaliação de risco.

Isso explica por que uma eventual reapresentação da proposta tende a atrair atenção não apenas de parlamentares, mas também de bancos e autoridades financeiras.

Emenda deve chegar ao Congresso sob pressão do caso Master

Caso Ciro Nogueira efetivamente reapresente a proposta, o debate ocorrerá em ambiente muito diferente daquele existente quando a primeira versão foi apresentada, em 2024.

Agora, a chamada Emenda Master está diretamente associada à Operação Compliance Zero e à investigação sobre a relação do senador com Daniel Vorcaro.

Cada etapa da tramitação deverá, portanto, ser analisada também sob essa perspectiva política.

Para Ciro, insistir na medida serve como argumento de que a proposta possui mérito próprio e não dependia da existência do Banco Master.

Para a Polícia Federal, o foco continuará sendo reconstruir as circunstâncias da iniciativa original e verificar se houve alguma vantagem indevida relacionada à atuação do senador.

Caso ganha peso adicional a cinco meses das eleições

A dimensão eleitoral tende a aumentar a repercussão do episódio.

Ciro Nogueira confirmou que pretende disputar novamente uma cadeira no Senado e passou a associar a investigação ao calendário político de 2026.

A estratégia deve fazer com que o caso Banco Master ultrapasse o campo jurídico e financeiro e seja incorporado ao confronto eleitoral nos próximos meses.

Adversários políticos poderão explorar a investigação e a relação atribuída pela PF entre o parlamentar, Daniel Vorcaro e a chamada Emenda Master. Ciro, por sua vez, tende a insistir na tese de que sofre uma investigação politicamente influenciada e de que a proposta representa uma defesa dos correntistas contra interesses dos grandes bancos.

No campo econômico, entretanto, a questão permanece essencialmente técnica.

Aumentar a cobertura do FGC pode ampliar a segurança de investidores, mas também modificar incentivos no sistema financeiro, alterar a competição entre instituições e aumentar a exposição potencial do fundo em futuras liquidações.

A eventual reapresentação da proposta coloca esses dois debates — o financeiro e o político — no mesmo projeto.

Em plena investigação sobre o Banco Master e a menos de cinco meses das eleições de outubro, a discussão sobre o FGC deixa de ser apenas uma questão sobre proteção bancária e passa a ocupar também o centro da disputa em torno de Ciro Nogueira e das consequências políticas da Operação Compliance Zero.

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