Conclave 2025: Angelo Becciu desiste da disputa e evita crise diplomática no Vaticano
Cardeal italiano abre mão do direito de voto por “respeito ao Papa Francisco” e encerra polêmica que poderia abalar a unidade da Igreja Católica
Com a morte do Papa Francisco no último dia 21 de abril, a atenção mundial volta-se para o Conclave 2025, processo no qual os cardeais eleitores se reúnem para escolher o novo líder da Igreja Católica. Em meio às articulações e discussões que precedem a votação, uma decisão importante ganhou os holofotes: o cardeal italiano Angelo Becciu renunciou oficialmente à sua intenção de participar do conclave, em respeito à vontade expressa do falecido pontífice.
Becciu recua e evita desgaste à imagem da Igreja
A expectativa de que Angelo Becciu participasse do Conclave 2025 causava desconforto entre os integrantes da Santa Sé. Condenado em 2023 por envolvimento em uma fraude imobiliária enquanto ocupava altos cargos no Vaticano, Becciu era uma figura controversa. Apesar de reiterar sua inocência e ter renunciado ao cargo durante o julgamento, o seu retorno ao centro das decisões da Igreja era visto como um fator de instabilidade.
Becciu surpreendeu ao anunciar, em comunicado divulgado no dia 29 de abril, que não mais participará do conclave que terá início em 7 de maio. Ele justificou sua decisão como uma forma de preservar a unidade e o bem-estar da Igreja:
“Tendo no coração o bem da Igreja, que servi e continuarei a servir com fidelidade e amor, e a fim de contribuir para a comunhão e a serenidade do conclave, decidi obedecer, como sempre fiz, à vontade do papa Francisco de não entrar no conclave.”
A atitude foi considerada um gesto de respeito e fidelidade à memória do papa falecido, além de uma forma de evitar uma crise diplomática dentro do Vaticano, que já enfrentava pressão midiática e interna com a possível presença de Becciu entre os eleitores.
Conclave 2025: o processo de escolha do novo papa
O conclave é o processo formal, sigiloso e solene por meio do qual os cardeais da Igreja Católica se reúnem na Capela Sistina para eleger o novo papa. em 2025, 135 cardeais são considerados eleitores válidos, sendo que 108 foram nomeados por Francisco ao longo de seu pontificado, o que indica um forte alinhamento com a linha reformista e progressista que o papa defendeu durante mais de uma década.
A missa “pro eligendo Pontifice” marcará o início do conclave, na manhã do dia 7 de maio (madrugada no horário de Brasília), sendo conduzida pelo cardeal Giovanni Battista Re, decano do Colégio Cardinalício. Apesar de presidir a celebração, Re, que tem 91 anos, não poderá votar por ultrapassar o limite de idade previsto no regulamento canônico.
Parolin desponta como favorito
Entre os principais nomes cogitados para assumir o papado, destaca-se o do cardeal Pietro Parolin, atual secretário de Estado do Vaticano. Considerado moderado, diplomático e hábil negociador, Parolin goza de prestígio tanto dentro quanto fora do Vaticano. Casas de apostas e analistas apontam-no como um dos favoritos a conduzir os destinos da Igreja após a morte de Francisco.
Parolin tem sido uma figura-chave nos bastidores da Igreja, inclusive na mediação de conflitos internacionais e na condução das relações diplomáticas com regimes delicados, como o da China. Seu nome agrada tanto aos cardeais europeus quanto aos latino-americanos e africanos, o que pode ser decisivo no cenário atual.
A renúncia de Becciu e a influência de Francisco até após a morte
A influência de Francisco sobre o Conclave 2025 é evidente, não apenas pela escolha de grande parte dos cardeais eleitores, mas também pelo respeito que sua vontade ainda impõe. A recusa de Becciu em desafiar a decisão do falecido papa é prova de que seu legado permanece ativo.
A participação de Becciu havia sido motivo de discussões internas nas congregações gerais, as reuniões preliminares realizadas pelo Colégio Cardinalício para organizar o conclave e discutir temas essenciais da Igreja. A quinta congregação geral, realizada em 29 de abril, chegou a abordar o tema, mas sem decisão formal. A renúncia voluntária do cardeal, portanto, poupou o Vaticano de uma decisão disciplinar que poderia gerar divisões.
Uma decisão estratégica e diplomática
Embora Becciu tenha declarado em entrevistas que pretendia exercer seu direito como cardeal eleitor, sua mudança de postura evitou que o conclave se iniciasse sob o peso de uma controvérsia pública. A assessoria do Vaticano manteve postura discreta, mas o momento e o teor do comunicado de Becciu indicam que houve articulação diplomática para encerrar o impasse.
A decisão também preserva a imagem da Igreja diante da comunidade católica global, que acompanha com expectativa a escolha do novo papa. O Vaticano, ao evitar uma crise de imagem às vésperas de um momento tão crucial, demonstra maturidade e capacidade de autogestão institucional.
O papel das congregações gerais no Conclave 2025
Desde a morte de Francisco, os cardeais têm se reunido em congregações gerais, que funcionam como sessões preparatórias para o conclave. Nessas reuniões, são discutidos não apenas os aspectos logísticos e protocolares do processo, mas também temas pastorais, desafios atuais da Igreja e perfis desejáveis para o novo pontífice.
As congregações também são o momento em que os cardeais se conhecem melhor, trocam impressões e começam a desenhar alianças ou consensos em torno de determinados nomes. A saída de Becciu dessas discussões elimina um ponto de atrito e permite maior fluidez nos diálogos.
Capela Sistina em preparação
A Capela Sistina, tradicional palco do conclave, já está em fase de preparação. As visitas turísticas foram suspensas e técnicos trabalham para adaptar o espaço ao sigilo absoluto exigido pelo processo. Entre as adaptações estão a instalação de dispositivos que bloqueiam sinais eletrônicos, sistemas de segurança reforçados e a preparação das urnas e cédulas.
O que esperar do próximo papa
A Igreja Católica enfrenta hoje desafios complexos: perda de fiéis na Europa, avanço de movimentos conservadores, escândalos financeiros e sexuais, além da necessidade de diálogo com outras religiões e com a ciência. O novo papa terá a missão de conduzir a Igreja num cenário global em transformação, com forte pressão por reformas, transparência e inclusão.
A expectativa é que o sucessor de Francisco mantenha os pilares da renovação pastoral iniciada por ele, ao mesmo tempo em que estabeleça um equilíbrio com os setores mais tradicionais do Vaticano. A composição do Colégio Cardinalício sugere que esse equilíbrio poderá ser alcançado, com um papa que una carisma, experiência diplomática e compromisso com os valores evangélicos.
O Conclave 2025 já entra para a história antes mesmo de seu início oficial, graças à desistência de um cardeal controverso e à sólida influência do papa Francisco, mesmo após sua morte. O processo que se inicia no dia 7 de maio promete ser um dos mais observados das últimas décadas, tanto pela mídia quanto pelos fiéis, que esperam por uma liderança firme, renovadora e espiritual.






